Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

domenica 21 dicembre 2014

Natal: pôr casa no meio da humanidade

No último domingo antes do Natal, a Palavra de Deus apresentou-nos um contraste.
O rei Davi decide de construir uma casa para seu Senhor. Ele imagina um templo deslumbrante, sinal da autoridade de Deus e do rei, na capital do poder religioso e político, Jerusalém (seu sucessor, Salomão, poucos anos depois irá concretizar esse projeto). A reação do Deus de Abraão, Isaque e Jacó é forte: quem é você para construir uma casa para mim?

No Evangelho, o projeto inverte-se: é Deus que pede permissão a uma moça da periferia galileia para “pôr a sua casa” no coração da humanidade, através dela.

Se olhar para trás, nesse intenso ano de caminhada missionária no norte do Brasil, vejo esses dois extremos em nossa vida comboniana.

Em muitas situações estamos nos comprometendo para “construir uma casa” ao Senhor e às pessoas. O projeto de reassentamento do bairro de Piquiá de Baixo, em fuga da poluição, continua intensamente, mesmo se com passos bem mais lentos que a vida fugindo rapidamente das mãos de quem mora ao lado das siderúrgicas. Há sete anos estamos mergulhando num projeto complexo, prolongado e de extrema responsabilidade.

Muito de nosso compromisso missionário tenta combater as causas estruturais da violência profunda sofrida em nossos territórios. Os frutos são o desmatamento, o trabalho escravo, o saque dos bens comuns, o êxodo rural e a perda do patrimônio cultural das populações indígenas, dos descendentes afro, dos trabalhadores do campo... As sementes são a imposição dos grandes projetos de exportação das matérias primas ou a fome de energia produzida a baixo custo para os interesses do capital industrial, às custas das populações locais. Ou, ainda, o modelo de consumo que está hipnotizando nossas comunidades, provocando violência, desejo e competição.

Para trabalhar à raiz esses desafios e aradar o duro terreno de uma estrutura social e econômica profundamente injusta, nos dedicamos muito, nesse ano, a outros projetos de amplo respiro: a rede Justiça nos Trilhos cresce em sua organização e, ao mesmo tempo, em sua capacidade de se aproximar às comunidades mais prejudicadas pela duplicação do imenso sistema de extração e exportação do minério de ferro.

Em paralelo, nasceu durante esse ano a Red Eclesial Panamazonica, um tecido de dioceses, organismos eclesiais e pastorais sociais que pretendem reorganizar, articular e potencializar o compromisso da igreja em defesa da vida e dos territórios amazônicos. Nós combonianos temos a honra e a responsabilidade de participar desse processo desde o começo.

Além disso, um longo processo ‘de base’ desembocou, em dezembro, no segundo encontro “Iglesias y Minería”. Reuniram-se quase cem coordenadores leigos e religiosos/as comprometidos em América Latina para enfrentar as graves violações provocadas pela indústria mineira no continente inteiro. Definimos as linhas de trabalho e articulação para os próximos dois anos, tentando incidir cada vez mais na linha pastoral de nossos bispos e suas conferências episcopais. 
A igreja deve manter-se fiel a sua posição profética em defesa da vida, com a coragem de denunciar o absurdo de um sistema que maximiza o lucro e destrói as culturas, as comunidades, o meio ambiente e as perspectivas de futuro.

Enfim, estamos construindo muitas “casas” que esperamos sejam apreciadas pelo Senhor e nas quais desejamos muito que ele venha habitar. Também os combonianos no Brasil têm unificado, há pouco, suas duas províncias e agora são um grupo de mais de oitenta missionários presentes em diversos territórios, com muitos desafios diferentes para enfrentar e com a necessidade de definir um projeto comum eficaz e profético.
Vem, Senhor Jesus: vem inspirar com seu Espírito todos esses espaços em que, sinceramente e sem as pretensões do rei Salomão, esperamos que o Senhor “se sinta em casa”!

Mas a Palavra nos provoca: não é ainda esse o coração da missão. Não faz sentido construir espaços em que “justiça e paz se abraçarão”, se não dedicamos tempo e atenção às sementes de vida que o próprio Deus, antes de nós, cultiva nas pequenas coisas de cada dia.

Esse ano me provocou muito, nesse sentido.
As responsabilidades e as diversas necessidades me afastam cada vez mais da vida cotidiana da comunidade missionária de Piquiá. 
Devo agradecer, então, o testemunho silencioso e fiel de pe. Ângelo, a teimosia de ir. Antônio no enfrentamento cotidiano das contradições de nossa cidade, a imersão rápida e atenta às pessoas do recém-chegado pe. Massimo, a dedicação pastoral e o testemunho de família de Valentina e Marco (que escolheram dar à luz aqui a nova vida que conceberam!), a competência e amizade de João Carlos e Dida, o outro casal de missionários leigos em Açailândia, o companheirismo de Danilo, advogado popular que há quase cinco anos trabalha junto conosco.

O espírito de família comboniana, que une religiosos, leigos e leigas, como Comboni já fazia 150 anos atrás, é talvez um dos pequenos espaços em que o próprio Deus pede permissão para nascer.
Outros desses espaços fecundos são os encontros cotidianos, o trabalho comunitário junto às famílias das diversas comunidades, o acompanhamento silencioso e impotente de uma nossa liderança doente terminal... Enfim: o Deus das pequenas coisas, que nesse ano bateu à minha porta “aparando-me e podando-me” para não esquecer que, mais de todas as estruturas, importam a humanidade, o respeito e amizade.

“O Senhor te anuncia que fará uma casa para ti”, diz o profeta ao rei Davi. Creio que essa seja a síntese: sentirmo-nos em casa com o Deus da Vida e com amigos/as a caminho conosco.
Seja comprometidos em grandes projetos ou contemplando o Deus das pequenas coisas, nossa vocação missionária é feliz porque nos sentimos em casa e porque estamos cuidando da casa das relações entre nós e com a criação inteira.


Que nesse Natal o próprio Deus se sinta em casa com cada um/a de nós, sinceramente comprometidos/as para que tudo tenha vida, e vida em abundância.

domenica 28 settembre 2014

Apoiando a luta quilombola

Trinta e cinco comunidades quilombolas, na região de Itapecuru Mirim (MA), levantaram a voz.
De forma organizada, nãoviolenta, firme, com a pujança dos tambores e o vínculo da raça.
Reivindicam o reconhecimento e a titulação de suas terras, frente à indiferença e à burocracia dos órgãos públicos e contra os grandes projetos extrativistas que invadiram suas vidas.

Mais de trezentas pessoas ocuparam por cinco longos dias a Estrada de Ferro Carajás, em concessão à mineradora Vale que escoa por ela 300 mil toneladas de minério de ferro por dia, através de terras quilombolas, indígenas e dos agricultores familiares.
Alguns quilombolas amarraram-se aos trilhos e entraram em greve de fome, até as comunidades serem recebidas por autoridades federais, “porque estamos cansados das promessas vazias e nunca cumpridas pelo INCRA do Maranhão”.
Escreveram, ao longo dos trilhos, “Nem mineração, nem agronegócio: terra para a vida”.

Denunciam “um processo de extermínio” contra as comunidades negras do estado, seja por causa de vários assassinatos de lideranças, como por despejos, invasões de suas terras ou grandes projetos de investimento sem que haja consulta prévia, livre e informada dos moradores nos territórios.

No quinto dia, os manifestantes conseguiram o primeiro objetivo de sua ainda longa luta: representantes da Secretaria Especial da Presidência e do INCRA de Brasília foram negociar com eles, debaixo das mangueiras de Santa Rosa dos Pretos, terra consagrada pela resistência quilombola.

A rede Justiça nos Trilhos, da qual os missionários combonianos são membros fundadores, esteve ao lado das comunidades quilombolas o tempo todo e continuará acompanhando suas reivindicações (maiores informações aqui).

O terreiro de Santa Rosa vibra pelo orgulho negro que mais uma vez mostra sua força e organização. As mulheres quilombolas lembram as profetizas da história do Êxodo, que pegaram os tambores “formando coros de dança” e proclamando “Javé é minha força e meu canto, ele atirou no mar carros e cavalos”.

No encontro das crenças, na noite de São Cosme e Damião, se reafirmam a vida e a autoridade dos pobres que exigem justiça. 


(fotos: Marcelo Cruz)

domenica 9 marzo 2014

A força da Verdade

As histórias que a gente lê nos mantêm informados, e isso é justo.
Mas quando uma história começa a se tornar familiar, a gente cria como uma amizade com seus protagonistas, um vínculo que supera a informação fria, e isso é humano.

Hoje voltamos a falar do povo de Piquiá de Baixo. Já devem ter ouvido muito sobre essa pequena comunidade da pré-Amazônia maranhense, vítima há três décadas da poluição siderúrgica e dos projetos devastadores da empresa Vale.

Há seis anos Piquiá luta para fugir da poluição e passo a passo avança no lento e progressivo êxodo rumo ao reassentamento. No xadrez dessa longa batalha, a Associação de Moradores está aprendendo estratégias e experimentando ações para desbloquear a indiferença e a hipocrisia dos poderes públicos e privados que enfrenta.

No final de fevereiro, chegou de novo o momento de levantar a voz. Vários prazos e acordos assinados e nunca respeitados venciam naqueles dias. Precisava mudar de marcha, depois de meses de negociações, diplomacia, pressões políticas, campanhas midiáticas, denúncias e manifestações de solidariedade em nível nacional e internacional.

Precisava de algo mais forte e permanente. A Associação tinha se reunido várias vezes, semanas antes, para decidir o que e como fazer. O desafio era vencer o medo de enfrentar os poderosos, mas ainda mais superar com entusiasmo e paixão a desilusão dos pobres.
As empresas dia e noite vomitam gás, pó e barulho em cima do povo, aliadas e protegidas pelos poderes públicos. Essa situação ainda não se resolveu também por causa da resignação dos pequenos, que não têm energias para resistir muito tempo. Quando faltam sinais de vitória e de futuro, eles abaixam a cabeça, ou fogem em busca de uma outra vida.

Precisava de algo que ao mesmo tempo despertasse opressores e oprimidos.
Era uma quinta-feira, ao nascer do sol. Um velho carro de som passava pelas ruazinhas adormecidas e empoeiradas de Piquiá de Baixo, acordando as pessoas: “Corram, rápido, todo mundo na pracinha do povoado!”.
Das comunidades do interior chegavam alguns reforços, organizados pelo MST e pelo Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais. A diretora da escola liberou os alunos da quarta série e um bom grupo de crianças de uniforme alcançou o círculo de pessoas na praça, que ia engrossando.

Meia hora depois, o grupo era grande o suficiente para a ação não violenta planejada: fechar a entrada das duas maiores empresas siderúrgicas bem em frente ao povoado, sem deixar entrar nem sair os caminhões de minério, carvão ou ferro-gusa.

Por trinta horas as pessoas resistiram, debaixo de uma chuva torrencial, seguida do forte sol maranhense.
Passaram a noite, enfrentaram a pressão da polícia e a arrogância dos gerentes das empresas.
Num momento de cansaço, logo depois do amanhecer do outro dia, seu Florêncio pegou o microfone e com sua voz fraca, interrompida pela tosse constante, leu um trecho do apóstolo Tiago. Fitava os chaminés da empresa, como se estivesse falando com pessoas: “Digo a vocês, ricos: suas riquezas apodreceram; seu ouro e prata está sendo corroído pela ferrugem. Vocês condenaram e mataram o justo e ele não pode vos resistir”.

Poucas horas depois, chegou o presidente do sindicato patronal. Visivelmente nervoso, tinha deixado a capital para alcançar, de avião, os manifestantes. Inicialmente com tom suave e sedutor, declarava que as empresas há tempo eram sensíveis à causa do Piquiá de Baixo e colaboravam com suas necessidades.
Chegou a definir-se “parceiro” da comunidade. Dona Tida não aguentou mais e com firmeza e palavras simples desvendou essa hipocrisia.


A falsidade è a pedra angular da ganância a todo custo, pintado como motor do desenvolvimento de regiões que continuam, porém, entre as mais pobres do País: bolsões de pobreza e lixões da produção industrial sem escrúpulos nem limites, inevitáveis para as firmas vencerem a concorrência e maximizarem o lucro.

Por outro lado, a simplicidade e transparência das pessoas, que agem na verdade, mete medo e pode realmente mover as montanhas. É o Satyagraha de Gandhi: “agarrar-se à verdade”, que de fato nos liberta.

Sabendo da justiça de suas ações, os moradores de Piquiá levantavam a voz e não recuavam nem de um passo. Nenhum desconto às exigências de quem sofre!
Por uma vez, a firmeza do povo venceu: resignado, o sindicado industrial assinou o acordo de pagamento da indenização do terreno para o reassentamento. A terra prometida se aproximava de alguns passos.
Falta ainda muito, porém. Caros amigos/as de Piquiá, permaneçam atentos às vozes das periferias, para que não venham a ser sufocadas.

http://piquiadebaixo.justicanostrilhos.org

domenica 2 febbraio 2014

Repúdio imediato de toda a violência

Nessa noite o Maranhão iluminou-se.
Centenas e centenas de comunidades cristãs, no Estado inteiro, caminharam em silêncio pelas ruas das periferias urbanas ou pelas veredas dos povoados rurais, cada pessoa com uma vela na mão.
Foi uma resposta de fé ao apelo dos bispos do Maranhão contra a violência em Pedrinhas, em todas as cadeias, nas periferias onde o tráfico de drogas tomou controle do território, nas terras indígenas e quilombolas...

Nessa mesma semana, porém, em Açailândia carregaram-se nuvens sombrias.
Quarta-feira passada, conforme relatos de testemunhas, “um grupo de cerca de 30 a 50 mototaxistas  armados com facões, facas e revolveres invadiram, após chutarem a porta de uma residência em uma rua erma, no Residencial Tropical, onde se encontravam três pessoas, que foram imediatamente torturadas com fios de energia e cordas. (...) Valdimar de Araújo Bezerra, 30 anos, foi amarrado e levado na garupa de um dos mototaxista. (...) Era suspeito de ter participado da morte de um mototaxista de Açailândia, Charles Alves Santos, 27 anos, que foi morto com mais de 20 facadas” (conforme o blog Rei dos Bastidores e o jornal O Progresso).

A imprensa, como sempre, noticia esses dramas apresentando imagens sangrentas dos corpos assassinatos, em total desrespeito às vítimas e seus familiares e –de certa forma- proporcionando mais um incentivo à violência. Com o evidente objetivo de “vender” mais, alimenta-se o gosto do sangue e a banalização da vida. Algumas famílias corajosas, que se sentiram lesadas por essas atitudes da mídia, já processaram um jornal de Açailândia. “Fotos de cadáveres, chocantes, decorrentes de mortes brutais, sem qualquer conteúdo jornalístico, gerando afronta ao princípio da dignidade da pessoa humana e o direito de imagem que resguarda a memória dos mortos”, comentou o juiz Antonio dos Santos Machado em sentença preliminar.

O que une a caminhada nãoviolenta organizada pelos bispos do Maranhão às atrocidades repetidas nessas semanas por moradores de Açailândia não é simplesmente um estado de violência, mas uma verdadeira Violência de Estado.  
A omissão, a morosidade ou a total inconsistência do sistema de justiça e de segurança do Estado reforça na população uma sensação de abandono, falta de proteção e ausência de autoridade.
Juntando a isso a fragilidade do sistema de garantias de direitos, a precariedade das condições de vida de uma boa fatia de maranhenses e a péssima situação do sistema público estadual e municipal de educação e serviços sociais, temos todos os ingredientes para a receita da violência institucionalizada.
Esse é o caldo em que, com uma certa facilidade, as pessoas que se sentem provocadas e abandonadas a si mesmas transformam-se em animais descontrolados, sedentos de vingança, querendo justiça somente para si e por si.

Dá para entender uma violência coletiva tão irracional. Mas não para justificá-la.
Dentro de nós temos uma consciência! Somos seres humanos, esquecemo-nos de nossa humanidade?

É urgente que cada pessoa tome uma atitude corajosa e radical e repudie a violência e a vingança.
Precisamos começar pelas atitudes cotidianas: 
- boicotar filmes ou videojogos violentos, que incentivam a morte, as armas e o combate e chamam de herói quem elimina as pessoas indesejadas. Como podemos permitir que nossos filhos bebam de graça essa cultura de sangue?!
- não banalizar a violência nos discursos de cada dia, ter a coragem de repudiar publicamente gestos como esse ou outros linchamentos, não brincar com a dor ou a morte de outras pessoas, não valorizar gestos de vingança;
- educar nossos filhos ao respeito dos mais fracos, ao diálogo e à defesa intransigente da vida;
- assumir nossa fé cristã ao afirmar que repudiamos a pena de morte, as condições desumanas das cadeias, a redução da maior idade penal.

Essa vela que as igrejas carregaram na noite de domingo não seja hipócrita ou símbolo de uma fé que transfere as responsabilidades para Deus ou adia a paz à vida eterna... 
É urgente incendiar nossas consciências com indignação, comprometer-nos pela vida, expulsar o demônio da violência de nossa sociedade!

mercoledì 22 gennaio 2014

Intrusões

Intruso é “quem entra num lugar sem permissão ou anuência, um invasor”.

Em alguns casos, nós missionários fomos na história (e ainda podemos ser) intrusos. Por outro lado, nos territórios em que estamos presentes, procuramos pedir permissão e oferecer nossa vida para quem nos acolher. Nessa convivência, ouvimos as comunidades lamentar outras formas de ‘intrusão’.

Conhecemos ‘na pele’, por exemplo, os conflitos de Humaitá (AM), que estouraram exatamente no dia de Natal tornando públicos os interesses de diversos grupos de poder sobre as Terras Indígenas Tenharim, interessados pela madeira da mata virgem, as perspectivas de garimpos de ouro e diamantes, a lavoura de soja e criação de gado na região, bem como a manutenção e segurança de um corredor de tráfico das drogas através da região amazônica.

Pela cultura de muitos migrantes que vieram de outras latitudes desse País-continente, e pela própria omissão cúmplice do Estado que não busca modelos de vida enraizados na história da região, parece que a única direção possível do ‘desenvolvimento’ seja replicar nessas terras o modelo de saque e colonização que –dizem- tornou o Brasil um gigante ‘produtivo’.
Escandaliza e revolta o fato de os índios cobrarem um pedágio como ressarcimento pelos estragos produzidos pelos ‘intrusos’, mas não gera indignação a forma violenta como o Estado escancarou as portas da terra indígena a saqueadores de todo gênero!

Também acompanhamos de perto a situação da Terra Indígena Awá-Guajá (noroeste do Maranhão), onde denúncias de órgãos atuantes em nível nacional e campanhas de pressão internacional conseguiram convencer o Governo Brasileiro a executar, depois de quase 22 anos de sua portaria de demarcação, a desintrusão de cerca 400 ocupações ilegais de pequenos produtores rurais, ocupando o território mesmo cientes que estava interditado.

Os últimos resquícios de floresta pré-amazônica maranhense, com biomas e ecossistemas únicos, estão sendo ameaçados pela pressão dos madeireiros e criadores de gado. Infelizmente, também pela cumplicidade de alguns entre os próprios Guajás, que acabam vendendo ou negociando pedaços de floresta.
O grande projeto de escoamento do minério de ferro de Carajás, planejado pelo Estado nos anos ’80 e executado ao longo dos últimos trinta anos pela companhia Vale S.A., beira com sua imensa ferrovia as terras indígenas Awá e tem sido fortemente criticado pelos índios (que acabaram também ocupando a linha de ferro) por afastar animais da reserva indígena e ameaçar, com sua duplicação, o equilíbrio da inteira região. Mais uma invasão, legitimada pelo Estado.

Qual é o papel dos missionários, nesse contexto de intrusões e de violação do direito socioambiental?

Os referenciais básicos estão claros: a função social da propriedade, a destinação universal dos bens, os princípios do cuidado da criação e do “Buen Vivir” a serem redescobertos em seio à revelação bíblica e às próprias culturas indígenas...
Também temos claro nosso ponto de escuta na interpretação dos conflitos: os mais pobres e abandonados são a chave de leitura que como missionários elegemos, a primeira das autoridades à qual queremos obedecer.

Mas como é difícil se posicionar quando, escolhendo o lado do pobre, acabamos sendo perseguidos por outros pobres que tentam reproduzir os gestos dos intrusos de ontem e de hoje!

Se a vida missionária quiser ser profética hoje, deve alimentar-se de um discernimento contínuo e promover dinâmicas de reconhecimento e respeito entre as vítimas, quando elas vêm sendo divididas e hostilizadas umas contra as outras.
O evangelho lembra que é a verdade a nos libertar; nesse caso, é a compreensão verdadeira de quem está oprimindo e quem é oprimido. E de quanto introjetamos dentro de nós as mesmas práticas dos opressores. Essa é a pior das intrusões, contra a qual precisamos lutar.

lunedì 20 gennaio 2014

Zuleide

Zuleide deixou uma grande herança à comunidade de Açailândia, tanto por seu serviço de catequista e membro do grupo de casais da igreja, como pelo seu trabalho dedicado e competente no mundo da escola.

Hoje quero ressaltar, porém, o legado dos últimos anos de sua vida. O jeito como vivemos o fim de nossa vida recolhe e expressa tudo o que semeamos e cultivamos ao longo da existência inteira.

Muitos de nós, nessas horas, perguntam-se “Por quê?”. Por que esse sofrimento?
Quem pergunta assim, sente Deus como alguém distante, frio calculador do tempo e do destino de cada um/a. Alguém que precisamos “convencer” para que poupe esse ou aquele nosso amigo...

A pergunta mais justa deveria ser outra: “Como?”. Como viver o sofrimento?
Frente ao limite da morte, nem Deus pode. Ao dar a vida para nós, Deus admitiu a condição da morte, que se fez limite para ele também.
Então Deus não tem o controle do tempo e do destino final de cada pessoa, não é um gerente da existência que “clica nas teclas de seu computador” para conferir vida, morte, doenças e acidentes, curas ou condenações.
Conversamos longamente com Zuleide sobre isso. Renovamos juntos nossa fé em Deus como companheiro que sofre ao nosso lado, torcedor para a vida plena e a serenidade em cada etapa de nossa existência. Conselheiro, consolador, sentinela para não perder de vista a esperança.

Zuleide foi imagem desse Deus. Foi testemunha verdadeira de vida cristã.

Havia uma romaria cotidiana à casa dela. Muitos (eu também) íamos lá não porque ela precisava de nós, mas porque nós precisávamos dela, de sua força interior, de sua serenidade.
Fazia-se perguntas, revoltava-se também (um dia chegou a pedir perdão porque, frente a mais uma notícia negativa do médico, “bati o punho na mesa”...). Nem sempre conseguia tratar seu marido Sinésio com o mesmo carinho dele (mas pediu desculpa disso também).
Sobretudo, porém, nunca perdeu a teimosia de viver.

Cuidava de si cuidando dos outros. Parece que suas energias aumentavam por acolher em si as preocupações dos outros. Como no caso de sua vizinha com depressão: Zuleide a visitava, mesmo carregando dentro de si outra doença grave como o câncer. Parecia uma versão sofredora do encontro entre Maria e Isabel. Ou como no caso dos muitos que iam até a casa de Zuleide para pedir conselhos, desabafar, partilhar dúvidas ou problemas...

Buscava sempre uma nova luz, uma outra saída. Como na conversa com sua médica, muito dedicada. “Mais uma porta se fechou”, dizia a médica com resultados negativos dos exames nas mãos. “Mas iremos sair pela janela”, continuavam as duas, juntas!

Viveu tanto e tão intensamente graças à família, e a Sinésio especialmente. No cuidado do dia-a-dia, numa comida preparada e re-preparada, até que ela gostasse e conseguisse se alimentar. Na limpeza da casa, nas viagens contínuas, incansavelmente, para Imperatriz...
É esse serviço silencioso e afetuoso que transmite força e gosto de viver: às vezes uma família adoece por inteiro, outras vezes, uma família enfrenta a dor como fosse um corpo só.

Ajudou-nos a ser comunidade. Sua dor e sua luta foram como uma ima que agregou as melhores forças, o tempo e a disponibilidade de cada pessoa. Zuleide nos reuniu e nos pede, daqui para frente, de não perder essa união a serviço da vida dos sofredores.

Descanse em paz, cara amiga, você fez sua parte. Pode deixar: nós faremos a nossa, com fidelidade e esperança.

venerdì 3 gennaio 2014

Um presepe maranhense

O que acontece em volta do estábulo onde Jesus nasceu?
O evangelho de Mateus narra uma visita importante: estrangeiros chamados ‘Magos’, vindo de longe com ricos dons.
Lucas, ao contrário, se refere a pobres pastores desprezados pelo povo de Israel, homens errantes e sem casa, pois moravam com seus próprios animais. São os primeiros a visitar e reconhecer o Filho de Deus.

Fiquei pensando nas personagem que habitaram meu Natal maranhense. Se parecem muito mais com os pastores do que com os Magos.

Cláudio foi preso novamente. Depois de um longo período de cadeia, parecia estar se recuperando, nos visitava em casa com frequência e fez uma grande amizade com padre Pedro. Custava a encontrar trabalho, mas afinal conseguiu. Andava habitualmente mão na mão com seu pequeno filho, que parecia ser seu orgulho e seu motivo de vida.
De madrugada encontraram o corpo de sua companheira, abandonado no mato à beira da rodovia. Cláudio jura que é inocente; ninguém nunca saberá exatamente o que houve, pois não foi feita a mínima investigação.
Enquanto todos esperávamos o nascimento na noite luminosa e barulhenta de Natal, ele e muitos outros atrás das grades esperam demoradamente uma decisão do juiz no mofo e mal cheiro da superlotação.
A Pastoral Carcerária, como pastores anônimos e muitas vezes sem poder, os visita e os reconhece filhos de Deus. É o mínimo com que começar.

Judite mora no quilombo S. Rosa dos Pretos. O marido a abandonou, tem dois filhos que estudam à noite, junto com os adultos, porque -como no caso de Jesus- não havia vagas para eles na escola durante o dia.
A menor sofre de crises de asma, mas Judite não tem como cuidar dela: trabalha como doméstica na casa de uma outra pessoa, na cidade vizinha. Doze horas por dia, de segunda a sábado, ganhando o vergonhoso ‘salário’ de trezentos reais!
Como Maria e José, Judite não teria um cordeiro para apresentar o filho ao Templo em ação de graças e deveria contentar-se de dois pombinhos. Mas seria outra ‘viúva-de-marido-vivo’ com todo direito de aborrecer a justiça pelas condições em que está forçada a viver.

Tiago migrou a três anos de Itapecuru para Uberlândia, Minas Gerais. É pedreiro, lá. Foi o primeiro a deixar a cidade em busca de trabalho, mas vários outros de Itapecuru o imitaram. Nessa noite perto do Natal está de volta: como todos os anos, quer participar do Tambor de Mina na Tenda de Nossa Senhora dos Navegantes.
Mãe Severina o curou, antes de partir, e agora não toma mais nem uma gota de cachaça. Como os Magos, em ação de graças, traz de volta todo ano sua vida, bate com força nos tambores que animam a dança dos encantados, vibra no sonho de voltar para ficar, porque aqui estão as raízes de sua vida.

Francisco passou o ano a escrever, pois nesse Natal a humanidade precisava de uma luz e de um canto novo. Nos deixou de presente sua primeira Carta, “A alegria do Evangelho”, que deseja uma igreja pobre para os pobres. Diz que os pequenos deveriam se sentir “em casa” em cada comunidade cristã.

Quem habita nossas casas e presepes, nesse e em todos os tempos de Natal?


Obs: os nomes das pessoas citadas –com exceção do último- foram modificados por respeito à sua identidade