Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

lunedì 18 aprile 2016

Peço perdão a Deus...



Estava em praça pública na noite em que os deputados federais se pronunciaram sobre o impeachment. Acreditava, e ainda acredito, que a rua é o único espaço que nos sobra para reafirmar a soberania popular e continuar acreditando na democracia.
Lado a lado, tantas pessoas que não se conheciam, mas sentiam a mesma vibração e atavam seus fios numa rede de participação que talvez venha a reanimar a militância da esquerda.
Não estava só, tinha o orgulho de acompanhar algumas pessoas de uma das muitas comunidades atingidas pelo modelo de desenvolvimento que, de FHC a Lula e até Dilma, sempre sugou a vida dos pobres para alimentar o lucro de poucos.
Juntos, queríamos defender pelo menos o respeito do voto popular, sabendo que o desmonte institucional só viria a piorar a situação dos pequenos.

Como padre e religioso, sinto que isso faz parte de minha missão. Mas durante aquela noite fiquei cada vez mais envergonhado por minha identidade.
Um número crescente de deputados defendia seu voto em favor do impeachment em nome de Deus. Um chegou a proclamar um trecho da Bíblia; outro a mantinha levantada como uma espada para matar o dragão do mal; outro proferiu um exorcismo e uma profecia, antes de assegurar mais uma vez que Deus estava do lado do ‘sim’.
Ao meu redor, na praça, cada vez mais pessoas se revoltavam contra esse Deus e esses arautos da verdade. 

Eu sinto Deus presente no caminho dos pobres e na força de suas reivindicações. Me reavivo quando, juntos, reconhecemos essa presença e nos fortalecemos nela. Mas com que coragem posso falar de Deus agora que o nome dele tem sido utilizado tantas vezes em vão por esses fanfarrões da moralidade, nesse teatro hipócrita da luta à corrupção?

É tempo de silenciar o nome de Deus. É tempo de escrever sua Palavra nas obras de misericórdia e justiça que libertam e humanizam os oprimidos. Deixemos de falar de Deus: que falem as pedras, as pedras de nosso compromisso, de nosso serviço escondido, de nossa paixão teimosa pela vida dos pequenos!
Não cabe a nós afirmar que estamos do lado de Deus. Serão os pobres a reconhecer sua presença, e nós o encontraremos se tivermos a coerência e a fidelidade de permanecer no meio deles.

Ontem à noite Deus chorava, impotente, porque ainda não compreendemos o que ele espera de nós e nos pede. Estamos fazendo dele uma caricatura, e nesse espelho também nossa identidade se desfigura e esvazia...