Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

giovedì 22 dicembre 2011

Esperar?

Carregando dentro de si o sabor da África e da América Latina, uma amiga minha fica cada vez admirando a ambiguidade de um verbo descoberto entre nós:  ‘esperar’ significa ao mesmo tempo aguardar e não perder a esperança.

Por falar a verdade, sempre tive uma certa raiva contra esse verbo: esperar o quê? Mergulhados numa realidade injusta e cinzenta, incomodam a passividade, o conformismo e a adaptação de muitos que pensam entre si “ta bom assim mesmo...”
Gosto muito mais do canto da resistência à ditadura: “Esperar não è saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Nada a esperar, se quisermos antecipar tempos novos!

Nesse advento/espera, porém... aconteceram muitas coisas. Perdemos um amigo comboniano querido, pe. Franz, por conta de um acidente na estrada. De repente, um acontecimento que desarma e quebra as pernas.
Poucos dias depois, Ilaria e Federico, leigos missionários combonianos de nossa família em Açailândia, revelaram para nós que finalmente, após tanta espera... estão ‘grávidos’! Uma boa notícia desejada há tempo e por muitos.

Há lições que acreditamos conhecer de cor, mas que cada vez precisamos reaprender na pele. A mais importante é que... a vida não nos pertence. E que precisa abrir espaços para deixá-la entrar.

Gosto quando celebramos nas pequenas comunidades do interior: a gente faz uma roda, abre espaço, deixa um vazio no meio de nós, para nos escutar, para permitir que algo novo aconteça em nosso encontro.
O importante está no meio... e no meio não estamos nós. Não está ninguém, só silêncio e espaço.
Ali a vida e Deus acontecem.

Dessa forma estamos vivendo o Natal hoje. Que pe. Franz nos acompanhe e o pequeno(a) de Ilária e Federico cresça com sabor e paixão de Brasil!
Três fotos resumem o que aconteceu nos espaços que soubemos abrir junto a nosso povo:

 
- a Romaria da Terra e das Águas foi o momento mais intenso, nesse ano, em que celebramos a vida dos pobres e a profecia da igreja ao seu lado
-   a ocupação da BR 222 mostrou que vale a pena defender os direitos do povo e com o povo, sem medo nem limites 
- uma criança levantada pelo esforço das pequenas e escondidas comunidades rurais alimenta nossa busca de sonhos que não estão fora de nosso alcance






Que Deus e todos nós tenhamos um bom nascimento!

martedì 15 novembre 2011

Como Zaqueu...

No Evangelho de Lucas narra-se a história de Zaqueu. Ele era “muito rico e muito baixo”.
Para o Evangelho, quem é muito rico é sempre muito baixo, pois está fechado e curvo em si mesmo, dobrado sobre seu dinheiro e suas posses. Não tem tamanho nem interesse para olhar olho no olho as outras pessoas.

Um rico se acha grande e importante, mas quando for ficar no meio da multidão, percebe que seu tamanho é reduzido. Deu mais valor ao dinheiro do que à vida, é um anão espiritual.

Considera os outros só um empecilho que impede chegar onde está desejando. Por isso Zaqueu quer subir numa árvore, para ficar, mais uma vez, acima dos outros. As palavras de Jesus são claras, porém: Zaqueu, desce! Desce de seu orgulho e arrogância, venha aqui no chão.
E Zaqueu, pela primeira vez, enxerga os pobres. Aqueles que eram obstáculo, agora são protagonistas de sua conversão.

Não é difícil ler hoje esse Evangelho na realidade de Açailândia e do corredor de Carajás.

A Vale, em sua operação de duplicação dos trilhos e do lucro, considera as comunidades ao longo da ferrovia como “interferências” para suas obras e projetos. Trata com ‘os pobres’ (se comparados com ela!) entregando umas esmolas aqui e acolá e acalmando a revolta deles.

Mas as comunidades não são obstáculo! E a elas, diz o Evangelho, é preciso devolver, não só derramar alguns pingos de esmola! Devolver suas terras, seu direito de viver, cultivar, respirar sem poluição, circular seguros em suas estradas...

Nesse mês de novembro chegou notícia da prisão de Ricardo Nascimento (grupo Ferroeste, presidente também da siderúrgica Gusa Nordeste de Açailândia). É acusado, no Espírito Santo, de participar da máfia da corrupção. Há documentos falsos de empresas que presumidamente vendiam carvão para suas siderúrgicas, enquanto elas sugam ainda carvão ilegal dos pequenos produtores, encobrindo com notas fiscais falsas.
Conforme noticiado, “é um esquema que no Espírito Santo dura há cerca de dez anos e trouxe lucros milionários para os donos de siderúrgicas”.

Ricardo Nascimento é presidente de uma das siderúrgicas que em Açailândia há mais de vinte anos oprimem e poluem os pobres do povoado de Piquiá de Baixo.
De onde vem a riqueza das siderúrgicas? Por que por vinte anos elas, a Vale, o Município e o Estado, como Zaqueu, nunca enxergaram os pobres de Piquiá?

Está na hora de abrir os olhos, de dizer que 350 famílias valem mais do que 50 vacas e de todos os lucros injustos das empresas.
Está na hora que esses Zaqueus, amigos dos poderosos e aliados a eles, desçam da árvore e comecem a devolver (essa é a palavra do Evangelho): devolver o que não é deles e que foi furtado à saúde e à vida dos pequenos!

domenica 30 ottobre 2011

Mergulhando na Justiça Ambiental

A Prainha do Canto Verde é uma comunidade pesqueira a cem quilômetros de Fortaleza.
Quem for visitá-la querendo escutar, logo vai cair na rede sedutora dos contos e das tradições de um povo hospitaleiro e simples. De geração em geração a arte da pesca , na linha ou na rede, é repassada religiosamente e em silêncio, dos mais velhos para filhos e netos, na prática dos gestos mais do que por palavras vazias.

Toda semana, pequenas jangadas saem e permanecem mar adentro por dias inteiros, lá onde “fica você sozinho, entre o céu e as águas”.
À noite, quatro pescadores em cada jangada retiram-se nos espaços estreitos debaixo das tábuas, reparando-se do frio, do vento e das ondas que molham o barco. Mas um quinto precisa ficar acordado, lá fora, a noite toda: há uma lâmpada a gás que precisa permanecer acesa, na escuridão total, para evitar que os grandes navios que transportam ferro para exportação, no mar alto, atropelem as minúsculas jangadas e seu precioso cargo de vidas.

Assim, esse cuidador da luz é também cuidador da vida.
Ensina-nos, mais uma vez no silêncio dos gestos, o que é Justiça Ambiental: defender a vida das pessoas e dos territórios que há tempos vivem no equilíbrio de seus ritmos e saberes, mas que estão sendo cada vez mais agredidos pelo atropelamento de um progresso que corre distante deles e pode passar por cima deles.

lunedì 12 settembre 2011

Jesus caminha no meio de nós

Nos dias 10 e 11 de setembro, vivemos no Piquiá/Açailândia uma autêntica experiência de fé e encontro com Cristo ressuscitado.

“Eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo”, disse o Senhor que venceu a morte. Referia-se, acreditamos, ao fim desse mundo de injustiças e à nova criação de um Reino de partilha e harmonia entre todas as criaturas.

A Romaria da Terra e das Águas foi mais um pedacinho de construção desse novo mundo, em que a Igreja acredita e que nasce e cresce sempre a partir dos pequenos e excluídos.

Foi muito bonito escutar a voz deles, vindo de todos os cantos do Maranhão; dançar ao ritmo de festa do xote das quebradeiras de coco, das músicas indígenas e quilombolas, dos repentes criados pelas pequenas comunidades rurais. Gritos de denúncia e sonhos de vida foram celebrados com intensidade pelos dez mil romeiros presentes no Piquiá. A celebração eucarística foi profunda, participada, cheia de vida. A marcha até o Piquiá de Baixo entrelaçou a denúncia profética de um sistema que gera impactos e poluição e a esperança de um povo que apesar de tudo nunca deixa de caminhar, com a cabeça erguida: “Estou vendo tudo, não fico calado pois eu não estou mudo!” – cantavam os romeiros e romeiras.

A todos eles e elas vai nosso profundo agradecimento: juntos sentimos que Jesus de Nazaré caminha e vive também pelas estradas do Maranhão, ao lado de um povo que sabe o que quer e tem direito de ser escutado e respeitado.

Nossa fé fortaleceu-se e a união das comunidades e dioceses do Maranhão estreitou-se ainda mais. Essa Romaria, como sempre dissemos, não se limita a um evento, mas se insere num processo que vem de longe e nos convida, agora, a não trair os sonhos e as expectativas que acendemos no coração de tantas comunidades, povos, pessoas.

Regressemos, irmãos e irmãs, a nossas casas e comunidades. Essa chama que nos animou não se apague, ilumine nossas lutas e resistências do dia-a-dia e volte a brilhar mais e mais vezes em eventos bonitos e intensos como aquele que acabamos de celebrar.

Com muita gratidão nos despedimos de cada romeiro e romeira. Que a saudade de novos encontros nos mantenha vivos e amigos nessa caminhada com o Senhor ressuscitado!

Via Sacra em Êxodo

Cinco passos rumo à ressurreição de Piquiá de Baixo e dos atingidos pelos grandes projetos

1. Introdução

A Romaria da Terra e das Águas do Maranhão impulsionará milhares de pessoas a caminho rumo ao Piquiá de Baixo. Lá encontraremos um povo que já caminha em Êxodo há mais de cinco anos.
O povo de Piquiá de Baixo pretende sair de uma terra de poluição e desemprego, para uma terra de moradia digna, saúde e dignidade.
Há cinco anos essa caminhada se fez pública e corajosa, envolvendo o Ministério Público, a Defensoria, a mídia nacional e internacional. Os poderosos foram desafiados por trezentos famílias de um pequeno povoado, e tiveram que se dobrar, pelo menos para escutar o grito desses sofredores.
A igreja de todos os cantos do Maranhão, também, quer ser romeira nesse Êxodo rumo a um novo Piquiá, um novo Maranhão, um outro jeito de viver bem, em equilíbrio e harmonia entre nós e com a criação toda!

Esse êxodo de libertação que a Romaria percorre é também uma Via Sacra: caminhamos, passo a passo, ao ritmo de todos os povos e comunidades atingidas pelos grandes projetos, por um desenvolvimento que não é para todos. Comunidades tradicionais ameaçadas e crucificadas, espoliadas de suas terras e frutos, que são suas vestes e sustento. Camponeses expulsados de suas terras, forçados a morrer fora das portas da cidade, não mais cidadãos de nosso País de ordem e progresso.
Vamos caminhando, irmãos e irmãs, nessa Via Sacra das vítimas sócio-ambientais, porque ainda há uma ressurreição, uma terra prometida, ainda tem como destruir os sistemas que destroem a terra!

  1. Primeira estação: a sedução

E fácil convencer o povo que não há alternativas!

Na época de Jesus, o império romano convenceu muitos poderosos e influentes em Israel que aquele era o melhor dos mundos possíveis. Claro, talvez era um pouco violento e injusto, mas tudo isso era necessário para manter a ordem e crescer e prosperar.
Não deve ter sido fácil para Jesus desmontar essa verdade sedutora do império.

Também Moisés sofreu em convencer o povo escravo no Egito que podia existir uma vida melhor, mais livre, mais gostosa do que as cebolas de Egito!

Hoje também nós queremos caminhar e acreditar que existe um mundo melhor do que esse. Que a poluição não é indispensável. Que é possível viver e produzir respeitando a natureza. Que não se pode lucrar à custa dos pulmões ou da fome do povo!

Pai Nosso, não nos deixei cair na tentação dos poderosos e de sua lógica. Hoje, amanhã e sempre deverá haver pão para cada dia!

3. Segunda estação: o desânimo e as quedas

Jesus caiu três vezes. Moisés quebrou as tábuas da lei pela raiva contra um povo teimoso e infiel. Israel quis voltar atrás e amaldiçoou a Deus.

Também as comunidades que buscam liberdade e lutam por um mundo mais justo e bonito muitas vezes desanimam. Algumas pessoas recuam e influenciam os outros para render-se à realidade invencível.
As próprias empresas aproveitam para dividir as comunidades, conquistar o favor de algumas lideranças e enfraquecer a luta coletiva.
Mas apesar das quedas Jesus levantou-se, o povo voltou a caminhar. Moisés viu a terra prometida de longe e seu povo entrou, livre, numa região onde corre leite com mel.

Não temos medo das quedas e do desânimo. Queremos voltar a caminhar, oferecer nosso braço a todos e todas que estiverem caídos ou à beira do caminho. Vamos, irmãos, vamos irmãs: ninguém pode nos parar!

  1. Terceira estação: a perseguição

Jesus foi condenado à morte de cruz, como um revolucionário, como um terrorista. O povo de Israel em fuga foi perseguido pelas milícias do Egito, com cavalos e cavaleiros até o Mar Vermelho. Quem busca a liberdade e critica a ordem constituída é considerado subversivo e condenado, sem chances de se defender.

Assim também hoje, no Maranhão, quem defende os povos quilombolas é ameaçado de morte. Quem critica empresas fortes como a Vale é caluniado e processado. Quem fala em favor das vítimas do progresso é chamado de primitivo. Quem denuncia o trabalho escravo deve fugir e esconder-se para não ser perseguido.

Mas nós caminhamos de cabeça erguida, somos igreja de Deus, que está do lado dos pobres e dos oprimidos. Não temos medo e não deixaremos nos calar!

  1. Quarta estação: a ressurreição na terra prometida

Quando a Romaria chegará ao Piquiá de Baixo, terra-símbolo de muitas outras lutas e reivindicações, será só o começo de uma caminhada bem mais longa, dura e desafiadora: a Romaria dos Pequenos que a cada dia dão um passo rumo à libertação.

O caminho no deserto foi árduo, cheio de contradições, erros, recuos e desvios. Mas o povo chegou à terra prometida.
O caminho da cruz foi duro, pontuado por traições, abandonos, solidão e dúvidas, desânimo e teimosia. Mas o Pai não deixou a história terminar com a morte de Jesus.

Uma cruz branca acompanhará o povo a caminho e será erguida no Piquiá de Baixo. É uma cruz vazia, sem o corpo de Cristo, pois ele vive no meio de nós. Ressuscitou no povo a caminho de libertação!
A igreja do Maranhão, mais uma vez, compromete-se a tirar todos os pobres de suas cruzes, a caminhar ao lado deles por um Estado mais justo.
Sem medo do deserto ou da perseguição da cruz, todos nós assumimos o compromisso de sermos, pela vida inteira, romeiros em busca dos direitos da terra, da água e da gente!

venerdì 15 luglio 2011

Quebradeiras de coco

Passo um dia inteiro à sombra das palhas de babaçu, conversando com mulheres que acordam às cinco e trabalham lá em baixo até quando vira escuro.
Poucos dias depois estou num avião, muito acima desse chão sagrado de nosso povo: convocação para preparar com outras dezenas de grupos a agenda, clara e concreta, dos movimentos socioambientais no enfrentamento dos grandes projetos de ‘desenvolvimento’.

Que vida estranha, essa dos missionários: um dom e uma tarefa!
Missão é antes de tudo escutar, compreender a partir de quem está em baixo, sentar-se e aceitar de ficar ao ritmo do povo. De vez em quando tento fazê-lo... e logo depois me encontro a defender esperanças e denúncias de nosso povo a níveis mais distantes, onde outros acabam decidindo o futuro dos pequenos.

As quebradeiras de coco são um perfeito modelo de reciclagem rural: nada se perde. Com machado no pé e martelo na mão, separam a amêndoa para o óleo de babaçu e o mesocarpo para a farinha.
Não têm terra, forçadas a buscar espaços de sobrevivência cada vez mais limitados pela monocultura de eucalipto. As empresas queimam toneladas de madeira geneticamente modificada para produzir carvão; essas mulheres recortam os frutos da mãe terra até seu miolo, carregado de vida.

Trabalham quebrando amêndoas o dia todo. Fragmentam em mil pedaços a casca, para que saia a vida presa dentro dela.
Acontece o mesmo na construção do mundo novo que estamos intuindo e traçando a pequenos passos: há algo de vivo debaixo da dura casca desse mundo de morte e injustiça. O mundo de hoje está grávido, mas algo tem que se quebrar, rapidamente, para que recomece a vida e não sejamos engolidos pelo degrado e a ganância.

Apocalipse chama isso de ‘desvendamento’: quebram-se as águas de um novo nascimento. Essa quebra não vem de grandes revoluções, mas, acredito, dos gestos simples, repetidos e teimosos dos pequenos, que nunca deixam de defender suas tradições, suas raízes fincadas no chão, sua confiança em memórias e práticas que receberam de seus pais e que querem ensinar a seus filhos.

Se soubermos defender a iniciativa das pequenas comunidades, a agricultura familiar, os direitos dos grupos indígenas e quilombolas, o trabalho e a arte das quebradeiras de coco, estaremos quebrando –com gestos essenciais e eficazes- a casca dos velhos mecanismos de escravidão e saque, chamados hoje de ‘progresso’.
Não significa negar o futuro, mas devolvê-lo nas mãos e ao tempo dos pequenos.

Deus dança ao ritmo do martelo dos pobres, que quebra a casca da exclusão. Vamos sentar e dançar com eles, ou preferimos tocar a música de outras orquestras?

Terra

Terra.
A cada dia puxada das entranhas do Pará, separando o lucro do lixo, despejando resíduos nas águas e nas matas.
Terra fundida, em nossas cinco siderúrgicas, na cadeia do aço que deixa fumaça e carvão e vidas queimadas.
Terra que corre no trem de minério, deixando atrás de si buracos e direitos violados, acumulando vantagens e dinheiro fácil para poucos.
Um povo que quer fugir: falta-lhe ar e dignidade, também a terra dele lhe foi subtraída, em concessão à Vale e às siderúrgicas.

Muitas vezes comparamos Piquiá de Baixo ao povo de Deus em fuga do Egito, em busca de “nova terra e novo céu”, de uma nova relação entre as pessoas, a criação e o Deus-mãe que geme pela dor de tudo o que pariu.
Em Piquiá de Baixo, profundo interior do Maranhão, vivem trezentos famílias; devia ser, mais ou menos, o tamanho de um dos grupos rebeldes e ousados que quiseram desafiar o deserto, abandonando o sistema do Egito que aproveitava de sua mão-de-obra barata e comprava seu silêncio e resignação com poucos pães.

Essa pequena comunidade começou a sonhar com uma nova terra. Revelou a falência desse modelo de desenvolvimento, que condena as regiões de Carajás e Açailândia à exaustão. Mas não se rendeu à agressão do ‘progresso dos outros’: há cinco anos luta para sair dessa escravidão. Êxodo ao contrário: fuga de suas próprias raízes, porque contaminadas.

Hoje essa comunidade celebra uma conquista: após muita luta, finalmente houve um Decreto, fruto de pressão e articulação local, nacional e internacional. Decreto de desapropriação de propriedade: uma nova terra foi reservada para o povo de Piquiá de Baixo.
Começa uma nova história.

A Doutrina Social da Igreja e a própria Constituição brasileira dizem que a terra tem uma função social: “em caso de necessidade, todas as coisas sãos comuns”.
Hoje um pedacinho de direito concretiza-se nas mãos de quem amassou por anos suor e luta. Falta ainda muito, mas um marco de dignidade está posto: essa terra é do povo.
Sim à dignidade das comunidades, não à contaminação que expulsa inteiras famílias, arranca raízes e fecha as portas do futuro.

martedì 31 maggio 2011

A morte e a morte de quem berra para viver

Vinte e cinco anos se passaram. Padre Josimo defendia o direito à terra de camponeses e famílias. Foi baleado na porta do escritório da CPT, em Imperatriz/MA.

Esse 2011 tinha que ser um ano de memória e repúdio de todo tipo de violência no campo. Somente nessa última semana, porém, quatro pessoas de nossa região norte caíram ao assobio das balas: José Cláudio e Maria do Espírito Santo (mortos no dia 24 de maio em Nova Ipixuna/PA), Herenilton (assassinato na mesma semana, na mesma cidade), Adelino (morto em Vista Alegre/RO, no dia 27 de maio). No mesmo dia, o vice-presidente da associação quilombola Charco sofreu atentado em São Vicente Ferrer/MA, onde em outubro de 2010 outro irmão, Flaviano, tombou.

É a morte dos pequenos, que ninguém conhece, em terras distantes, habitadas pelos pobres e visadas pelos grandes empreendimentos.

Na mesma semana dessas mortes silenciadas, outra morte foi bem-vinda pela maioria do Congresso e instalou-se a todo direito em nosso País. Disfarçadamente entendida como simples ‘amenização’, foi aprovada a proposta de reforma do Código Florestal, que de uma vez legitimou crimes passados e futuros contra nossas Áreas de Preservação Permanente e Reservas Ambientais.

É um atentado à organização popular, que expressou de mil maneiras sua resistência à reforma do Código. Se tiver aprovação definitiva, teríamos mais um exemplo da arrogância violenta do Estado contra o meio ambiente do qual se diz defensor. Assim, nesse mês de maio, o Brasil coleciona uma série vergonhosa e ambígua de posições hostis à preservação ambiental (o conflito sobre Belo Monte com a CIDH é o exemplo mais emblemático).

A morte visitou nosso País duas vezes, nesse mês. Ceifou a vida de vários militantes e institucionalizou-se numa lei que defende, mais uma vez, os interesses do capital.

No pequeno de nossos assentamentos rurais de Açailândia, profundo interior do Maranhão, tentamos porém não perder a esperança. Nos mesmos dias dessa matança, celebramos a Festa da Colheita com centenas de agricultores familiares e amigos/as da cidade.

Escolhemos um lema ousado: “Plantar e Colher uma nova Vida”. Dançamos essa vida com toda a energia que nos sobrou, abastecendo nossa sede de justiça e de futuro ao poço da celebração, da partilha entre as comunidades, da cultura e sabedoria do homem e mulher do campo. Talvez quem estava nem percebeu, mas uma festa dessa é trincheira forte contra a morte que avança.

As comunidades organizadas, conscientes de sua beleza e densidade de vida, são a resistência mais sólida contra quem está querendo instalar ainda mais violência em nossas terras!

venerdì 22 aprile 2011

Fragmentos de ressurreição

A cada dia nossa comunidade missionária procura sinais da ressurreição, dispersos em fragmentos no meio de muita luta, várias derrotas e um certo sentimento de impotência.

Os próprios discípulos demoraram para compreender e assumir a ressurreição de Jesus, precisando coletar uma série de numerosos sinais e testemunhos.

Fiquei me perguntando muito: nesse ano, que testemunho de ressurreição nossa comunidade pode oferecer? Temos uma palavra de esperança, uma mensagem fecunda e concreta para partilhar?

Nossa forma de testemunhar a ressurreição depende muito do tipo de mortes que estamos experimentando. A pior delas é a morte do sonho coletivo, derrotado pelo interesse instantâneo de pequenos ganhos individuais.

É a morte política de quem desiste de olhar para longe e se deixa comprar ou convencer por soluções imediatas e baratas, convenientes só por um momento. Quando nessa região chegaram de uma vez empresas ricas, vorazes e determinadas a investir nos recursos de nossa terra, foi difícil para o povo resistir à tentação das ‘continhas coloridas’ que elas prometem para o imediato. E assim mineradoras, indústrias de celulose e grandes investidoras em hidroelétricas trouxeram fortes impactos a custo de pequenos projetos sociais, pontuais, descontínuos e mal negociados com o povo.

Para nós, então, acontece ressurreição todas as vezes que há uma revolta contra essa dependência e, apesar de continuar desproporcional, levanta-se a voz das comunidades e garantem-se seus direitos e sonhos. Com uma imagem bíblica, há ressurreição para nós todas as vezes em que encontramos uma daquelas cinco pedrinhas que permitiram ao pequeno Davi derrubar (ou pelo menos estontear por um momento) o gigante Golias.

De fato, se isso se repetir várias vezes, os ‘gigantes’ de hoje irão aos poucos perceber que não se pode pisar nos territórios sem uma séria e efetiva interação com as populações que os habitam.

Cinco pedrinhas, dizíamos:

- uma foi participar à assembléia dos acionistas da Vale, como acionistas minoritários e representantes das comunidades impactadas. No meio da lógica exclusiva do lucro sem condições, está se levantando cada vez mais forte a voz de quem denuncia os impactos sócio-ambientais e exige respeito para os pequenos;

- outra é a perspectiva de recebermos em setembro, em Açailândia, a Romaria da Terra e das Águas, evento em nível de Maranhão inteiro que vai trazer milhares de romeiros e uma igreja vigilante e corajosa, para criticar um modelo de desenvolvimento ‘de mão única’, onde o lucro é privado e os impactos públicos;

- outra é a missão no Maranhão, em maio, da Federação Internacional dos Direitos Humanos, que estudou os impactos da Vale em dois casos pontuais de nossa região e apóia a reivindicação do povo: prioridade absoluta e condição primária para um real desenvolvimento é o direito à vida, à saúde, à moradia digna;

- mais uma encontra-se nos vários momentos de articulação das comunidades atingidas: está se fortalecendo uma rede de grupos e pequenas comunidades que trocam entre si experiências, estratégias, suporte e solidariedade. As empresas tendem a dividir o povo para enfraquecê-lo, esse diálogo entre movimentos fortalece a resistência;

- uma última é o sucesso de ações judiciais ou populares que finalmente obrigam as empresas a atender os interesses do povo: a greve dos trabalhadores siderúrgicos e dos moradores atingidos por poluição, a indenização de uma família vítima de atropelamento pelo trem da mineradora Vale, a condenação da mesma empresa a indenizar quase 800 famílias quilombolas impactadas por um mineroduto...

Esses são nossos fragmentos de ressurreição; acrescentamo-los humildemente aos outros que vocês, que estão lendo, poderão trazer nesse mosaico da vida do povo de Deus, mais forte do que a morte que quer se instalar no meio de nós!

mercoledì 16 febbraio 2011

Pressão popular vence a resistência de empresas siderúrgicas

“O pouco com Deus é muito” – comentavam alguns manifestantes na porta da Viena Siderúrgica S.A., Açailândia/MA, na primeira noite do protesto.

Eram trabalhadores e moradores atingidos pela poluição, unidos em suas reivindicações.

Pouca era a consideração que as empresas até hoje davam para eles. Muita era a raiva, muitas foram as pessoas que se juntaram, grande é a força dessa aliança entre a causa trabalhista e a sócio-ambiental, ambas em defesa de uma vida digna.

Às empresas siderúrgicas e à Vale S.A., protagonista do Programa Grande Carajás, poderia se atribuir nesses mais de vinte anos a responsabilidade direta pelo desmatamento, pelo estímulo ao trabalho escravo, pela poluição do ar, do solo e da água, pela exploração dos trabalhadores metalúrgicos, pela concentração de terras e pela aniquilação das formas de subsistência de muitas famílias camponesas da região. Ainda hoje muito dessa violência, efeito colateral do progresso e da ganância, acontece à luz do dia.

O povoado de Piquiá de Baixo é um exemplo evidente das contradições do desenvolvimento: mais de trezentas famílias cercadas e afetadas por empreendimentos altamente poluidores, ainda sem nenhum filtro ou tecnologias para minimizar o impacto ao meio-ambiente e à saúde. Os empregados da Viena Siderúrgica S.A. são outras vítimas: desde a crise de 2008, quem vem pagando (com desemprego, redução de salário ou turnos pesados e prolongados) são os trabalhadores. Enquanto isso, em outubro de 2010 a Viena siderúrgica esbanjava dividendos, tendo anunciado publicamente a distribuição a seus acionistas de mais de 7 milhões de reais, com base nos lucros acumulados em 2009!

O lucro é de poucos, o prejuízo fica para muitos!

Trabalhadores e moradores há vários meses esperavam por respostas das empresas que nunca vinham, mesmo com a intervenção do Ministério Público e de outros órgãos. Não restou alternativa senão valer-se de seu direito de greve e de manifestação pacífica e organizada.

O levante popular, iniciado na madrugada de segunda-feira, 14 de fevereiro, prosseguiu ao longo de 42 horas. Pouco a pouco, o grupo inicial de algumas dezenas de pessoas foi se transformando em uma pequena multidão.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos, a empresa, por sua vez, aterrorizava e seqüestrava trabalhadores dispostos a aderir à greve, impedindo-os de descer dos ônibus, ao mesmo tempo em que supervisores eram vistos entrando e saindo da empresa em carros de passeio em busca de trabalhadores em folga ou ainda oriundos de outros setores da indústria, como o da construção civil. Para as empresas, tudo parece ser aceitável, desde que não cause a interrupção da produção e do fluxo de capital e/ou não macule a sua imagem perante a opinião pública.

A intransigência do SIFEMA (Sindicato das Indústrias de Ferro-Gusa do Maranhão) e da diretoria da Viena em dar atenção aos manifestantes obrigou-os a intensificar o protesto com o uso de barricadas, queima de pneus e bloqueio da estrada de acesso à empresa, pondo em risco a regularidade da produção e chamando a atenção imediata dos veículos de comunicação.

A negociação, portanto, foi convocada rapidamente para a tarde da terça-feira, 15 de fevereiro, com representantes do SIFEMA, Viena e Gusa Nordeste. Apesar das tentativas das empresas em dividi-los, os trabalhadores e moradores de Piquiá de Baixo permaneceram unidos e, ao final, conseguiram o que pleiteavam: retorno da escala de trabalho em 8 horas, retorno da cesta básica mensal, garantia de estabilidade no emprego aos trabalhadores que aderiram à greve e confirmação de aporte de recursos do SIFEMA para a compra do terreno para o reassentamento do povoado de Piquiá de Baixo.

O pouco com Deus é muito, mas ainda não suficiente: trabalhadores e moradores merecem garantias permanentes de trabalho digno, saúde, respeito ao meio ambiente com o controle das emissões poluentes e de tantos outros direitos ainda cotidianamente violados por essas empresas. A luta do povo de Açailândia continua!

mercoledì 2 febbraio 2011

Pobre Açailândia rica!

Meses atrás nossa cidade de Açailândia, no profundo interior do Maranhão, brilhava de orgulho: tinha sido indicada por uma conhecida revista nacional entre as seis cidades do Brasil que mais estão crescendo e prometendo para o futuro.

Nessa última semana, a transmissão televisiva mais assistida no domingo à noite apresentou outro rosto do Maranhão: atrasado, violento, impune. Destacou-se a vergonhosa condição dos detentos, tratados como animais.

Açailândia brilhou de novo, dessa vez de uma luz escura: um menino desaparecido há mais de ano, sem um serio inquérito policial, e o desespero de sua mãe; um fazendeiro suspeito de dois homicídios, há meses procurado pela polícia e denunciado pelos movimentos sociais da cidade, mas mesmo assim livre e impune.

Quem observar de fora, talvez não entenda um contraste desse: Açailândia é sinônimo de esplêndidas promessas de futuro e desenvolvimento... ou de injustiça e violência à ordem do dia?

Na realidade, trata-se de uma convivência necessária, que confirma a origem e o sustento da riqueza dessa cidade. O chamado progresso e o acúmulo de riqueza, aqui, se deram a partir de uma violência estrutural.
Em muitos casos, enriqueceu-se quem devastou a floresta, grilou as terras, fez uso de trabalho escravo, sonegou ou corrompeu.

Ainda hoje, pelo menos aqui, o poder dos ‘ricos’ é garantido por uma justiça seletiva, que protege com rigor e de maneira muito ágil o direito à propriedade, mas é muito mais tolerante com aqueles que torturam, escravizam ou até mandam matar.

Somos missionários e defensores de direitos humanos; se estamos aqui é para tomar posição contra o silêncio imposto, contra a aliança do poder econômico e político que em muitos casos controla nossa região e até a própria lei.

Até quando a justiça permanecerá refém de quem tem mais poder? Até quando o mito do desenvolvimento prometerá futuro para poucos pisando nas costas de muitos outros, silenciados pelo medo ou a necessidade de sobreviver?

As leis são para que as cumpram
os pobres.
As leis são feitas pelos ricos
para pôr um pouco de ordem à exploração
Os pobres são os únicos cumpridores de leis
da história
Quando os pobres fizerem as leis
Já não haverá ricos.

(Roque Dalton)

sabato 8 gennaio 2011

Um novo Deus para um novo ano

Vivemos tempos de morte e de medo em Açailândia. Nossa cidade parece atravessar, nesses meses, um de seus períodos mais críticos. Dezenas de postos de saúde estão fechados, profissionais da saúde foram demitidos ou fugiram por falta de pagamento. A violência cresce assustadoramente nas ruas. O desemprego, a insegurança e a incerteza do futuro ameaçam sãos e doentes...

Em contextos diferentes, o nome de Deus foi invocado em vão por pessoas de duvidosa fé. Recentemente, na Câmara Municipal, a população denunciava que “A saúde está na UTI” e uma vereadora tentou acalmar a multidão afirmando: “Deus vai resolver o problema de cada um de vocês”. Apelar para Deus quando as pessoas se omitem em cumprir com seus deveres é nomear o nome dEle em vão!

Na Assembleia Legislativa do Maranhão, para conformar os metalúrgicos demitidos e prometer que com novas minas tudo vai se resolver, o presidente do sindicato patronal disse que “Deus é maranhense e colocou minério em nossas terras”. Um secretário de estado acrescentou “Vamos pedir a Deus que dias melhores venham para o Maranhão”.

Acreditar ou vender a idéia de que Nosso Senhor chega para solucionar, como por um passe de mágica, todos os problemas que nós mesmos criamos, é algo escandaloso e revoltante. Utilizar o nome de Deus para conformar pessoas injustiçadas é pecado mortal. Deus, de fato, não pode ser manipulado e utilizado para justificar interesses pessoais ou de grupo, pisando na dignidade dos próprios irmãos e irmãs.

Já conhecemos esse filme. Na história, muitos ditadores têm utilizado o nome de Deus para poder impor com mais força a sua própria vontade. Chegou a hora de dar um basta a essas hipocrisias.

O novo ano que se abre seja tempo para falar menos de Deus e começar a agir, praticando o que Ele nos ensinou.

Temos vários desafios nos esperando. A Campanha da Fraternidade de 2011 é um grito de alarme contra as mudanças climáticas: de que adianta dizermo-nos cristãos, se nem sabemos cuidar da Terra, presente de Deus para todas as suas criaturas?!

Em setembro de 2011, Açailândia irá receber milhares de romeiros que visitarão Piquiá em ocasião da Romaria da Terra e das Águas. A igreja do Maranhão busca caminhos de vida no respeito da criação e das comunidades.

“Deus-conosco”, Emanuel, caminha com seu povo em busca dessa vida! Feliz 2011!