Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

giovedì 31 dicembre 2015

Quem semeia com lágrimas, recolhe com alegria



Foi um ano de lágrimas e sementes, para a comunidade de Piquiá de Baixo.
Muitos já conhecem a luta orgulhosa, resistente e firme dessa comunidade, no município de Açailândia-MA. Sofrendo há quase trinta anos os efeitos devastadores da poluição do ciclo de mineração e siderurgia em sua região, os moradores começaram de forma mais organizada a denunciar o descaso do Estado e as responsabilidades das empresas, reivindicando – para começar- o reassentamento coletivo numa área livre de poluição.

O novo bairro, projetado de forma participativa pela comunidade junto a uma competente assessoria técnica, deverá ser financiado em parte pelo Programa Minha Casa Minha Vida, conforme um projeto que foi aprovado pela Caixa Econômica Federal ainda no final de 2014.
Desde o começo de 2015, Piquiá de Baixo está aguardando a seleção desse projeto de reassentamento. As promessas de aprovação se repetiram ao longo dos meses do ano, mas essa semente plantada com tanto suor pela comunidade parecia não querer brotar.

Enquanto isso, outras lágrimas foram derramadas, pelo crime ambiental das empresas Vale e BHP-Billiton (Samarco) em Minas Gerais e Espírito Santo.
Os moradores de Piquiá de Baixo estavam em Mariana poucas semanas antes do desastre, participando do encontro da Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale. É triste que as comunidades venham a se conhecer e reconhecer pelas tragédias e o sofrimento que têm em comum. Não é isso que elas teriam o orgulho de partilhar; não querem ser lembradas pelas lágrimas, e sim por suas resistências e vitórias.

Piquiá de Baixo plantou diversas sementes de resistência, ao longo de 2015: para manter os moradores unidos, animados e bem informados, foram realizadas numerosas “rodas de conversa”, em pequenos grupos em volta das casas; foi organizada toda a documentação de cada beneficiário do reassentamento; a comunidade articulou-se em várias instâncias, para manter forte a pressão e não cessar de reivindicar seus direitos: desde a Câmara Municipal até o Governo do Estado, desde o Ministério das Cidades até a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). No mês de outubro, o presidente da Associação Comunitária dos Moradores do Pequiá, com o suporte da assessoria jurídica da comunidade, participou de uma audiência temática na CIDH, em Washington, solicitando urgentes medidas de reparação e mitigação dos danos, frente à delegação do Governo Brasileiro.

O tempo da colheita custou, mas chegou!
No dia 29 de dezembro a Associação de Moradores recebeu o título oficial de propriedade do terreno onde a comunidade será reassentada.
No dia 31 de dezembro, o Ministério das Cidades publicou em Diário Oficial a seleção do projeto da Associação Comunitária dos Moradores do Pequiá para seu reassentamento. Depois de um ano e 14 dias de espera, a comunidade tem finalmente garantia de financiamento para seu novo bairro!

Quem semeia no pranto recolhe com alegria, diz o Salmo 126, que na próxima semana a comunidade inteira proclamará numa celebração comunitária em ação de graça e para renovar suas forças.
Os moradores de Piquiá já diziam isso com outras palavras, ao lembrar “Nossa agonia é nossa vitória”. Na luta persistente, na firmeza de quem não abaixa a cabeça e não se rende, já está escrito um fragmento de vitória, assim como na semente está escondido o broto.
Pode tardar, mas a vida vai vencer!

mercoledì 30 dicembre 2015

Atrás da lua...



Quando a lua cheia pinta de amarelo a volta do céu, tira da cena quase todas as estrelas; não tem como não levantar a cabeça.
O olhar fica preso naquele clarão, talvez se perguntando se conseguirá resistir ao longo da noite toda.

Atrai, a lua. E agora descobri o porquê: não sou somente eu que fico olhando para ela...

De tabela, fico pensando às pessoas mais queridas, talvez bem longe de mim, que nesse momento estão com o olhar fixo no mesmo ponto. 
Estamos, então, olho no olho, com um filtro que não separa, mas engradece os corações.

Assim também é a aliança que selei com os amigos mais caros. Quando em algum momento da vida levantamos a cabeça, enxergamos que ainda há esperança, mesmo se a noite é escura.
Com os olhos fixos nessa clareza, começamos a caminhar e a sentir que, do outro lado da lua, há outros também que se puseram a caminho.

Quando alguém aponta para a lua, o tolo olha para o dedo; muitos olham para a lua; mas você, vá além e encontre o olhar de todos que, na noite, se levantaram.

martedì 15 dicembre 2015

Quem sofre fica acordado, defendendo o coração



Katia é uma mulher indígena do grupo Akrãtikategê. Foi expulsa de sua terra: a aldeia devia deixar espaço à barragem de Tucuruí-PA, que inundou a inteira região. Foram removidos a mais de 200 Km de distância, na terra indígena Mãe Maria.
Também a Mãe Maria está sendo violada pelos grandes projetos: a duplicação da Estrada de Ferro Carajás, dois linhões da Eletronorte, um linhão de fibra ótica da Vivo, além da BR 222 que a atravessa.
Replica-se, em chave moderna, o evangelho de Natal: “Não havia lugar para eles” (Lc 2,7).

Raimundo dos Santos é um sindicalista, agricultor, conselheiro da Reserva Florestal de Gurupi (MA), ambientalista e defensor dos direitos das comunidades rurais. Há tempo denunciava o saque de madeira da reserva, último resquício da Amazônia maranhense. Foi friamente executado, ao lado de sua esposa que sobreviveu às feridas, em agosto desse ano. Também nesse caso não havia lugar para ele, nem ouvidos para sua voz.

Duas pequenas histórias desse microcosmo do norte do Brasil, espelho local do contexto mundial, em que parece consolidar-se a espiral de guerra, exclusão e terrorismo. Faz escuro, na noite dos sem-lugar.
Ressoa porém em nosso coração o poema de Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto”. Nossa fé mede-se pela capacidade de oferecer razões de esperança. Nas palavras do poeta, “quem sofre fica acordado, defendendo o coração”.

Nessa noite do mundo, permanecemos acordados pelo sonho de Papa Francisco, que nos convoca a abrir uma nova história, marcada pelo Jubileu da Misericórdia. 

Jubileu é ano de graça (Lv 25). É o ano em que os escravos são libertados, as dívidas perdoadas, o descanso devolvido à terra para que recomece seu ciclo natural. É o ano da fartura e da bênção.
Misericórdia é amor visceral. Não é um valor ético ou um princípio moral: é a força descontrolada de quem ama sem medida e não tolera limites. É um amor que não se intimida se, fora de si, há escuridão.

Nessa noite de Natal, então, lutemos pela inclusão, por um tempo de graça em que se globalize a fraternidade e seja definitivamente abolida a indiferença! Façamo-lo com compaixão, sem descontos nem poupanças. Se não medirmos nossa misericórdia, seremos surpreendidos pelos frutos do Jubileu!

Essas duas palavras sejam para nós a estrela-guia. Caminhemos cantando: que as nossas lutas e nossa preocupação por esse planeta não nos tirem a alegria da esperança!