Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

domenica 17 marzo 2019

De Suzano à Nova Zelândia: palavra à não violência

"Se alguém te bate na face direita, ofereça a outra". Parece absurdo, e com isso chamam nós cristãos de loucos. Ingênuos e utopistas.
"Neste mundo precisa ser espertos", dizem. "Precisa se defender. Armar-se, proteger-se!"

Os fatos desta semana, desde Suzano à Nova Zelândia, mostram que a loucura está do outro lado.
Em comum, eles têm o culto às armas, o elogio da violência.
O discurso de ódio é triunfante. É o segredo dos atores políticos de hoje, que se afirmaram não em base a suas propostas, mas pela construção de inimigos e a pauta única do enfrentamento.

"Amai vossos inimigos". É outro absurdo: por definição o inimigo é alguém que colocamos fora do círculo de nosso amor.
O que significa, este chamado de Jesus?
Surpreender o inimigo com gestos e atitudes inesperadas.
Se gritar, abaixe a voz: force-o a dialogar com respeito.
Se agredir, responda com firme dignidade não violenta. Sou gente, que nem você!
Antecipe, seja inesperado e surpreendente. Se a relação se congelou, deixe despontar, de graça, um gesto de acolhida, uma pequena atitude de serviço. É incrível o tanto que este primeiro passo pode fazer, para desmontar o agressor.
Se for complicado demais, se a inimizade estiver muito consolidada, exercite-se com a oração, que é o esforço de entrar no coração da outra pessoa, para colocá-la no coração de Deus.

Armar os professores nas escolas? É o caminho da porta larga.
A porta estreita, mais trabalhosa, mas que leva à vida, é outra: escolas menores, menos alunos por sala de aula, visitas periódicas (integrando escola e equipes de saúde e assistência social) às famílias, políticas de inclusão e acolhimento, atendimento direto e constante de situações de violência e abandono social.
Isso é políticas públicas. Que bom que, neste ano, a Igreja nos provoca a refletir sobre isso!
Até Deus tem suas "políticas públicas": Ele faz nascer o sol sobre todos, justos e injustos. Faz chover para todos.
Talvez queira nos dizer que a violência está acontecendo porque, cada vez mais, o sol é para poucos; tomaram posse até da chuva...

Sim, é difícil. Também Jesus, morto na cruz por não responder com violência, pareceu falir. O consideraram um derrotado.
Mas a força de Deus se manifesta na fraqueza. Crucificado por esta "fraqueza", Jesus vive pela potência de Deus.
O caminho da não violência, que parece louco e absurdo, é o único para que a vida vença!

sabato 16 febbraio 2019

Reflexões sobre o crime da Vale em Brumadinho


IHU On-Line – O Brasil soma mais de 70 regiões com conflitos relacionados à mineração. Como rede Igrejas e Mineração tem acompanhado os conflitos entre mineradoras e populações locais no Brasil e na América Latina? O que tem sido feito?

A rede Igrejas e Mineração, em estreita colaboração com o Grupo de Trabalho da CNBB sobre Mineração, está completando um mapeamento de todos os empreendimentos minerários no País, destacando aqueles onde há conflitos com as comunidades locais. Estamos identificando mais de 70 dioceses ou prelazias do Brasil onde existem conflitos por mineração. É um dado alarmante, que abre ainda mais os olhos da Igreja sobre sua missão de defesa da vida e da Criação.
Por isso, estamos oferecendo assessoria a bispos, sacerdotes, religiosas-os e cristãos leigos e leigas em diversos territórios. Em novembro de 2018, convocamos um  “Encontro das comunidades atingidas por mineração em diálogo com a Igreja no norte e nordeste”. Foi na comunidade de Piquiá (MA), internacionalmente conhecida pelas violações de direito que sofre e pela resistência que soube articular, abrindo novos caminhos de libertação.
No ano passado, a rede Igrejas e Mineração promoveu também um seminário internacional de reflexão e debate sobre ecoteologia e mineração. Aproximou-se às comunidades atingidas por mineração em  Paracatu (MG) e somou-se ao acompanhamento delas.
Já atuávamos, a partir de outras articulações, em Brumadinho (MG). Desde aquele trágico 25 de janeiro, estamos no município, presentes ao lado das famílias, em suporte à igreja local.

A Igreja está presente e frequentemente tem raízes profundas na vida do povo; conhece seu sofrimento e, em vários casos, tem tomado posições corajosas e claras em denúncia das violações da mineração, reivindicando direitos, proteção, reparação integral dos danos e respeito da vida.
A recente Carta Pastoral da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM), “Discípulos missionários guardiões da casa comum”, aprofunda entre outros temas os desafios e as contradições da mineração, apontando para a missão da Igreja nestes contextos. A Carta foi escrita com a colaboração da rede Igrejas e Mineração, que está contribuindo também para sua divulgação em América Latina.
A partir deste importante subsídio, e considerando a urgência e gravidade dos conflitos no Brasil, estamos tentando organizar um encontro dos bispos de dioceses em conflito com a mineração.

Assim, nossa missão é estar próximos aos atingidos-as, formar consciência crítica, assessorar as igrejas, revelar a insustentabilidade do modelo extrativo.
Recentemente, começamos a aprofundar também a dimensão financeira da economia mineira. Além do valor do minério extraído e comercializado, uma das fontes de maior lucro das mineradoras é o mercado financeiro, que responde a regras diferentes e desvinculadas das operações com a matéria prima.
Por exemplo, entre o crime ambiental de Mariana (2015) e aquele de Brumadinho (2019), em pouco mais de três anos, o valor de mercado da Vale mais que triplicou, chegando a quase 290 bilhões de reais. A empresa teve lucro líquido de 42 bilhões. Mesmo assim, entre 2015 e 2016, reduziu do 44% seus investimentos em ações de saúde e segurança.
Indignados por esta lógica de obediência aos mercados financeiros, através da rede Igrejas e Mineração estamos lançando uma campanha de desinvestimento de dinheiro dos capitais das mineradoras.

IHU On-Line – A tragédia humana e ambiental de Brumadinho, em Minas Gerais, não chega a ser uma surpresa, afinal não faltaram alertas dos riscos. Entretanto, o que significa o episódio em termos sociais e ambientais?

Há evidências que tanto a empresa Vale S.A. como o Estado tinham informações sobre o perigo da barragem da mina Córrego do Feijão desmoronar.
Por isso, chamamos este evento de crime, para o qual exigimos rápida responsabilização dos atores envolvidos, sendo processados criminalmente. Mariana nos ensinou que a impunidade consolida o crime.
A Articulação Internacional das Atingidas e Atingidos pela Vale também fez duas denúncias à Comissão de Valores Mobiliários, solicitando a destituição da inteira diretoria da empresa.

Os mitos da mineração sustentável, da tecnologia de ponta capaz de prevenir qualquer tipo de incidente, da responsabilidade sócio-ambiental das grandes mineradoras, derreteram-se em poucos minutos, em Brumadinho.
A Vale e muitas empresas investem muito para alimentar estes mitos. Bastante dinheiro foi destinado à propaganda, e também (até quando foi legalmente possível) ao financiamento de partidos e candidatos.
As comunidades, entidades e movimentos sociais que criticam estes mitos são constantemente hostilizadas, deslegitimadas e até caluniadas, espionadas ou perseguidas judicialmente. As comunidades sentem-se inescutadas e desrespeitadas.
Mas estes mitos, que encheram a boca das mineradoras, desmoronaram em cima da vida de centenas de pessoas, e estão ainda rolando, rio abaixo, contaminando inteiras bacias.

Os crimes da Samarco e da Vale ensinam também que há uma aliança silenciosa entre empresas de mineração e Estado. As companhias extrativas precisam do aval do Estado para se instalarem e operarem, muitas vezes ignorando ou banalizando o processo de consulta e consentimento prévio, livre e informado das comunidades. O Estado precisa da mineração porque continua apostando nisso, aparentemente como uma das atividades de mais “seguro” e rápido desenvolvimento.
Mais que criticar a “indústria de multas do Ibama”, em nossa opinião, o Governo deveria perseguir a fábrica de licenças ambientais aceleradas, suspender o processo de flexibilização das leis ambientais, reverter o desmonte das instituições públicas voltadas à defesa e promoção dos direitos sócio-ambientais.
Ao contrário, quem vem sendo atacadas são exatamente as organizações empenhadas na defesa do meio ambiente e, mais recentemente, até a própria Igreja Católica, que há muito tempo está acompanhando as vítimas da injustiça ambiental, com a liberdade da vocação que lhe vem do Evangelho.
 
Não podemos esquecer, enfim, que o grito de Mariana e Brumadinho não é isolado. Há muita violência que está acontecendo gota a gota, no silêncio e na invisibilidade das periferias, que são as “zonas de sacrifício” do capitalismo. Há barragens que matam sem desmoronar, pela contaminação de bário em Araxá (MG), ou de arsênio em Paracatu (MG), por exemplo.
O trem de minério da Vale no corredor de Carajás continua a atropelar e matar animais e pessoas (foram 47 pessoas mortas e mais de 100 feridos, nos últimos 15 anos); uma reportagem da Agência Pública, recentemente, demonstrou que a empresa avalia se atender a demanda por segurança da população não tanto em base ao perigo real, mas pelo cálculo de cenários que avaliam, entre outros elementos, o dano à imagem da empresa, em caso aconteçam acidentes.

IHU On-Line – Quais são as engrenagens políticas que colocam em funcionamento a máquina de moer o meio ambiente, os animais e as pessoas?

Há tempo, o Comitê em Defesa dos Territórios frente à Mineração documenta as dimensões e os interesses da “bancada da mineração” no Parlamento brasileiro. Apesar de muitas críticas da sociedade civil organizada, dos sindicatos e dos ambientalistas, o Governo Temer aprovou com uma sequência de decretos, entre 2017 e 2018, o novo Marco Legal da Mineração, com o objetivo de “contribuir para a atratividade do setor, imprimindo maior transparência, agilidade e segurança jurídica ao setor mineral brasileiro”.
O passo seguinte pode ser a flexibilização da legislação sobre mineração em faixa de fronteira. O novo presidente eleito e seu Governo têm interesses para liberar a mineração em terras indígenas. As mineradoras já registraram pedidos de pesquisa e exploração para um quarto das terras indígenas da Amazônia Legal (território correspondente à dimensão dos estados e SP e RJ).
Assim, em lugar de buscar a diversificação e transições econômicas que nos liberem da dependência do modelo extrativo, o Brasil mostra querer investir ainda mais nesta pauta, que não podemos mais definir produtiva, mas destrutiva!
Há uma engrenagem interessante, que em jargão é definida “as portas giratórias da mineração”. As companhias mineradoras, através de sua influência econômica, conseguem instalar no Governo seus representantes; em paralelo, empregam quadros ligados à burocracia do Estado. O jogo está feito: os interesses de ambos estão garantidos, e as grandes empresas conseguem, desta maneira, controlar, além do Congresso, também o governo e a Agência Nacional de Mineração. Nos últimos quatro anos, por exemplo, todo o segundo escalão do Ministério de Minas e Energias estava controlado pela Vale.

IHU On-Line – Como a sociedade civil tem se organizado para combater o lobby das mineradoras, madeireiros, agropecuaristas e empresas interessadas na exploração hidrelétrica?

Estamos tentando entrelaçar estratégias complementares; existem diversas redes e entidades que atuam em defesa das comunidades, na denúncia das violações de direitos e dos interesses elitistas do lobby das grandes empresas extrativas.
Nos territórios, há movimentos e pastorais sociais empenhadas ao lado dos atingidos-as. Eu, por exemplo, atuo há onze anos junto à rede Justiça nos Trilhos, empenhada no Corredor de Carajás, que recebeu recentemente o prêmio internacional “Direitos humanos e empresas”, na ONU em Genebra.
Uma menção de honra é para o trabalho corajoso, fiel e competente que há muitos anos desenvolvem a Comissão Pastoral pela Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
Há, depois, entidades e redes que estudam e denunciam as “ligações perigosas” entre poder econômico e político: entre elas, destaco o Comitê em Defesa dos Territórios frente à Mineração. Neste campo, precisa resgatar a transparência, a defesa e promoção dos bens comuns, características de uma política de grande respiro:  “a política não deve submeter-se à econo¬mia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensan¬do no bem comum, hoje precisamos imperiosa¬mente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana” (LS 189).
A Igreja Católica, desde 2017, criou o Grupo de Trabalho sobre Mineração, em assessoria à CNBB: há um trabalho urgente e permanente de conscientização, para que as dioceses e paróquias tenham argumentos e orientações a partir dos quais tomar posição ao lado das vítimas, em conflitos provocados pela mineração.
A Rede Eclesial Panamazônica (REPAM) atua junto a numerosas comunidades na Amazônia, escutando o grito, às vezes desesperado, de comunidades ameaçadas ou atingidas pelo extrativismo. Constata-se que os principais atores que ameaçam a Amazônia e os outros biomas do País são corporações de capital internacional, ou empresas nacionais que exportam quase por inteiro sua produção, contribuindo ao processo de reprimarização da economia nacional, a benefício dos clientes estrangeiros.

IHU On-Line – De que ordem são os desafios de sensibilizar a população para a necessidade de uma transição que vise um modelo econômico pós-extrativista?

A Carta Pastoral da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM) define extrativismo como “uma tendência desenfreada do sistema econômico de converter os bens da natureza em capital”. Papa Francisco alerta, de muitas formas, para a urgência de por um limite a esta tendência: “o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por im¬posição da mão humana (...) Passa-se facilmente à ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a «espremê-lo» até ao limite e para além do mesmo” (LS 106).
O pós-extrativismo é um modelo de política macroeconômica que busca uma mudança radical no sistema de produção e consumo. Propõe e organiza transições, de um modelo saqueador dos recursos para um modelo pautado na economia local, na produção de bens duráveis, na diminuição do consumo, no desenvolvimento de uma noção de limites de produção e na reutilização de recursos. Pretende, assim, delimitar a mineração ao essencial, e reduzir também a circulação das matérias primas através do globo inteiro.
Resgata a produção ligada ao território, e, com isso, a valorização das raízes e da sabedoria dos povos. Visa recuperar as relações regionais entre países, redimensionando o modelo exportador, a partir da satisfação das necessidades econômicas mais imediatas.
Dialoga com o modelo de decrescimento, que também a encíclica Laudato Si propõe como a alternativa mais eficaz para desmontar o capitalismo, “economia que mata”, como frequentemente lembra o Papa. “A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entriste¬cermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumu¬lação de prazeres” (LS 222).
Sendo o extrativismo um sistema que chega a sugar energias e vidas da Criação inteira, o pós-extrativismo é uma opção profética, que requer também o cultivo de uma espiritualidade profunda, capaz de resgatar a essência das coisas e das relações.

IHU On-Line – Em entrevista ao Roda Viva, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles afirmou que Chico Mendes “é irrelevante”. O que a postura ilustra sobre a pauta ambiental do atual governo?

As vítimas são irrelevantes para este sistema.
Tem uma página da exortação apostólica Evangelii Gaudium que é muito forte: “O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lan¬çar fora. Assim teve início a cultura do «descar¬tável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a ex¬clusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à so¬ciedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas re¬síduos, «sobras»” (EG 53).
Assim, os seringueiros são considerados irrelevantes, os quilombolas descartáveis, os indígenas sobras a serem integradas. Mas a morte de cada vítima, quando se faz memória, mobiliza as pessoas, consolida a indignação, unifica as reivindicações, exige justiça.
Podem-se barganhar os interesses de quem especula com o meio ambiente, pode-se resistir por um tempo nos equilíbrios precários do poder, mas a dignidade das vítimas, seu legado e seu apelo à resistência são permanentes, e não se contaminam por estas poucas palavras sem relevo.

Fonte: IHU Online, 13 de fevereiro de 2019
http://www.ihu.unisinos.br/586643-brumadinho-a-avalanche-de-impunidade-que-consolida-o-crime-e-mata-inocentes-entrevista-especial-com-dario-bossi

sabato 29 dicembre 2018

Um ano em breves vídeos



Como memória da caminhada realizada em 2018, compartilho (de trás para frente) as breves mensagens vídeo que todos os meses divulgamos, para as tantas pessoas no Brasil que se reconhecem no carisma comboniano.



Dezembro: a encarnação e os direitos humanos.

Novembro: a oração transforma o mundo.

Outubro: as eleições e a participação.

Setembro: Daniel Comboni e a sociedade de hoje.

Agosto: Padre Ezequiel profeta de esperança.

Julho: A missão comboniana na Amazônia.

Junho: Os cristãos dão uma direção à sociedade.

Maio: Maria, nossa mãe e padroeira do Brasil.

Abril: As juventudes e seu espírito missionário.

Março: A Campanha da Fraternidade para a superação da violência.

Fevereiro: Mutirão para a justiça.

Janeiro: Leigos e leigas na sociedade e na igreja.


lunedì 10 dicembre 2018

Nota de Solidariedade às vítimas no acampamento dom José Maria Pires

“Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder nas mãos” (Miquéias 2,1).

Para os cristãos, Advento é tempo de espera ativa e de escuta dos sinais dos tempos. Na história há inúmeros sinais de vida, esperança e cuidado que precisam ser compartilhados para que não se perca o Espírito que os gera. Precisamos, porém, identificar, denunciar e exorcizar os sinais de morte, para que não dominem e diminuam nossos ânimos e não se instalem definitivamente em nossa sociedade.

Hoje, enquanto celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estamos de luto e com a alma ferida por duas vidas brutalmente tiradas do nosso meio. O fato aconteceu no dia 8 de dezembro no acampamento Dom José Maria Pires, município de Alhandra, na Paraíba. Os companheiros José Bernardo da Silva, conhecido como Orlando, e Rodrigo Celestino foram covardemente assassinados por homens encapuzados e armados enquanto as famílias estavam jantando.

Nessa região, 450 famílias estão produzindo alimentos numa terra que foi encontrada abandonada, totalmente improdutiva, e que havia se tornado apenas um bambuzal, propriedade do grupo Santa Tereza.
O fato é tão grave que até a Procuradoria Geral da República, a Procuradoria Geral dos Direitos do Cidadão e a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão na Paraíba publicaram uma nota de solidariedade às famílias das vítimas, e de repúdio, denunciando “o contexto sombrio de violência contra os movimentos sociais”. De fato, os movimentos sociais, as comunidades e os povos que clamam pelo direito a terra, casa, trabalho e pão são constantemente criminalizados, ameaçados, expulsos e mortos e, muitas vezes, acusados injusta e levianamente de terrorismo.  

A verdade é que a reforma agrária, a distribuição das terras improdutivas, a integração das famílias no campo, a demarcação das terras indígenas e a proteção dos territórios das comunidades tradicionais quilombolas, a agricultura familiar e agroecologia são caminhos sustentáveis indispensáveis para mitigar a violência crescente no País, especialmente nas periferias das grandes cidades, além de contribuir com a segurança alimentar.

No dia 9 de dezembro, o Presidente eleito indicou Ricardo Salles como futuro Ministro do Meio Ambiente. Com denúncias de improbidade administrativa e fraudes em favor das empresas quando era Secretário Estadual do Meio Ambiente em São Paulo, muito próximo aos ruralistas, Salles relativiza o perigo do aquecimento global e poderá adequar a agenda do Meio Ambiente aos mandos do Ministério da Agricultura, que melhor deveria ser chamado “do Agronegócio”.
Em campanha eleitoral, este político associava o enfrentamento “à esquerda e ao MST” ao uso de balas.

É preciso exorcizar e inibir desde o começo estes sinais de morte e discurso de ódio que incentivam a violência, a difamação e calúnia, a eliminação física dos “adversários” e a impunidade. Nesse dia de luta, luto e pesar, a Articulação Comboniana de Direitos Humanos (ACDH) se junta aos movimentos sociais, às comunidades de agricultores e trabalhadores, aos defensores e defensoras de direitos e ao Ministério Público Federal para clamar pela vida, justiça social e proteção das lideranças e de todas as pessoas.

O crime de Alhandra precisa ser investigado e os culpados imediatamente punidos. A postura agressiva e violenta de muitos integrantes do futuro Governo deve ser constantemente reprimida pelas Instituições. Os Direitos Humanos não são bandeira de um partido, ou só de alguns militantes, mas a ‘Carta Magna’ da civilização e a garantia de um futuro de paz para essa e as novas gerações.

Em solidariedade, indignação e resistência,
A Articulação Comboniana de Direitos Humanos
São Paulo, 10 de Dezembro de 2018.

domenica 9 dicembre 2018

70 anos da Declaração Universal de DH

70 ANOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS: Celebração e novos desafios

Pronunciamento da Articulação Comboniana de Direitos Humanos


No dia 10 de dezembro de 2018 celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essa é também uma boa ocasião para recordarmos s 30 anos da Constituição Federal, a mais democrática que o Brasil já escreveu, promulgada no dia 5 de outubro de 1988 e conhecida como ‘Constituição Cidadã’.

Esses documentos em favor da vida, da dignidade e liberdade, assim como de outros direitos fundamentais de todas as pessoas, foram construídos à custa de muitas lutas, vidas tiradas, famílias dilaceradas e sonhos interrompidos. Graças a esses documentos e à organização dos movimentos sociais frente aos compromissos assumidos pelo Estado brasileiro, a dignidade de milhões de pessoas foi elevada, direitos e deveres foram promovidos, sofrimentos impedidos e os fundamentos de uma sociedade mais democrática, justa e igualitária foram construídos.

Temos muitas conquistas a celebrar e muitos desafios a serem enfrentados. Além das práticas comuns de abuso e violações de direitos, vemos ressurgir na sociedade brasileira um cenário, discursos e práticas que não só ameaçam, mas esvaziam os conteúdos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Federal, pela retirada sistemática e a supressão de direitos, a exaltação do ódio e da violência e a exclusão das minorias. Isto se observa claramente nos pensamentos e ações de indivíduos e grupos, inclusive religiosos, que chegaram ao poder político e econômico do País nas últimas eleições. O momento é de celebração e de resistência.

Nesse contexto, leigos/as e religiosos/as que compõem a Articulação Comboniana de Direitos Humanos (ACDH), através desse pronunciamento, se dirigem a você, à sua comunidade, grupo ou movimento para partilhar preocupações e esperanças.

A linha do tempo nos ensina que a história é feita de ciclos. Em alguns deles a defesa da vida parece mais desafiadora. No Brasil, por um curto período, a classe trabalhadora deu passos importantes para tirar do texto formal os direitos fundamentais e assegurar algumas proteções aos historicamente mais marginalizados, mesmo sem tocar na zona de conforto da elite e de seus agregados. Isso acabou provocando a elite brasileira, que mostrou o que ela tem de pior e nefasto. Nunca na história de períodos democráticos nesse País, houve tanta afronta e desprezo explícitos aos direitos humanos. 
Conquistas ainda em fase de consolidação estão gravemente ameaçadas, principalmente em nome do desenvolvimento econômico.

Comunidades tradicionais, como as indígenas e quilombolas, são um dos grupos depreciados em quase todos os pronunciamentos do Presidente recém-eleito. O Congresso brasileiro se distancia, a passos largos, de qualquer proposta que coloque as instituições públicas a serviço do bem comum. O Judiciário, guardião e promotor do direito e da justiça, em algumas de suas práticas deixa dúvidas quanto à sua imparcialidade. A maioria das lideranças religiosas serve aos interesses da elite política e econômica em troca de prestígio, conforto e fama, usurpando e deturpando os nomes de “evangélico” e “cristão” e em nome da moral e da família. Parecem desconhecer a autoridade religiosa, amorosa e ética do Papa Francisco e as inspirações e valores cristãos contidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal.

Nesse preocupante cenário de desmonte de direitos, devastação e morte, em que a mídia tradicional presta um enorme desserviço, é preciso conectar as nossas experiências, saberes, lutas e utopias às de outras pessoas e grupos, para que, de norte a sul, do campo à favela, a resistência seja propositiva e avance na construção de estratégias em defesa da vida e dos demais direitos.

A exemplo de Jesus de Nazaré, estamos convencidos/as que é preciso nos colocar a serviço dos marginalizados e oprimidos. Não falamos somente de disposição caritativa, cuja essência carrega uma grande dose de subalternidade do/a outro/a, mas da transformação radical da realidade, pela educação e organização popular, que devolvem dignidade às pessoas perseguidas ou exploradas.

Trabalhamos na perspectiva da utopia de uma sociedade sem subserviência. Utopia! Palavra pouco apreciada no dicionário do sistema de morte perpetrado pelo capitalismo selvagem, mas viva para todas as pessoas e coletivos que seguem perseverantes na construção de uma sociedade onde a humanidade da família campesina, da operária empregada ou desempregada, do povo em situação de rua, da população encarcerada, das comunidades quilombolas e indígenas, das crianças e adolescentes abandonados à própria sorte, da juventude negra e periférica, prevaleça sobre os interesses econômicos.

A Articulação Comboniana de Direitos Humanos (ACDH), particularmente nesse período de celebrações e de organização da resistência, se soma aos movimentos sociais e aos tantos coletivos, novos e velhos, de jovens e mulheres, na luta pela defesa incondicional da vida, dos direitos conquistados e na resistência contra toda forma de opressão, ódio e violência. Dizemos SIM à vida e aos direitos e reafirmamos nosso sonho e compromisso com a cultura de paz e com uma sociedade mais justa, pacífica e igualitária.

São Paulo, 10 de Dezembro de 2018.

domenica 28 ottobre 2018

Sentimentos e caminhos depois das eleições

Juntos nesses dias sonhamos, refletimos e dialogamos, tentamos resistir à onda de superficialidade, mentira, ódio e raiva que acabou dominando os debates.

As eleições deram seu veredicto, mas o clima de agressividade e violência pode perdurar, seja nas decisões políticas que poderão ser tomadas a partir de janeiro, seja no descontrole das pessoas nas relações do dia a dia.

Como Família Missionária Comboniana, inspira-nos o Coração de Jesus: ferido, aberto, não deixa de pulsar, não perde sua paixão, agrega-nos mais perto entre nós e aproxima-nos aos excluídos.

Ficam para nós algumas missões desafiadoras:

- voltar a falar de Deus purificando todas as manipulações. Convidar as pessoas a escutarmos sua voz de maneira mais profunda. Resgatar a profecia junto com a ternura, religar relações quebradas tentando honestamente contemplar o que nos sugere o Espírito;

- confirmar nossa opção pelos mais pobres e abandonados, a primeira das obediências que nos propõe a imitação de Cristo. Organizarmo-nos mais para protegê-los, consolidar as motivações evangélicas e a análise crítica do contexto que sustentam nossa opção;

- cultivar nossa humanidade, preservar a esperança, não ceder à banalidade do mal, não render-se à superficialidade ou à resignação. Conversar mais, dar mais tempo ao silêncio e à oração, buscar e compartilhar a beleza da arte, da amizade, das muitas maneiras para celebrarmos a vida.

Um grande abraço, retomando a caminhada de cabeça erguida, junto a nossas comunidades!

venerdì 12 ottobre 2018

Há esperança

É como se estivéssemos correndo na rodovia, em alta velocidade, próximos a uma bifurcação. Aparece aquela angustia de não errar o caminho, pois –uma vez escolhida a direção errada- não dá mais para voltar atrás.
No carro que corre, perguntamo-nos alarmados: como pudemos chegar tão rapidamente até esse ponto?
O Brasil está dividido, as eleições não são ocasião para disputarmos projetos de futuro ou refletirmos sobre caminhos possíveis. Prevalece o ódio à política, o voto em muitos casos é um grito de protesto, um hino de estádio, uma bomba aprontada para estourar tudo.
Uma deformação somática da sociedade brasileira leva muitas pessoas a pensarem com a barriga, enxergarem com olhos velados pelo medo, agirem com o ódio injetado no sangue.

Há séculos nossa sociedade está dominada pela divisão. O Brasil nasceu com a imposição colonial de um projeto de saque; desde então, para defender os privilégios de poucos, continuam sendo sacrificadas muitas pessoas.
Mas como é possível que tantos apoiem ainda hoje essa lógica sacrifical? Por que conseguimos tão pouco percorrer os caminhos de educação e libertação que Paulo Freire e seu movimento inspiraram?
O debate político e a formação da opinião pública, hoje, são fortemente influenciados pelos círculos de comunicação. Não se trata mais da comunicação linear que entrecruza pensamentos distintos, põe a confronto diversas leituras da realidade e pode levar as pessoas de um ponto de vista para outras interpretações da história.
A comunicação acontece cada vez mais entre grupos homogêneos, entre pessoas que partilham as mesmas ideias e que têm necessidade de sentir-se confirmadas por outros companheiros-as que as validem e reforcem.
Círculos impermeáveis, cada vez mais agressivos, que consideram o outro um inimigo. A campanha eleitoral de muitos candidatos se dá assim, reduzida a uma batalha de memes pelo whatsapp.
A escritora e jornalista Eliane Brum criou uma expressão específica para isso: da pós-verdade das fake news estamos passando à “auto-verdade”. Nessa nova lógica, o conteúdo não é relevante, é suficiente o ato de falar. Os acontecimentos, a verdade não importam. O simples fato de se manifestar com vigor, gritar e denunciar, propor soluções inviáveis mas populistas é considerado algo corajoso, honesto, autêntico. A estética, conclui Eliane, toma o lugar da ética.

Mas o que nos dá esperança, nessas horas?
Muitas pessoas que quebram os círculos virtuais e retomam a praça como lugar de presença, encontro, manifestação, de cabeça erguida. Os grupos onde ainda se fala olhando-se nos olhos, estudando um tema com respeito, tentando escutar-se reciprocamente. As comunidades eclesiais de base onde a fé se abraça com a história, a Palavra inspira a vida e por ela é iluminada. As pastorais e os movimentos sociais que continuam acreditando que fora dos pobres não tem salvação, para a Igreja e para o mundo, e seguem corajosamente ao lado deles. Fazem do serviço aos excluídos e da educação popular libertadora uma profecia, também para a política.

Entre as imagens de Brasil que não quero esquecer, nessas semanas de angustia, está aquela de milhões de mulheres que ocuparam as ruas no final de setembro. Marcharam de forma não-violenta e criativa, em muitas cidades do Brasil, para dizer não ao movimento fascista, racista e misógino que está se consolidando ao redor do candidato militar. Não defendiam um partido, tinham múltiplas pertenças e a coragem de manifestar.
Só a violência pode calar essa voz, e é isso o que está acontecendo. Pessoas agredidas, humilhadas, até mortas por terem afirmado sua crítica à sombra de ditadura que ameaça o País.
Estamos correndo em alta velocidade rumo a uma bifurcação. Se errarmos de caminho, não terá mais como voltar atrás.