Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 12 luglio 2017

Reforma trabalhista: voltamos ao Egito

Amanhecemos com mais um peso nas costas. Um jugo que uns poucos, que não carregam, colocaram no pescoço dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil.
Foi dado outro passo no projeto refinado e cínico para concentrar ainda mais a renda e os bens do País.
A CNBB, o MPT, a OAB e outras entidades definem a reforma trabalhista aprovada ontem no Senado um “grave retrocesso social”, um texto “crivado de inconstitucionalidades”.

A Palavra de Deus que hoje meditamos e que nos ilumina a cada manhã nos fala da família de Jacó, desesperada em tempos de fome, em busca de pão no império do Egito.
O estado egípcio era formado por uma elite dominante (menos de 5%) e por súditos inferiores (90%). O Egito tinha acumulado o grão: a terra estava nas mãos do faraó, em troca das sementes e do direito de trabalhar o povo entregava um quinto da colheita aos donos, e em seguida era obrigado a comprar deles as sementes.
Esse sistema econômico mortal beneficiou uma pequena minoria e levou à dependência ou à escravidão a maior parte das famílias. É um projeto que gera pragas que o próprio sistema não conseguirá mais controlar; é um modelo destinado a afundar em águas profundas.

Amanhã estaremos todos lambendo as feridas dessa sociedade, tentando curativos improváveis para estancar a hemorragia de famílias desestruturadas, jovens precarizados, falta de segurança nas ruas e na vida de cada pessoa. 
Não esqueçamos, porém, que a fonte de tudo isso vem de jornadas como aquela de ontem, de alianças sujas entre uma política de interesses particulares e o projeto cobiçoso dos arautos da economia capitalista.

Essa é a mãe de todas as violências. Quem a semeia e cultiva carrega a responsabilidade maior. Mas também quem apoia ou ignora silenciosamente se faz cúmplice.
Quem tem fé no Deus da Vida se levanta, mesmo se é noite, e retoma caminho tentando sair desse Egito, a cada ciclo histórico mais excludente. 

venerdì 19 maggio 2017

Chuva forte na rua

Dias de chuva forte em São Paulo. Como um símbolo da purificação profunda e necessária nesse País de deslavada corrupção.

Dona Francilene anda perdida nas ruas alagadas. Procura a estação do metrô, para voltar para casa. Veio da região de Brazilândia (um ônibus e dois metrô até aqui), em busca de um trabalho. Estava de diarista numa casa, mas sua ‘patroa’ lhe disse que não tinha mais como pagá-la, a não ser que se contentasse de um trocado ‘por fora’. 
Encontrou uma oferta no Butantã, mas seria para trabalhar de domingo a domingo... e todo dia quatro horas gastas no transporte urbano.

Enquanto caminhamos até o metrô, um senhor já idoso, de bigode branco, se ampara da chuva forte debaixo de um alpendre de cimento, fora do portão de uma casa. 
Tem sua uniforme de gari. Saiu à rua mesmo se desde cedo está trovoando, espera pacientemente: talvez melhore e ainda tenha tempo de dar uma limpada e desentupir as bocas de lobo do bairro. 
Quando retorno, uma hora depois, está ainda lá, fiel, porque ‘esse é meu trabalho’.

Penso, de volta para casa, nas delações premiadas, na facilidade com que, entregando esquemas e cúmplices, se alivia a responsabilidade e a imputabilidade pessoal e corporativa. Penso nos políticos que entram e saem de cena levianamente, nesse circo da irresponsabilidade. Trocam de partido, de aliados e de financiadores, surfam a onda e, quando já não podem mais, passam o poder aos afiliados, cuidadosamente treinados na tecelagem de suas redes de interesses.

O gari de bigode branco fica na rua, esperando que a chuva passe, fiel à sua responsabilidade.
Francilene voltará ainda à rua, ou para trabalhar, ou continuando em sua busca.
Essa gente que desce às ruas a cada dia merece nosso respeito mais profundo. Em nome deles, e junto com eles, vale ainda a pena lutar.
É a rua o ponto de partida de nosso grito por direitos, nossa chave de leitura para desmontar os jogos ‘políticos’ desse tempo obscuro, nosso ponto de retorno permanente, para não perder a fidelidade.
Para nós religiosos, é a partir das ruas que Jesus de Nazaré nos convida a construir uma igreja de gente organizada, no caminho da dignidade dos pequenos e do resgate dos excluídos.
Para os políticos de verdade (porque ainda existem!), é o vocabulário da rua que orienta as escolhas: inclusão, participação, iniciativa popular, garantia de direitos...

Só descendo às ruas, portanto, poderemos começar uma página nova de história. Mesmo se lá fora está ainda trovejando e faz frio...

lunedì 1 maggio 2017

Impressões ribeirinhas

Em 2014 a vida se interrompeu por três meses, em Calama.
A enchente do Rio Madeira, no primeiro inverno em que as usinas hidrelétricas de Porto Velho estavam operando, cobriu a maioria das casas, acima das janelas.
As famílias amontoaram-se no Colégio, lá no alto da vila, no pátio da igreja ou no meio do rio, refugiadas nas precárias balsas dos garimpeiros.
 
Ainda hoje sentem-se as consequências desse desastre: a força das águas destruiu os plantios das comunidades ribeirinhas, e a safra de bananas e açaí ficou prejudicada por anos.
Um dos frutos da enchente, paradoxalmente, foi um certo crescimento da comunidade de Calama. Há mais gente chegando, nesses últimos três anos, só que estão vindo das comunidades menores, à beira do rio, que não conseguiram resistir.
 
Haverá futuro para essa vida ribeirinha? O que será das margens do baixo Madeira daqui a dez, vinte anos, considerando o contínuo crescimento da capital, Porto Velho, o avanço da soja e a expansão da pastagem, logo atrás de uma sutil área de mata ciliar ainda preservada? Há muitas ameaças à preservação da floresta ao longo do rio.
 
A comunidade ribeirinha sente que seu tesouro de vida está sendo saqueado, como um vaso de barro rachado, perdendo água gota a gota, irreversivelmente.
Há gente que não consegue ficar longe de Calama, pelas raízes familiares, os laços culturais, os vínculos com o ritmo e a fartura da natureza. 
Outros decidem morar aqui por opção profissional, como o professor e o médico cubanos que trouxeram um novo respiro à comunidade.
Está bem quem tiver um emprego público: professor, enfermeiro, vigia, gari... Em regiões tão isoladas, essa é uma das maneiras para garantir a sobrevivência das comunidades e, com isso, a defesa da Casa Comum sem necessidade de saqueá-la.
 
Sou a favor de uma bolsa-trabalho coletiva, para todas as famílias que aceitem permanecer nesses territórios, com compromisso de organizar e assessorar um sistema interno de autogestão, que cuide de saúde, educação, assistência social, ordem e segurança, preservação do meio ambiente.
Na situação atual, é fácil para quem mora aqui e não tem recursos optar pelo garimpo no rio, despejando mercúrio na boca dos peixes que no dia seguinte estarão na mesa dele e de sua comunidade.
 
E qual o papel da Igreja, se for consciente e comprometida? 
Senti nesses dias a força da tradição religiosa, vivenciada no dia a dia da oração e das celebrações comunitárias: estreita relações, amarra as pessoas às suas terras (e rios), promove comunidade e autogestão, resiste à dispersão do espírito individualista. 
Também essa igreja de rua, que visita as casas, caminha em procissão, encomenda aos santos a colheita, a pesca e a proteção das enchentes, pode ajudar os ribeirinhos a preservar um pedaço de vida na Amazônia que não queremos perder!

Articulando as comunidades com dioceses, movimentos e instituições através da Rede Eclesial Panamazônica (REPAM), a Igreja é um ator importante no cuidado da Casa Comum a partir do estilo de vida das populações tradicionais que a habitam.

sabato 15 aprile 2017

Que País é esse?!

Reforma da Previdência e do ensino médio, terceirização e redução dos direitos trabalhistas, tentativas de flexibilização dos licenciamentos ambientais... por que tanta pressa em desmontar garantias conquistadas a duras penas pela sociedade civil organizada e os movimentos sociais?

Os Frades Menores do Brasil compararam a pressa do governo Temer em aprovar as reformas com a pressa de Judas para entregar Jesus aos poderosos da época.

Quem manda de verdade, atrás desses bonecos feitos políticos? Estamos sendo governados por pessoas que conquistaram o poder ilegitimamente, perderam todo tipo de credibilidade e, sem mais nada a perder, revelam descaradamente os interesses de quem os utiliza como marionetes.
“Falta autoridade moral aos atuais deputados e senadores”, comentaram os bispos de Minas Gerais.

A Igreja Católica nos últimos meses tem sido corajosa e profética, em dar nome a esse jogo sujo.
A CNBB disse em alto e bom tom que o Governo está escolhendo “o caminho da exclusão social”.
Criticou a manipulação de dados e a desinformação com que o Executivo quer nos fazer engolir a reforma da Previdência. Afirmou que há “informações inseguras, desencontradas e contraditórias”.
Não é verdade que a crise da Previdência se resolve sugando do bolso dos mais pobres!
Os bispos do Brasil indicam como alternativa auditar a dívida pública, taxar a renda das instituições financeiras, cobrar os devedores da Previdência e rever os incentivos fiscais para empresas que exportam produtos primários, como a mineração e o agronegócio.
Empresas públicas, privadas, fundações, governos estaduais e prefeituras devem à Previdência Social quase três vezes mais que o atual déficit do setor!

A Previdência é proteção social para os empobrecidos e tem um papel essencial na redistribuição de renda. O adiamento e as ameaças de redução do Benefício de Prestação Continuada (BCP), por exemplo, irão prejudicar sobretudo famílias em situação de extrema pobreza que cuidam de pessoas idosas ou deficientes.

As violações dos direitos humanos vêm de longe, nesse País que nas últimas décadas protegeu a autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira, sem atacar as causas estruturais da desigualdade social.
Em 2016, 61 camponeses e 138 indígenas foram mortos porque tentavam defender suas terras.
Trinta mil jovens foram matados, 76% deles eram negros. Nos últimos 10 anos, os assassinatos de mulheres negras cresceram do 54%.

Essa onda de morte é fruto da violência institucionalizada e de escolhas políticas que alimentam os conflitos pela terra e os recursos naturais, assim como a exclusão das “pessoas de sobra”, inúteis ao mercado. Ao mesmo tempo, essa onda se levantou ainda mais graças ao clima de impunidade e falta de ética instaurado sem vergonha alguma pela classe política atual!

Com o novo Governo, estamos passando de um contexto de violações sistematizadas de direitos a uma conjuntura ainda mais grave: o desmonte do Estado de direitos.

Nesse cenário, Papa Francisco provoca os cristãos: é urgente repensar a relação entre povo e democracia! As atuais formas de democracia se distanciam cada vez mais da vida dos povos, pelo domínio dos grandes grupos econômicos e mediáticos.
A resposta à crise desse sistema não pode vir de cima, depende da capacidade das pessoas de boa fé, dos movimentos sociais e da sociedade civil mobilizada e organizada.
Nós podemos, sim, “promover processos de convergência de milhões de pequenas e grandes ações, em cadeias criativas, como numa poesia”! Por isso, Papa Francisco nos chama de “poetas sociais”...

giovedì 6 aprile 2017

Ressuscitou mesmo?!

Para preparar nossa Páscoa, gostaria de fazer dialogar entre si duas mulheres que não se conhecem, mas que se inspiram reciprocamente e que nos ajudam a compreender melhor o sentido desses próximos dias.

Nancy é teóloga metodista, mãe de dois filhos, muito comprometida junto à Comissão Pastoral da Terra.
Durante essa longa Quaresma, no cenário preocupante do Brasil de hoje, ela escreveu um texto forte e provocador: “Este ano não haverá ressurreição”.
Nunca antes de hoje o cristianismo no Brasil foi tão aparecido, celebrado, massificado... mas toda essa pompa não vale nada! Não melhora de um centímetro a nossa vida em sociedade.
O fascismo e a barbárie convivem com cultos, missas e louvores. O cristianismo precisa descer do salto alto, largar a tribuna e o palco.
Num país tão violento e profundamente injusto, o fervor religioso é fator anestésico, ou até mesmo vetor de intolerância. “Fé de mais! Vida de menos”.

Em 2016, 61 camponeses e 138 indígenas foram mortos porque tentavam defender suas terras.
Trinta mil jovens matados, 76% deles eram negros. Nos últimos 10 anos, os assassinatos de mulheres negras cresceram do 54%. Somos o quinto país no mundo pelo número de feminicídios. A cada 25 horas é morta uma pessoa LGBT (nisso o Brasil é o primeiro país no mundo).
Com toda essa violência nos ombros, não haverá ressurreição – desabafa Nancy.  “Somos o túmulo, a falência da fé. Não é preguiça na busca de Deus: é vergonha, profunda vergonha”.

Como negar essa invectiva? Por que silenciar esse grito de raiva?
Passei dias inteiros perguntando-me como celebrar a Páscoa, até que reencontrei a senhora Neide.
Catequista, formou-se à escola da religiosidade familiar e depois iniciou a saciar sua sede, gota a gota, bebendo à teologia da libertação traduzida na prática de vida das pequenas comunidades cristãs, no tempo da ditadura militar.
Precisava inventar uma nova igreja, naqueles anos ‘70 em que à repressão do exército somava-se uma urbanização desenfreada e excludente nas periferias.

Ela fez isso por anos, junto às mulheres de um dos mil bairros excluídos da megalópole de São Paulo e ao lado do homem com que depois se casaria.
A equipe pastoral era composta principalmente por leigos e leigas; naquela época, mais que hoje, a visão de Igreja era horizontal e a comunidade era um espaço de partilha, crescimento humano e formação civil, a partir da leitura popular da Bíblia e da situação social.
Quando seu marido adoeceu, a vida inteira de Neide tornou-se uma catequese. Por 17 longos anos ficou ao seu lado, ele perdendo pouco a pouco antes a visão, depois a palavra, finalmente o movimento. Neide falava e cantava com ele, mesmo sem receber respostas.

Entre o silêncio desse homem e o espanto de Nancy existe uma ligação misteriosa, que tem a ver com a dor do mundo. A ressurreição não é uma resposta banal a esse mistério, um final feliz de conto de fadas, um prêmio de consolação.
Oferece sinais de ressurreição quem, como Nancy, continua a indignar-se. E quem, como Neide, continua a cuidar da vida, apesar do grande silêncio.

giovedì 22 dicembre 2016

Em fila, esperando o Natal



Nunca gostei de ficar numa fila.
Dá aquela sensação de perda de tempo, falta de respeito e humilhação de quem, por uma necessidade ou outra, precisa se submeter à desorganização ou desinteresse da instituição ou empresa de turno.

Nosso povo parece ter-se acostumado às filas. Nelas, perde-se a individualidade, o rosto e a história de cada um. Somos usuários, clientes, lista anônima de gente, em ciclos de vida e de consumo urbano que nos despersonalizam.
Cada pequena comunidade, de fé ou de luta (que afinal é a mesma coisa), é a tentativa de substituir a fila com o círculo, na prática da celebração, da escuta recíproca e da solidariedade com os últimos.

Nos dias passados, porém, fiz questão de entrar numa fila, e a saboreei passo a passo. Era a fila da despedida de dom Paulo Evaristo Arns.
O cardeal dos direitos humanos, defensor de muitos perseguidos pela ditadura militar, pobre com os pobres, traduziu a teologia da libertação em opção pelas periferias e as pastorais sociais.
Faleceu após 95 anos de vida apaixonada, lúcido e vigilante até o fim em defesa da democracia e dos pequenos.

Estava sendo velado na Catedral da Sé, e a fila começava lá no fundo da praça, para chegar devagarzinho até o altar. Uma fila em que todo mundo era igual: algumas pessoas de terno e gravata, mas muito mais gente simples. Podia-se imaginar as feridas da vida que alguns deles carregavam, e a gratidão pela existência de uma pessoa que os fez sentir defendidos e valorizados. “Nós existimos”, parecia gritar aquela multidão, e sua ocupação da igreja da Sé se tornava apelo, profecia, anseio por uma Igreja realmente dos pobres e em saída.

Um senhor negro, curvado pelos anos, com uma jaqueta de veludo marrom elegante em sua simplicidade estava também na fila, buscando homenagear dom Paulo. Fazia-se ajudar na caminhada por dois jovens, provavelmente seus netos, um à esquerda e outra à direita. Imaginei o tanto de história que esse homem carregava... Como é bonito ver dois idosos que se encontram, resgatando memórias de dignidade e de vida. E esperar que essa história se transmita aos mais jovens, na fila sem fim das gerações.

Eu também entrei na fila humildemente, pedindo a sabedoria, a paixão e o Espírito de dom Paulo. Essa longa linha de gente que atravessava a praça central de São Paulo mostrava quanto precisamos de testemunhas inspiradoras, coerentes e dignas. Num momento político de mediocridade, num contexto cultural de precariedade, escolhas voláteis e valores temporários, esse homem pequeno foi semeado como raiz no marco zero da cidade.

Colocar-se em fila, nesse caso, foi esperar um encontro, andar juntos na direção de uma luz.
É uma imagem bonita da preparação ao Natal, é o que desejo a cada amigo e amiga que caminha comigo.

domenica 4 dicembre 2016

Comunhão aos fiéis recasados



Maranhão, 2016.
Apesar de termos crescido muito, em estruturação do estado, melhoria da vida das pessoas e organização da igreja local, ainda estamos longe dos padrões de vida da Alemanha, dos EUA ou da Itália.
É daí que raciocinam e opinam os quatro cardeais que levantaram críticas públicas ao ensinamento de Papa Francisco sobre a relação da Igreja com os fiéis divorciados e recasados.

Um primeiro perigo de todo esse debate é reduzir a prática da Misericórdia às decisões sobre maior ou menor rigor quanto ao acesso aos sacramentos. É a tentação de discernir os princípios da Igreja a partir de dentro (“vamos primeiro arrumar a casa e organizar bem as regras internas, para oferecer aos de fora um ambiente sadio e ordenado”).
Eu estou com Papa Francisco: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos”.
Entendo, com isso, que também a reflexão moral e a interpretação dos princípios da Igreja deve sempre iniciar seu diálogo a partir daquilo que as pessoas e a vida “pelas estradas” apontam como maiores preocupações e interrogações do mundo de hoje. “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (GS 1), esse é o ponto de partida para o discernimento constante do Evangelho na Igreja.

Celebro quase todo domingo em pequenas comunidades do interior do Maranhão. Povo de muita alegria, resistência e fé. Não abaixa a cabeça, apesar de tanta injustiça que ainda engole no dia a dia.
Amargura profunda que se acumula nas entranhas.
Mas na hora da comunhão, na fila aparecem só duas jovens recém crismadas que ainda estão namorando, a ministra da eucaristia que nunca se casou e um casalzinho idoso que todos temos como grande e raro exemplo de virtude e sorte no matrimônio.
Muitas mulheres, com ainda mais crianças, não podem entrar na fila porque se casaram bem novas, o marido deixou elas por outras paixões, por covardia ou por ter migrado para longe em busca de trabalho e dinheiro, sem mais voltar.
Uma mistura de machismo e de pobreza estrutural acabou com esses embriões de famílias.
Quase todas as senhoras se juntaram a outro homem. Em diversos casos esse segundo enlace está funcionando, pelo menos um pouco. O homem não bate na companheira, seu trabalho na roça ou nas firmas garante um mínimo de sustentação, vez em quando ele também se aproxima à igreja (o terço dos homens agora parece uma porta de entrada para vencer a “vergonha de gênero” na casa de Deus e do povo!).

Desculpem essa descrição estereotipada, sei que há muitas nuances e também que caberia muito mais reflexão, mas aqui não temos esse espaço. Faço confissão pública que, em diversos casos, incentivei a comunhão para essas senhoras, teimosas construtoras de comunhão dentro de suas famílias.
Quando alguém manifesta desejo e necessidade de comungar à Eucaristia, solicitamos à comunidade cristã que conheça mais de perto sua situação familiar. Pedimos ajuda sobretudo aos ministros e ministras da Eucaristia, que visitam a casa daquela pessoa, dialogam sobre suas razões de fé e sua participação na vida da comunidade. Convidamos a pessoa para que celebre o sacramento da Reconciliação, que muitas vezes é também aconselhamento, restauração de uma vida sofrida que está buscando reorganizar-se, desabafo e busca de acolhida.
Verificamos junto à comunidade se, por algum motivo, a comunhão daquela pessoa numa celebração comunitária pode vir a criar escândalo, ou se seria compreendida como gesto de inclusão e compromisso coletivo de apoio na reconstrução da família dela.

Me parece uma prática pastoral respeitosa, atenta e em linha com o “Princípio Misericórdia”, ao qual eu por primeiro sinto necessidade cotidiana de me converter. Porque seguir as regras e sua aplicação imutável é mais fácil e instintivo.