Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

sabato 14 dicembre 2013

Qual é teu nome?

“Qual é teu nome?” – pergunta Jesus ao demônio que tinha se apoderado de um homem na cidade de Gerasa. Numa outra ocasião, na sinagoga, é o próprio demônio que tenta apavorar Jesus, dizendo-lhe publicamente: “Eu sei quem você é: o Santo de Deus!”

Parece que conhecer o nome de uma pessoa é como possuí-la, poder dispor dela.
O nome é a essência de um indivíduo ou de uma localidade. Eu faço questão de perguntar às crianças quem escolheu o nome delas, e por quê.
É importante que cada pessoa conheça sua origem. E o nome de um local contém toda sua história.

Quando trabalhava no movimento por moradia na zona leste de São Paulo, a ocupação urbana em que vivíamos há vários anos tinha nomes bonitos visíveis em cada esquina: “Rua dos Trabalhadores”, “Rua do Povo”, “Rua da Árvore”, “Rua padre Ezequiel”... Cada nome recolhia em si símbolos e testemunhos de luta e resistência.
Da noite pro dia, de repente, a administração municipal trocou todas as placas substituindo-as com nomes desconhecidos de personalidades japonesas. Nada contra nossos irmãos do Extremo Oriente, mas foi a pior violência contra as raízes e a cultura de nosso povo. E visava enfraquecer sua resistência e organização.

Hoje vivo no município de Açailândia, Maranhão profundo. E testemunho de novo o ataque à essência da vida e da história.
Às portas da cidade está escrito, em caracteres cubitais, “Bem-vindos à Cidade do Aço”. Que saudade dos açaís que batizaram nossa cidade pouco mais de trinta anos atrás! Arrancados pelo latifúndio e as siderúrgicas, tornaram-se espécie rara.

Em compensação, cartazes e outdoor nas avenidas principais ressaltam com insistência que estamos na “Cidade que mais cresce no Maranhão”.
A propaganda, no melhor dos casos, é sempre meia verdade. A siderurgia e o ciclo de mineração nos permitiram, de fato, crescer. Faltaria porém complementar: “Açailândia cidade que mais cresce, que mais separa e menos partilha”.
A riqueza traz egoísmo, precisa cancelar a memória do passado comum e impõe sua própria narração da história. Camufla seus impactos tentando criar novos significados, sugerir outros valores e distorcer nossos sonhos.

Açailândia tem um bairro em processo de luta, de afirmação de sua dignidade e de fuga da poluição.
Seu nome é Piquiá. Temos orgulho desse nome, que desponta alto como uma castanheira na floresta.

O povo de Piquiá também se levantou em busca de justiça. Suas denúncias chegaram a comover muitos no Brasil e no mundo.
Finalmente, estamos a um passo do reassentamento: um novo bairro, planejado junto aos moradores, virá a ser construído numa área livre da poluição.

Dessa vez, caberá à comunidade (e não aos “patrões da história”) dar o nome ao novo bairro. Nesse nome, se condensará toda a caminhada de resistência e toda a carga de esperança de uma nova vida, já concebida e agora quase pronta para nascer!