Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

domenica 21 dicembre 2014

Natal: pôr casa no meio da humanidade

No último domingo antes do Natal, a Palavra de Deus apresentou-nos um contraste.
O rei Davi decide de construir uma casa para seu Senhor. Ele imagina um templo deslumbrante, sinal da autoridade de Deus e do rei, na capital do poder religioso e político, Jerusalém (seu sucessor, Salomão, poucos anos depois irá concretizar esse projeto). A reação do Deus de Abraão, Isaque e Jacó é forte: quem é você para construir uma casa para mim?

No Evangelho, o projeto inverte-se: é Deus que pede permissão a uma moça da periferia galileia para “pôr a sua casa” no coração da humanidade, através dela.

Se olhar para trás, nesse intenso ano de caminhada missionária no norte do Brasil, vejo esses dois extremos em nossa vida comboniana.

Em muitas situações estamos nos comprometendo para “construir uma casa” ao Senhor e às pessoas. O projeto de reassentamento do bairro de Piquiá de Baixo, em fuga da poluição, continua intensamente, mesmo se com passos bem mais lentos que a vida fugindo rapidamente das mãos de quem mora ao lado das siderúrgicas. Há sete anos estamos mergulhando num projeto complexo, prolongado e de extrema responsabilidade.

Muito de nosso compromisso missionário tenta combater as causas estruturais da violência profunda sofrida em nossos territórios. Os frutos são o desmatamento, o trabalho escravo, o saque dos bens comuns, o êxodo rural e a perda do patrimônio cultural das populações indígenas, dos descendentes afro, dos trabalhadores do campo... As sementes são a imposição dos grandes projetos de exportação das matérias primas ou a fome de energia produzida a baixo custo para os interesses do capital industrial, às custas das populações locais. Ou, ainda, o modelo de consumo que está hipnotizando nossas comunidades, provocando violência, desejo e competição.

Para trabalhar à raiz esses desafios e aradar o duro terreno de uma estrutura social e econômica profundamente injusta, nos dedicamos muito, nesse ano, a outros projetos de amplo respiro: a rede Justiça nos Trilhos cresce em sua organização e, ao mesmo tempo, em sua capacidade de se aproximar às comunidades mais prejudicadas pela duplicação do imenso sistema de extração e exportação do minério de ferro.

Em paralelo, nasceu durante esse ano a Red Eclesial Panamazonica, um tecido de dioceses, organismos eclesiais e pastorais sociais que pretendem reorganizar, articular e potencializar o compromisso da igreja em defesa da vida e dos territórios amazônicos. Nós combonianos temos a honra e a responsabilidade de participar desse processo desde o começo.

Além disso, um longo processo ‘de base’ desembocou, em dezembro, no segundo encontro “Iglesias y Minería”. Reuniram-se quase cem coordenadores leigos e religiosos/as comprometidos em América Latina para enfrentar as graves violações provocadas pela indústria mineira no continente inteiro. Definimos as linhas de trabalho e articulação para os próximos dois anos, tentando incidir cada vez mais na linha pastoral de nossos bispos e suas conferências episcopais. 
A igreja deve manter-se fiel a sua posição profética em defesa da vida, com a coragem de denunciar o absurdo de um sistema que maximiza o lucro e destrói as culturas, as comunidades, o meio ambiente e as perspectivas de futuro.

Enfim, estamos construindo muitas “casas” que esperamos sejam apreciadas pelo Senhor e nas quais desejamos muito que ele venha habitar. Também os combonianos no Brasil têm unificado, há pouco, suas duas províncias e agora são um grupo de mais de oitenta missionários presentes em diversos territórios, com muitos desafios diferentes para enfrentar e com a necessidade de definir um projeto comum eficaz e profético.
Vem, Senhor Jesus: vem inspirar com seu Espírito todos esses espaços em que, sinceramente e sem as pretensões do rei Salomão, esperamos que o Senhor “se sinta em casa”!

Mas a Palavra nos provoca: não é ainda esse o coração da missão. Não faz sentido construir espaços em que “justiça e paz se abraçarão”, se não dedicamos tempo e atenção às sementes de vida que o próprio Deus, antes de nós, cultiva nas pequenas coisas de cada dia.

Esse ano me provocou muito, nesse sentido.
As responsabilidades e as diversas necessidades me afastam cada vez mais da vida cotidiana da comunidade missionária de Piquiá. 
Devo agradecer, então, o testemunho silencioso e fiel de pe. Ângelo, a teimosia de ir. Antônio no enfrentamento cotidiano das contradições de nossa cidade, a imersão rápida e atenta às pessoas do recém-chegado pe. Massimo, a dedicação pastoral e o testemunho de família de Valentina e Marco (que escolheram dar à luz aqui a nova vida que conceberam!), a competência e amizade de João Carlos e Dida, o outro casal de missionários leigos em Açailândia, o companheirismo de Danilo, advogado popular que há quase cinco anos trabalha junto conosco.

O espírito de família comboniana, que une religiosos, leigos e leigas, como Comboni já fazia 150 anos atrás, é talvez um dos pequenos espaços em que o próprio Deus pede permissão para nascer.
Outros desses espaços fecundos são os encontros cotidianos, o trabalho comunitário junto às famílias das diversas comunidades, o acompanhamento silencioso e impotente de uma nossa liderança doente terminal... Enfim: o Deus das pequenas coisas, que nesse ano bateu à minha porta “aparando-me e podando-me” para não esquecer que, mais de todas as estruturas, importam a humanidade, o respeito e amizade.

“O Senhor te anuncia que fará uma casa para ti”, diz o profeta ao rei Davi. Creio que essa seja a síntese: sentirmo-nos em casa com o Deus da Vida e com amigos/as a caminho conosco.
Seja comprometidos em grandes projetos ou contemplando o Deus das pequenas coisas, nossa vocação missionária é feliz porque nos sentimos em casa e porque estamos cuidando da casa das relações entre nós e com a criação inteira.


Que nesse Natal o próprio Deus se sinta em casa com cada um/a de nós, sinceramente comprometidos/as para que tudo tenha vida, e vida em abundância.