Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 30 settembre 2009

Chamavam-se Maria

Conheci Maria Bernardina no hospital. Custava a respirar, exalando lentamente, um atrás do outro, os seus 95 anos.
Poucos dias depois ligaram para que eu abençoasse o corpo dela, antes da despedida. Chego e encontro somente três pessoas ao seu redor... poucas demais, pelos muitos anos em que amou e serviu!
Aproveito para escutar a história dessa mulher: foi casada aos 12 anos com um homem adulto, escolhido para ela pelos pais. Máquina de sexo e filhos, Maria logo pegou sífilis.
Concebia e paria uma criança atrás da outra, mas por causa da doença elas nasciam deformes, com graves problemas, e morriam logo nos primeiros dias.
Por quinze vezes foi assim, até encontrar um médico que teve mais cuidado e competência; graças a Deus e a ele, os últimos cinco filhos sobreviveram.
Maria amava rezar o terço: acho que repassava as 'Ave-Maria' como as gotas de vida e de dor de seus vinte partos.

No mesmo dia, tarde à noite, mais uma ligação. Morreu Maria Luiza, é preciso que um padre venha para 'batizá-la' (para os pobres realmente a fé é o único sustento, mesmo se simples, popular, talvez ingênua...)
Alcançar a casa de Maria Luiza é difícil, no escuro da rua estreita e escorregadia, na periferia da cidade. Algumas tábuas no chão tampam os buracos do quintal, um sofá arrumado às pressas fora de casa recebe com carinho as visitas de quem não couber dentro de casa.
Lá na porta muitos abraços... mas quanta tristeza quando, de repente, abrindo-se o espaço, dá para ver no meio do quarto silencioso o pequeno caixão cor de rosa...
Nove meses na barriga da mãe, tempo de uma longa espera em que se cultivam sonhos, projetos, expectativas. Logo depois, o trauma de horas de hospital: a pequena parece não querer sair, os médicos demoram a fazer o cesariano.

Cada cirurgia custa tempo e incomoda, há muito percebemos essa resistência dos médicos: muitas mães ao nono mês preferem correr para o outro hospital, 70 Km mais longe. O perigo é que nossa maternidade, em lugar de ser o berço da vida, se torne uma usina de morte!
Às vezes imaginamos que os médicos se conformam, “pois os pobres não levantam a voz... e, no caso, têm como rapidamente fazer mais um filho”.

Chamavam-se Maria.

Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonhos sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida.

(Milton Nascimento)

mercoledì 16 settembre 2009

O que passa em teu coração?

Comentário ao trecho de
Mc 9, 30-37


Às vezes ficamos por horas na parada do ônibus, na fila do banco ou do posto de saúde; nesses casos, me invade a tentação de passear pelas cabeças e os corações de todas aquelas pessoas juntas no mesmo lugar.
O que estão pensando? O que estão sentindo?

Com certeza deve ter um emaranhado de paixões, projetos, medos, fragilidades, esperanças... muito disso permanece fechado dentro de cada indivíduo, inexpresso e confuso.

Numa certa altura, no evangelho de Marcos, Jesus sente a necessidade de isolar-se com seus amigos e amigas e aprofundar as relações dentro do grupo, com uma releitura dos acontecimentos vividos até o momento.
Ele não queria que ninguém soubesse para onde iam, pois era preciso dar um passo mais fundo nas motivações que animavam cada companheiro/a de caminhada.
Isso também se faz necessário para cada um: exigir de nós mesmos o tempo e as condições para sair um momento da história de vida e de luta e nos perguntar: “Por que estou fazendo tudo isso?”

Marcos também para e observa o grupo que caminha, descrevendo o que cada pessoa sente e pensa em seu profundo.
De um lado temos Jesus, pressentindo o futuro, intuindo para onde leva sua radicalidade de atitudes e palavras. O mestre tem uma visão histórica e ampla da situação, sabe interpretar os eventos.
Em seu caminho não perde a sensibilidade do dia-a-dia, a atenção para com os companheiros, mas também mantém os olhos fixos sobre o horizonte e enxerga com clareza os objetivos e o itinerário necessário.
Orienta-se no labirinto das diversas possibilidades, compreende o sentido de suas escolhas e define o que quer na vida, até o fim. Sabe que, se for fiel aos valores assumidos desde o começo, a morte não será a última palavra: “o Filho do Homem ressuscitará”. Esse estilo de vida, esse jeito de ser radicalmente humano e decidido não pode morrer: vai ser entregue em herança aos discípulos.

Já, os discípulos... Marcos presta atenção também ao que passa no coração deles, durante a caminhada. Os pensamentos deles são bem mais limitados e de curto alcance: “quem é o maior entre nós?”
Há um abismo entre a visão lúcida, cheia de esperança de Jesus e as “curtas paixões” dos discípulos. Eles procuram interesses instantâneos, não orientam suas escolhas a partir de valores maiores, buscam sucesso, apreciação, crescimento rápido e retorno imediato.
Que contraste! Não é contraste entre Deus e os homens e mulheres: são duas propostas diferentes de conduzir nossa caminhada histórica, bem aqui na terra!
Cabe a nós construir passo a passo uma vida pautada por grandes horizontes, alimentada por uma leitura sábia e experiente da existência, ou... deixar-nos conduzir pelas curtas paixões que satisfazem somente a fome de cada dia.

Às vezes, olhando para a invasão do dito 'progresso' de nossas regiões no norte do Brasil, vejo quanto isso se parece ao pensamento pobre e imediato dos discípulos: suas palavras de ordem são crescimento, sucesso, lucro, mais e mais. Jesus nos alerta que não é esse o caminho que garante a vida e a ressurreição.

giovedì 10 settembre 2009

Missionário porque?

Conhecia um outro Brasil: passei quatro anos na megalópole de São Paulo, vivendo na periferia com o povo simples, sofredor, vítima da violência urbana, do medo e do desemprego. Sonhei com as Comunidades Eclesiais de Base nos bairros, trabalhei com crianças e adolescentes em conflito com a lei.
O coração de um missionário é populado de gente e de histórias; quando chegou o dia de sair e deixar o povo caminhar, algo também se rasgou no coração. Por essas feridas passa a saudade, sentimento bonito e dolorido que mistura memória, amizade, distância, desejo de re-encontro, sonho, aprendizado a partir dos erros passados e... vontade de recomeçar, talvez com novos erros!
Deixei o Brasil com a promessa de voltar logo; e assim foi.

Dessa vez, porém, a destinação era bem diferente: Açailândia, profundo interior do Maranhão, no nordeste desse País-Continente. As perguntas se amontoavam na cabeça: o que vou encontrar lá? Estarei à altura das expectativas? O povo tem o mesmo jeito dos meus amigos do sul do Brasil?

Já ao chegar tive a primeira resposta: dez horas de trem quente e supercheio viajando com dezenas de paradas de São Luís até Açailândia. Quilômetros e quilômetros de chão livre, grandes fazendas, povoados bem pobres com casas de barro e telhado de palha: aqui não é São Paulo!
Na estação, o por-do-sol esticava as sombras de poucas plantas magras e altas: o trem me descarregou num lugar deserto, afastado da cidade. Desci e parei, sozinho. Essa é minha nova terra; silenciosa, vasta e misteriosa, carregada de perguntas que senti pesar sobre mim todas de uma vez. “Missionário: você veio para quê?”
É a pergunta que continuo me repetindo dia após dia: o que significa, hoje, aqui, ser missionário?

Aquela terra já falava em seu silêncio sofrido, me dei conta disso poucos meses depois.
Uma região que perdeu a palavra e a identidade: era o portal da Amazônia, mas toda árvore acabou derrubada no chão para deixar espaço ao gado; ainda tem, pontuando os pastos de capim, muitos tocos enormes de árvores ceifados. Só fica o cheiro de queimado e um silêncio ensurdecedor: “O que fizeram da irmã natureza?” - parece perguntar...

Por isso, de lá para cá, nos esforçamos de construir uma comunidade cristã atenta à defesa dos direitos humanos, especialmente o direito ao meio ambiente.
Tentamos ler e proclamar o evangelho mostrando quanto ele nos convide à preservação da vida. E toda vez que anunciamos alguma coisa, estamos também denunciando outras, às vezes criando conflitos.
Uma pergunta grande desde essas terras feridas, por exemplo, é a respeito do desenvolvimento: o que significa crescimento? Que tipo de progresso queremos? O que desejamos e vamos entregar para os nossos filhos?
Ao fazer essa pergunta, nem sempre somos bem recebidos: ao denunciar a violência da maior mineradora de nossa região, a Vale, fomos caluniados por artigos de jornais evidentemente do lado da grande multinacional.
Em alternativa, há a estratégia cativante das firmas que querem vender bem sua imagem: quando começamos a criticar as siderúrgicas de nossas regiões pelo impacto ambiental que causam, logo no mesmo dia o dono nos ligou e convidou para conversar com ele, se justificar, explicar que está fazendo todo tipo de esforço...
Frente a esses conflitos, aprendemos que não pode-se avançar sozinhos. Está no DNA de um missionário comboniano: a transformação acontece e o evangelho 'pega' somente onde há protagonismo popular, onde todos e todas se sentem parte de um processo lento de regeneração da vida, das relações.
Assim, o missionário seria com a agulha que passa e repassa um sutil fio de costura entre as pessoas e os grupos, caminhando de uma comunidade para outra, fortalecendo lideranças, unindo a fé com a vida. Um fio de costura que atravessa e une a necessidade de sagrado, de consolo, de paz interior e relação com Deus com a luta apaixonada para que esse mundo seja 'a medida do sonho de Deus'.

Foi o que aconteceu com a comunidade de Califórnia, um assentamento de camponeses que tomaram a terra de um grande fazendeiro que não tinha posse legal. Os assentados conservaram o nome da fazenda Califórnia, talvez para não cancelar o marco simbólico da colonização de nossas terras. Mas outra colonização estava prestes a chegar: pouco depois de construírem suas casas e cultivarem a terra, chegou mais uma vez 'a gigante', a Vale, e instalou bem atrás do povoado 72 fornos industriais para produzir carvão e alimentar as siderúrgicas.
O conflito passou da terra para o ar: de nada adianta possuir o chão, se alguém mais controla e polui o ar por cima dele!
De repente, como missionários, fomos desafiados a acompanhar essa comunidade não mais somente com a missa e a catequese: a urgência e a necessidade do povo era outra.
Nosso testemunho do evangelho passava por atitudes de parceria na luta contra gigantes (logo nos lembramos daquela passagem profética que garante que todos os poderosos têm os pés de barro... e mesmo se ainda não conseguimos derrubá-los, isso nos dá esperança e resistência!).
As nossas celebrações começaram a ser bem mais concretas, na homilia e no diálogo com o povo trazíamos ao altar os problemas, as derrotas e as vitórias no confronto com a grande multinacional. As pessoas sentiam que Deus estava do lado delas e tomavam coragem (as vezes até demais, como naquele dia em que, não aguentando mais, atearam fogo em algumas toras de eucalipto da empresa e bloquearam a rodovia!).
Assim, costurando a oração e a luta, os pequenos conseguem se fazer escutar: no caso de Califórnia, a empresa fechou metade de seus fornos para limitar a fumaça e não quebrar as relações com o povo.

Conseguirão essa rede frágil e esses fios sutis de costura e resistência aguentar o impacto e a pressão dos poderosos?
O sonho de Deus vai se traduzir numa realidade de maior respeito da vida, de cuidado e de ternura entre nós e com a natureza?
São as perguntas de cada manhã e de cada noite, que um missionário entrega ao Pai com humildade e grande esperança.