Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

sabato 18 aprile 2015

Pontos de vista

Desde cima...
Boa noite, sou o presidente do Sindicato das Indústrias de Ferro.
Desde quando montaram esse Programa da Grande Carajás, a gente respirou fundo. Era uma oportunidade incrível para nós! Prometemos montar, ao longo do corredor todo, mais de 10 polos siderúrgicos. Na verdade era quase como uma sedução para convencer governos e a população a acolher esse enorme projeto que depois, em sua maior parte, serviria só para a exportação.
Mas um polo, aliás, dois, conseguimos montar. Um em Marabá, outro exatamente em Açailândia, que não entendo porque está sendo comentado mundo afora. Afinal, a gente está fazendo nosso trabalho.
Imaginem: além da ferrovia, tinha a BR que ia para São Luís e uma lagoa bonita e grande – água para esfriar os nossos fornos. Pensamos: "É onde vamos instalar nossas siderúrgicas". É verdade que havia algumas casas ali, mas eram poucas e também a gente ia demonstrar que chegaram depois.
E aí montamos cinco plantas siderúrgicas com catorze altos fornos. Em seguida, aos poucos, fomos crescendo – porque o povo nos pedia isso. Construímos três usinas termoelétricas. E também uma fábrica de cimento. E também agora uma acearia, que ainda está em construção. Naturalmente, é uma oportunidade para nós, mas também é uma oportunidade para o nosso povo.
Aquele povo de Piquiá podia encontrar trabalho. A gente dá trabalho para três mil pessoas, sem contar os terceirizados. Aliás, a única forma de manter a economia rodando na região inteira é a mineração e a siderurgia. Sem isso, não haveria alternativa. Aliás, conosco não há alternativas possíveis.
Além do trabalho, a gente permite que essas populações se desenvolvam. Não é um acaso que Açailândia foi reconhecida como uma das vinte cidades que mais estão crescendo no Brasil. Alguns acham que fui eu que encomendei o artigo, mas enfim.
O desmatamento, como vocês viram, já terminou. Até porque a floresta terminou. Começamos a plantar eucalipto, quer dizer, reflorestamos. Assim estamos conseguindo injetar créditos de carbono, de forma que nosso plantio está reduzindo a poluição, porque o eucalipto produz oxigênio. É verdade que depois queimando o eucalipto nas siderúrgicas eles produzem CO2, mas antes eles produziam oxigênio. Então a gente balanceou. Nosso reflorestamento está trazendo equilíbrio.
Além disso, o trabalho escravo, que foi muito criticado, já terminou – e inclusive a gente montou um instituto, o Carvão Cidadão, que é um instituto sério que fiscaliza as siderúrgicas. É composto por siderúrgicas que fiscalizam as siderúrgicas. Demonstramos que estamos fazendo um bom trabalho.
Fazemos também o monitoramento da poluição, chamado de "automonitoramento" – porque são as siderúrgicas que monitoram a poluição das siderúrgicas. E a gente demonstra que não há poluição.
Outra crítica que nos fazem é que trazemos pouco trabalho, mas agora com a acearia, a gente está acrescentando qualidade aos nossos produtos e multiplicando o trabalho.
É verdade que recebemos benefícios como isenções fiscais. Recentemente, no município de Açailândia, conseguimos aprovar uma lei que baixou de 2% para 1% de imposto de ISS. Temos alguns favores, mas é para poder servir melhor a própria população.
Recentemente nos acusaram também de estar trabalhando com as licenças de operação vencidas, mas quem nos acusa não pode provar isso porque a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, graças a Deus, não encontra todas as licenças e demora em entregá-las. Tem advogados que estão pedindo repetidas vezes. Até ativaram o Tribunal de Justiça para conseguir essas licenças, mas graças a Deus até agora ninguém se mexeu para dar uma posição sobre elas.
Por último, é verdade, temos que reconhecer, há alguns danos colaterais que são esses moradores que, como disse, a maior parte chegou depois – e por conta das nossas firmas. Mas o que nós queremos é nos livrar rapidamente desse problema, tirando esse povo daí.

Desde baixo...
Boa noite, sou o presidente da Associação dos Moradores do Piquiá, meu nome é Edvard Dantas Cardeal.
Quando cheguei ao Piquiá, havia uma lagoa muito bonita na região, cheia de açaís. E não tinha ninguém morando. Depois, chegaram muitas famílias. Foi um dos primeiros povoados da cidade de Açailândia. A primeira escola de Açailândia está onde tenho agora minha pequena casa, desde os anos 70.
Só 15 anos depois chegou a ferrovia e 18 anos depois chegaram as siderúrgicas. Já havia a escola – o que significa que havia um número de crianças suficiente para manter uma escola viva.
Só que quando eu vi esses monstros crescendo e ninguém pedindo minha autorização – ou pelo menos, ninguém me informando a respeito do que ia acontecer –, eu caí em pânico porque não sabia o que fazer. Como me contrapor? O monstro do investimento estava se colocando como um meteoro que cai sobre nossas cabeças e eu não tinha forças para barrar.
Mas aos poucos percebi que eu poderia contar com a ajuda de alguns aliados. Fui bater à porta do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia, depois à porta da Paróquia, depois procurei a Rede de Justiça nos Trilhos, depois outros aliados que chegaram.
E aí o corpo que começou a me ajudar, que começou a sustentar, a mobilizar o povo à minha volta e a refletir conosco sobre as alternativas cresceu. Fizemos um referendo perguntando a todos os moradores, 380 famílias à época: "O que a gente quer? Preferimos lutar para barrar essa poluição, permanecer aqui e tentar bloquear essa poluição? Talvez reduzir as emissões, colocar filtros ou melhor ainda, bloquear o britador que vai moendo os descartes da siderurgia para produzir cimento e cria uma poeira danada? Ou, pelo menos, tirar esses depósitos de dejetos que, quando o vento chega, descarrega tudo por cima de nossas casas?".
Mas o povo preferiu não, porque estava cansado de 20 anos de luta contra essa poluição. Disseram, a grande maioria, cerca de 90%: "Vamos embora daqui. Mas vamos embora coletivamente, não vamos aceitar uma pequena indenização separadamente e cada um que se vire. Nós somos uma família. Afinal, nos conhecemos todos, todos chegamos mais ou menos no mesmo período. Então vamos lutar pelo reassentamento coletivo".
E depois fomos fazendo amizades, né? Algumas que estão aqui, o pessoal da Usina, fomos nos aliando com pessoas de outros movimentos populares e também fomos percebendo que haviam outras instituições do direito – o Ministério Público e a Defensoria – que podiam nos ajudar.
Fomos ativando todos os canais, para tentar fazer pressão. Alguns de nós estavam enraivados e chegamos a processar uma das siderúrgicas. Aquela que está bem do lado do quintal das nossas casas. Vinte e uma famílias entraram com processos individuais e já conseguiram a primeira condenação no Fórum de Açailândia. Vinte e uma decisões do juiz em nosso favor.
Mas as siderúrgicas sabem que o processo vai demorar muito e vai subir ao Tribunal de Justiça – e lá, tenho a impressão de que eles têm uma boa influência. Mas nós não vamos desistir. Vamos acompanhar esses processos.
Em paralelo, o reassentamento continua, a partir de uma negociação extra-judicial. E nessa negociação, a gente foi pedindo e conseguindo, passo a passo, pequenas vitórias.
Tínhamos algumas metas. Primeiro, conseguir uma nova terra. Onde vamos nos reassentar?
Fomos estudando e oferecemos cinco condições ao Ministério Público. Tinha que ser um terreno ao lado da BR – porque nós vivemos ao lado da BR. Tinha que ser próximo à cidade, porque não queremos ficar nos cafundós, onde se costumam colocar as pessoas descartadas. Tinha que ser grande o suficiente para deixar todo mundo no mesmo local – não aceitaríamos dividir, nem pela metade o nosso povo. E tinha que ser um terreno regular em sua documentação, pois queremos a propriedade. Então, assim, o Ministério Público foi selecionando. Escolheu.
Lutamos para desapropriar esse terreno, foi uma luta dura e agora não tenho tempo para explicar para vocês, mas tivemos que pressionar bastante porque também a Justiça, vocês sabem, né? Pra que ela se mova... Aliás, tínhamos feito um camisa com os dizeres: "As vacas têm para onde ir, mas o povo do Piquiá não". Porque naquele terreno lá, havia uma pastagem. E, poxa... pastagem tem pra caramba. Essa é a cidade que tem o maior gado leiteiro e de carne do Maranhão. Então dava para levar as vacas pra outro lugar e nos colocar lá, né? Fomos com essa camisa no Tribunal de Justiça, até quando foi finalmente sentenciada a desapropriação.
Tivemos que fazer muitas outras brigas para conseguir uma indenização que fosse ao mesmo tempo justa e não especulasse sobre o nosso terreno. Só no mês passado terminou essa odisseia jurídica. Graças a Deus. Não aguentávamos mais ver essas leis e elas também não aguentavam mais ver a gente.
E agora estamos lutando por um outro processo grande. Conseguimos o terreno e agora precisamos viabilizar a construção coletiva do nosso bairro. Mas essa é uma outra história, que vou deixar para os meus amigos da Usina contarem.

Transcrição de uma fala durante encontro realizado na sede da Usina CTAH em 05 de outubro de 2014. Fotos: Marcelo Cruz.