Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 30 giugno 2010

Os invisíveis

Já tinha visitado o lixão de Açailândia, na esperança de não encontrar crianças e humilhação. Lembro que ficou marcante dentro de mim o cheiro e a fumaça densa, dentro da qual se escondiam catadores disputando o que os caminhões descarregavam a cada momento.

Voltei para casa com aquele sentimento de impotência que há muito tempo é companheiro fiel: mais uma causa que deveríamos assumir. Aqui estão realmente ‘os últimos’, anel mais fraco de uma cadeia degenerada de produção que descarta tudo em função de consumir mais.

Em Açailândia estamos trabalhando para o respeito ao meio ambiente e lutando para limitar o saque dos recursos naturais, como minérios e mata virgem. Esses nossos irmãos encontram-se ao outro lado do funil, amassados debaixo do descarte, derradeira etapa do consumo de coisas e vidas. A própria Cáritas está levando adiante iniciativas para a erradicação dos lixões, potenciando a organização dos catadores e promovendo a coleta seletiva como atuação de desenvolvimento socioambiental.

Mas nós não temos pernas para isso também, pensava. Até que nosso carro teve um acidente exatamente no lixão e minha bolsa desapareceu, com documentos e dinheiro.
Tive que voltar logo para lá, dessa vez com intenções mais egoístas, prometendo uma recompensa a quem me devolvesse a identidade.

De novo, os invisíveis fizeram irrupção dentro de mim. Encostei-me a um primeiro barraco, já dentro do lixão, para conversar com um senhor; ele me pediu se podia dar carona à sua mãe até o depósito de lixo principal, uns quilômetros mais à frente. Saiu do barraco uma mulher idosa e coxa, cheia de moscas. Eu não conseguia conversar: as moscas entravam nos olhos e na boca da gente. A mulher, acostumada e tranqüila, subiu no carro com sua carga ambulante de insetos e mandou-me seguir em frente.

Dona Maria das moscas trabalha há 19 anos no lixão. Mas as pernas não têm mais força suficiente para continuar, precisa da ajuda dos filhos e netinhos. Há vítimas escondidas nesse ritmo louco de consumo... é fácil para mim também esquecer disso. Esse tanto de moscas vêm me perturbar para nunca mais me esquecer de nenhuma dessas pessoas.
Pode ser que a gente trabalhe focando mais a fonte desse ciclo devastador: estamos no cheio da resistência contra o saque de recursos, para fechar a hemorragia das veias abertas da América Latina. Mas sabemos e sentimos que nossa luta é em nome de todas essas vítimas, e por isso nunca deve amolecer!

Deixei dona Maria e voltei matutando tudo isso. Mas ainda uma surpresa devia semear ternura e admiração em mim: um casal de catadores, subindo a estrada de chão com sua motinha, parou-me de repente. “Padre, é o dia todo que o estamos procurando!”
Encontraram minha bolsa, guardaram-na em casa e correram atrás de mim para devolver tudo, inclusive o dinheiro! Chamam-se Silma e Sérgio, têm quatro filhos vivos e um que tombou atropelado... provavelmente enquanto ia trabalhar na coleta com os pais.
No meio do lixo, dessa vez fui eu quem coletou algo precioso: pequenos gestos de honestidade como esse, brotando no meio da miséria, alimentam intensamente minha luta!

Assista ao curto "Ilha das Flores"