Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

martedì 17 marzo 2015

Ana Paula...

Cara Ana Paula,
Quantas vezes discutimos, na porta da casa paroquial à noite, nas vielas da prainha do Jacu, na casa de sua segunda mãe, a Dirce, ou junto ao padre Pedro que ainda hoje pergunta por ti...

E quantas vezes voltávamos a nos procurar, quase com saudade...

Conversar contigo era sempre muito gostoso: com seu espírito irreverente e rebelde, você enxergava o mundo sem enfeites.

Dizia o que era para dizer, à sua maneira desmascarava a hipocrisia de todos nós. 
Também na igreja: lembro ainda, algumas vezes, você sentada no banco esperando que a missa terminasse, comentando em voz alta durante a celebração, fazendo questão de comer aquela hóstia que lhe parecia um prêmio para poucos. Você também merecia!

Todos, eu sua gíria colorida, ganhamos um apelido seu; você fazia um raio-X de nossas posturas e palavras e sua existência breve foi tocando, uma a uma, todas as contradições de nossa sociedade.

Viveu sem raízes, porque assim era seu coração, mas também porque a terra que soubemos lhe oferecer era dura e árida. Mesmo assim, nessas tantas periferias que você habitou, nos mostrou que podem brotar várias flores.

Celebramos seu aniversário num barraco, pouco depois da enchente da Prainha do Jacu; ao redor do bolo, naquele dia, até eu me senti em família. 

Tão grande era seu descuido por você mesma, quanto a preocupação e o carinho por sua irmã mais nova, ainda mais agora que ela tem um filhinho... Creio que você também teria sido uma boa mãe, sabe?

Foi por causa de você que fizemos amizade com seus colegas andarilhos. Tomando chuva juntos, à beira da estrada, uns se recomendavam aos frágeis cuidados dos outros...

E lá no lixão era você nossa ‘informante’, para saber como estava o ‘Coca’, ou a ‘Vozinha’. Vez em quando havia briga, por lá, mas é incrível quanto os trabalhadores e trabalhadoras do lixão se lembravam e preocupavam por ti.

A mais bela flor que brotou onde você passou foi a solidariedade de dona Arlete. 
Seu barraco não fica longe da entrada do lixão, o marido trabalha lá o dia inteiro, ela ajuda no final de semana e cuida dos dois filhos o tempo todo. Espaços apertados, em casa, esquivando as goteiras do telhado furado, os pintinhos, gatos e o alegre quati que correm no meio das pernas. 
Não havia mais, para você, um lar onde se proteger, nem família e nem mais forças para enfrentar a vida. Magra e sem fôlego, confusa e apavorada. 
Arlete esticou mais uma rede, por cima da cama da filha, e você ganhou uma nova irmã por poucos dias. Ela também chama-se Ana Paula, continuará a viver em seu nome...

Existe sim, a solidariedade entre os pobres, e não tem medida nem interesses. Nasceu no lixão, tem um perfume que nossa sociedade descartou e que não se compra nas lojas do centro.

Mas sua morte, Ana Paula, não é romântica. 
É um punho no estômago. É mais uma falência.
Faliu nossa solidariedade que não se fez amparo. Faliu nossa cidade que se diz ‘em crescimento’. 

Lembro-me das vezes que, no coração da noite, zangada e revoltada, você batia com força a nosso portão, por desabafo ou para pedir ajuda.
Agora que você também fica em silêncio, perdemos mais uma oportunidade de acordar.