Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 22 gennaio 2014

Intrusões

Intruso é “quem entra num lugar sem permissão ou anuência, um invasor”.

Em alguns casos, nós missionários fomos na história (e ainda podemos ser) intrusos. Por outro lado, nos territórios em que estamos presentes, procuramos pedir permissão e oferecer nossa vida para quem nos acolher. Nessa convivência, ouvimos as comunidades lamentar outras formas de ‘intrusão’.

Conhecemos ‘na pele’, por exemplo, os conflitos de Humaitá (AM), que estouraram exatamente no dia de Natal tornando públicos os interesses de diversos grupos de poder sobre as Terras Indígenas Tenharim, interessados pela madeira da mata virgem, as perspectivas de garimpos de ouro e diamantes, a lavoura de soja e criação de gado na região, bem como a manutenção e segurança de um corredor de tráfico das drogas através da região amazônica.

Pela cultura de muitos migrantes que vieram de outras latitudes desse País-continente, e pela própria omissão cúmplice do Estado que não busca modelos de vida enraizados na história da região, parece que a única direção possível do ‘desenvolvimento’ seja replicar nessas terras o modelo de saque e colonização que –dizem- tornou o Brasil um gigante ‘produtivo’.
Escandaliza e revolta o fato de os índios cobrarem um pedágio como ressarcimento pelos estragos produzidos pelos ‘intrusos’, mas não gera indignação a forma violenta como o Estado escancarou as portas da terra indígena a saqueadores de todo gênero!

Também acompanhamos de perto a situação da Terra Indígena Awá-Guajá (noroeste do Maranhão), onde denúncias de órgãos atuantes em nível nacional e campanhas de pressão internacional conseguiram convencer o Governo Brasileiro a executar, depois de quase 22 anos de sua portaria de demarcação, a desintrusão de cerca 400 ocupações ilegais de pequenos produtores rurais, ocupando o território mesmo cientes que estava interditado.

Os últimos resquícios de floresta pré-amazônica maranhense, com biomas e ecossistemas únicos, estão sendo ameaçados pela pressão dos madeireiros e criadores de gado. Infelizmente, também pela cumplicidade de alguns entre os próprios Guajás, que acabam vendendo ou negociando pedaços de floresta.
O grande projeto de escoamento do minério de ferro de Carajás, planejado pelo Estado nos anos ’80 e executado ao longo dos últimos trinta anos pela companhia Vale S.A., beira com sua imensa ferrovia as terras indígenas Awá e tem sido fortemente criticado pelos índios (que acabaram também ocupando a linha de ferro) por afastar animais da reserva indígena e ameaçar, com sua duplicação, o equilíbrio da inteira região. Mais uma invasão, legitimada pelo Estado.

Qual é o papel dos missionários, nesse contexto de intrusões e de violação do direito socioambiental?

Os referenciais básicos estão claros: a função social da propriedade, a destinação universal dos bens, os princípios do cuidado da criação e do “Buen Vivir” a serem redescobertos em seio à revelação bíblica e às próprias culturas indígenas...
Também temos claro nosso ponto de escuta na interpretação dos conflitos: os mais pobres e abandonados são a chave de leitura que como missionários elegemos, a primeira das autoridades à qual queremos obedecer.

Mas como é difícil se posicionar quando, escolhendo o lado do pobre, acabamos sendo perseguidos por outros pobres que tentam reproduzir os gestos dos intrusos de ontem e de hoje!

Se a vida missionária quiser ser profética hoje, deve alimentar-se de um discernimento contínuo e promover dinâmicas de reconhecimento e respeito entre as vítimas, quando elas vêm sendo divididas e hostilizadas umas contra as outras.
O evangelho lembra que é a verdade a nos libertar; nesse caso, é a compreensão verdadeira de quem está oprimindo e quem é oprimido. E de quanto introjetamos dentro de nós as mesmas práticas dos opressores. Essa é a pior das intrusões, contra a qual precisamos lutar.

lunedì 20 gennaio 2014

Zuleide

Zuleide deixou uma grande herança à comunidade de Açailândia, tanto por seu serviço de catequista e membro do grupo de casais da igreja, como pelo seu trabalho dedicado e competente no mundo da escola.

Hoje quero ressaltar, porém, o legado dos últimos anos de sua vida. O jeito como vivemos o fim de nossa vida recolhe e expressa tudo o que semeamos e cultivamos ao longo da existência inteira.

Muitos de nós, nessas horas, perguntam-se “Por quê?”. Por que esse sofrimento?
Quem pergunta assim, sente Deus como alguém distante, frio calculador do tempo e do destino de cada um/a. Alguém que precisamos “convencer” para que poupe esse ou aquele nosso amigo...

A pergunta mais justa deveria ser outra: “Como?”. Como viver o sofrimento?
Frente ao limite da morte, nem Deus pode. Ao dar a vida para nós, Deus admitiu a condição da morte, que se fez limite para ele também.
Então Deus não tem o controle do tempo e do destino final de cada pessoa, não é um gerente da existência que “clica nas teclas de seu computador” para conferir vida, morte, doenças e acidentes, curas ou condenações.
Conversamos longamente com Zuleide sobre isso. Renovamos juntos nossa fé em Deus como companheiro que sofre ao nosso lado, torcedor para a vida plena e a serenidade em cada etapa de nossa existência. Conselheiro, consolador, sentinela para não perder de vista a esperança.

Zuleide foi imagem desse Deus. Foi testemunha verdadeira de vida cristã.

Havia uma romaria cotidiana à casa dela. Muitos (eu também) íamos lá não porque ela precisava de nós, mas porque nós precisávamos dela, de sua força interior, de sua serenidade.
Fazia-se perguntas, revoltava-se também (um dia chegou a pedir perdão porque, frente a mais uma notícia negativa do médico, “bati o punho na mesa”...). Nem sempre conseguia tratar seu marido Sinésio com o mesmo carinho dele (mas pediu desculpa disso também).
Sobretudo, porém, nunca perdeu a teimosia de viver.

Cuidava de si cuidando dos outros. Parece que suas energias aumentavam por acolher em si as preocupações dos outros. Como no caso de sua vizinha com depressão: Zuleide a visitava, mesmo carregando dentro de si outra doença grave como o câncer. Parecia uma versão sofredora do encontro entre Maria e Isabel. Ou como no caso dos muitos que iam até a casa de Zuleide para pedir conselhos, desabafar, partilhar dúvidas ou problemas...

Buscava sempre uma nova luz, uma outra saída. Como na conversa com sua médica, muito dedicada. “Mais uma porta se fechou”, dizia a médica com resultados negativos dos exames nas mãos. “Mas iremos sair pela janela”, continuavam as duas, juntas!

Viveu tanto e tão intensamente graças à família, e a Sinésio especialmente. No cuidado do dia-a-dia, numa comida preparada e re-preparada, até que ela gostasse e conseguisse se alimentar. Na limpeza da casa, nas viagens contínuas, incansavelmente, para Imperatriz...
É esse serviço silencioso e afetuoso que transmite força e gosto de viver: às vezes uma família adoece por inteiro, outras vezes, uma família enfrenta a dor como fosse um corpo só.

Ajudou-nos a ser comunidade. Sua dor e sua luta foram como uma ima que agregou as melhores forças, o tempo e a disponibilidade de cada pessoa. Zuleide nos reuniu e nos pede, daqui para frente, de não perder essa união a serviço da vida dos sofredores.

Descanse em paz, cara amiga, você fez sua parte. Pode deixar: nós faremos a nossa, com fidelidade e esperança.

venerdì 3 gennaio 2014

Um presepe maranhense

O que acontece em volta do estábulo onde Jesus nasceu?
O evangelho de Mateus narra uma visita importante: estrangeiros chamados ‘Magos’, vindo de longe com ricos dons.
Lucas, ao contrário, se refere a pobres pastores desprezados pelo povo de Israel, homens errantes e sem casa, pois moravam com seus próprios animais. São os primeiros a visitar e reconhecer o Filho de Deus.

Fiquei pensando nas personagem que habitaram meu Natal maranhense. Se parecem muito mais com os pastores do que com os Magos.

Cláudio foi preso novamente. Depois de um longo período de cadeia, parecia estar se recuperando, nos visitava em casa com frequência e fez uma grande amizade com padre Pedro. Custava a encontrar trabalho, mas afinal conseguiu. Andava habitualmente mão na mão com seu pequeno filho, que parecia ser seu orgulho e seu motivo de vida.
De madrugada encontraram o corpo de sua companheira, abandonado no mato à beira da rodovia. Cláudio jura que é inocente; ninguém nunca saberá exatamente o que houve, pois não foi feita a mínima investigação.
Enquanto todos esperávamos o nascimento na noite luminosa e barulhenta de Natal, ele e muitos outros atrás das grades esperam demoradamente uma decisão do juiz no mofo e mal cheiro da superlotação.
A Pastoral Carcerária, como pastores anônimos e muitas vezes sem poder, os visita e os reconhece filhos de Deus. É o mínimo com que começar.

Judite mora no quilombo S. Rosa dos Pretos. O marido a abandonou, tem dois filhos que estudam à noite, junto com os adultos, porque -como no caso de Jesus- não havia vagas para eles na escola durante o dia.
A menor sofre de crises de asma, mas Judite não tem como cuidar dela: trabalha como doméstica na casa de uma outra pessoa, na cidade vizinha. Doze horas por dia, de segunda a sábado, ganhando o vergonhoso ‘salário’ de trezentos reais!
Como Maria e José, Judite não teria um cordeiro para apresentar o filho ao Templo em ação de graças e deveria contentar-se de dois pombinhos. Mas seria outra ‘viúva-de-marido-vivo’ com todo direito de aborrecer a justiça pelas condições em que está forçada a viver.

Tiago migrou a três anos de Itapecuru para Uberlândia, Minas Gerais. É pedreiro, lá. Foi o primeiro a deixar a cidade em busca de trabalho, mas vários outros de Itapecuru o imitaram. Nessa noite perto do Natal está de volta: como todos os anos, quer participar do Tambor de Mina na Tenda de Nossa Senhora dos Navegantes.
Mãe Severina o curou, antes de partir, e agora não toma mais nem uma gota de cachaça. Como os Magos, em ação de graças, traz de volta todo ano sua vida, bate com força nos tambores que animam a dança dos encantados, vibra no sonho de voltar para ficar, porque aqui estão as raízes de sua vida.

Francisco passou o ano a escrever, pois nesse Natal a humanidade precisava de uma luz e de um canto novo. Nos deixou de presente sua primeira Carta, “A alegria do Evangelho”, que deseja uma igreja pobre para os pobres. Diz que os pequenos deveriam se sentir “em casa” em cada comunidade cristã.

Quem habita nossas casas e presepes, nesse e em todos os tempos de Natal?


Obs: os nomes das pessoas citadas –com exceção do último- foram modificados por respeito à sua identidade