Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

giovedì 4 aprile 2013

Um fio de fumaça entre Itália e Brasil

É chamada “cidade com vocação industrial”, mas seus cidadãos preferem defini-la uma “imposição industrial e militar”. A cidade de Taranto, no calcanhar da Itália, hospeda a maior siderúrgica da Europa, a única que produz o ‘pig iron’ na Itália.

Chamado elegantemente assim em inglês, a tradução num bom português seria ‘o ferro dos porcos’, já que se trata da primeira etapa de fusão do minério de ferro: a mais poluente e perigosa.

Esse trabalho sujo descarga sobre os mais de 15mil moradores do bairro de Tamburi diversas emissões químicas perigosas. Entre elas, a dioxina, perigosíssimo poluente que se deposita no chão e entra na cadeia alimentar (leite, queijos, carnes). Quase que banida na Europa limpa, 90% da dioxina produzida na Itália está na cidade de Taranto. Traças foram encontradas no leite materno, nos quintais das casas, nos parques públicos, nos pastos (cerca de mil ovelhas que tiveram que ser abatidas), prejudicando o trabalho de cem pequenas empresas de criadores locais.

Há também o benzopirene, gás tóxico que provoca problemas respiratórios e tumores. Ou os diversos derivados cancerígenos dos Hidrocarbonetos Aromáticos Policíclicos.

Recentemente, vários moradores do bairro de Tamburi encontraram chumbo em suas urinas e sangue. O chumbo ataca as sinapses no cérebro das crianças, comprometendo suas conexões nervosas.

As mortes por tumores estão aumentando de forma impressionante, mas os cálculos médicos preveem que o pique dos decessos, pela latência desse tipo de doença, acontecerá somente entre 2018 e 2020.

A Vale por trás de tudo
A siderúrgica de Taranto chama-se Ilva. Seu principal fornecedor de minério de ferro é a brasileira Vale, eleita em 2012 como “pior multinacional do mundo” (Public Eye Awards, Suíça).

A Vale está extraindo seu minério de ferro de maior qualidade e em maior quantidade nas minas de Carajás. Nessa região do norte do Brasil, a mineradora pretende duplicar o inteiro sistema de escoamento com um mega-projeto a financiamento público, extremamente impactante, que várias entidades e movimentos sociais do Maranhão e Pará demonstraram ilegal.

Ao longo da ferrovia de Carajás, operada por Vale para exportar o minério, existem na cidade de Açailândia (MA) quatro siderúrgicas com 14 alto fornos e sem nenhum filtro. Em situação pior, portanto, daquelas de Taranto. Infelizmente, as comunidades do Maranhão não têm os mesmos meios para detectar o tipo de emissões e de impactos sobre a população. Nem o Estado se preocupa com isso.

Há, porém, visível aos olhos de todos, o mesmo nível de mortes e doenças dos “irmãos na sina” do sul da Itália. No bairro industrial de Açailândia, chamado Piquiá, morreram nos últimos três meses duas pequenas crianças por problemas respiratórios. No ano passado houve mortes por tumor. Uma pesquisa da Federação Internacional dos Direitos Humanos (2011) detectou que em Piquiá 53% da população sofre frequentemente por dificuldade de respirar, falta de ar e crises de asma, enquanto 57% tem com frequência febre e dor de cabeça.

Resistências comuns
A Taranto dizem que “um fio vermelho une os irmãos da pré-Amazônia às populações atingidas de nossa cidade”. A Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale realizou no começo de abril 2013 atividades de denúncia e solidariedade na cidade de Taranto.

Fora da sala, a poucas centenas de metros, estavam ancoradas na baía da cidade os enormes navios da Vale, os mesmos que se veem na capital maranhense de São Luís, carregando o minério de ferro de Carajás.

A magistratura de Taranto ordenou em julho 2012 o fechamento de toda a produção siderúrgica, devido aos graves impactos sócio-ambientais. Uma lei do Estado italiano, no final de 2012, garantiu a permanência do funcionamento da empresa privada Ilva, por ser “de interesse estratégico” do País. Mais uma vez, portanto, uma lógica econômica de interesses sujos e colusos permite a agressão sistemática a populações e territórios, aos quais é pedido de ‘sacrificar-se’ em função do progresso.

A batalha social e jurídica continua de forma tensa, no sul da Itália bem como no norte do Brasil, onde ainda se espera a sentença definitiva a respeito da legalidade do licenciamento ambiental da duplicação dos trilhos da Estrada de Ferro Carajás.

Enquanto isso, no Brasil...
As siderúrgicas de Piquiá continuam também, indiferentes e cínicas, sua produção de ferro-gusa e morte. A comunidade de Piquiá de Baixo, na exasperação, pede há mais de seis anos o reassentamento num sítio distante da poluição. Solução desesperada de quem pelo menos quer garantir sua vida.

Piquiá e Tamburi selaram já há alguns meses uma aliança de solidariedade e intercâmbio. São dois exemplos paradigmáticos dos impactos conectados à mineradora Vale no mundo. A eles soma-se S. Cruz, na baía de Sepetiba, Rio de Janeiro, onde a TKCSA (com consistente participação acionária da Vale) provoca os mesmos impactos sobre as comunidades de pescadores da região.

Um sistema impune continua produzindo desenvolvimento com a regra implícita “lucro privados, impactos públicos”.
A aliança entre as vítimas, porém, se faz voz de denúncia, fortalecimento das resistências locais, clamor profético dos pobres que todos nós devemos escutar e apoiar.

lunedì 1 aprile 2013

Um fórum com o sabor da Páscoa e do martírio


Já è tradição, em ocasião do Fórum Social Mundial: também as missionárias e os missionários combonianos participam, oferecem suas propostas e ideias, se encontram para compreender os novos caminhos da missão.

Nesse ano, pareceu-nos uma contradição a convocação do Fórum em Túnis bem nos dias da Páscoa: temíamos de perder a intensidade da semana santa. Ao contrário, recebemos de presente páginas de vida escritas com o sabor do martírio e da ressurreição.

Começamos nosso encontro em terra magrebina exatamente no dia da memória dos mártires de Tibhirine: sete monges que não quiseram abandonar o povo algeriano nos dias da revolta fundamentalista do ‘96.
Concluímos sete dias de reflexão, articulações, estratégias e compromissos rezando no local onde duas mártires da primeira igreja cristã tunisina foram mortas: Perpétua e Felícita, que consideravam seu martírio como “o grito de um outro”, o Crucificado. E nós, na arena do sacrifício delas, renovamos nosso compromisso absoluto de sermos grito de muitas vítimas da injustiça.

Há uma carga espiritual em muitas pessoas que participam do fórum. Na última edição, uma pesquisa levantou que 70% dos participantes reconhecem que seu compromisso por justiça e paz está enraizado na espiritualidade.
Também como missionárias e missionários sentimo-nos confirmados na busca do vento do Espírito que assopra através desses movimentos. Encontramos ao Fórum segmentos interessantes de nossa igreja, presente de forma ainda desarticulada, mas ativa e em caminho.

Para não nos perder no vaivém de propostas e no pluralismo de ideais e lutas, era preciso afirmar em nós, a cada momento, duas atitudes chave que foram do próprio Jesus de Nazaré: ouvidos atentos ao diálogo e corações agarrados aos pobres.

Nesse contexto, os três dias da Páscoa adquiriram um novo sabor.
Na quinta-feira santa Jesus divide o pão e faz memória da vida inteira partilhada com os discípulos. 
Nós também, ao longo desses dias, procuramos uns aos outros, querendo partilhar nossas vidas e aprender humildemente das experiências alheias. Os próprios discípulos, afinal, viveram essa busca permanente de sentido, na incerteza quanto à missão que os esperava.
Durante o Fórum, encontramos uma nova definição de AGAPE: Alternative Globalization Adressing People and Earth. Essa globalização alternativa, atenta às pessoas e à terra, é um dos novos nomes do cenáculo onde todos podemos nos encontrar.

Sexta-feira santa é dia de derrota e de morte. Ressoam em nós situações aparentemente irresolvíveis, como o conflito entre Israel e Palestina, absurdamente injustas, como a guerra para o controle dos bens comuns no Mali, ou preocupantes pelo clamor de amigos/as missionários que estão sofrendo na pele, como o recente golpe de estado no Centráfrica. A agressão ambiental global é como um avião que está decolando, diz Leonardo Boff: já passamos o ponto limite, não dá mais para parar. Ou o avião levanta voo, mudando radicalmente modelo de vida, economia e finança, ou acabaremos nos destruindo de vez.

A noite de sábado santo não é uma vitória arrasadora da vida sobre a morte. Encontramos, isso sim, pequenos sinais que nos deixam entender que há esperança. São, por exemplo, os sonhos desse simples grupo de missionários: mais inseridos, mais simples, mais radicais na prioridade do serviço de Justiça, Paz e Cuidado para com a Criação. Outro sinal é a primavera árabe, que respiramos um pouco. Outro ainda a amizade profunda de quem está comprometido pela vida e se reconhece na luta do outro.

Dizer “outro mundo é possível” é outra forma de afirmar que “Cristo está vivo no meio de nós”: duas maneiras de testemunhar a ressurreição e prepará-la, de novo, nas estradas de nossos povos e na memória de nossos mártires.