Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

giovedì 19 febbraio 2009

Carregar a vida em nós (Mc 2)

Nesse tempo de crise e na lentidão de um ano que recomeça aos ritmos do Carnaval (mas porque será que tudo aqui só pode acontecer “depois do Carnaval”?)... em nossas cidades nordestinas e amazônidas estão aumentando as massas amontoadas às portas da saúde, da educação, das firmas em busca de emprego.

Reuniram-se fora de casa tantas pessoas que já não havia lugar nem mesmo diante da porta”, diz o evangelho desse domingo. Não há lugar para quem busca um tratamento, não há verbas para uma escola de qualidade no campo, não há emprego nas siderúrgicas de nossa cidade, que até ontem utilizaram três mil pessoas na mão de obra barata e agora -por uma suposta crise da qual não querem pagar o preço- descontam seu prejuízo sobre as famílias dos trabalhadores.

Esse povo paralítico precisa se levantar, mas às vezes parece que nem ele mesmo acredite que isso seja possível. Havia outro paralítico em Jerusalém (Jo 5, 2s) que por trinta e oito anos ficou parado à beira da piscina de Betesda. Quando Jesus lhe perguntou porque, ele respondeu que não tinha ninguém que o levasse até a cura.

Alguém que me carregue, alguém que abra espaços novos frente a essas portas fechadas e a todas as barreiras que impedem ao povo de encontrar dignidade e vida: quanta sede de justiça grita no peito também dos paralíticos de hoje!
Na Campanha da Fraternidade desse ano clamamos por segurança: o que é isso, se não abrir as portas dos serviços públicos para que todos/as tenham acesso a seus direitos, na saúde, na educação, no trabalho? Fora daquela casa não há segurança, e as pessoas amassadas só acabam cultivando a violência, a competição e o clientelismo.

Por isso, ainda mais do que Jesus ou do próprio paralítico, os protagonistas desse trecho de evangelho são os quatro homens que carregam o doente: eles conseguem enxergar uma 'entrada' e abrem o caminho para que a cura aconteça. Parece que Jesus intervém exatamente a partir da fé e teimosia daqueles homens: o milagre começa conosco!

Nosso povo simples precisa de exemplos bem concretos: dá para brincar com a imagem desses quatro homens. Quem são essas pessoas que carregam o doente e assumem o desafio da cura?

O primeiro é a pessoa solidária: ao ver um irmão paralítico carrega sobre si sua situação. Hoje a solidariedade é urgente, contra a cultura do individualismo que isola os problemas de cada um; a visita, o diálogo, a confiança recíproca são o primeiro estágio da cura, que cada um de nós pode assumir no dia-a-dia.

Mas isso não é suficiente: precisamos da comunidade, que assuma as situações dos mais fracos em mutirão. Foi desde sempre o destaque das comunidades cristãs, capazes de se organizar e articular o serviço para com os mais pobres, doentes, famintos. Nossas comunidades hoje também precisam organizar a caridade, para despertar a contribuição de todos e educar-nos à recuperação do bem comum, que é feito de direitos e deveres comuns. É o segundo homem que sustenta a maca.

Muitos param por aqui, mas o evangelho mostra que somente duas pessoas não conseguem levantar esse doente. Aqui entra o terceiro papel do cristão: solicitar e fiscalizar o sistema público. Não adianta tamparmos os buracos que outros deveríam fechar, somente em nome da caridade cristã: a paz é fruto da justiça, ainda antes que da caridade! Assim, a comunidade cristã exercita-se cada vez mais na prática do controle social, da presença ativa na arena política (longe dos partidos, mas muito próxima da sociedade civil organizada, nos conselhos de direito, na formulação de políticas públicas, etc). Paulo VI dizia que essa é a forma mais completa de amar.

Ainda falta o último homem: quem será? Esse último homem representa uma dimensão ainda maior do que nossas lutas políticas no Município ou no Estado: pela nossa experiência no corredor de Carajás (a região mais rica do mundo em ferro e outros minerais e o eixo mais explorado pela exportação dos recursos do povo), o último poder que manda é a força econômica das transnacionais. Poder oculto, bem disfarçado: muitas vezes o povo se pergunta de quem é a responsabilidade da carência de políticas públicas adequadas, mas raramente a resposta chega a envolver esses atores escondidos. Assim, o saque das nossas riquezas continua silencioso (mineração, monoculturas de eucalipto, soja, pecuaria extensiva) e ainda o paralítico não chega a ser curado.

Só se esses quatro homens trabalharem juntos dentro de nossas comunidades cristãs, o paralítico conseguirá levantar-se, carregar sua cama e sair diante de todos.


lunedì 9 febbraio 2009

Cinco presidentes ao FSM


Maria das Graças, mulher indígena do Ecuador, acolheu-os com palavras bem claras, mostrando todas as expectativas que os povos originários repõem sobre eles, após anos de sofrimento e exclusão: “Não nos persigam mais! Respeitem-nos, é só isso que eu peço, nada mais...”
Graça, uma das coordenadoras do FSM, continuou com a mesma força de caráter, denunciando o perigo de render-se definitivamente ao modelo de desenvolvimento que devora as pessoas e a natureza: “percebemos um forte descompromisso das Instituições em relação aos recursos naturais e ao futuro de nossos povos. A deflorestação está destruindo também nossa gente, especialmente os povos originários”.

Mas o espaço para as críticas não foi muito (entre as doze mil pessoas do público, parece que um certo grupo 'pelego' foi introduzido no evento com o simples objetivo de apoiar Lula e evitar as vaias de 2005 ao FSM de Porto Alegre).
Mesmo tendo um presidente brasileiro “sócio-liberal”, como diz Michel Levi, não podemos negar que nos encontramos num momento histórico novo para América Latina; o povo percebe uma nova esperança no ar e acorreu numeroso no (provavelmente) maior evento do FSM.

Um torneiro mecânico, um bispo da teologia da libertação, um índio (“com cara de índio” -específica Lula), um jovem economista e um soldado que já foi preso por tentativa de golpe e que o povo depois escolheu e apoia: Lula, Fernando Lugo, Evo Morales, Rafael Correa e Hugo Chavez reunidos à mesma mesa organizada pelas entidades do FSM.
A conjuntura é nova e todos os presidentes ressaltam que essa etapa da história latinoamericana vem de longe e construiu-se há tempo, baseada na luta popular por democracia. “Eu sou fruto de sua luta contra o neoliberismo” -afirma Morales; “Somos reflexo da luta do povo. Uma América indígena, mestiça, negra: após séculos de sofrimento, tornou-se realidade” -acrescenta Correa.

Os povos da Bolívia e do Ecuador celebram nessa passagem histórica suas novas constituições (a boliviana foi aprovada por 60% da população no domingo precedente o encontro): uma Carta dos Direitos dos povos indígenas, na perspectiva de reconstruir a Pachamama, grande Mãe latinoamericana.
Todos os presidentes recomendam a urgência e a possibilidade histórica de integrar os povos da América Latina. Correa define isso “uma necessidade de sobrevivência” e pede que seja acelerado o processo para a criação do Banco del Sur. Também critica a Organizaciòn dos Estados Americanos (OEA), ainda muito dependente de Washington, e relança a idéia de uma autogestão latinoamericana, incluindo finalmente “nuestra hermana Cuba”.

Não faltam as dificuldades e alguns conflitos 'diplomáticos', como é o caso da poderosa central hidroelétrica de Itaipu, cujos lucros atualmente estão sendo desviados do Paraguai para o Brasil: Lugo não deixa de acenar ao problema e se diz muito otimista rumo a uma solução consensual entre os dois Países, para garantir o desenvolvimento do povo paraguaio.
O ex-bispo católico fala dos riquíssimos recursos naturais e das potencialidades da América Latina: está faltando o orgulho e a capacidade técnica de administrá-lo em autonomia.

É forte a revolta contra o neoliberalismo e o imperialismo dos EUA; Lula repõe muitas esperanças sobre “o negro Obama, filho de uma terra que só 40 anos atrás assassinou Martin Luther King”.
Mais de um presidente acena ao “socialismo do século XXI”: Chavez específica que não faz mais sentido o cliché 'capitalismo=eficiência, socialismo=justiça'. “Somos capazes de construir um socialismo justo e eficiente, com um papel equilibrado do Estado, uma atenção específica ao meio ambiente e a escolha de um modelo de desenvolvimento responsável e sustentável” -reforça Correa, que faz referência à Doutrina Social da Igreja mas grita sua raiva considerando que bem mesmo o País mais católico do mundo é também o mais desigual do mundo: “O gesto mais comum de Jesus, em muitos momentos de sua vida, foi partir o pão. Será possível que nós aqui não conseguimos partir e partilhar nossos recursos?”. Alguém, no Ecuador, lembre a cada dia essas palavras proféticas para o presidente.

Morales oferece algumas perspectivas para o futuro: “Precisamos assumir uma nova etapa de integração para nossos Países, contra a intrusão e a conspiração dos EUA”. Propõe quatro campanhas, quatro dimensões de compromisso:

  • uma campanha mundial para a paz e a justiça (lembra especialmente Palestina, Afghanistan, Iraq, esquecendo também ele as guerras escondidas de muitos países africanos). Isso exige uma reforma radical da ONU.

  • uma campanha para uma nova ordem econômica internacional: exige uma reforma radical de instituições como BM e FMI; o indicador de desenvolvimento não deverá ser mais o PIB, mas sim o índice de redistribuição da riqueza!

  • uma campanha para salvar o Planeta, mudando os modelos e níveis de consumo

  • uma campanha pela dignidade humana, contra o consumismo: valorizar a humanidade, sepultar o capitalismo. Um símbolo para esse trabalho de resgate das culturas populares e contra o consumo das pessoas poderia ser -para Morales- a folha de coca: é alimento e fonte de vida para os povos indígenas; não podemos deixar que se torne, assim como em todo o mundo do consumo, substância estupefaciente e destruidora de gente.