Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

martedì 9 marzo 2010

Três círculos para a vida

(leitura do evangelho de Jo 8, 1ss)

Naquela manhã, no pátio do templo de Jerusalém, tinha três círculos.

O primeiro, bem cedinho, formou-se quando Jesus sentou-se no meio e começou a ensinar. O mestre tinha passado a noite no monte das oliveiras, pressentindo o que ia acontecer com ele, confirmando sua escolha de doar a vida até o fim.
Ao seu redor, juntou-se o povo no círculo de quem sabe de não saber, precisa atingir à água da sabedoria de Deus, à sua luz, dispondo-se à escuta permanente da Palavra e à aprendizagem constante da vida. Como é bonito, ao amanhecer de cada dia, voltar a formar esse círculo, humildemente, para depois sair e doar também a vida aos outros!

Logo, porém, forma-se o segundo círculo. Escribas e fariseus levam no meio do templo, numa gritaria violenta, uma mulher adúltera. A lei ordenava de conduzi-los ambos, homem e mulher, à porta da cidade para o julgamento. Cadê o homem? Cadê a lei?
Não é a justiça o que escribas e fariseus procuram. Querem provocar o mestre, desejam eliminá-lo e não fazem questão, se necessário, de eliminar também a mulher, pobre instrumento das acusações deles. É o círculo da lei violentada, nem mais fiel às prescrições de Moisés: homens influentes da época tinham convertido essa lei num sistema de garantias para seu poder machista e arrogante.
Como desfazer esse círculo sufocante e opressor? É a pergunta de muitos, hoje também: sentimo-nos cercados por uma injustiça institucionalizada, uma lei que já não defende mais o ser humano. Percebemo-nos até cúmplices, às vezes, desse sistema; perfeitamente integrados no círculo dos justos, que ainda acha de condenar com razão os que não se incluírem nele.
Jesus não utiliza muitas palavras, aliás, provoca com seu silêncio. Olhando para o chão, talvez desafie cada um a olhar dentro de si. Pela insistência deles, lança uma provocação pessoal: deixe falar sua consciência, esqueça do barulho e da coesão de quem se acha certo e interrogue sua vida. Desmonte a rigidez de suas convicções, deixe cair da mão as pedras que até agora o faziam sentir forte, desmanche as leis injustas sobre as quais se funda seu poder.
Talvez Jesus no chão desenhasse a derrota do machismo dentro das consciências e das relações sociais... talvez outras leis violentas também poderiam cair pelo mesmo profundo apelo à nossa consciência e humanidade (agora, mais do que nunca, a lei que garante a acumulação da propriedade privada)...

Os acusadores vão-se embora, silenciosamente, cada um olhando para o chão de suas vidas. E no pátio fica o terceiro círculo, pedras em volta de uma mulher sozinha e livre.
A acusação caiu, no meio do templo nasce uma nova vida para essa mulher que errou mas não encontra condenação. As pedras em círculo parecem proteger essa vida que brota; o próprio Jesus levanta-se para encontrá-la, confirmá-la e enviá-la.
Esse terceiro círculo, pedras de uma nova lei que tocou as consciências, é para lembrar-nos que a lei não é feita para os poderosos acusarem e condenarem os pobres; ao contrário, deve ser barreira e proteção, amparo ao redor da vida das vítimas.