Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

sabato 15 aprile 2017

Que País é esse?!

Reforma da Previdência e do ensino médio, terceirização e redução dos direitos trabalhistas, tentativas de flexibilização dos licenciamentos ambientais... por que tanta pressa em desmontar garantias conquistadas a duras penas pela sociedade civil organizada e os movimentos sociais?

Os Frades Menores do Brasil compararam a pressa do governo Temer em aprovar as reformas com a pressa de Judas para entregar Jesus aos poderosos da época.

Quem manda de verdade, atrás desses bonecos feitos políticos? Estamos sendo governados por pessoas que conquistaram o poder ilegitimamente, perderam todo tipo de credibilidade e, sem mais nada a perder, revelam descaradamente os interesses de quem os utiliza como marionetes.
“Falta autoridade moral aos atuais deputados e senadores”, comentaram os bispos de Minas Gerais.

A Igreja Católica nos últimos meses tem sido corajosa e profética, em dar nome a esse jogo sujo.
A CNBB disse em alto e bom tom que o Governo está escolhendo “o caminho da exclusão social”.
Criticou a manipulação de dados e a desinformação com que o Executivo quer nos fazer engolir a reforma da Previdência. Afirmou que há “informações inseguras, desencontradas e contraditórias”.
Não é verdade que a crise da Previdência se resolve sugando do bolso dos mais pobres!
Os bispos do Brasil indicam como alternativa auditar a dívida pública, taxar a renda das instituições financeiras, cobrar os devedores da Previdência e rever os incentivos fiscais para empresas que exportam produtos primários, como a mineração e o agronegócio.
Empresas públicas, privadas, fundações, governos estaduais e prefeituras devem à Previdência Social quase três vezes mais que o atual déficit do setor!

A Previdência é proteção social para os empobrecidos e tem um papel essencial na redistribuição de renda. O adiamento e as ameaças de redução do Benefício de Prestação Continuada (BCP), por exemplo, irão prejudicar sobretudo famílias em situação de extrema pobreza que cuidam de pessoas idosas ou deficientes.

As violações dos direitos humanos vêm de longe, nesse País que nas últimas décadas protegeu a autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira, sem atacar as causas estruturais da desigualdade social.
Em 2016, 61 camponeses e 138 indígenas foram mortos porque tentavam defender suas terras.
Trinta mil jovens foram matados, 76% deles eram negros. Nos últimos 10 anos, os assassinatos de mulheres negras cresceram do 54%.

Essa onda de morte é fruto da violência institucionalizada e de escolhas políticas que alimentam os conflitos pela terra e os recursos naturais, assim como a exclusão das “pessoas de sobra”, inúteis ao mercado. Ao mesmo tempo, essa onda se levantou ainda mais graças ao clima de impunidade e falta de ética instaurado sem vergonha alguma pela classe política atual!

Com o novo Governo, estamos passando de um contexto de violações sistematizadas de direitos a uma conjuntura ainda mais grave: o desmonte do Estado de direitos.

Nesse cenário, Papa Francisco provoca os cristãos: é urgente repensar a relação entre povo e democracia! As atuais formas de democracia se distanciam cada vez mais da vida dos povos, pelo domínio dos grandes grupos econômicos e mediáticos.
A resposta à crise desse sistema não pode vir de cima, depende da capacidade das pessoas de boa fé, dos movimentos sociais e da sociedade civil mobilizada e organizada.
Nós podemos, sim, “promover processos de convergência de milhões de pequenas e grandes ações, em cadeias criativas, como numa poesia”! Por isso, Papa Francisco nos chama de “poetas sociais”...

giovedì 6 aprile 2017

Ressuscitou mesmo?!

Para preparar nossa Páscoa, gostaria de fazer dialogar entre si duas mulheres que não se conhecem, mas que se inspiram reciprocamente e que nos ajudam a compreender melhor o sentido desses próximos dias.

Nancy é teóloga metodista, mãe de dois filhos, muito comprometida junto à Comissão Pastoral da Terra.
Durante essa longa Quaresma, no cenário preocupante do Brasil de hoje, ela escreveu um texto forte e provocador: “Este ano não haverá ressurreição”.
Nunca antes de hoje o cristianismo no Brasil foi tão aparecido, celebrado, massificado... mas toda essa pompa não vale nada! Não melhora de um centímetro a nossa vida em sociedade.
O fascismo e a barbárie convivem com cultos, missas e louvores. O cristianismo precisa descer do salto alto, largar a tribuna e o palco.
Num país tão violento e profundamente injusto, o fervor religioso é fator anestésico, ou até mesmo vetor de intolerância. “Fé de mais! Vida de menos”.

Em 2016, 61 camponeses e 138 indígenas foram mortos porque tentavam defender suas terras.
Trinta mil jovens matados, 76% deles eram negros. Nos últimos 10 anos, os assassinatos de mulheres negras cresceram do 54%. Somos o quinto país no mundo pelo número de feminicídios. A cada 25 horas é morta uma pessoa LGBT (nisso o Brasil é o primeiro país no mundo).
Com toda essa violência nos ombros, não haverá ressurreição – desabafa Nancy.  “Somos o túmulo, a falência da fé. Não é preguiça na busca de Deus: é vergonha, profunda vergonha”.

Como negar essa invectiva? Por que silenciar esse grito de raiva?
Passei dias inteiros perguntando-me como celebrar a Páscoa, até que reencontrei a senhora Neide.
Catequista, formou-se à escola da religiosidade familiar e depois iniciou a saciar sua sede, gota a gota, bebendo à teologia da libertação traduzida na prática de vida das pequenas comunidades cristãs, no tempo da ditadura militar.
Precisava inventar uma nova igreja, naqueles anos ‘70 em que à repressão do exército somava-se uma urbanização desenfreada e excludente nas periferias.

Ela fez isso por anos, junto às mulheres de um dos mil bairros excluídos da megalópole de São Paulo e ao lado do homem com que depois se casaria.
A equipe pastoral era composta principalmente por leigos e leigas; naquela época, mais que hoje, a visão de Igreja era horizontal e a comunidade era um espaço de partilha, crescimento humano e formação civil, a partir da leitura popular da Bíblia e da situação social.
Quando seu marido adoeceu, a vida inteira de Neide tornou-se uma catequese. Por 17 longos anos ficou ao seu lado, ele perdendo pouco a pouco antes a visão, depois a palavra, finalmente o movimento. Neide falava e cantava com ele, mesmo sem receber respostas.

Entre o silêncio desse homem e o espanto de Nancy existe uma ligação misteriosa, que tem a ver com a dor do mundo. A ressurreição não é uma resposta banal a esse mistério, um final feliz de conto de fadas, um prêmio de consolação.
Oferece sinais de ressurreição quem, como Nancy, continua a indignar-se. E quem, como Neide, continua a cuidar da vida, apesar do grande silêncio.