Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

domenica 9 marzo 2014

A força da Verdade

As histórias que a gente lê nos mantêm informados, e isso é justo.
Mas quando uma história começa a se tornar familiar, a gente cria como uma amizade com seus protagonistas, um vínculo que supera a informação fria, e isso é humano.

Hoje voltamos a falar do povo de Piquiá de Baixo. Já devem ter ouvido muito sobre essa pequena comunidade da pré-Amazônia maranhense, vítima há três décadas da poluição siderúrgica e dos projetos devastadores da empresa Vale.

Há seis anos Piquiá luta para fugir da poluição e passo a passo avança no lento e progressivo êxodo rumo ao reassentamento. No xadrez dessa longa batalha, a Associação de Moradores está aprendendo estratégias e experimentando ações para desbloquear a indiferença e a hipocrisia dos poderes públicos e privados que enfrenta.

No final de fevereiro, chegou de novo o momento de levantar a voz. Vários prazos e acordos assinados e nunca respeitados venciam naqueles dias. Precisava mudar de marcha, depois de meses de negociações, diplomacia, pressões políticas, campanhas midiáticas, denúncias e manifestações de solidariedade em nível nacional e internacional.

Precisava de algo mais forte e permanente. A Associação tinha se reunido várias vezes, semanas antes, para decidir o que e como fazer. O desafio era vencer o medo de enfrentar os poderosos, mas ainda mais superar com entusiasmo e paixão a desilusão dos pobres.
As empresas dia e noite vomitam gás, pó e barulho em cima do povo, aliadas e protegidas pelos poderes públicos. Essa situação ainda não se resolveu também por causa da resignação dos pequenos, que não têm energias para resistir muito tempo. Quando faltam sinais de vitória e de futuro, eles abaixam a cabeça, ou fogem em busca de uma outra vida.

Precisava de algo que ao mesmo tempo despertasse opressores e oprimidos.
Era uma quinta-feira, ao nascer do sol. Um velho carro de som passava pelas ruazinhas adormecidas e empoeiradas de Piquiá de Baixo, acordando as pessoas: “Corram, rápido, todo mundo na pracinha do povoado!”.
Das comunidades do interior chegavam alguns reforços, organizados pelo MST e pelo Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais. A diretora da escola liberou os alunos da quarta série e um bom grupo de crianças de uniforme alcançou o círculo de pessoas na praça, que ia engrossando.

Meia hora depois, o grupo era grande o suficiente para a ação não violenta planejada: fechar a entrada das duas maiores empresas siderúrgicas bem em frente ao povoado, sem deixar entrar nem sair os caminhões de minério, carvão ou ferro-gusa.

Por trinta horas as pessoas resistiram, debaixo de uma chuva torrencial, seguida do forte sol maranhense.
Passaram a noite, enfrentaram a pressão da polícia e a arrogância dos gerentes das empresas.
Num momento de cansaço, logo depois do amanhecer do outro dia, seu Florêncio pegou o microfone e com sua voz fraca, interrompida pela tosse constante, leu um trecho do apóstolo Tiago. Fitava os chaminés da empresa, como se estivesse falando com pessoas: “Digo a vocês, ricos: suas riquezas apodreceram; seu ouro e prata está sendo corroído pela ferrugem. Vocês condenaram e mataram o justo e ele não pode vos resistir”.

Poucas horas depois, chegou o presidente do sindicato patronal. Visivelmente nervoso, tinha deixado a capital para alcançar, de avião, os manifestantes. Inicialmente com tom suave e sedutor, declarava que as empresas há tempo eram sensíveis à causa do Piquiá de Baixo e colaboravam com suas necessidades.
Chegou a definir-se “parceiro” da comunidade. Dona Tida não aguentou mais e com firmeza e palavras simples desvendou essa hipocrisia.


A falsidade è a pedra angular da ganância a todo custo, pintado como motor do desenvolvimento de regiões que continuam, porém, entre as mais pobres do País: bolsões de pobreza e lixões da produção industrial sem escrúpulos nem limites, inevitáveis para as firmas vencerem a concorrência e maximizarem o lucro.

Por outro lado, a simplicidade e transparência das pessoas, que agem na verdade, mete medo e pode realmente mover as montanhas. É o Satyagraha de Gandhi: “agarrar-se à verdade”, que de fato nos liberta.

Sabendo da justiça de suas ações, os moradores de Piquiá levantavam a voz e não recuavam nem de um passo. Nenhum desconto às exigências de quem sofre!
Por uma vez, a firmeza do povo venceu: resignado, o sindicado industrial assinou o acordo de pagamento da indenização do terreno para o reassentamento. A terra prometida se aproximava de alguns passos.
Falta ainda muito, porém. Caros amigos/as de Piquiá, permaneçam atentos às vozes das periferias, para que não venham a ser sufocadas.

http://piquiadebaixo.justicanostrilhos.org

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