Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

domenica 2 febbraio 2014

Repúdio imediato de toda a violência

Nessa noite o Maranhão iluminou-se.
Centenas e centenas de comunidades cristãs, no Estado inteiro, caminharam em silêncio pelas ruas das periferias urbanas ou pelas veredas dos povoados rurais, cada pessoa com uma vela na mão.
Foi uma resposta de fé ao apelo dos bispos do Maranhão contra a violência em Pedrinhas, em todas as cadeias, nas periferias onde o tráfico de drogas tomou controle do território, nas terras indígenas e quilombolas...

Nessa mesma semana, porém, em Açailândia carregaram-se nuvens sombrias.
Quarta-feira passada, conforme relatos de testemunhas, “um grupo de cerca de 30 a 50 mototaxistas  armados com facões, facas e revolveres invadiram, após chutarem a porta de uma residência em uma rua erma, no Residencial Tropical, onde se encontravam três pessoas, que foram imediatamente torturadas com fios de energia e cordas. (...) Valdimar de Araújo Bezerra, 30 anos, foi amarrado e levado na garupa de um dos mototaxista. (...) Era suspeito de ter participado da morte de um mototaxista de Açailândia, Charles Alves Santos, 27 anos, que foi morto com mais de 20 facadas” (conforme o blog Rei dos Bastidores e o jornal O Progresso).

A imprensa, como sempre, noticia esses dramas apresentando imagens sangrentas dos corpos assassinatos, em total desrespeito às vítimas e seus familiares e –de certa forma- proporcionando mais um incentivo à violência. Com o evidente objetivo de “vender” mais, alimenta-se o gosto do sangue e a banalização da vida. Algumas famílias corajosas, que se sentiram lesadas por essas atitudes da mídia, já processaram um jornal de Açailândia. “Fotos de cadáveres, chocantes, decorrentes de mortes brutais, sem qualquer conteúdo jornalístico, gerando afronta ao princípio da dignidade da pessoa humana e o direito de imagem que resguarda a memória dos mortos”, comentou o juiz Antonio dos Santos Machado em sentença preliminar.

O que une a caminhada nãoviolenta organizada pelos bispos do Maranhão às atrocidades repetidas nessas semanas por moradores de Açailândia não é simplesmente um estado de violência, mas uma verdadeira Violência de Estado.  
A omissão, a morosidade ou a total inconsistência do sistema de justiça e de segurança do Estado reforça na população uma sensação de abandono, falta de proteção e ausência de autoridade.
Juntando a isso a fragilidade do sistema de garantias de direitos, a precariedade das condições de vida de uma boa fatia de maranhenses e a péssima situação do sistema público estadual e municipal de educação e serviços sociais, temos todos os ingredientes para a receita da violência institucionalizada.
Esse é o caldo em que, com uma certa facilidade, as pessoas que se sentem provocadas e abandonadas a si mesmas transformam-se em animais descontrolados, sedentos de vingança, querendo justiça somente para si e por si.

Dá para entender uma violência coletiva tão irracional. Mas não para justificá-la.
Dentro de nós temos uma consciência! Somos seres humanos, esquecemo-nos de nossa humanidade?

É urgente que cada pessoa tome uma atitude corajosa e radical e repudie a violência e a vingança.
Precisamos começar pelas atitudes cotidianas: 
- boicotar filmes ou videojogos violentos, que incentivam a morte, as armas e o combate e chamam de herói quem elimina as pessoas indesejadas. Como podemos permitir que nossos filhos bebam de graça essa cultura de sangue?!
- não banalizar a violência nos discursos de cada dia, ter a coragem de repudiar publicamente gestos como esse ou outros linchamentos, não brincar com a dor ou a morte de outras pessoas, não valorizar gestos de vingança;
- educar nossos filhos ao respeito dos mais fracos, ao diálogo e à defesa intransigente da vida;
- assumir nossa fé cristã ao afirmar que repudiamos a pena de morte, as condições desumanas das cadeias, a redução da maior idade penal.

Essa vela que as igrejas carregaram na noite de domingo não seja hipócrita ou símbolo de uma fé que transfere as responsabilidades para Deus ou adia a paz à vida eterna... 
É urgente incendiar nossas consciências com indignação, comprometer-nos pela vida, expulsar o demônio da violência de nossa sociedade!

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