Vida e Missão neste chão
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço! E-mail: padredario@gmail.com; Twitter: @dariocombo; Foto: Marcelo Cruz
giovedì 17 dicembre 2009
A beleza do Advento
giovedì 12 novembre 2009
O fim do mundo!

Há trechos no evangelho (como esse de Mc 13,24ss) que podem amedrontar pela profecia de uma aparente destruição, improvisa, da terra e da vida.
E há pessoas que, tendo assumido mais ou menos conscientemente essa perspectiva, resignam-se: estamos acabando... Nossa cultura -pensam- estragou-se definitivamente, não há mais costumes, a sociedade está indo rumo à autodestruição.
Essas pessoas vivem desapegadas, descomprometidas e desiludidas. Desanimaram-se na luta e perderam todo interesse; ou melhor: ficaram só com seu próprio interesse individual, na lógica que, “se for para acabar mesmo, melhor eu aproveitar logo; os outros que se virem!”
Mas o evangelho é sempre boa notícia, Palavra de esperança. Não proclama o fim do mundo, mas sonha com o fim desse mundo.
Quer dizer, afirma com termos e imagens fortes que há ainda muito em nossas sociedades votado à morte; é urgente mudar, regenerar a realidade.
Jesus nos desafia a interpretarmos com sabedoria os sinais do tempo. Quais são as doenças que enxergamos na realidade de hoje?
Essas doenças, alerta o Senhor, não são para a morte, não são condenação, mas chamado urgente à cura e à transformação.
“Quando os ramos da figueira ficam verdes e as folhas começam a brotar, sabeis que o verão está perto”. Essa é a beleza do evangelho: aproxima a uma profecia carregada de dor e destruição uma imagem tão linda de vida e esperança (brotos, ramos verdes, folhas e verão).
Procurando mais de perto para as doenças de hoje, escuta-se logo o grito sufocado da terra violentada.
Em nossas terras amazônicas, por exemplo, no último ano desmataram-se 7mil Km² de floresta. Há sinais de diminuição, mas ainda acompanhados por ameaças de morte aos defensores dos direitos humanos e ambientais, monoculturas arrasadoras que expulsam a agricultura familiar, impunidade para quem viola as regras (especialmente os mais ricos e poderosos), violência e arrogância policial contra os que clamam pelo direito à terra.
“Haverá grande tribulação, as estrelas começarão a cair do céu”: essas estrelas são muitos companheiros/as, lideranças na luta, que ainda hoje tombam ou fogem por causa da perseguição e por conta de seus teimosos sonhos.
As doenças de hoje não têm terapia imediata. Como não lembrar, porém, o importante encontro de Copenhagen, na Dinamarca? A 15ª Conferência do Clima acontecerá entre os dias 7 e 18 de dezembro e será ocasião de uma leitura atenta dos sinais dos tempos, no esforço coletivo de preservar 'o verão da vida' e permitir aos brotos de continuar a germinar.
Os maiores líderes mundiais vão tentar fechar um acordo que irá substituir em 2012 o Protocolo de Kyoto (compromisso de preservar o meio ambiente firmado entre 84 países).
“Esta geração não passará até que tudo isso aconteça”: realmente há mudanças urgentes, que devemos fazer acontecer agora.
Cabe a nós escolher entre o fim desse mundo... ou o fim do mundo!
giovedì 29 ottobre 2009
Ao mercado dos sonhos, a Vale perde cotações

giovedì 15 ottobre 2009
Servos sim, escravos não!

mercoledì 30 settembre 2009
Chamavam-se Maria

mercoledì 16 settembre 2009
O que passa em teu coração?

Mc 9, 30-37
Às vezes ficamos por horas na parada do ônibus, na fila do banco ou do posto de saúde; nesses casos, me invade a tentação de passear pelas cabeças e os corações de todas aquelas pessoas juntas no mesmo lugar.
giovedì 10 settembre 2009
Missionário porque?
lunedì 24 agosto 2009
Trabalho sim, Poluição não!
lunedì 10 agosto 2009
Uma mulher assim não pode morrer!
Romaria da Terra e da Água: mãos à obra!

mercoledì 15 luglio 2009
Amizade

Há uma chave que abre os textos da Palavra de Deus. Às vezes a gente lê e volta a ler, sem que o Evangelho nos diga muito... e de repente encontra-se uma chave que desvenda um sentido novo e rico.
martedì 7 luglio 2009
Na casa do gigante dos pés de barro

mercoledì 17 giugno 2009
Vamos para outra margem!

martedì 16 giugno 2009
A beleza nos salvará




mercoledì 20 maggio 2009
Crise, desemprego e Palavra de Deus

Carta aberta de algumas comunidades da Igreja Católica de Açailândia
«O Reino do Céu é como um patrão, que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. Às nove horas da manhã,o patrão saiu de novo. Viu outros que estavam desocupados na praça, e lhes disse: ‘Vão vocês também para a minha vinha. Eu lhes pagarei o que for justo’. E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa.
Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que vocês estão aí o dia inteiro desocupados?’
Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Vão vocês também para a minha vinha’.
Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chame os trabalhadores, e pague uma diária a todos. Comece pelos últimos, e termine pelos primeiros’.
Chegaram aqueles que tinham sido contratados pelas cinco da tarde, e cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida chegaram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. No entanto, cada um deles recebeu também uma moeda de prata.
Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: ‘Esses últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia inteiro!’
E o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto com você. Não combinamos uma moeda de prata? Tome o que é seu, e volte para casa. Eu quero dar também a esse, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você.
Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso?
Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.» (Mt 20, 1-15)
“Por que vocês estão desempregados?”
É Deus mesmo que faz essa pergunta, preocupado pela situação de tantas famílias que vivem à mercê de um sistema econômico que tem seus alicerces na procura insaciável de lucro. Também a igreja católica, hoje, tem o dever de repetir a mesma pergunta, num momento difícil de crise mundial e local.
Por que há desemprego? Quem foi que o gerou? De onde vem a crise? Quais as responsabilidades locais?
Como se fazem importantes, em cada cidade e região de nosso nordeste, momentos coletivos de debate sobre a crise, audiências públicas e diálogo construtivo, em busca de saídas.
Como Igreja, auspicamos que cada segmento envolvido nesse esforço tenha a coragem e a transparência de reconhecer os erros e as responsabilidades: não podemos aceitar, simplesmente, que nesse momentos de dificuldade todos os pesos e as consequências acabem sendo descarregadas nas costas dos trabalhadores.
“O patrão saiu e saiu de novo...”
Deus, na parábola do Evangelho, não se limita às perguntas, não analisa o fenômeno atrás da mesa de seu escritório ou somente pelos artigos de um jornal: sai ao encontro dos trabalhadores repetidas vezes, dialoga com eles, busca soluções e encaminhamentos.
A preocupação de Deus é que, ao final da tarde, cada um tenha sua moedinha de prata para levar para casa, alimentar sua família e garantir a dignidade do dia-a-dia.
Essa também é a preocupação de nossas Paróquias e dos movimentos sociais: dar oportunidade a todos de ganharem seu pão de cada dia. Trata-se do papel mais importante da Política: oferecer condições e oportunidades de vida para todos e todas!
Que todos/as tenham direito a uma educação de qualidade, à formação profissional, a oportunidades diferenciadas de trabalho. Que os pequenos produtores possam ter acesso ao mercado, ao escoamento de seus produtos, a financiamentos acessíveis para pequenos empreendimentos.
O crescimento econômico desordenado e sem planejamento de nossas regiões pre-Amazônicas deve-se a políticas irresponsáveis de financiamentos para grandes empreendimentos e proprietários, além da ‘economia do saque’ que ao longo dos anos sugou os recursos locais gerando poucas oportunidades e favorecendo uma minoria que só tem acumulado (veja-se o ciclo das madeireiras, das serrarias, da pecuária, das mineradoras, das guseiras).
O capital defende sempre seu interesse; é a Política quem deve defender os interesses dos trabalhadores e o diálogo entre as partes. Lamentavelmente os profissionais da política em lugar de sair às praças em busca dos que precisam de trabalho e pão, ficam em seus gabinetes fazendo dobradinha com os donos do capital.
A igreja, por ter como missão a defesa da dignidade da pessoa toda e de todas as pessoas, principalmente os mais ameaçados em sua existência, defende de forma intransigente os direitos dos mais esquecidos e os convoca para que eles mesmos se tornem atores responsáveis por seu próprio bem-estar.
Com Deus, hoje de novo repetimos decididamente as palavras do Evangelho:
“Eu quero dar a esse último o mesmo que dei a você” visando a plena justiça e iguais oportunidades para todos. Neste sentido propomos que haja uma inversão social de opções, ou seja, que “Os últimos sejam os primeiros, e os primeiros os últimos”, a fim de que quem precise mais receba mais e quem possui muito receba menos.
A Igreja quer participar ativamente do diálogo permanente entre a sociedade civil organizada, os poderes públicos e os empreendedores em busca de caminhos que amenizem essa crise e construam progressivamente uma sociedade em que não haja primeiros e últimos, mas simplesmente, humanamente, irmãos e irmãs.
giovedì 14 maggio 2009
Corre, missionário!

Sou um missionário que gosta de trabalhar.
Ao meu ver (talvez seja a cultura europeia) o trabalho traz frutos; o próprio evangelho desse domingo o confirma: “Vos designei para irdes e para que produzais fruto”.
Nisso, há muito tempo, reponho minha confiança e minhas expectativas de felicidade: poder olhar para atrás e reconhecer tudo que fiz de bom... e me satisfazer disso.
Qual o perigo? Acreditar que somos nós os protagonistas de tudo e repor nossa alegria na expectativa dos resultados.
Produzir resultados, encher nossa mochila de avanços e conquistas: a cultura de hoje premia quem consegue mais frutos. As grandes empresas têm sucesso e crescem em suas cotações quando continuam aumentando sua margem de lucro, mas raramente isso promove integralmente o bem e a vida do povo. Juízes e promotores são avaliados em base à sua 'produtividade', e nem sempre isso coincide com o 'fazer justiça'.
O que é que vale, então? Qual é o fruto que não apodrece e que garante a verdadeira alegria?
Pra que gastar toda uma vida?
O evangelho de João (15) vai fundo na pergunta mais importante de nossa vida: Jesus está pronunciando o discurso de despedida para seus discípulos e com a imagem da videira vai em busca daquilo que dá sentido profundo à existência.
Usa um verbo que hoje em dia não está mais na moda: permanecer.
A correria de hoje, os inúmeros estímulos, o brilho da propaganda, a rapidez das provocações, os sentimentos inconstantes, a insatisfação contínua que precisa ser saciada imediatamente são todas situações que não sabem conjugar o verbo 'permanecer': até no amor o verbo 'ficar' chegou a ter prazo de máximo uma ou duas semanas!
Permanecer no amor é tentar assumir a cada dia os sentimentos de Deus; mais que do fruto, preocupar-se de seu amadurecimento na ternura; antes dos resultados, assumir o compromisso de trabalhar amando.
Esse missionário que escreve ainda deve aprender muito do estilo de Jesus.
Bem antes de absolutizar o trabalho, os frutos e resultados, elijo hoje como máxima de minha vida a passagem do livro de Miquéias (6,8), coração da existência cristã e seiva que corre nos ramos da videira que é nossa vida:
“Caminhar humildemente na história com Deus, praticando a justiça e amando com ternura”
martedì 7 aprile 2009
Pode um perfume remover as pedras?
Páscoa 2009 em Açailândia – Maranhão
“Era uma pedra muito grande”. As mulheres queriam voltar a ver Jesus, pelo menos seu corpo, e relembrar dele, de tudo aquilo que tinha-se sonhado juntos.
Era uma pedra muito grande, e elas só tinham... um pouco de perfume. Perfume não remove pedras.
“Quem tirará para nós a pedra do túmulo?”: ficaram a noite inteira com essa pergunta na cabeça. Hoje também a mesma pergunta martela por dentro de nós e de nossas comunidades, durante muitas noites.
As pedras para remover são muitas, por aqui:
- a corrupção de quem comprou o poder e agora vende seus favores;
- a sensação de sermos o lixão industrial das grandes firmas com a cara limpa (no norte do mundo) e os pés sujos, pisando nos pobres;
- o álcool e a violência sexual (até contra crianças e adolescentes), espelho de um vazio de valores e perspectivas: em lugar de esvaziar os túmulos, estão se esvaziando nossos sonhos.
Quem tirará para nós essas pedras? Graças a Deus, três mulheres não ficaram paradas à pergunta e aceitaram o desafio: ir até a pedra de todo jeito, 'armadas' somente com seus perfumes.
Quais são nossos perfumes?
Gostaria que percebessem o perfume dos 60 grupos de rua e oração nas casas, que por cinco semanas reuniram-se para ler e entender juntos a Bíblia e a realidade.
O perfume de celebrações em que nosso povo toca com mão a ressurreição, cantando a vida, contando suas histórias, apertando as mãos. É pouco, bem sei, mas o perfume é para se usar em pequenas doses. E ainda: o aroma de alguns jovens que estão se apaixonando pela mesma causa que nós missionários defendemos; são para nós filhos e irmãos mais novos.
Pela sua fé e teimosia, as mulheres foram escutadas e a pedra removida, naquela manhã cedo, primeiro dia de uma história nova.
Precisava porém atravessar aquela porta: não é suficiente remover as pedras, se não temos nós também a coragem de entrar no túmulo, assumir o conflito, cara a cara com as forças de morte que ameaçam nosso povo... mesmo se, permanecendo nas contradições, a gente não enxergue ainda soluções ou mudanças imediatas.
Às vezes, enquanto uma pedra rola e vai embora, parece que outras dez se amontoem em nossa frente: sabemos porém que, com a coragem de entrar e permanecer no túmulo, poderemos enxergar a ressurreição.
Assim vivemos hoje, na pré-Amazônia rica de violência e potencialidades: um pé no túmulo, enquanto o outro já corre para anunciar a todos que a vida não morre.
Boa Páscoa!
sabato 4 aprile 2009
Justiça Ambiental
“Cá entre nós, o Banco Mundial não deveria incentivar mais a migração de indústrias poluentes para os países menos desenvolvidos?”
Esse memorando de circulação restrita (relatório Summers, 1991) mostra com evidência a política ambiental do Banco Mundial, dos G8 e também dos grandes empreendimentos que deveriam promover “aceleração de crescimento” em nosso Brasil (os movimentos sociais definem o PAC como “Programa de Agressão às Comunidades”).
Em função de um progresso inevitável e cada vez mais acelerado, os países da periferia do mundo servem como reserva preciosa de recursos; de 1990 até hoje assistimos a um verdadeiro boom da mineração: a América Latina aumentou a cota de produção mundial de minério de 21% durante dez anos; na África houve um crescimento de 13% em 7 anos; alguns casos específicos como o Ghana são estarrecedores: +700% nos últimos vinte anos!
Do outro lado da cadeia produtiva, a produção de lixo e poluentes precisa também de canais de escoamento: novamente, os escolhidos são os países do sul do mundo (num artigo polêmico, em 1992, a revista inglesa The Economist titulava “Let them eat pollution”: “Deixem que comam poluição”).
O apoio das grandes instituições financeiras a esse modelo de progresso é cada vez mais objeto de críticas pelos movimentos ambientais. A Rede Brasileira de Justiça Ambiental escreveu uma carta aberta ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento, reunido em Medellin para sua 50ª sessão anual) criticando os financiamentos públicos a obras de grande impacto sócio-ambiental na América Latina e no Brasil.
É também muito grave a operação financeira do BNDES no mês de Março de 2009: aquisição com dinheiro público, a fim de investimento, de 12% da empresa particular LLX, de Eike Batista. Um Banco que deveria garantir os interesses públicos e financiar o desenvolvimento das camadas mais empobrecidas acaba, ao contrário, vinculando-se diretamente com empresas cujos conflitos ambientais são notórios em várias regiões do País.
O próprio Ministério de Meio Ambiente expediu em 2008 um número recorde de licenças ambientais (467, 100 a mais que em 2007, 70% das quais após a entrada do ministro Minc). O MMA está acelerando a liberação de licenças para o PAC, algumas das quais referidas a empreendimentos altamente impactantes e questionados pela justiça (as hidroelétricas de Santo Antônio e Jirau no rio Madeira (RO) e a Usina Nuclear de Angra 3 (BA).
A partir de tudo isso cresce a indignação e fortalece-se a organização dos movimentos ambientais, cuja maior articulação (a Rede Brasileira de Justiça Ambiental - RBJA) acabou de realizar seu encontro bienal de estudo e planejamento.
A Rede aprofunda e aplica no concreto da realidade brasileira os conceitos de Justiça Ambiental e Racismo Ambiental, categorias que mostram a assimetria da globalização, amplificando a Dívida Ecológica dos países 'desenvolvidos' com as periferias do mundo: “Nenhum grupo étnico, racial ou de classe deve suportar uma parcela desproporcional das consequências ambientais negativas resultantes da operação de empreendimentos industriais, comerciais ou municipais e da execução de políticas públicas”.
Uma das preocupações da RBJA nesse contexto de crise econômica é o perigo de flexibilização da legislação ambiental e trabalhista para 'correr em socorro' das empresas e do ciclo de produção e consumo, única solução que até hoje a cegueira neoliberal consegue enxergar.
Nesse sentido cresce o estudo e a aplicação de novos instrumentais, como a Análise de Equidade Ambiental: um mecanismo de avaliação do impacto ambiental que leve em conta não somente as consequências diretas sobre a natureza, mas também incorpore os efeitos sociais, culturais e econômicos de cada empreendimento sobre a população que reside na região atingida.
É sempre mais urgente um real envolvimento da população nos processos de licenciamento das obras, com audiências públicas prévias (ainda antes do Estudo de Impacto Ambiental) e uma constante mediação do Ministério Público para evitar ameaças e dinâmicas de corrupção das lideranças.
A sede de investimentos baratos e pouco vinculados está levando nesses últimos meses as grandes empresas a atitudes violentas e constrangedoras. Recentemente no RJ um líder das comunidades locais em conflito com a Thyssen Krupp e a Vale precisou ser inserido no programa de proteção a testemunhas, devido a ameaças documentadas numa audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio.
A Rede permite mecanismos de solidariedade e denúncia, alianças entre movimentos e a autoridade política suficiente para dar visibilidade às lutas e resistências do povo, que está se articulando e incentivando oposição organizada e alternativas viáveis ao atual modelo de desenvolvimento. A agricultura familiar, a agroecologia, a economia solidária, o turismo comunitário, o controle popular sobre as atividades de grandes empresas, a constituição de Fundos de Desenvolvimento gerenciados por conselhos participativos a partir de percentagens fixas do lucro das transnacionais da mineração, a assessoria jurídica popular das comunidades em conflito: estratégias e caminhos que já deslancharam-se e que não vai ser fácil bloquear!
lunedì 9 marzo 2009
Outra igreja é possível

Diante das polêmicas desses dias sobre o aborto realizado para a vida da criança estuprada de Recife, é importante que todos os cristãos expressem seu pensamento, contribuindo à construção de uma igreja plural em busca da verdade (que nunca ninguém possuirá por inteiro).
Como padre missionário dessa igreja, entendo e defendo sua preocupação na luta contra o aborto (sobretudo quando essa luta vai além da denúncia e se faz articulação concreta de uma rede de proteção às mães, de prevenção da violência sexual e de promoção da dignidade da mulher: graças a Deus hoje muitas pessoas na igreja trabalham silenciosamente para isso!)
Não entendo, ao contrário desaprovo a intervenção do bispo de Recife que excomungou os médicos autores do aborto em questão. A discussão seria demorada, limito-me a oferecer algumas provocações para a reflexão de todos.
nos deparamos com uma situação-limite, um caso extremo. Nunca se pode extrapolar de um caso limite uma lei geral e válida para todos. Nem considero legítimo fazer uso dessas situações extremas para divulgar a norma moral ordinária de uma instituição.
Vou fazer um exemplo: é claro que de frente a um homicídio por legítima defesa ninguém pode clamar pelo desrespeito à vida e concluir que a sociedade está virando em favor do assassinato. Não pode um caso limite tornar-se referência da norma moral.
Ao contrário, especialmente nesses casos limites cabe à Igreja a misericórdia, a compaixão, uma presença solidária e possivelmente silenciosa ao lado das vítimas e uma condenação dura das condições e pessoas que provocaram a violência.a opinião de um bispo, mesmo se suportada por intervenções (menos polêmicas e violentas) do Vaticano e da CNBB, ainda não constitui doutrina moral oficial da Igreja. Quanto mais a igreja nas bases expressar sua visão complementar e não silenciar o dissenso, tanto mais contribuiremos à construção de uma comunidade de fé plural, em busca da verdade, capaz de diálogo e não necessariamente unida sobre todas as complexas questões de moral e ética. Hoje (mas já no Evangelho é assim) faz mais sentido uma pergunta humilde e sedenta de verdade do que uma resposta firme, mas arrogante e incapaz de diálogo.
É difícil estabelecer (cientifica e eticamente) quando começa a vida; não faz sentido colocar um ponto unívoco de referência, sendo a própria vida um processo. É complexo definir quem tem mais direito de viver, nos casos-limites como aquele ao qual nos referimos. A igreja e a ciência precisam de ajuda recíproca e de diálogo construtivo. Todas as vezes que o diálogo é interrompido pelo apelo a uma norma moral superior, o processo de respeito da vida e da humanidade regressa um pouco.
Outra igreja é possível e já deixou seu marco inapagável com dom Helder Câmara, na própria diocese de Recife, de onde o atual bispo soltou sua condenação inapelável à excomunhão.
Graças a Deus, há bispos e bispos. Nessa pluralidade, a igreja avança se tiver a coragem do diálogo e, sobretudo, se anunciar seus valores com a práxis humilde do serviço e do exemplo concreto.
Dom Helder, no centenário de seu nascimento, continua protegendo essa igreja-povo-de-Deus.
giovedì 19 febbraio 2009
Carregar a vida em nós (Mc 2)
Nesse tempo de crise e na lentidão de um ano que recomeça aos ritmos do Carnaval (mas porque será que tudo aqui só pode acontecer “depois do Carnaval”?)... em nossas cidades nordestinas e amazônidas estão aumentando as massas amontoadas às portas da saúde, da educação, das firmas em busca de emprego.
“Reuniram-se fora de casa tantas pessoas que já não havia lugar nem mesmo diante da porta”, diz o evangelho desse domingo. Não há lugar para quem busca um tratamento, não há verbas para uma escola de qualidade no campo, não há emprego nas siderúrgicas de nossa cidade, que até ontem utilizaram três mil pessoas na mão de obra barata e agora -por uma suposta crise da qual não querem pagar o preço- descontam seu prejuízo sobre as famílias dos trabalhadores.
Esse povo paralítico precisa se levantar, mas às vezes parece que nem ele mesmo acredite que isso seja possível. Havia outro paralítico em Jerusalém (Jo 5, 2s) que por trinta e oito anos ficou parado à beira da piscina de Betesda. Quando Jesus lhe perguntou porque, ele respondeu que não tinha ninguém que o levasse até a cura.
Alguém que me carregue, alguém que abra espaços novos frente a essas portas fechadas e a todas as barreiras que impedem ao povo de encontrar dignidade e vida: quanta sede de justiça grita no peito também dos paralíticos de hoje!
Na Campanha da Fraternidade desse ano clamamos por segurança: o que é isso, se não abrir as portas dos serviços públicos para que todos/as tenham acesso a seus direitos, na saúde, na educação, no trabalho? Fora daquela casa não há segurança, e as pessoas amassadas só acabam cultivando a violência, a competição e o clientelismo.
Por isso, ainda mais do que Jesus ou do próprio paralítico, os protagonistas desse trecho de evangelho são os quatro homens que carregam o doente: eles conseguem enxergar uma 'entrada' e abrem o caminho para que a cura aconteça. Parece que Jesus intervém exatamente a partir da fé e teimosia daqueles homens: o milagre começa conosco!
Nosso povo simples precisa de exemplos bem concretos: dá para brincar com a imagem desses quatro homens. Quem são essas pessoas que carregam o doente e assumem o desafio da cura?
O primeiro é a pessoa solidária: ao ver um irmão paralítico carrega sobre si sua situação. Hoje a solidariedade é urgente, contra a cultura do individualismo que isola os problemas de cada um; a visita, o diálogo, a confiança recíproca são o primeiro estágio da cura, que cada um de nós pode assumir no dia-a-dia.
Mas isso não é suficiente: precisamos da comunidade, que assuma as situações dos mais fracos em mutirão. Foi desde sempre o destaque das comunidades cristãs, capazes de se organizar e articular o serviço para com os mais pobres, doentes, famintos. Nossas comunidades hoje também precisam organizar a caridade, para despertar a contribuição de todos e educar-nos à recuperação do bem comum, que é feito de direitos e deveres comuns. É o segundo homem que sustenta a maca.
Muitos param por aqui, mas o evangelho mostra que somente duas pessoas não conseguem levantar esse doente. Aqui entra o terceiro papel do cristão: solicitar e fiscalizar o sistema público. Não adianta tamparmos os buracos que outros deveríam fechar, somente em nome da caridade cristã: a paz é fruto da justiça, ainda antes que da caridade! Assim, a comunidade cristã exercita-se cada vez mais na prática do controle social, da presença ativa na arena política (longe dos partidos, mas muito próxima da sociedade civil organizada, nos conselhos de direito, na formulação de políticas públicas, etc). Paulo VI dizia que essa é a forma mais completa de amar.
Ainda falta o último homem: quem será? Esse último homem representa uma dimensão ainda maior do que nossas lutas políticas no Município ou no Estado: pela nossa experiência no corredor de Carajás (a região mais rica do mundo em ferro e outros minerais e o eixo mais explorado pela exportação dos recursos do povo), o último poder que manda é a força econômica das transnacionais. Poder oculto, bem disfarçado: muitas vezes o povo se pergunta de quem é a responsabilidade da carência de políticas públicas adequadas, mas raramente a resposta chega a envolver esses atores escondidos. Assim, o saque das nossas riquezas continua silencioso (mineração, monoculturas de eucalipto, soja, pecuaria extensiva) e ainda o paralítico não chega a ser curado.
Só se esses quatro homens trabalharem juntos dentro de nossas comunidades cristãs, o paralítico conseguirá levantar-se, carregar sua cama e sair diante de todos.
lunedì 9 febbraio 2009
Cinco presidentes ao FSM

Maria das Graças, mulher indígena do Ecuador, acolheu-os com palavras bem claras, mostrando todas as expectativas que os povos originários repõem sobre eles, após anos de sofrimento e exclusão: “Não nos persigam mais! Respeitem-nos, é só isso que eu peço, nada mais...”
Graça, uma das coordenadoras do FSM, continuou com a mesma força de caráter, denunciando o perigo de render-se definitivamente ao modelo de desenvolvimento que devora as pessoas e a natureza: “percebemos um forte descompromisso das Instituições em relação aos recursos naturais e ao futuro de nossos povos. A deflorestação está destruindo também nossa gente, especialmente os povos originários”.
Mas o espaço para as críticas não foi muito (entre as doze mil pessoas do público, parece que um certo grupo 'pelego' foi introduzido no evento com o simples objetivo de apoiar Lula e evitar as vaias de 2005 ao FSM de Porto Alegre).
Mesmo tendo um presidente brasileiro “sócio-liberal”, como diz Michel Levi, não podemos negar que nos encontramos num momento histórico novo para América Latina; o povo percebe uma nova esperança no ar e acorreu numeroso no (provavelmente) maior evento do FSM.
Um torneiro mecânico, um bispo da teologia da libertação, um índio (“com cara de índio” -específica Lula), um jovem economista e um soldado que já foi preso por tentativa de golpe e que o povo depois escolheu e apoia: Lula, Fernando Lugo, Evo Morales, Rafael Correa e Hugo Chavez reunidos à mesma mesa organizada pelas entidades do FSM.
A conjuntura é nova e todos os presidentes ressaltam que essa etapa da história latinoamericana vem de longe e construiu-se há tempo, baseada na luta popular por democracia. “Eu sou fruto de sua luta contra o neoliberismo” -afirma Morales; “Somos reflexo da luta do povo. Uma América indígena, mestiça, negra: após séculos de sofrimento, tornou-se realidade” -acrescenta Correa.
Os povos da Bolívia e do Ecuador celebram nessa passagem histórica suas novas constituições (a boliviana foi aprovada por 60% da população no domingo precedente o encontro): uma Carta dos Direitos dos povos indígenas, na perspectiva de reconstruir a Pachamama, grande Mãe latinoamericana.
Todos os presidentes recomendam a urgência e a possibilidade histórica de integrar os povos da América Latina. Correa define isso “uma necessidade de sobrevivência” e pede que seja acelerado o processo para a criação do Banco del Sur. Também critica a Organizaciòn dos Estados Americanos (OEA), ainda muito dependente de Washington, e relança a idéia de uma autogestão latinoamericana, incluindo finalmente “nuestra hermana Cuba”.
Não faltam as dificuldades e alguns conflitos 'diplomáticos', como é o caso da poderosa central hidroelétrica de Itaipu, cujos lucros atualmente estão sendo desviados do Paraguai para o Brasil: Lugo não deixa de acenar ao problema e se diz muito otimista rumo a uma solução consensual entre os dois Países, para garantir o desenvolvimento do povo paraguaio.
O ex-bispo católico fala dos riquíssimos recursos naturais e das potencialidades da América Latina: está faltando o orgulho e a capacidade técnica de administrá-lo em autonomia.
É forte a revolta contra o neoliberalismo e o imperialismo dos EUA; Lula repõe muitas esperanças sobre “o negro Obama, filho de uma terra que só 40 anos atrás assassinou Martin Luther King”.
Mais de um presidente acena ao “socialismo do século XXI”: Chavez específica que não faz mais sentido o cliché 'capitalismo=eficiência, socialismo=justiça'. “Somos capazes de construir um socialismo justo e eficiente, com um papel equilibrado do Estado, uma atenção específica ao meio ambiente e a escolha de um modelo de desenvolvimento responsável e sustentável” -reforça Correa, que faz referência à Doutrina Social da Igreja mas grita sua raiva considerando que bem mesmo o País mais católico do mundo é também o mais desigual do mundo: “O gesto mais comum de Jesus, em muitos momentos de sua vida, foi partir o pão. Será possível que nós aqui não conseguimos partir e partilhar nossos recursos?”. Alguém, no Ecuador, lembre a cada dia essas palavras proféticas para o presidente.
Morales oferece algumas perspectivas para o futuro: “Precisamos assumir uma nova etapa de integração para nossos Países, contra a intrusão e a conspiração dos EUA”. Propõe quatro campanhas, quatro dimensões de compromisso:
uma campanha mundial para a paz e a justiça (lembra especialmente Palestina, Afghanistan, Iraq, esquecendo também ele as guerras escondidas de muitos países africanos). Isso exige uma reforma radical da ONU.
uma campanha para uma nova ordem econômica internacional: exige uma reforma radical de instituições como BM e FMI; o indicador de desenvolvimento não deverá ser mais o PIB, mas sim o índice de redistribuição da riqueza!
uma campanha para salvar o Planeta, mudando os modelos e níveis de consumo
uma campanha pela dignidade humana, contra o consumismo: valorizar a humanidade, sepultar o capitalismo. Um símbolo para esse trabalho de resgate das culturas populares e contra o consumo das pessoas poderia ser -para Morales- a folha de coca: é alimento e fonte de vida para os povos indígenas; não podemos deixar que se torne, assim como em todo o mundo do consumo, substância estupefaciente e destruidora de gente.