Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

lunedì 10 agosto 2009

Romaria da Terra e da Água: mãos à obra!

Emprego ou saúde? Há vinte anos, os trabalhadores das siderúrgicas de Açailândia, extremamente poluidoras, encontram-se obrigados a decidirem entre o meio ambiente e o desenvolvimento.
Em Caixias o veneno despejado nos imensos canaviais acaba contaminando os rios da região. A polícia faz batidas nos povoados só para averiguar que o povo não coma os peixes mortos que boiam nas águas poluídas, nem que as crianças tomem banho. A segurança está garantida!
Balsas: grossas correntes puxadas por dois tratores arrasam com tudo o que estiver de pé; a soja domina o horizonte, mais uma cor verde para os desertos do Maranhão...

São somente alguns dos gritos da terra e do povo de Deus reunido no seminário de Codó (MA), preparando a décima Romaria da Terra e das Águas: “Um clamor de justiça”.
A Palavra de Deus orienta o debate: “A própria criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus. (...) Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora” (Rm 8).
Os seres vivos olham para a humanidade, irmã maior na criação de Deus, esperando que revele finalmente seu coração compassivo e reconheça que nunca foi filha única do Senhor da Vida.
A natureza está à nossa espera, mas não pode esperar muito mais. É preciso deixar nascer o novo, antes que as dores do parto sufoquem-se num aborto.
De todos os cantos do Maranhão, homens e mulheres convocados ao seminário sentem-se enviados de volta a suas comunidades, para engravidar o povo na conscientização, levantar forte o grito de dor e esperança e parir juntos a justiça socioambiental.

A análise de conjuntura é ampla e enfrenta temas urgentes nesse Maranhão machucado pelo desenvolvimento.
O agronegócio é chamado de 'agrobanditismo', pela violência da monocultura, a poluição e o saque das águas: 70% da água consumida pela humanidade é sugada por esse modelo extensivo de agricultura. Em 2009 o Governo destinou R$ 421 milhões do PAC somente para a irrigação, voltada aos grandes projetos. Em várias regiões do Maranhão, ao conjugar o verbo “sugar”, o povo responde brincando “Eu-calipto, Tu-caliptas...”
O Fórum Humanitário Global (presidido por Kofi Annan) declarou no mês de Junho que 300 mil pessoas morrem a cada ano por consequências diretas das mudanças climáticas, enquanto 325 milhões sofrem pelas suas consequências indiretas. Tudo isso nos custou, em 2005, 200 bilhões de dólares! A crise é sistêmica, estrutural: estamos prejudicando as próprias bases da sobrevivência!
Os poderes constituídos são funcionais a esse sistema, quando não são diretamente por ele controlados: por exemplo, somente a Companhia Vale do Rio Doce está lucrando nesses anos cerca de 3 vezes o dinheiro a disposição do Governo do Estado do Maranhão! A desproporção mostra quem, de fato, manda em nossas terras.
O próprio poder do judiciário é apelidado de “prejudiciário” pelo povo vítima das decisões injustas de juízes que apoiam os colegas fazendeiros ou confirmam a regra comum da impunidade.
Um poder podre, que protege os correligionários, como no caso recente do juiz Marcelo Baldochi acusado de trabalho escravo e grilagem, mas 'justificado' pelos colegas desembargadores.
O povo se pergunta: “O que é legalidade? A qual lei é justo obedecer?”
O Tribunal do judiciário é um movimento articulado nas quatro regiões do Maranhão para colocar os juizes do outro lado da mesa processual; um poder aparentemente intocável vai ser avaliado pelo povo ao longo dos próximos meses, até o julgamento definitivo em São Luís, em dezembro.

Na análise do seminário pela terra e pelas águas do Maranhão, a luta é impar: é verdade que todo gigante tem pés de barro, mas mesmo assim é extremamente difícil enfrentá-lo.
O primeiro passo, essencial, é identificar o conflito, esclarecer os nomes desses gigantes e assumir coletivamente o embate: não é suficiente refugiar-se em pequenas experiências alternativas e escondidos nichos, ecologicamente corretos. A ecologia está na moda e as grandes firmas são as primeiras a vestir a camisa de uma aparente preocupação 'verde'. Mas vem delas esse consumo violento de recursos, energia e pessoas: veja-se, por exemplo, até só o desmatamento para a produção de carvão vegetal, em função do ferro-gusa: em 2007 o Brasil derrubou para isso 400 milhões de árvores, metade das quais eram mata nativa.
Ou enfrentamos diretamente esses gigantes, ou continuaremos a silenciar nossas consciências com poucas miúdas práticas isoladas.
As duas próximas campanhas da fraternidade (Economia e Vida em 2010 e Mudanças Climáticas em 2011) serão a pauta de reflexão e reação das comunidades e dos movimentos, visando um enfrentamento consciente e corajoso.
Em 2010 haverá também outro instrumento importante para o enfrentamento do agro e hidronegócio: a campanha pelo limite da propriedade da terra, lançada por igrejas, sindicatos rurais e CUT. A reflexão e a agenda estão postas: mãos à obra!

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