Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

sabato 6 febbraio 2010

Ekoinonia: cuidar de nossa casa

Koinonia em grego significa comunhão.
Também “Economia” e “Ecologia” são palavras de origem grega: respectivamente “dar regras à casa” e “estudar a casa”. Há uma grande diferença, porém, entre quem considera essa casa ‘sua’, particular e egoisticamente, ou ‘nossa’, existente antes de nós, recebida em dono com o pedido de devolvê-la aos outros em mesmas ou melhores condições. É importante, então, insistir sobre essa pertença coletiva: eis a palavra “Ekoinonia”, que poderia significar “nossa casa comum”, à qual devemos cuidado e dedicação.

Ao abrirmos uma Campanha da Fraternidade sobre economia, escrevemos esse artigo desde uma realidade ecologicamente muito impactada por um modelo econômico violento: a região amazônica do oeste do Maranhão.
Gostaríamos de oferecer algumas pinceladas a respeito da estreita ligação entre economia e ecologia, buscar algumas referências evangélicas e apresentar pequenos ensaios para a gestação de novos modelos.

Injustiça econômica e injustiça ecológica

A maior injustiça econômica, ainda evidente em muitos contextos do mundo e do Brasil, é o distanciamento progressivo entre os ricos e os pobres, a conhecida ‘tesoura’ da disparidade, que vai se abrindo como diz o evangelho: “Há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós” (Lc 16,26). O ciclo de injustiça sócio-ambiental começa com a concentração de renda e das terras; a falta de oportunidades gera condições indignas de trabalho e migrações desregradas. Em conseqüência disso, os ‘grandes’ e os ‘pequenos’ aproximam-se ao meio ambiente com sua ganância ou extrema necessidade; paradoxalmente, assim, ambos agridem a criação sem medida nem planejamento. A terra não é mais percebida como ‘nosso chão’, mas como esponja a ser sugada o máximo possível e depois abandonada, rumo a novas frentes de exploração.

Isto aparece com clara evidência na cidade em que vivemos, Açailândia, oeste do Maranhão. Nossa região ainda pertence ao bioma amazônico, mas nada mais hoje lembra que aqui, até 30 anos atrás, era floresta. Houve uma rápida sucessão de ciclos econômicos desgastantes e desregrados: o ciclo da madeira nobre, das serrarias, do carvão, da pastagem e da siderurgia, da monocultura do eucalipto. Em três décadas, uma revolução econômica e ecológica comprometeu quase definitivamente um território que por milênios tinha hospedado a maior fonte de biodiversidade do mundo. Em toda nossa região pré-amazônica, o arco de desmatamento caminha rápida e inexoravelmente rumo ao norte.

A regra básica subentendida por essas violações é a negação do espaço: essa economia ‘joga as pessoas fora de casa’. É óbvio, portanto, que cada vez menos pessoas possam dizer ‘essa casa nos pertence, vamos cuidar dela’.
Ao contrário, grandes maiorias acabam vivendo à margem da vida econômica, invisíveis porque não produzem nem consomem, afastados de seus territórios de origem pela privação do espaço que tentamos descrever. Em nossa visão, essas massas de migrantes excluídos de suas terras engrossam as filas dos ‘prófugos ambientais’ em busca de um novo chão e novos equilíbrios de vida.
Compreendemos assim a profecia das palavras evangélicas que resgatam o tema da ‘ekoinonia’: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós”. (Jo 14,2). A preocupação constante de Jesus é devolver às pessoas seu espaço vital, uma moradia “assim na terra como no céu”, cuidando da casa comum.

Crise econômica e crise ecológica: a noção de limite

O ano de 2009 trouxe dois sinais críticos: o desmoronamento da economia global e a falência do encontro de Copenhagen sobre as mudanças climáticas. Dois cataclismos simultâneos: o esgotamento do sistema econômico e o esgotamento dos recursos naturais.
Em poucos meses, percebemos com bastante evidência que esse modelo de ‘desenvolvimento’ não pode continuar assim. Apesar disso, parece que a oligarquia ao poder entenda somente replicar o mesmo modelo: “O desenvolvimento está em crise? A única saída é incentivar o crescimento”. Esse refrão constante chega a negar a noção de limite.

Em campo econômico os países ricos exportam a produção em regiões onde o custo do trabalho é menor e incentivam o consumo injetando recursos públicos nos sistemas em crise.
Em campo ecológico assistimos à mesma negação do limite, pela busca e abertura de novas fronteiras de exploração, a revisão dos limites de reserva legal, o desrespeito das condicionantes nos licenciamentos ambientais (cada vez mais numerosos, rápidos, com estudos de impacto ambiental preparados em poucas semanas), os novos projetos de mineração e produção de energia...

Para garantir sua riqueza contra o assédio dos pobres, muitos países devem erguer muros de defesa e separação. Ao mesmo tempo, porém, para manter esse patamar os ricos precisam abater outros muros, que a própria natureza coloca para se defender do assédio dos homens.
Admitimos a importância de nos proteger e colocar limites para outros não sugarem nossas riquezas, mas não aceitamos esses mesmos limites impostos à ganância de quem suga a natureza.
Quanto é evidente a correspondência entre concentração de renda e constante expansão da violência social e ambiental!

Os caminhos da ekoinonia

A Bíblia aponta à noção de “Jubileu”, um ano sagrado em que se juntam os valores do descanso e da redistribuição.
“O sétimo ano será um sábado, um descanso absoluto para a terra, um sábado em honra do Senhor: não semearás teu campo nem podarás tua vinha. (...) O que a terra der durante o ano de descanso servirá de alimento a ti, teu servo, tua serva, teu empregado e ao agregado que moram contigo” (Lv 25,3s).
Há uma incrível e fascinante correspondência: o tempo sagrado de Deus é ditado pelos ponteiros da economia e da ecologia, da distribuição dos bens e do respeito da terra!
Com razão o papa Bento denuncia que a atual crise global é expressão de uma bem mais profunda crise ética: está em discussão o inteiro modelo de desenvolvimento, o perigo da vida entendida como contínuo e irresponsável crescimento individual.

É urgente repensar o mundo à medida da profecia jubilar, que coloca limites e dá direções éticas ao desenvolvimento. As palavras-chave para declinar isto na história são “sobriedade” (equilíbrio com tudo que co-existe conosco) e “descentralização” (devolução do espaço e das oportunidades aos pequenos).
É possível através disso efetivar uma verdadeira “reciclagem da riqueza”: não mais voltada para o consumo, mas para a geração do bem comum. O próximo passo da evolução da espécie humana, portanto, será aquele da economia de acumulação à economia do dono.

Em nossa cidade de Açailândia e em toda a região de Carajás estamos tecendo redes de ação e propostas econômicas nesse estilo. Em parceria com outros movimentos, fazemos experiência da assim chamada “blue-green alliance”: sindicatos e movimentos ambientalistas finalmente unidos frente à Vale do Rio Doce, em busca de um sistema de trabalho, produção e relação com a natureza realmente sustentáveis. Objetivo é forçar a empresa a uma revisão dos parâmetros de investimento e lucro, onde sejam contempladas variáveis novas na avaliação de conveniência de cada empreendimento: não mais o lucro acima de tudo, mas a aplicação do paradigma de ekoinonia, para uma ‘nossa casa comum’ à medida do sonho de Deus.

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