Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

domenica 4 dicembre 2016

Comunhão aos fiéis recasados



Maranhão, 2016.
Apesar de termos crescido muito, em estruturação do estado, melhoria da vida das pessoas e organização da igreja local, ainda estamos longe dos padrões de vida da Alemanha, dos EUA ou da Itália.
É daí que raciocinam e opinam os quatro cardeais que levantaram críticas públicas ao ensinamento de Papa Francisco sobre a relação da Igreja com os fiéis divorciados e recasados.

Um primeiro perigo de todo esse debate é reduzir a prática da Misericórdia às decisões sobre maior ou menor rigor quanto ao acesso aos sacramentos. É a tentação de discernir os princípios da Igreja a partir de dentro (“vamos primeiro arrumar a casa e organizar bem as regras internas, para oferecer aos de fora um ambiente sadio e ordenado”).
Eu estou com Papa Francisco: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos”.
Entendo, com isso, que também a reflexão moral e a interpretação dos princípios da Igreja deve sempre iniciar seu diálogo a partir daquilo que as pessoas e a vida “pelas estradas” apontam como maiores preocupações e interrogações do mundo de hoje. “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (GS 1), esse é o ponto de partida para o discernimento constante do Evangelho na Igreja.

Celebro quase todo domingo em pequenas comunidades do interior do Maranhão. Povo de muita alegria, resistência e fé. Não abaixa a cabeça, apesar de tanta injustiça que ainda engole no dia a dia.
Amargura profunda que se acumula nas entranhas.
Mas na hora da comunhão, na fila aparecem só duas jovens recém crismadas que ainda estão namorando, a ministra da eucaristia que nunca se casou e um casalzinho idoso que todos temos como grande e raro exemplo de virtude e sorte no matrimônio.
Muitas mulheres, com ainda mais crianças, não podem entrar na fila porque se casaram bem novas, o marido deixou elas por outras paixões, por covardia ou por ter migrado para longe em busca de trabalho e dinheiro, sem mais voltar.
Uma mistura de machismo e de pobreza estrutural acabou com esses embriões de famílias.
Quase todas as senhoras se juntaram a outro homem. Em diversos casos esse segundo enlace está funcionando, pelo menos um pouco. O homem não bate na companheira, seu trabalho na roça ou nas firmas garante um mínimo de sustentação, vez em quando ele também se aproxima à igreja (o terço dos homens agora parece uma porta de entrada para vencer a “vergonha de gênero” na casa de Deus e do povo!).

Desculpem essa descrição estereotipada, sei que há muitas nuances e também que caberia muito mais reflexão, mas aqui não temos esse espaço. Faço confissão pública que, em diversos casos, incentivei a comunhão para essas senhoras, teimosas construtoras de comunhão dentro de suas famílias.
Quando alguém manifesta desejo e necessidade de comungar à Eucaristia, solicitamos à comunidade cristã que conheça mais de perto sua situação familiar. Pedimos ajuda sobretudo aos ministros e ministras da Eucaristia, que visitam a casa daquela pessoa, dialogam sobre suas razões de fé e sua participação na vida da comunidade. Convidamos a pessoa para que celebre o sacramento da Reconciliação, que muitas vezes é também aconselhamento, restauração de uma vida sofrida que está buscando reorganizar-se, desabafo e busca de acolhida.
Verificamos junto à comunidade se, por algum motivo, a comunhão daquela pessoa numa celebração comunitária pode vir a criar escândalo, ou se seria compreendida como gesto de inclusão e compromisso coletivo de apoio na reconstrução da família dela.

Me parece uma prática pastoral respeitosa, atenta e em linha com o “Princípio Misericórdia”, ao qual eu por primeiro sinto necessidade cotidiana de me converter. Porque seguir as regras e sua aplicação imutável é mais fácil e instintivo.

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