Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

sabato 4 settembre 2010

Pobre Açailândia Rica: quem quiser que Veja!

Mais de 18 mil reais é a renda per capita de nossa cidade. Estamos entre as 23 cidades médias do Brasil que uma famosa revista nacional destacou como campeãs de crescimento econômico.
Senhores e senhoras, venham a Açailândia, profundo interior do Maranhão! O futuro, dizem, passa por aqui.
É verdade, temos um histórico “predatório”, de “desmatamento e contrabando, cinza e poeirão”, como lembra a revista.
Mas as empresas siderúrgicas, ressalta a reportagem, trouxeram desenvolvimento e riqueza.

Se isso é verdade ou não, tudo vai depender do ponto de vista. Para todo artigo que recomenda, há sempre alguém que encomenda: o lucro, sabe-se bem, vem através da propaganda.
Vamos pelo menos tentar mostrar outros lados da mesma cidade: nesse Maranhão de migrantes, trabalho instável e mutação contínua, dominado por uma das oligarquias mais longevas do país, não queremos que ninguém se surpreenda chegando e encontrando algo distinto daquilo que foi dito...

É com orgulho que falamos de nossa cidade e de suas lutas para afirmar a justiça, defender a vida, proteger o meio ambiente.
Há em nossa cidade sonhadores e construtores de paz. Mas a economia e os governantes locais, em sua grande maioria, ainda não estão entre eles.
É só olhar aquilo que está acontecendo nessas semanas: o sindicato dos metalúrgicos levantando o protesto contra demissões de massa (centenas de pessoas cortadas do emprego siderúrgico e da cadeia de produção de carvão).

A ONG Justiça Global pesquisando a respeito das consequências dos empreendimentos industriais sem filtros, sobre a saúde das comunidades.
A Federação Internacional dos Direitos Humanos visitando Açailândia para verificar “o potencial impacto contra os direitos humanos causados pela mineração no estado do Maranhão”.
A Defensoria Pública que finalmente se instala na cidade, recebendo desde o primeiro dia denúncias a respeito de elevados índices de mortalidade infantil, desrespeito aos doentes na fila dia e noite para um crachá de consulta, condições de moradia precárias e perigosas.
O bem público da água sendo privatizado, através de uma companhia ‘nepotizada’ pelo prefeito e que lucra injustamente em cima dos pobres.
O esgoto dos ricos e dos pobres correndo e se misturando pelas ruas da cidade, a céu aberto.

Essa também é uma face de Açailândia. "Centro urbano com elevada desigualdade e pobreza", pelas categorias do Ministério das Cidades (2009).
Não é justo, por interesse de poucos, esconder parte da verdade. A pergunta que ressoa há décadas na boca do povo é sempre a mesma: “Progresso para quê e para quem?”

Dia 14 de setembro em Açailândia uma importante audiência pública começará a buscar respostas, tratando do deslocamento do povoado de Piquiá e Baixo, do direito das pessoas viverem longe da poluição, do dever das empresas garantirem trabalho, saúde, dignidade.
No mesmo dia os movimentos sociais estarão também na Assembléia Legislativa do Maranhão, clamando por direitos trabalhistas, defesa dos demitidos e desempregados, garantias de longo prazo para quem “se ficha” na cadeia minero-siderúrgica.

Essa é a Açailândia em que acreditamos.
Desenvolvimento e empreendimentos? Sim, mas com respeito ao povo e ao meio ambiente!
Crescimento e progresso? Sim, mas de todos e para todos, com acesso a saúde, educação e moradia dignas de uma cidade que queira ser destaque nacional!

1 commento:

Adalberto ha detto...

Padre Dário,
a avaliação da revista Veja foi feita apenas com base num índice que nem mesmo o Banco Mundial se atreve a usar para avaliar o "desenvolvimento" de um território, o PIB, que é nada mais que a soma do que se produz num determinado lugar.
Hoje, nenhum cientista social competente avalia o "desenvolvimento" apenas considerando o "crescimento" do PIB, mas, obrigatoriamente, levando em conta os indicadores sociais e o valor de reserva ambiental que essa localidade tem, como garantia de sustentabilidade para o futuro. Confira-se Ignacy Sachs, Ladislau Dowbor, Carlos Lopes, Tânia Zapata, Amartya Sen, Joseph Stiglitz...
Até os EUA estão fugindo dessa falsa avaliação baseada no PIB. Em maio passado, o presidente dos EUA, Barak Obama, encaminhou um projeto ao Congresso Norte-Americano que estabelece nova forma de medir os indicadores no país, levando em conta 300 indicadores, cobrindo criminalidade, energia, infraestruturas, habitação, saúde, educação, meio ambiente e a economia (a economia é apenas um dos componentes).
No caso de Açailândia, bastaria verificar o óbvio: não tem havido desenvolvimento, e sim crescimento econômico. Ou seja, o PIB cresceu, aumentou a produção e a riqueza municipal, mas esta não se transformou em bem-estar à população; não houve esse pretenso melhoramento da qualidade e das condições de vida do povo. Isso, sim, seria desenvolvimento.
A riqueza produzida em Açailândia é quase totalmente escoada para as especulações das bolsas de valores e para as sedes das grandes empresas que exploram as potencialidades naturais do município, que a cada dia fica mais pobre e compromete sua sustentabilidade e seu futuro.
Com economia baseada em indústrias sem sustentabilidade, Açailândia tem uma economia instável, sujeita às oscilações das commodities, de pregões das bolsas de valores e sem qualquer garantia de se transformar em futura métropole.

Adalberto Franklin