Vida e Missão neste chão

Bem-vindos/as em Açailândia! Somos irmãos missionários, religiosos e leigos/a, caminhando com o povo maranhense. Ser padre aqui significa assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog é uma tentativa de partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Foto: Marcelo Cruz

giovedì 21 agosto 2008

Busco a profecia e a sabedoria


O tempo passa, nessas terras brasileiras carregadas de desafios. Alternam-se muitas perguntas, mas uma fica na base de tudo: onde está Deus?
O sentido da vida é estar onde Deus está e viver conforme sua paixão.
Dou-me conta que há duas maneiras de fazer isso, ambas muito importantes. Para nos entender, vamos chamá-las 'sabedoria' e 'profecia', pois também na Bíblia nossos grandes mestres de vida assumiram essas duas dimensões.

A profecia, hoje aqui, nos obriga a cada dia a lutar contra grandes injustiças, desproporcionais às nossas forças. Nos encontramos no coração de um sistema que suga recursos das entranhas da terra e do povo.
Todo dia passa em nossa frente, 12 vezes, dia e noite, o trem da segunda maior mineradora do mundo. Carregado de ferro e outros minérios, é um saque cotidiano e silencioso que o povo já se acostumou a agüentar. Ao seu redor, cresceu um ciclo produtivo extremamente perigoso para as pessoas e o meio-ambiente: siderúrgicas, carvoarias, poluição, monoculturas de eucalipto, pessoas sem-terra e terra sem-vida...
O latifundio aqui também é o primeiro responsável pela morte da floresta e pela falência da pequena agricultura familiar.
A profecia pede para assumir uma posição firme, com competência e seriedade. Por isso nasceu em final de 2007 uma grande campanha, “Justiça nos Trilhos”, para exigir uma repartição mais justa dos enormes lucros da companhia minerária Vale e um retorno efetivo para nosso território e nosso povo.
Essa campanha participará ao Fórum Social Mundial, onde encontrará muitos parceiros. Até lá, estamos construindo várias alianças com entidades e pessoas, ao longo do País inteiro e com interessantes contatos internacionais.
Esse tipo de atividade nos obriga a agir muitas vezes em níveis distantes do nosso povo, viajar, encontrar outros grupos e municípios, escrever, documentar e estudar, buscar contatos longe daqui, para fazer conhecer essa realidade até agora escondida e silenciosa.

Mas cresce a saudade das pequenas relações cotidianas, da visita às pessoas: tomar um cafezinho juntos, em suas casas simples, saber do que está acontecendo às nossas famílias no bairro, celebrar a vida todas as vezes que nos reunimos em nome de Deus...
É a sabedoria popular, que precisamos beber em pequenos goles para entrar de mansinho no coração desse povo, crescer como parte deles, entendê-los e entendermo-nos. Esse é um povo resistente, que não perde a esperança apesar de todas as dificuldades que atravessa. São artistas da vida, capazes de celebrar e festejar com uma criatividade que se renova no profundo de cada um.
Ficar no meio deles nos ensina a falar a mesma língua, entender que tipo de igreja pode realmente libertá-los e fazê-los crescer, contemplar Deu escondido nos pequenos gestos da comunidade.E tudo o que realizaremos não será simplesmente uma iniciativa nossa, mas sim uma escolha contruida juntos, comendo arroz e feijão da mesma panela!

Não é fácil manter esse equilíbrio entre a profecia e a sabedoria; olhando para Jesus de Nazaré, admiro quanto conseguiu fazer disso uma síntese de vida. Decidido, líder, corajoso para denunciar, tinha clareza quanto ao objetivo de sua missão: libertar os oprimidos, devolver a visão a quem não consegue mais interpretar a vida, quebrar as correntes de todo tipo de escravidão.

Mas ao mesmo tempo era um homem que sabia parar para ficar com as pessoas. Conhecia os ditados, as expressões e os costumes populares, festejava junto com eles, dialogava e fazia muitas perguntas para entender, sintonizar-se com o pensamento e a esperança do povo.
E ainda admirava e silêncio a elegância de um lírio do campo ou a pequenez de uma semente de mostarda...

Esse equilíbrio é síntese amadurecida da vida, é um desafio para cada um de nós, nossas famílias, nosso ritmo de vida: decididos e convencidos, precisamos saber bem qual a direção para seguir. Os que nos seguem (filhos, amigos, companheiros de caminhada) devem perceber nossa convicção, a clareza e obstinação de quem busca o sonho de Deus!
Ao mesmo tempo, porém, quanto é importante dedicar tempo à escuta de cada um, saber parar, impregnar-se da vida dos outros, diminuir o ritmo para caminhar todos juntos...

O Espírito que animou o Nazareno nos ajudará também para viver assim, com profecia e sabedoria!

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