Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

martedì 14 ottobre 2008

Economia a imagem de Deus



Queda das bolsas, insegurança financeira global, instabilidade e recessão...
Bem no meio desse clima de medo e da crise do sistema econômico, Jesus no Evangelho fala do dinheiro.
Fariseus e herodianos perguntam a ele se é permitido pagar o imposto a César. A própria pergunta expressa um conflito grande da época: o povo, especialmente os mais pobres, pagava 4 tributos diferentes ao opressor romano e ao sistema do Templo; assim, a cada ano vinha sendo privado de 75% de seus bens. Quem faz essa pergunta a Jesus sabe que ele já se expressou muitas vezes em defesa dos mais pobres, mas quer colocar o mestre em direto conflito com a autoridade.
Mais para frente, a carta aos Romanos dirá “Dêem a cada um o que lhe é devido: o imposto e a taxa, a quem vocês devem imposto e taxa (...)” (Rm 13,7).
Também para a igreja hoje é muito importante a responsabilidade e honestidade na hora de pagar as taxas (a sonegação é uma das maiores ameaças à distribuição igualitária dos bens e dos lucros!).
Ao mesmo tempo, há vários cristãos no mundo que já foram presos por ter aplicado a “objeção fiscal”: se o Estado usa dinheiro público para fabricar armas ou promover guerras, eles boicotam o governo e não pagam aquela parcela de taxas.
A relação com o dinheiro, como bem se vê, é a melhor forma de verificar a honestidade de consciência de uma pessoa e os valores profundos em que acredita.

Na moeda romana da época de Jesus estava escrito “Divus Augustus” (“o imperador é deus”). Isso soava como uma blasfêmia ao judeu piedoso, que nem ousava tocar no dinheiro. Era um escândalo usar a imagem do imperador em substituição àquela de Deus (esse deveria ser nossa real indignação, hoje, quando falamos do repúdio das imagens para a fé cristã autêntica!).
Mas também em todas as notas brasileiras, hoje, está escrito “Deus seja louvado”... Deus, que nem queria um templo para morar, encontra-se estampado e preso, hoje, em nosso dinheiro! Refém do uso iníquo e da acumulação que o dinheiro representa: a doutrina social da igreja reconhece que hoje “o fim do dinheiro é ele mesmo”.
Jesus nos lembra que cada pessoa é imagem de Deus e vive para Ele. Ao contrário, o dinheiro traz em si uma imagem deturpada de Deus e molda uma sociedade a imagem e semelhança do capital, voltada só a multiplicar o proveito e abandonar os mais pobres.
Por isso Jesus diz com veemência: “Ou Deus ou o dinheiro!”. Na logica do dinheiro tudo é pago (“é permitido pagar os impostos?”); na logica de Deus, tudo é devolvido (“devolvam a Deus o que é de Deus”): não somos donos das coisas e da vida, existimos para restituir a Deus o que ele nos dá a cada dia.

Aqui no Maranhão (bem como em vários outros estados do País) há organizações que acataram a provocação de Jesus e criaram... uma nova moeda e uma nova economia, a imagem de Deus! É o caso das comunidades quilombolas de Alcântara, filiadas à Rede brasileira de bancos comunitários. Objetivo dessa “moeda social”, exclusivamente de uso local, é fazer com que o dinheiro circule dentro da própria comunidade, estimular créditos e investimentos internos e o utilizo do dinheiro a serviço da população regional.
Os grandes investimentos financeiros de hoje tornaram flutuante não somente a moeda, mas também as famílias que precisam investir em seu futuro. É urgente devolver confiança e estabilidade às pessoas através de uma economia a imagem de Deus, onde a distribuição das oportunidades seja a chave de desenvolvimento para todos e todas!

mercoledì 1 ottobre 2008

Desespero ou oportunidade?




A violência contra a natureza: desespero ou oportunidade?


Reflexão livremente inspirada ao texto “Toda a criação geme...”, RIBLA 21



O gemido de Jó e o gemido da criação

Na Bíblia há esses dois gemidos fortes, que até Deus custa a consolar.
O gemido de Jó é o grito de uma pessoa que se queixa por sua situação (sofrimento, miséria, doença, exclusão...) e busca com avidez condições melhores.
A criação, no entanto, geme lamentando sua vocação à vida cerceada pela violência e ameaçada de morte definitiva.
O sistema econômico atual põe em conflito esses dois gritos, cria competição entre os interesses da pessoa e aqueles da natureza. O acesso ao trabalho é posto em conflito com a preservação do meio-ambiente (por cada novo empreendimento planejado, a palavra mágica que libera todos os licenciamentos ambientais é a promessa de centenas de novos empregos... mesmo se quase sempre se trata de exageros promocionais). Da mesma forma, a defesa da natureza é considerada inimiga do progresso e do desenvolvimento.
Jó busca uma vida plena e abundante; seus interesses são satisfeitos nos países desenvolvidos, enquanto a natureza continua gritando de longe, nos países-depósitos mais pobres do mundo.
Jó, por sua conta, se sente completamente inocente e até em direito de gritar contra Deus, clamando por vida e satisfação pessoal. O Senhor lhe dá razão: “se o seu horizonte for somente a esfera pessoal, você teria plenamente direito de gritar e se queixar. Mas deixe sua voz acalmar-se e comece a escutar também outros gritos: o clamor da natureza, das massas de pobres, do sistema desequilibrado que está desmoronando... Comece a integrar suas necessidades com aquelas da criação toda inteira!”
É esse o sentido da linda poesia de resposta com que Deus consegue amansar a Jó e incluir sua vida numa esfera de existência maior (Jó 38-42).
Quem é o pai da chuva e do orvalho?
Quem é a mãe do gelo e da geada?
Quem transforma a água em pedra
e torna compacta a superfície do oceano?...
Podes dar ordens às nuvens
Para que se desprendam sobre ti os aguaceiros?
Manda chamar os raios,
E eles vêm e te dizem “Aqui estamos”?...
Jó, que inicialmente sentia-se vítima inocente e único merecedor da compaixão de Deus, abre os olhos e declara humildemente: “Eu falei, sem entender, de maravilhas que superam a minha compreensão” (Jó 42, 3). O nosso pequeno homem está começando a pensar com o coração grande de Deus; incluiu em seus sentimentos, sofrimentos e desejos também àqueles da vida maior que está ao seu redor. Está em sintonia com a criação, superou o conflito entre os interesse do indivíduo e o bem maior de tudo o que existe.

A quem cabe uma teologia da terra?

Quem nos ajudará a viver, individualmente e como sociedade, essa conversão de Jó?
Com certeza não serão as grandes multinacionais, poderosas divulgadoras de sua pessoal teologia. Elas estão querendo definir –de cima para baixo- o que é sustentável, ‘verde’, puro.
Mas “as vítimas são sempre locais” (Vandana Shiva). É lá em baixo que se tem a verdadeira noção do impacto de cada projeto.
Há tempo, Deus mudou de lugar! Não precisamos mais de alguém lá em cima que nos diga o que é bem ou mal; não acreditamos que a verdade esteja simplesmente na versão mais divulgada dos fatos; não confiamos nos meios poderosos de comunicação que conquistam as consciências.
“A verdade está nas vítimas” (Jon Sobrino) e Deus escolheu esse único lugar de interpretação da realidade!
Portanto, uma nova teologia da terra só pode nascer nas feridas das vítimas, deixando falar os corpos machucados e escutando o gemido da criação, desde baixo. O Evangelho revela que o Cristo ressuscitado traz em si as feridas da cruz... e é exatamente a partir delas que Tomás reconhece seu Senhor. As feridas da terra e do povo são o Corpo de Cristo violado, ponto de partida para uma reflexão permanente sobre a Vida e a Ressurreição possível.

Alguns pilares dessa teologia da terra

Assumindo o ponto de vista ‘dos de baixo’, podemos ressaltar três atitudes interessantes:

1. A raiva:
“Não agüentamos mais!” é o grito cada vez mais freqüente que escutamos, permanecendo ao lado das vítimas. E esse lamento se faz reação, chega a falar mais alto da violência impregnada na realidade pelas grandes empresas, que atuam silenciosas e impunes pisando sobre os pobres. No começo essa raiva pode espantar e parecer violenta; aos poucos acabamos comparando-a ao desejo instintivo de fazer-se escutar: quando o barulho de fundo da violência é constante e opressivo, precisa levantar a voz.Há pessoas e grupos que há tempo abaixaram a cabeça, frente à pressão violenta imposta sobre eles: acostumaram-se; há outros (estão crescendo) que não agüentam mais e têm a coragem de se posicionar. Às vezes esperamos que essa raiva possa contagiar mais gente, pois o desejo de consumo e acumulação apaga o espírito.Atualmente no Brasil um movimento paralelo está tentando em vários Estados e contextos de ‘legalizar a violência histórica’: os estragos, as chacinas, o desmatamento, a poluição são considerados um mal inevitável, que aconteceu e não tem mais como ser consertado. Esse grupo de poder visa negar a história, anular a ligação estreita dos povos indígenas com suas terras agora cobiçadas, diminuir o tamanho da Amazônia Legal assim que ninguém mais tente recuperar as condições originárias. Frente a esse pensamento clandestino que tenta mascarar a violência subida por essas regiões, é necessária uma reação vigorosa, orgulhosa: a raiva deve despertar-nos!

2. A mística e o cuidado com a vida:
Desde o começo da humanidade, percebe-se uma ligação indissolúvel entre Deus, o povo e a terra. A vida não existe ao faltar de um desses três elementos. Assim acontece também na cultura de nossos povos da terra: profundamente religiosos, não têm preocupação de doutrina ou medo de sincretismo: “Tudo o que é fonte de vida para o pobre cansado e desanimado faz parte do rosto desse Deus que é único, mas que para cada um dos pobres assume uma face diferente, capaz de gerar vida” (S. Gallazzi).
Dentro de nossos povos esconde-se um potencial inexpresso de vida e cuidado: é só ver com que solidariedade e prontidão uma família pobre ajuda a outra em criar os filhos, adotar ou receber uma criança, partilhar o pão. Essas mesmas famílias podem amadurecer um sentimento análogo de cuidado para a vida como um todo, a partir de novas pequenas práticas como: disciplina e autocontrole na hora de jogar o lixo (diminuindo-o ou diferenciando-o); amor para as árvores e respeito para com elas; maior cuidado para a beleza de nossos bairros, casas, ambientes...

3. A criatividade:
As vítimas são sempre locais, portanto as respostas devem nascer delas. Trata-se dessas pequenas práticas alternativas que já acenamos: os pobres têm muita criatividade para ganhar seu sustento, podem aplicar a mesma criatividade para tornar a existência de todos realmente sustentável. Nisso a educação de base tem um potencial enorme e já demonstrou que pode transformar a sociedade.Essa criatividade pessoal, depois, deve transformar-se em criatividade política: hoje pode-se investir em microcrédito, projetos de geração de renda, agroecologia e agricultura familiar, projetos de troca de bens entre campo e cidade...


Estamos no princípio de uma nova criação, se quisermos. Depende de nós, como bem salienta Ivone Gebara:
“A terra está sem forma e a escuridão a encobre... Estamos no princípio. A desordem e a violência imperam e não se conhece mais os caminhos da terra fértil, das águas limpas, do cantar dos pássaros coloridos, das estrelas brilhando no firmamento, da luz envolvente do sol, do ameno e prateado luar, do sorriso satisfeito dos humanos. Estamos no princípio, no princípio caótico de tudo, no princípio/fim do ‘eterno hoje’ de toda a criação. Estamos no princípio hoje, estamos hoje no princípio!”

giovedì 18 settembre 2008

Todos têm direito a trabalhar e viver


(uma reflexão a partir do Evangelho de Matheus 20)

“Sexta-feira um trabalhador chegou no Centro de Defesa. Tinha um corte largo que atravessava seu rosto. Disse que foi pedir seu salário ao fazendeiro, mas recebeu só ameaças e uma facada”

“O meu amigo finalmente ‘fichou’ na siderúrgica. Mas todo dia que passa é um alívio por não ter acidentes: trabalhando por cima das grades, naquele calor, é muito fácil cair e quebrar um braço ou uma perna. Lá dentro a gente é como peças de uma engrenagem, como muitos pedacinhos de gusa descartáveis...”

“Lá no interior o povo está arrendando terra demais. É para os grandes produtores. Mas os pequenos depois ficam com nada, só a pinga na vila... Alguns já dizem que moramos nas ‘favelas rurais’...”

O evangelho desse domingo é atualíssimo!
“Por que estais aí desocupados?” É uma frase só, mas inspirou toda uma Campanha da Fraternidade, com o título “Sem trabalho porquê?”. Nesse mês que vai fechar a propaganda política, são essas as perguntas para se fazer aos candidatos, e não uma esmola para sobreviver um dia a mais!
“Eu vos pagarei o que é justo”. Mas o que é justiça? É somente dar a cada um a justa compensação pelo que fez? Não: a justiça de Deus reza que todos têm o direito a trabalhar e viver.
Portanto justiça é proporcionar a cada um as condições e os meios (o trabalho) para viver dignamente. É dever do Estado garantir o trabalho.
E a propriedade de cada um vale só se tiver uma sua “função social”: é permitida a propriedade privada somente se usada para o proveito da comunidade! Isso está na Doutrina Social da Igreja, mas também na Constituição Federal (cap. 5, inciso XXIII). A propriedade privada não é um direito incondicional e absoluto.
“Tu os igualastes a nós”. Justiça é feita: finalmente o trabalhador é igualado em dignidade ao dono da terra. Os últimos são os primeiros a poder falar o que pensam e esperam. Com Jesus, hoje podemos denunciar: o trabalho escravo é pecado social! A indústria de mineração no corredor de Carajás e nas outras regiões do País é um estupro de nossa terra-mãe!

A parábola diz que o patrão sai continuamente de casa. Preocupa-se para com os trabalhadores, pára na praça, dialoga com eles.
Recentemente, os patrões da terra da área tocantina ‘saíram de casa’ também. Dessa vez, porém, foi para levantar a voz e voltar a defender seus direitos: numa “Carta Aberta” fizeram requerimento oficial à União para que nossa região saia da Amazônia Legal, o teto máximo para desmatamento e produção agrícula passe de 20% a 65% e, enfim, seja permitido reflorestar com... eucaliptos (tipicamente brasileiros!).
“Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence?”. Na parábola essas palavras estão na boca de Deus; hoje parece que os grandes donos da terra queiram tomar o lugar de Deus.
Mas Ele vai pedir conta disso...



giovedì 21 agosto 2008

Dois cachorros de caça...


Toda manhã, quando levanto e rezo, é como se soltasse dois cachorros para a caça: “Já!”
Um deverá correr atrás das pessoas, perseguir os sonhos e a luta do povo, acompanhar seus passos, percorrer quilómetros de caminhada e histórias.
O outro deverá correr dentro de mim, abrir espaços de acolhida, fazer-me crescer na paciência, no respeito, no amor. Buscar tudo o que sou e ainda não consegui viver, mostrar-me quanto longe posso avançar no caminho interior.
A Palavra de Deus é o rasto a seguir, abre caminho em ambas essas direções.

À noite, cansados, esses dois cachorros voltam para casa. Muitas vezes perdidos, com a impressão de ter avançado pouco.
Quase sempre, confesso, o que corria por fora volta com muitas histórias para contar, dezenas de encontros para partilhar. E o outro percebe que correu pouco, pois tinha asperidades bem maiores a enfrentar: muitas vezes fica parado, bloqueado sempre pelos mesmos obstáculos
Mas chamár os dois cachorrinhos de volta em casa, toda noite a descansar, me ajuda, me unifica, me provoca a treiná-los cada vez melhor.

Hoje celebramos o Corpo de Cristo. Meus dois cachorros devem conhecê-lo bem: um procura todas as pegadas que Jesus deixou no meio do povo. O outro busca encontrá-lo escondido até em meu pobre corpo, que pouco se parece com o corpo de Cristo, mas talvez mantenha algumas gotas de perfume dele.

Busco a profecia e a sabedoria


O tempo passa, nessas terras brasileiras carregadas de desafios. Alternam-se muitas perguntas, mas uma fica na base de tudo: onde está Deus?
O sentido da vida é estar onde Deus está e viver conforme sua paixão.
Dou-me conta que há duas maneiras de fazer isso, ambas muito importantes. Para nos entender, vamos chamá-las 'sabedoria' e 'profecia', pois também na Bíblia nossos grandes mestres de vida assumiram essas duas dimensões.

A profecia, hoje aqui, nos obriga a cada dia a lutar contra grandes injustiças, desproporcionais às nossas forças. Nos encontramos no coração de um sistema que suga recursos das entranhas da terra e do povo.
Todo dia passa em nossa frente, 12 vezes, dia e noite, o trem da segunda maior mineradora do mundo. Carregado de ferro e outros minérios, é um saque cotidiano e silencioso que o povo já se acostumou a agüentar. Ao seu redor, cresceu um ciclo produtivo extremamente perigoso para as pessoas e o meio-ambiente: siderúrgicas, carvoarias, poluição, monoculturas de eucalipto, pessoas sem-terra e terra sem-vida...
O latifundio aqui também é o primeiro responsável pela morte da floresta e pela falência da pequena agricultura familiar.
A profecia pede para assumir uma posição firme, com competência e seriedade. Por isso nasceu em final de 2007 uma grande campanha, “Justiça nos Trilhos”, para exigir uma repartição mais justa dos enormes lucros da companhia minerária Vale e um retorno efetivo para nosso território e nosso povo.
Essa campanha participará ao Fórum Social Mundial, onde encontrará muitos parceiros. Até lá, estamos construindo várias alianças com entidades e pessoas, ao longo do País inteiro e com interessantes contatos internacionais.
Esse tipo de atividade nos obriga a agir muitas vezes em níveis distantes do nosso povo, viajar, encontrar outros grupos e municípios, escrever, documentar e estudar, buscar contatos longe daqui, para fazer conhecer essa realidade até agora escondida e silenciosa.

Mas cresce a saudade das pequenas relações cotidianas, da visita às pessoas: tomar um cafezinho juntos, em suas casas simples, saber do que está acontecendo às nossas famílias no bairro, celebrar a vida todas as vezes que nos reunimos em nome de Deus...
É a sabedoria popular, que precisamos beber em pequenos goles para entrar de mansinho no coração desse povo, crescer como parte deles, entendê-los e entendermo-nos. Esse é um povo resistente, que não perde a esperança apesar de todas as dificuldades que atravessa. São artistas da vida, capazes de celebrar e festejar com uma criatividade que se renova no profundo de cada um.
Ficar no meio deles nos ensina a falar a mesma língua, entender que tipo de igreja pode realmente libertá-los e fazê-los crescer, contemplar Deu escondido nos pequenos gestos da comunidade.E tudo o que realizaremos não será simplesmente uma iniciativa nossa, mas sim uma escolha contruida juntos, comendo arroz e feijão da mesma panela!

Não é fácil manter esse equilíbrio entre a profecia e a sabedoria; olhando para Jesus de Nazaré, admiro quanto conseguiu fazer disso uma síntese de vida. Decidido, líder, corajoso para denunciar, tinha clareza quanto ao objetivo de sua missão: libertar os oprimidos, devolver a visão a quem não consegue mais interpretar a vida, quebrar as correntes de todo tipo de escravidão.

Mas ao mesmo tempo era um homem que sabia parar para ficar com as pessoas. Conhecia os ditados, as expressões e os costumes populares, festejava junto com eles, dialogava e fazia muitas perguntas para entender, sintonizar-se com o pensamento e a esperança do povo.
E ainda admirava e silêncio a elegância de um lírio do campo ou a pequenez de uma semente de mostarda...

Esse equilíbrio é síntese amadurecida da vida, é um desafio para cada um de nós, nossas famílias, nosso ritmo de vida: decididos e convencidos, precisamos saber bem qual a direção para seguir. Os que nos seguem (filhos, amigos, companheiros de caminhada) devem perceber nossa convicção, a clareza e obstinação de quem busca o sonho de Deus!
Ao mesmo tempo, porém, quanto é importante dedicar tempo à escuta de cada um, saber parar, impregnar-se da vida dos outros, diminuir o ritmo para caminhar todos juntos...

O Espírito que animou o Nazareno nos ajudará também para viver assim, com profecia e sabedoria!

Ressurreição


Não conheço a Deus nem posso me atrever a dizer quem ele é.
Mas há três atitudes do Deus dos Evangelhos que me cativaram e que escolhi como pontos de referência também para minha vida:
- o Deus que Jesus de Nazaré veio desvendar é o Deus da encarnação. Enxarcar-se de vida, mergulhar na história, nadar fundo dentro da existência dos outros e escolher as existências mais pobres e excluídas. Isso faz muito sentido para mim também.
- esse mesmo Deus vive uma paixão de amor e sofrimento. Já disse quanto isso me apaixona também.
- enfim, Jesus de Nazaré ressuscitou. Em palavras mais ordinárias diria: sua vida fez sentido até o fim. Vamos tentar entender um pouco mais o que é ressurreição... (aqui ninguém quer fazer teologia: é a pobre experiência de um missionário que se interroga sobre o sentido daquilo que vai dizendo ao seu povo!)

Uma coisa é certa: não há ressurreição sem paixão. Assim como a vida não vem de graça, mas precisa de paixão e cuidado para brotar, também a ressurreição, a vida cheia, é fruto de paixão.
O que mais gosto dos contos da ressurreiçaõ é a prova que Jesus usa para mostrar que voltou a viver: ele não chama a testemunho milhares de anjos, nem brinca com estouros de luz e de glória, nem se houve uma voz forte do alto que diz “Esse é meu filho, eu o tirei da morte”. Não: simplesmente Jesus mostra as mãos e os pés, furados, calejados. Mãos abertas e pés novamente a caminho.
Ressuscita-se nas mãos e nos pés calejados. Se perguntarmos a um nordestino o que isso significa, teríamos a melhor das exegeses!
Não há ressurreiçao sem paixão: para mim significa que ressuscita toda pessoa que lutou, buscou sentido, viveu para um objetivo. A ressurreição é a confirmação final que valeu a pena, mesmo se no meio da vida muitas vezes não encontramos saídas, não enxergamos motivos de esperança.
Nossa sede de vida, sede de Deus, ‘cava cisternas’ durante essa existência. Na vida sem fim essas cisternas serão colmadas, cada uma na sua medida: quem lutou e foi em busca de sentido receberá em proporção à sua sede.
“Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada nos braços de vocês” (Lc 6,38). Qual a medida dos seus braços abertos? Qual a profundidade das cisternas que sua sede de vida cavou?

Há pessoas que serão eternamente lembradas por sua sede de vida: são testemunhas (‘martires’) da ressurreição. Ir. Dorothy, por exemplo, foi morta de braços abertos, na luta por terra e dignidade de seu povo. Ainda hoje os companheiros do Comitê Dorothy reunem-se semanalmente e encerram seus encontros com uma mística irresistível: após o assassinato da irmã, foi recolhida num vaso a terra que recebeu seu sángue. Em círculo, tocando esse vaso, eles gritam juntos “Dorothy vive! Sempre, sempre, sempre!”
A sede de Dorothy ainda faz sentido e continua na luta de seus companheiros.

Há outras pessoas de quem ninguém lembra: pobres, viveram o tempo todo às margens da sociedade e lutaram para sobreviver e garantir vida a seus filhos e amigos. Eles também ressuscitam, pois a sede de vida e de sentido recebe uma medida de consolação e paz nos braços do Pai, que ama sobretudo os pobres. Também a vida dos mais esquecidos faz sentido, nos braços de Deus.

De alguma forma, portanto, estamos decidindo desde já se e quanto ressuscitar.
A intensidade da vida e a profundidade das respostas que receberemos depende da paixão e das perguntas que esquentam nossa vida de hoje.
Por isso Jesus diz: “todo aquele que acredita em mim não morrerá, para sempre”.
Escolhe, pois, a vida!

Paixão de Deus e paixão da gente


A paixão não se resume a um tempo particular do ano, como a semana santa, milagrosamente desaparecendo ao chegar o domingo de Páscoa. A paixão é uma atitude permanente do coração.

A página mais bonita do Evangelho que fala de paixão é a narrativa da mulher que entra, com tremor e coragem, na sala dos homens sentados à mesa e quebra o vaso de essência perfumada para ternamente ungir Jesus. A paixão dessa mulher vai muito além de qualquer regra estabelecida, quebra os preconceitos e não se importa com o julgamento dos outros. Não calcula os gastos nem guarda alguma coisa para si.

Esse ícone é símbolo do milagre mais bonito da vida: no nascimento de uma criança a mulher prestes a dar à luz ‘quebra-se’ por dentro para deixar vir ao mundo uma nova pessoa. Fruto da paixão-amor, o milagre da vida exige paixão-sofrimento para se realizar.

Paixão de amor e sofrimento: não dá para distinguir. A criação geme e sofre as dores do parto para que brote uma vida nova. Até Deus sofre a cada dia assumindo o esforço da humanidade para defender a vida.

Donatella, amiga que vive há anos em Belém no meio da violência imposta ao povo da Palestina, sente esse sofrimento na pele. Em Belém, Deus continua a sofrer as dores do parto, tentando renascer “na tristeza de uma noite escura, nas lágrimas das crianças, nas janelas fechadas por medo, na paz que não chega, nas vítimas de ontem, de hoje e de amanhã”.

Donatella é uma das ‘parteiras’ daquela terra: partilha a paixão de Deus para o nascimento da vida a cada dia. Para ela, paixão é não esquecer: “quero manter os olhos bem abertos sobre esse mundo tão humano feito de penumbra e de noite, de amor e de conflitos, de gritos e sorrisos, de lágrimas e de ternura”.

Sermos ‘parteiros’ da vida ainda não nascida: essa é nossa paixão missionária! A vida não vem de graça... É dom de Deus, sim, mas Ele mesmo sofre e luta para que ela brote, seja protegida e se realize em plenitude.

Muitas vezes, nas contradições violentas desse Brasil, sinto o peso da vida que custa a nascer. Há dias que são mais serenos e outros que são como becos sem saída... O importante para mim, como diz Donatella, é não querer esquecer. Carregar permanentemente conosco os anseios e os sofrimentos de muitos, hospedar dentro de nossa existência a existência de muitos outros. Deixar de viver sozinhos.

Quando celebramos a paixão de Deus, fazendo memória na missa, sempre nos lembramos do Cordeiro que ‘tira’ o pecado do mundo. Mas a expressão mais certa seria “Cordeiro de Deus, que carregas o pecado do mundo”. É essa a paixão de Deus: carregar consigo as esperanças e a dores de um mundo que custa a nascer de verdade.

Essa paixão não se resolve como num toque de mágica logo que chega o dia da Páscoa. Ao contrário, nosso tempo é como um permanente sábado de espera, uma longa vigília que existe entre as feridas da morte de sexta-feira e as primeiras luzes do Novo Dia. Entre o amor e o sofrimento, entre a derrota e a ressurreição.

Essa busca e esse desequilíbrio me desafiam... e me apaixonam!