Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 14 ottobre 2015

Dar razão de nossa esperança


Eis uma entrevista recente, para conhecer o que vivemos e compreender o que sentimos. 
É um diálogo com o amigo Antonio Gaspari, da agência de informação Zenit. 
Dedico-a a Zé dos Santos, mais um mártir da frágil resistência de nossos povos...

Acabaram de encontrar Papa Francisco, o que disseram para ele e o que ele vos disse?

A coisa mais bonita que Papa Francisco nos disse foi: “Eu sempre, sempre tive grande admiração por vocês, pelo trabalho que fazem, pelos riscos que enfrentam... Sempre senti essa admiração grande. Obrigado”.
Esperávamos há muito tempo o encontro com Francisco; o preparamos durante nosso Capítulo Geral com uma peregrinação na casa do outro Francisco, em Assis, e trabalhamos durante todo o mês de Capítulo sobre a Evangelii Gaudium, sobre como traduzi-la em prática em nossa missão comboniana.

Ao Papa dissemos muitas coisas, cada um nos trinta segundos que teve a disposição com ele! Creio que ele se fez uma boa ideia da pluralidade de nossa família comboniana: intercultural e mergulhada em desafios tão diferentes nos quatro cantos do mundo. Houve quem lhe falou do drama da guerra em Centráfrica, Sudão do Sul ou Eritréia; quem do diálogo com o Islão ou do empenho missionário com migrantes ou povos afrodescendentes; quem mostrou empenho em sintonia com a encíclica Laudato Sí, especialmente na Amazônia e com os povos indígenas...
Como diz Daniel Comboni, somos raios diferentes, que porém saem do mesmo centro: o encontro com o Bom Pastor, que nos empurra para fora e nos faz sentir o gosto de ter o cheiro das ovelhas!

Está trabalhando numa comunidade missionária em Açailândia, às portas da Amazônia oriental, perto da maior jazida de ferro do mundo. As minas e ferrovias são obras humanas que –se bem utilizadas em função trabalhista e social- trazem desenvolvimento e progresso. Ao contrário, o que acontece onde vocês vivem estraga o meio ambiente e as condições de vida das pessoas, provocando muitas vítimas. A avidez de alguns é tão agressiva que gera violência e ameaças contra quem, como vocês, tentam defender as pessoas e o ambiente. Pode nos contar o que está acontecendo?

Vivemos na região de Carajás, área de enormes jazidas onde a empresa Vale (privatizada desde 1997, tornando-se uma das maiores multinacionais mineras) está extraindo minério de ferro há 30 anos.
Quando essas reservas foram descobertas, a perspectiva era de centenas de anos de exploração. Mas o ritmo de extração tornou-se descontrolado, bem além das necessidades efetivas de minério de ferro do mundo. Nesses últimos anos, Vale está duplicando o sistema inteiro (mina, ferrovia e porto) com o objetivo de exportar a partir de 2017 cerca de 230 milhões de toneladas de minério por ano. É claro, agora, que já a próxima geração conhecerá o fim de Carajás, um dos patrimônios mineiros mais ricos do mundo.

Na encíclica Laudato Sí, que chega a descrever bem também esses processos, encontramos esse texto que parece o retrato de nossa região: “Geralmente (as empresas), quando cessam as suas atividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultu­ra e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar” (LS 51).
Esse modelo extrativo é emblema da loucura da economia de hoje. Atualiza a prática colonial do saque de matérias primas, porém a um nível exasperado de crescimento sem limites. 

Escutemos mais uma vez a Laudato Sí: “... a ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a «espremê-lo» até ao limite e para além do mesmo. Trata-se do falso pressuposto de que «existe uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regenera­ção é possível de imediato e que os efeitos nega­tivos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente absorvidos»” (LS 106).
Nossa Mãe Terra é limitada e não aguenta mais tamanho ataque. As populações locais percebem isso, o sentem na carne e buscam defender os territórios onde vivem, preservando-os da agressão desse modelo extrativista. Quem se opõe a isso, porém, corre sério perigo...

Que tipo de perigo?

No mês passado, Raimundo dos Santos Rodrigues foi morto. Era um camponês, pequeno proprietário de terra às margens da reserva biológica de Gurupi e membro do sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. A Rebio Gurupi há tempo é visada pela ganância de grandes fazendeiros e madeireiros. A esposa de Raimundo estava ao seu lado na hora do atentado; ficou gravemente ferida e agora deve viver escondida, fugindo de quem a ameaça de morte. Mais de trinta famílias da mesma comunidade fugiram, temendo também por suas vidas. Abandonaram, de uma hora para a outra, casas, campos e animais. Não sabemos como poderão reconstruir-se uma vida. 

Muitas de nossas energias como missionários e defensores dos direitos humanos estão sendo dedicadas à proteção dos líderes locais...
Nós mesmos precisamos agir com muita atenção. Não recebemos ameaças de morte, mas em 2013 foi descoberta uma rede de espionagem de nossas comunidades religiosas, entidades e movimentos sociais por parte da empresa Vale e do próprio Estado brasileiro, com acesso a nossas comunicações telefônicas e internet e pessoas infiltradas dentro de nossos grupos, para antecipar estratégias e comunicar os nomes das pessoas mais ativas e comprometidas. Imaginem o clima de desconfiança e insegurança que se criou entre nós...

Sobre toda essa situação vocês escreveram um livro em italiano, “Il prezzo del ferro” (O preço do ferro) e criaram uma rede de resistência. Pode comentar algo a respeito?

Chamamo-la “Justiça nos Trilhos”, porque desejamos que a ferrovia -que atravessa 100 comunidades, em 27 municípios ao longo de 900 Km de percurso desde a mina até o porto de São Luís- se torne um corredor de efetivo desenvolvimento, pelo protagonismo de quem o habita, pelas iniciativas produtivas com base familiar e pelo respeito das culturas e do estilo de vida das populações locais
É muito importante que essas comunidades (indígenas, afrodescendentes, de agricultores, pescadores ou moradores das periferias urbanas) se percebam como atingidas por um mesmo modelo e que esse pode ser mudado no momento em que suas vítimas organizam a esperança e a resistência.

Estamos reforçando a cada dia também a aliança em rede com outros movimentos e grupos, para fazer interagir as periferias com os centros desse mecanismo de mercado.
Por exemplo, seguimos a cadeia de produção do aço e, com a ajuda do Centro Novo Modelo de Desenvolvimento, da Itália, propusemos dados e reflexões sobre o “preço do ferro”, indicando quais os custos humanos, sociais e ambientais que não vêm sendo calculados pelos mecanismos de mercado.

Nessa construção de alianças, aproximamo-nos também à cidade de Taranto, no sul da Itália. Do outro lado do oceano, há uma comunidade que como nós se rebela à poluição e à morte, provocados lá pela maior empresa siderúrgica de Europa, chamada Ilva, que é alimentada pelo mesmo minério de ferro que sai das entranhas de ‘nossa’ Carajás!
Acompanhar a violência e a dor provocados por esse modelo de produção e consumo nos leva a repensar o valor da vida, do futuro. Papa Francesco ensina que toda criatura possui um valor intrínseco, independente do uso que se pode fazer dela (cf LS 140). Quando compreendemos o valor da vida, recuperamos a capacidade de colocar limites, limitando assim também o sofrimento ou a degradação daquilo que está a nossa volta (cf. LS 208).

Nas páginas de alguns meios de informação, a ação de vocês vem sendo confusa com manifestações de caráter político; seu espírito evangélico de defesa dos últimos e dos pobres é indicado como extremista. Explique aos leitores qual é o fundamento de suas ações.

Sobre os meios de comunicação e a influência dos vários formadores de opinião, me reconheço integralmente nas palavras do Papa ao n. 49 da Laudato Sí: “Muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder estão localiza­dos longe deles (os excluídos), em áreas urbanas isoladas, sem ter contato direto com os seus problemas. Vi­vem e refletem a partir da comodidade dum de­senvolvimento e duma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da população mun­dial. Esta falta de contato físico e de encontro, às vezes favorecida pela fragmentação das nossas cidades, ajuda a cauterizar a consciência e a igno­rar parte da realidade em análises tendenciosas”.

Não precisamos justificar para ninguém nossa escolha de estar ao lado dos pobres.
Quero porém “dar razão disso”, isto é, indicar o significado que essa escolha traz para nós.
Nos dá alegria e sentido. Nossa consciência, nossos sentimentos e nossa humanidade são profundamente provocados e continuamente renovados ao permanecer ao lado das pessoas mais simples, aos excluídos e às vítimas.
Não estamos bem, entre os pobres, porque ali também há egoísmo, conflito, raiva, decepção. Mas com certeza nos sentimos mais humanos e, portanto, mais divinos.

Deus encarnou-se (e não entre os ricos) exatamente para nos fazer entender isso. Para que sentíssemos a beleza de lutar juntos, de buscar a vida e defende-la com todas as nossas forças. A beleza de descobrir as razões de esperança mesmo na dor mais profunda.
Caminhar junto às vítimas faz entender bem o que significa “esperar contra toda esperança”. Percebo que, nesse caminho, a sede de justiça e a necessidade de misericórdia se aproximam até coincidir, lá onde pulsa o sentido mais profundo da vida.

sabato 22 agosto 2015

Para não engavetar o Papa



Há duas maneiras para neutralizar a profecia e a esperança que Papa Francisco está nos transmitindo: engaveta-lo ou afastá-lo em cima de um palco.

A potência da encíclica Laudato Sí poderia apagar-se rapidamente, depois de alguns artigos nos jornais e alguns debates em nossas paróquias. Nossos amigos mais comprometidos na causa socioambiental em outros países latino-americanos, como Equador, Colômbia ou Peru, queixam-se pelo desinteresse de setores importantes da igreja institucional, que já engavetou o texto, para que não incomode demais.
Parece que Francisco previsse isso, se consideramos a insistência com que, na encíclica, oferece “um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira em que estamos construindo o futuro do planeta”, “para buscar juntos caminhos de libertação”. Laudato Sí deveria repartir-se como pão cotidiano nas mesas de nossas comunidades e famílias, nos bancos de nossas escolas e universidades, nas rodas de debates em nossos bairros e nos grupos de rua de nossas igrejas...

Em outros casos, consciente ou inconscientemente, a força da mensagem de Francisco é afastada, fora do alcance da vida cotidiana: muitas pessoas fazem dele um profeta, que fala em nome de todos e representa o que todos esperam. Mas ficam mesmo esperando, não se mobilizam para uma mudança que envolva todos os níveis da igreja e deixam ele sozinho no palco do cenário internacional. É por isso, acreditamos, que Francisco lembra continuamente que seu tempo “não durará muito”: para evitar mecanismos de projeção, que desresponsabilizam.
“Aos problemas sociais se responde (...) com redes comunitárias”, provoca o Papa (LS 219). 
No discurso aos movimentos sociais em Bolívia faz um apelo a todos, especialmente aos mais frágeis e excluídos, para um compromisso coletivo: “O que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem soluções (...)? Muito! Podeis fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e os excluídos, podeis e deveis fazer muito. Me atrevo a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, em vossas mãos, em vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas (...) e em vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança, nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!”

Como missionários nos comprometemos nisso! Está claro para nós que esse é “o momento favorável, o dia da salvação” (2 Cor 6,2) e nos inserimos no grande fluxo de vida e esperança que brota de Francisco, remando também nós contra a correnteza do atual modelo de consumo e do assim chamado “desenvolvimento”.

Uma primeira escolha de nosso grupo missionário no Brasil foi unificar o compromisso a respeito de duas de nossas prioridades: a evangelização entendida como serviço aos povos indígenas e como promoção da justiça socioambiental. Assumimos a nova prioridade “Evangelização e Amazônia”. Compreendemos cada vez mais, de fato, que tudo está “intimamente relacionado” (LS 137) e que, na lógica da ecologia integral, nos cabe promover a vida, defender as culturas e os territórios ao lado das comunidades que neles vivem, e assim encontrar Deus junto com elas.
Identificamos com clareza cada vez maior a defesa da vida na Amazônia como uma de nossas prioridades e como uma urgência para o mundo. 
Francisco declarou: “A Amazônia é um teste decisivo e um banco de prova para a Igreja e a humanidade”. O ano passado, as Igrejas dos nove países que se debruçam sobre a Panamazônia instituíram a Rede Eclesial Panamazónica (REPAM), que acolheu profundamente esse desafio, com a contribuição apaixonada de nós missionários, unificando as diversas formas de serviço e compromisso que há muitos anos os cristãos assumem nessa região.

Para ser ainda mais práticos, nós combonianos escolhemos alguns contextos paradigmáticos, a fim de avançar com maior radicalidade e eficácia no “cuidado da casa comum”. Um deles é a causa da comunidade de Piquiá de Baixo (Açailândia-MA), verdadeira zona de sacrifício, afetada pela poluição siderúrgica e em luta por seu reassentamento coletivo, pela indenização dos danos sofridos, a responsabilização de Estado e empresas e a mitigação dos impactos sobre toda a população.

Há oito anos estamos nos comprometendo também na denúncia das graves violações de direitos humanos por causa das empresas de mineração na Amazônia oriental, em especial a Vale S.A. ao longo do Corredor de Carajás. Recentemente, num encontro organizado no Vaticano com comunidades de 18 países do mundo, afetadas pela mineração, o papa escreveu: “Na Encíclica Laudato Sí eu quis fazer um apelo urgente pela colaboração no cuidado de nossa casa comum, para contrastar as dramáticas consequências da degradação ambiental nas vidas dos pobres e excluídos, e avançar para o desenvolvimento integral, inclusivo e sustentável (cf. n. 13). Todo o setor da mineração é, sem dúvida, chamado a fazer uma mudança radical de paradigma para melhorar a situação em muitos países”.

Seja louvado, nosso Senhor, por Papa Francisco e pelas muitas pessoas que, escondidas, doam sua vida em defesa da vida! “Continuem com sua luta – diz Francisco – e, por favor, cuidem bem da Mãe Terra”.

mercoledì 17 giugno 2015

Laudato Sí em América Latina

Os Ka’apor do Maranhão levantaram a voz. Por isso querem amordaçá-los.
Cansados de esperar que o Estado os defenda e garanta proteção para eles e a floresta, organizaram por sua conta “missões” de controle da reserva em que vivem.

Vigiam sobre os acessos à sua terra e surpreendem os madeireiros que a invadem e saqueiam, protegidos e aliados a políticos e empresários locais. Quando os índios os descobrem, apoderam-se de suas motosserras, incendeiam seus caminhões e os expulsam de suas terras, declaradas Kaar Husak Há, isto é Áreas Protegidas.

Eusébio Ka’apor era um dos defensores da terra indígena. Mataram-no com dois tiros nas costas, no final de abril, pouco distante de sua aldeia. No Brasil as vítimas da violência em terra indígena nesses últimos anos aumentaram com a mesma proporção da arrogante bancada ruralista.

O que esperariam os Ka’apor da encíclica Laudato Sí de Papa Francisco? Será preciso lê-la do ponto de vista deles e de muitas outras vítimas da violência ambiental.
Nós missionários combonianos faremos dela instrumento de estudo popular da realidade, com as comunidades cristãs junto às quais vivemos.

Muitos estão esperando por essa encíclica. Sobretudo as comunidades e igrejas perseguidas por seu empenho em defesa da Criação e em conflito com os grandes projetos nas regiões amazônicas: mineração, monoculturas, hidrelétricas e barragens, infraestruturas para a exportação de commodities... Chamados “projetos de desenvolvimento”, revelam rapidamente o interesse quase exclusivo de desenvolver os capitais de quem investe nisso, provocando graves violações dos direitos socioambientais às populações locais e criminalização dos líderes populares que a eles se opõem.

Um dos motivos da criação da rede latinoamericana Iglesias y Minería, por exemplo, foi exatamente evitar o isolamento das comunidades mais empenhadas nessas frentes e demonstrar apoio moral, político e institucional da Igreja a seu lado. Esse talvez será o efeito prático mais imediato e importante de Laudato Sí.

Esperamos que essa encíclica confirme uma posição clara da Igreja ao lado das vítimas do assim chamado “racismo ambiental”. Desejamos que, ao denunciar os riscos da sobrevivência do Planeta, o documento seja solidário às comunidades mais pobres. Essas são de um lado as vítimas maiormente atingidas por essa violência e, do outro, em muitos casos, indicam-nos caminhos de preservação da vida e de organização de economias a baixo impacto ambiental nos territórios.

Em muitos países está sendo implicitamente declarada uma guerra de baixa intensidade, disputando territórios e bens naturais. A história se repete no estilo das antigas colônias, como bem demonstra o saudoso Eduardo Galeano em “As veias abertas da América Latina”, mas com ritmos e tecnologias bem mais impactantes, chegando assim a violar também os direitos das futuras gerações.

O espírito consumista e o sistema capitalista crescem a uma velocidade exponencial; outros modelos de vida que com dificuldade resistem à agressão deles observam-nos com angústia e incompreensão, definindo-os, lucidamente, “sistemas suicidas”. Desse ponto de vista, a leitura de Laudato Sí poderia ter profundas implicações político-econômicas.

As comunidades que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho define “indígenas e tribais” representam ao nosso ver um “baluarte” (Kaar Husak Há). Assim como ao longo da história as fortalezas protegeram inteiros territórios das invasões e frearam o controle inimigo dos territórios, da mesma forma o direito à autodeterminação das populações locais pode ser uma estratégia, hoje, para evitar a entrega indiscriminada dos bens comuns às corporações mineiras ou às multinacionais da comunicação, da água ou das grandes cadeias de produtos alimentares.
A Igreja deveria apoiar com força o direito à “consulta prévia, livre e informada” das comunidades locais, assim que seja garantido o autocontrole de seus territórios.

A Red Eclesial Panamazónica comprometeu-se nesse sentido em diversos Países da América Latina. Articula comunidades cristãs de base, grupos e instituições religiosas e as conferências episcopais da grande Amazônia, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e com uma interessante proposta de colaboração permanente com a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos.
A visita de Papa Francisco a Washington em setembro, poucos meses depois da publicação da Encíclica, poderá tocar também esses temas delicados e urgentes.

Em chave de política internacional, a encíclica poderia ser oportunidade para relançar a proposta de criação de uma Corte Penal de Justiça Ambiental. Hoje, de fato, não existem adequados mecanismos de responsabilização em nível internacional por crimes ambientais. Assim, mesmo em caso de graves violações desses direitos, as multinacionais e os governos locais, vinculados entre si por acordos e interesses econômicos, acabam praticamente impunes.

Sobretudo, esperamos que o documento vaticano sobre ecologia ofereça uma releitura teológica das referências bíblicas que ao longo da história, por interpretações patriarcais e colonizadoras, separaram a Criação do homem, considerando esse último o dominador e controlador da vida.
Sabemos quanto o sistema capitalista, ecocida e suicida, herdou da cultura religiosa cristã. Por outro lado, temos a inspiração radicalmente evangélica de São Francisco e o testemunho vivo de muitos e muitas mártires que nos relançam em defesa da vida.

Precisamos igualmente de um profundo e humilde processo de conversão e purificação. Uma nova escuta da Revelação, a partir do encontro fecundo entre a Palavra bíblica, o livro da criação e a sabedoria dos povos e das religiões.

sabato 23 maggio 2015

Missão e Direitos Humanos

“Eu já lhe ensinei, ser humano, o que é bom e o que o Senhor lhe pede: simplesmente que respeite o direito, ame a fidelidade e, assim, caminhe humildemente com o seu Deus” (Mi 6,8).

Uma das prioridades de nosso compromisso comboniano no Brasil é evangelizar defendendo os direitos humanos nas periferias urbanas. 
Em diversas cidades do País temos contribuído à fundação de Centros de Defesa dos Direitos Humanos ou de grupos humanos específicos (crianças e adolescentes, pessoas encarceradas ou sem teto, vítimas do trabalho em condições próximas à escravidão).

Ainda hoje continuamos fazendo parte de Conselhos Municipais ou Estaduais de Defesa dos Direitos e nos comprometemos junto às comunidades, etnias e povos indígenas que denunciam violações de direitos e reivindicam justiça.

Como missionários, não temos uma competência jurídica específica. Mas promover os direitos não é só papel dos advogados populares, por quanto alguns deles colaborem conosco, demonstrando uma verdadeira vocação missionária.

A Igreja tem um papel decisivo no anúncio e construção de uma sociedade em que a voz de todos seja respeitada, com o papel profético de defender os pequenos e as minorias oprimidas pela lógica do lucro ou do sucesso excludente.

Profeta dos pobres, o bispo dom Pedro Casaldáliga afirma, junto a José Maria Vigil: “Não temos a possibilidade, hoje, de uma revolução social ou econômica. Temos à disposição a Utopia dos Direitos Humanos. Uma realização plena dos Direitos Humanos corresponderia a uma efetiva revolução integral: democrática, socialista, feminista, popular, ecológica”.
O sonho de Deus, seu Reino, sempre teve uma profunda conotação política e hoje pode se construir afirmando e protegendo o direito e a justiça.

O monge brasileiro Marcelo Barros critica: “A sociedade dominante apresenta os Direitos Humanos só como um âmbito de inviolabilidade individual: direitos liberais de ir e vir, comprar e consumir”. Explica, porém, que os Direitos Humanos são comunitários e coletivos, implicam a cura da Mãe Terra e de todos os seres vivos, também eles, de alguma maneira, sujeitos de direitos.

O Evangelho e a vida de Jesus de Nazaré indicam o método irrenunciável de quem promove e defende os direitos humanos: assumir o ponto de vista dos empobrecidos e oprimidos, não substitui-los nem dirigir suas lutas, mas apoiar seu protagonismo, suas reivindicações.

Essa vocação cabe só a poucos missionários que, por paixão ou obrigação de responder ao drama dos grupos humanos que acompanham, mergulharam e se especializaram em algum campo dos Direitos Humanos? Absolutamente não: é um desafio e uma missão da Igreja inteira.

Nossa maneira de celebrar e compreender o Evangelho, nosso empenho na educação cristã e popular, a catequese, a escolha das pessoas que visitamos e dos encontros a que participamos, o silêncio ou o posicionamento em defesa dos pobres e das vítimas, nossa presença ou ausência aos eventos públicos nas cidades, bairros ou povoados em que trabalhamos, tudo expressa o interesse e demostra o potencial da Igreja e dos missionários em defender a vida.

A animação missionária a que somos chamados é isso mesmo: ajudar as igrejas de hoje a sair de si mesmas e compreender que a missão que Jesus assumiu e nos entregou é “Evangelizar os pobres, anunciar libertação aos presos e a vista aos cegos, libertar os oprimidos, proclamar o Ano da Graça do Senhor” (Lc 4).

A missão, assim, pode contribuir à promoção de uma ética global, no encontro das diversas espiritualidades e confissões, no diálogo entre os povos, sempre a partir dos pobres.

sabato 18 aprile 2015

Pontos de vista

Desde cima...
Boa noite, sou o presidente do Sindicato das Indústrias de Ferro.
Desde quando montaram esse Programa da Grande Carajás, a gente respirou fundo. Era uma oportunidade incrível para nós! Prometemos montar, ao longo do corredor todo, mais de 10 polos siderúrgicos. Na verdade era quase como uma sedução para convencer governos e a população a acolher esse enorme projeto que depois, em sua maior parte, serviria só para a exportação.
Mas um polo, aliás, dois, conseguimos montar. Um em Marabá, outro exatamente em Açailândia, que não entendo porque está sendo comentado mundo afora. Afinal, a gente está fazendo nosso trabalho.
Imaginem: além da ferrovia, tinha a BR que ia para São Luís e uma lagoa bonita e grande – água para esfriar os nossos fornos. Pensamos: "É onde vamos instalar nossas siderúrgicas". É verdade que havia algumas casas ali, mas eram poucas e também a gente ia demonstrar que chegaram depois.
E aí montamos cinco plantas siderúrgicas com catorze altos fornos. Em seguida, aos poucos, fomos crescendo – porque o povo nos pedia isso. Construímos três usinas termoelétricas. E também uma fábrica de cimento. E também agora uma acearia, que ainda está em construção. Naturalmente, é uma oportunidade para nós, mas também é uma oportunidade para o nosso povo.
Aquele povo de Piquiá podia encontrar trabalho. A gente dá trabalho para três mil pessoas, sem contar os terceirizados. Aliás, a única forma de manter a economia rodando na região inteira é a mineração e a siderurgia. Sem isso, não haveria alternativa. Aliás, conosco não há alternativas possíveis.
Além do trabalho, a gente permite que essas populações se desenvolvam. Não é um acaso que Açailândia foi reconhecida como uma das vinte cidades que mais estão crescendo no Brasil. Alguns acham que fui eu que encomendei o artigo, mas enfim.
O desmatamento, como vocês viram, já terminou. Até porque a floresta terminou. Começamos a plantar eucalipto, quer dizer, reflorestamos. Assim estamos conseguindo injetar créditos de carbono, de forma que nosso plantio está reduzindo a poluição, porque o eucalipto produz oxigênio. É verdade que depois queimando o eucalipto nas siderúrgicas eles produzem CO2, mas antes eles produziam oxigênio. Então a gente balanceou. Nosso reflorestamento está trazendo equilíbrio.
Além disso, o trabalho escravo, que foi muito criticado, já terminou – e inclusive a gente montou um instituto, o Carvão Cidadão, que é um instituto sério que fiscaliza as siderúrgicas. É composto por siderúrgicas que fiscalizam as siderúrgicas. Demonstramos que estamos fazendo um bom trabalho.
Fazemos também o monitoramento da poluição, chamado de "automonitoramento" – porque são as siderúrgicas que monitoram a poluição das siderúrgicas. E a gente demonstra que não há poluição.
Outra crítica que nos fazem é que trazemos pouco trabalho, mas agora com a acearia, a gente está acrescentando qualidade aos nossos produtos e multiplicando o trabalho.
É verdade que recebemos benefícios como isenções fiscais. Recentemente, no município de Açailândia, conseguimos aprovar uma lei que baixou de 2% para 1% de imposto de ISS. Temos alguns favores, mas é para poder servir melhor a própria população.
Recentemente nos acusaram também de estar trabalhando com as licenças de operação vencidas, mas quem nos acusa não pode provar isso porque a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, graças a Deus, não encontra todas as licenças e demora em entregá-las. Tem advogados que estão pedindo repetidas vezes. Até ativaram o Tribunal de Justiça para conseguir essas licenças, mas graças a Deus até agora ninguém se mexeu para dar uma posição sobre elas.
Por último, é verdade, temos que reconhecer, há alguns danos colaterais que são esses moradores que, como disse, a maior parte chegou depois – e por conta das nossas firmas. Mas o que nós queremos é nos livrar rapidamente desse problema, tirando esse povo daí.

Desde baixo...
Boa noite, sou o presidente da Associação dos Moradores do Piquiá, meu nome é Edvard Dantas Cardeal.
Quando cheguei ao Piquiá, havia uma lagoa muito bonita na região, cheia de açaís. E não tinha ninguém morando. Depois, chegaram muitas famílias. Foi um dos primeiros povoados da cidade de Açailândia. A primeira escola de Açailândia está onde tenho agora minha pequena casa, desde os anos 70.
Só 15 anos depois chegou a ferrovia e 18 anos depois chegaram as siderúrgicas. Já havia a escola – o que significa que havia um número de crianças suficiente para manter uma escola viva.
Só que quando eu vi esses monstros crescendo e ninguém pedindo minha autorização – ou pelo menos, ninguém me informando a respeito do que ia acontecer –, eu caí em pânico porque não sabia o que fazer. Como me contrapor? O monstro do investimento estava se colocando como um meteoro que cai sobre nossas cabeças e eu não tinha forças para barrar.
Mas aos poucos percebi que eu poderia contar com a ajuda de alguns aliados. Fui bater à porta do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia, depois à porta da Paróquia, depois procurei a Rede de Justiça nos Trilhos, depois outros aliados que chegaram.
E aí o corpo que começou a me ajudar, que começou a sustentar, a mobilizar o povo à minha volta e a refletir conosco sobre as alternativas cresceu. Fizemos um referendo perguntando a todos os moradores, 380 famílias à época: "O que a gente quer? Preferimos lutar para barrar essa poluição, permanecer aqui e tentar bloquear essa poluição? Talvez reduzir as emissões, colocar filtros ou melhor ainda, bloquear o britador que vai moendo os descartes da siderurgia para produzir cimento e cria uma poeira danada? Ou, pelo menos, tirar esses depósitos de dejetos que, quando o vento chega, descarrega tudo por cima de nossas casas?".
Mas o povo preferiu não, porque estava cansado de 20 anos de luta contra essa poluição. Disseram, a grande maioria, cerca de 90%: "Vamos embora daqui. Mas vamos embora coletivamente, não vamos aceitar uma pequena indenização separadamente e cada um que se vire. Nós somos uma família. Afinal, nos conhecemos todos, todos chegamos mais ou menos no mesmo período. Então vamos lutar pelo reassentamento coletivo".
E depois fomos fazendo amizades, né? Algumas que estão aqui, o pessoal da Usina, fomos nos aliando com pessoas de outros movimentos populares e também fomos percebendo que haviam outras instituições do direito – o Ministério Público e a Defensoria – que podiam nos ajudar.
Fomos ativando todos os canais, para tentar fazer pressão. Alguns de nós estavam enraivados e chegamos a processar uma das siderúrgicas. Aquela que está bem do lado do quintal das nossas casas. Vinte e uma famílias entraram com processos individuais e já conseguiram a primeira condenação no Fórum de Açailândia. Vinte e uma decisões do juiz em nosso favor.
Mas as siderúrgicas sabem que o processo vai demorar muito e vai subir ao Tribunal de Justiça – e lá, tenho a impressão de que eles têm uma boa influência. Mas nós não vamos desistir. Vamos acompanhar esses processos.
Em paralelo, o reassentamento continua, a partir de uma negociação extra-judicial. E nessa negociação, a gente foi pedindo e conseguindo, passo a passo, pequenas vitórias.
Tínhamos algumas metas. Primeiro, conseguir uma nova terra. Onde vamos nos reassentar?
Fomos estudando e oferecemos cinco condições ao Ministério Público. Tinha que ser um terreno ao lado da BR – porque nós vivemos ao lado da BR. Tinha que ser próximo à cidade, porque não queremos ficar nos cafundós, onde se costumam colocar as pessoas descartadas. Tinha que ser grande o suficiente para deixar todo mundo no mesmo local – não aceitaríamos dividir, nem pela metade o nosso povo. E tinha que ser um terreno regular em sua documentação, pois queremos a propriedade. Então, assim, o Ministério Público foi selecionando. Escolheu.
Lutamos para desapropriar esse terreno, foi uma luta dura e agora não tenho tempo para explicar para vocês, mas tivemos que pressionar bastante porque também a Justiça, vocês sabem, né? Pra que ela se mova... Aliás, tínhamos feito um camisa com os dizeres: "As vacas têm para onde ir, mas o povo do Piquiá não". Porque naquele terreno lá, havia uma pastagem. E, poxa... pastagem tem pra caramba. Essa é a cidade que tem o maior gado leiteiro e de carne do Maranhão. Então dava para levar as vacas pra outro lugar e nos colocar lá, né? Fomos com essa camisa no Tribunal de Justiça, até quando foi finalmente sentenciada a desapropriação.
Tivemos que fazer muitas outras brigas para conseguir uma indenização que fosse ao mesmo tempo justa e não especulasse sobre o nosso terreno. Só no mês passado terminou essa odisseia jurídica. Graças a Deus. Não aguentávamos mais ver essas leis e elas também não aguentavam mais ver a gente.
E agora estamos lutando por um outro processo grande. Conseguimos o terreno e agora precisamos viabilizar a construção coletiva do nosso bairro. Mas essa é uma outra história, que vou deixar para os meus amigos da Usina contarem.

Transcrição de uma fala durante encontro realizado na sede da Usina CTAH em 05 de outubro de 2014. Fotos: Marcelo Cruz.

martedì 17 marzo 2015

Ana Paula...

Cara Ana Paula,
Quantas vezes discutimos, na porta da casa paroquial à noite, nas vielas da prainha do Jacu, na casa de sua segunda mãe, a Dirce, ou junto ao padre Pedro que ainda hoje pergunta por ti...

E quantas vezes voltávamos a nos procurar, quase com saudade...

Conversar contigo era sempre muito gostoso: com seu espírito irreverente e rebelde, você enxergava o mundo sem enfeites.

Dizia o que era para dizer, à sua maneira desmascarava a hipocrisia de todos nós. 
Também na igreja: lembro ainda, algumas vezes, você sentada no banco esperando que a missa terminasse, comentando em voz alta durante a celebração, fazendo questão de comer aquela hóstia que lhe parecia um prêmio para poucos. Você também merecia!

Todos, eu sua gíria colorida, ganhamos um apelido seu; você fazia um raio-X de nossas posturas e palavras e sua existência breve foi tocando, uma a uma, todas as contradições de nossa sociedade.

Viveu sem raízes, porque assim era seu coração, mas também porque a terra que soubemos lhe oferecer era dura e árida. Mesmo assim, nessas tantas periferias que você habitou, nos mostrou que podem brotar várias flores.

Celebramos seu aniversário num barraco, pouco depois da enchente da Prainha do Jacu; ao redor do bolo, naquele dia, até eu me senti em família. 

Tão grande era seu descuido por você mesma, quanto a preocupação e o carinho por sua irmã mais nova, ainda mais agora que ela tem um filhinho... Creio que você também teria sido uma boa mãe, sabe?

Foi por causa de você que fizemos amizade com seus colegas andarilhos. Tomando chuva juntos, à beira da estrada, uns se recomendavam aos frágeis cuidados dos outros...

E lá no lixão era você nossa ‘informante’, para saber como estava o ‘Coca’, ou a ‘Vozinha’. Vez em quando havia briga, por lá, mas é incrível quanto os trabalhadores e trabalhadoras do lixão se lembravam e preocupavam por ti.

A mais bela flor que brotou onde você passou foi a solidariedade de dona Arlete. 
Seu barraco não fica longe da entrada do lixão, o marido trabalha lá o dia inteiro, ela ajuda no final de semana e cuida dos dois filhos o tempo todo. Espaços apertados, em casa, esquivando as goteiras do telhado furado, os pintinhos, gatos e o alegre quati que correm no meio das pernas. 
Não havia mais, para você, um lar onde se proteger, nem família e nem mais forças para enfrentar a vida. Magra e sem fôlego, confusa e apavorada. 
Arlete esticou mais uma rede, por cima da cama da filha, e você ganhou uma nova irmã por poucos dias. Ela também chama-se Ana Paula, continuará a viver em seu nome...

Existe sim, a solidariedade entre os pobres, e não tem medida nem interesses. Nasceu no lixão, tem um perfume que nossa sociedade descartou e que não se compra nas lojas do centro.

Mas sua morte, Ana Paula, não é romântica. 
É um punho no estômago. É mais uma falência.
Faliu nossa solidariedade que não se fez amparo. Faliu nossa cidade que se diz ‘em crescimento’. 

Lembro-me das vezes que, no coração da noite, zangada e revoltada, você batia com força a nosso portão, por desabafo ou para pedir ajuda.
Agora que você também fica em silêncio, perdemos mais uma oportunidade de acordar.