Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 30 settembre 2009

Chamavam-se Maria

Conheci Maria Bernardina no hospital. Custava a respirar, exalando lentamente, um atrás do outro, os seus 95 anos.
Poucos dias depois ligaram para que eu abençoasse o corpo dela, antes da despedida. Chego e encontro somente três pessoas ao seu redor... poucas demais, pelos muitos anos em que amou e serviu!
Aproveito para escutar a história dessa mulher: foi casada aos 12 anos com um homem adulto, escolhido para ela pelos pais. Máquina de sexo e filhos, Maria logo pegou sífilis.
Concebia e paria uma criança atrás da outra, mas por causa da doença elas nasciam deformes, com graves problemas, e morriam logo nos primeiros dias.
Por quinze vezes foi assim, até encontrar um médico que teve mais cuidado e competência; graças a Deus e a ele, os últimos cinco filhos sobreviveram.
Maria amava rezar o terço: acho que repassava as 'Ave-Maria' como as gotas de vida e de dor de seus vinte partos.

No mesmo dia, tarde à noite, mais uma ligação. Morreu Maria Luiza, é preciso que um padre venha para 'batizá-la' (para os pobres realmente a fé é o único sustento, mesmo se simples, popular, talvez ingênua...)
Alcançar a casa de Maria Luiza é difícil, no escuro da rua estreita e escorregadia, na periferia da cidade. Algumas tábuas no chão tampam os buracos do quintal, um sofá arrumado às pressas fora de casa recebe com carinho as visitas de quem não couber dentro de casa.
Lá na porta muitos abraços... mas quanta tristeza quando, de repente, abrindo-se o espaço, dá para ver no meio do quarto silencioso o pequeno caixão cor de rosa...
Nove meses na barriga da mãe, tempo de uma longa espera em que se cultivam sonhos, projetos, expectativas. Logo depois, o trauma de horas de hospital: a pequena parece não querer sair, os médicos demoram a fazer o cesariano.

Cada cirurgia custa tempo e incomoda, há muito percebemos essa resistência dos médicos: muitas mães ao nono mês preferem correr para o outro hospital, 70 Km mais longe. O perigo é que nossa maternidade, em lugar de ser o berço da vida, se torne uma usina de morte!
Às vezes imaginamos que os médicos se conformam, “pois os pobres não levantam a voz... e, no caso, têm como rapidamente fazer mais um filho”.

Chamavam-se Maria.

Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonhos sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida.

(Milton Nascimento)

mercoledì 16 settembre 2009

O que passa em teu coração?

Comentário ao trecho de
Mc 9, 30-37


Às vezes ficamos por horas na parada do ônibus, na fila do banco ou do posto de saúde; nesses casos, me invade a tentação de passear pelas cabeças e os corações de todas aquelas pessoas juntas no mesmo lugar.
O que estão pensando? O que estão sentindo?

Com certeza deve ter um emaranhado de paixões, projetos, medos, fragilidades, esperanças... muito disso permanece fechado dentro de cada indivíduo, inexpresso e confuso.

Numa certa altura, no evangelho de Marcos, Jesus sente a necessidade de isolar-se com seus amigos e amigas e aprofundar as relações dentro do grupo, com uma releitura dos acontecimentos vividos até o momento.
Ele não queria que ninguém soubesse para onde iam, pois era preciso dar um passo mais fundo nas motivações que animavam cada companheiro/a de caminhada.
Isso também se faz necessário para cada um: exigir de nós mesmos o tempo e as condições para sair um momento da história de vida e de luta e nos perguntar: “Por que estou fazendo tudo isso?”

Marcos também para e observa o grupo que caminha, descrevendo o que cada pessoa sente e pensa em seu profundo.
De um lado temos Jesus, pressentindo o futuro, intuindo para onde leva sua radicalidade de atitudes e palavras. O mestre tem uma visão histórica e ampla da situação, sabe interpretar os eventos.
Em seu caminho não perde a sensibilidade do dia-a-dia, a atenção para com os companheiros, mas também mantém os olhos fixos sobre o horizonte e enxerga com clareza os objetivos e o itinerário necessário.
Orienta-se no labirinto das diversas possibilidades, compreende o sentido de suas escolhas e define o que quer na vida, até o fim. Sabe que, se for fiel aos valores assumidos desde o começo, a morte não será a última palavra: “o Filho do Homem ressuscitará”. Esse estilo de vida, esse jeito de ser radicalmente humano e decidido não pode morrer: vai ser entregue em herança aos discípulos.

Já, os discípulos... Marcos presta atenção também ao que passa no coração deles, durante a caminhada. Os pensamentos deles são bem mais limitados e de curto alcance: “quem é o maior entre nós?”
Há um abismo entre a visão lúcida, cheia de esperança de Jesus e as “curtas paixões” dos discípulos. Eles procuram interesses instantâneos, não orientam suas escolhas a partir de valores maiores, buscam sucesso, apreciação, crescimento rápido e retorno imediato.
Que contraste! Não é contraste entre Deus e os homens e mulheres: são duas propostas diferentes de conduzir nossa caminhada histórica, bem aqui na terra!
Cabe a nós construir passo a passo uma vida pautada por grandes horizontes, alimentada por uma leitura sábia e experiente da existência, ou... deixar-nos conduzir pelas curtas paixões que satisfazem somente a fome de cada dia.

Às vezes, olhando para a invasão do dito 'progresso' de nossas regiões no norte do Brasil, vejo quanto isso se parece ao pensamento pobre e imediato dos discípulos: suas palavras de ordem são crescimento, sucesso, lucro, mais e mais. Jesus nos alerta que não é esse o caminho que garante a vida e a ressurreição.

giovedì 10 settembre 2009

Missionário porque?

Conhecia um outro Brasil: passei quatro anos na megalópole de São Paulo, vivendo na periferia com o povo simples, sofredor, vítima da violência urbana, do medo e do desemprego. Sonhei com as Comunidades Eclesiais de Base nos bairros, trabalhei com crianças e adolescentes em conflito com a lei.
O coração de um missionário é populado de gente e de histórias; quando chegou o dia de sair e deixar o povo caminhar, algo também se rasgou no coração. Por essas feridas passa a saudade, sentimento bonito e dolorido que mistura memória, amizade, distância, desejo de re-encontro, sonho, aprendizado a partir dos erros passados e... vontade de recomeçar, talvez com novos erros!
Deixei o Brasil com a promessa de voltar logo; e assim foi.

Dessa vez, porém, a destinação era bem diferente: Açailândia, profundo interior do Maranhão, no nordeste desse País-Continente. As perguntas se amontoavam na cabeça: o que vou encontrar lá? Estarei à altura das expectativas? O povo tem o mesmo jeito dos meus amigos do sul do Brasil?

Já ao chegar tive a primeira resposta: dez horas de trem quente e supercheio viajando com dezenas de paradas de São Luís até Açailândia. Quilômetros e quilômetros de chão livre, grandes fazendas, povoados bem pobres com casas de barro e telhado de palha: aqui não é São Paulo!
Na estação, o por-do-sol esticava as sombras de poucas plantas magras e altas: o trem me descarregou num lugar deserto, afastado da cidade. Desci e parei, sozinho. Essa é minha nova terra; silenciosa, vasta e misteriosa, carregada de perguntas que senti pesar sobre mim todas de uma vez. “Missionário: você veio para quê?”
É a pergunta que continuo me repetindo dia após dia: o que significa, hoje, aqui, ser missionário?

Aquela terra já falava em seu silêncio sofrido, me dei conta disso poucos meses depois.
Uma região que perdeu a palavra e a identidade: era o portal da Amazônia, mas toda árvore acabou derrubada no chão para deixar espaço ao gado; ainda tem, pontuando os pastos de capim, muitos tocos enormes de árvores ceifados. Só fica o cheiro de queimado e um silêncio ensurdecedor: “O que fizeram da irmã natureza?” - parece perguntar...

Por isso, de lá para cá, nos esforçamos de construir uma comunidade cristã atenta à defesa dos direitos humanos, especialmente o direito ao meio ambiente.
Tentamos ler e proclamar o evangelho mostrando quanto ele nos convide à preservação da vida. E toda vez que anunciamos alguma coisa, estamos também denunciando outras, às vezes criando conflitos.
Uma pergunta grande desde essas terras feridas, por exemplo, é a respeito do desenvolvimento: o que significa crescimento? Que tipo de progresso queremos? O que desejamos e vamos entregar para os nossos filhos?
Ao fazer essa pergunta, nem sempre somos bem recebidos: ao denunciar a violência da maior mineradora de nossa região, a Vale, fomos caluniados por artigos de jornais evidentemente do lado da grande multinacional.
Em alternativa, há a estratégia cativante das firmas que querem vender bem sua imagem: quando começamos a criticar as siderúrgicas de nossas regiões pelo impacto ambiental que causam, logo no mesmo dia o dono nos ligou e convidou para conversar com ele, se justificar, explicar que está fazendo todo tipo de esforço...
Frente a esses conflitos, aprendemos que não pode-se avançar sozinhos. Está no DNA de um missionário comboniano: a transformação acontece e o evangelho 'pega' somente onde há protagonismo popular, onde todos e todas se sentem parte de um processo lento de regeneração da vida, das relações.
Assim, o missionário seria com a agulha que passa e repassa um sutil fio de costura entre as pessoas e os grupos, caminhando de uma comunidade para outra, fortalecendo lideranças, unindo a fé com a vida. Um fio de costura que atravessa e une a necessidade de sagrado, de consolo, de paz interior e relação com Deus com a luta apaixonada para que esse mundo seja 'a medida do sonho de Deus'.

Foi o que aconteceu com a comunidade de Califórnia, um assentamento de camponeses que tomaram a terra de um grande fazendeiro que não tinha posse legal. Os assentados conservaram o nome da fazenda Califórnia, talvez para não cancelar o marco simbólico da colonização de nossas terras. Mas outra colonização estava prestes a chegar: pouco depois de construírem suas casas e cultivarem a terra, chegou mais uma vez 'a gigante', a Vale, e instalou bem atrás do povoado 72 fornos industriais para produzir carvão e alimentar as siderúrgicas.
O conflito passou da terra para o ar: de nada adianta possuir o chão, se alguém mais controla e polui o ar por cima dele!
De repente, como missionários, fomos desafiados a acompanhar essa comunidade não mais somente com a missa e a catequese: a urgência e a necessidade do povo era outra.
Nosso testemunho do evangelho passava por atitudes de parceria na luta contra gigantes (logo nos lembramos daquela passagem profética que garante que todos os poderosos têm os pés de barro... e mesmo se ainda não conseguimos derrubá-los, isso nos dá esperança e resistência!).
As nossas celebrações começaram a ser bem mais concretas, na homilia e no diálogo com o povo trazíamos ao altar os problemas, as derrotas e as vitórias no confronto com a grande multinacional. As pessoas sentiam que Deus estava do lado delas e tomavam coragem (as vezes até demais, como naquele dia em que, não aguentando mais, atearam fogo em algumas toras de eucalipto da empresa e bloquearam a rodovia!).
Assim, costurando a oração e a luta, os pequenos conseguem se fazer escutar: no caso de Califórnia, a empresa fechou metade de seus fornos para limitar a fumaça e não quebrar as relações com o povo.

Conseguirão essa rede frágil e esses fios sutis de costura e resistência aguentar o impacto e a pressão dos poderosos?
O sonho de Deus vai se traduzir numa realidade de maior respeito da vida, de cuidado e de ternura entre nós e com a natureza?
São as perguntas de cada manhã e de cada noite, que um missionário entrega ao Pai com humildade e grande esperança.

lunedì 24 agosto 2009

Trabalho sim, Poluição não!

Carta aberta à cidade de Açailândia e às autoridades
sobre a nova aciaria em construção no Piquiá

A sabedoria popular de nossa gente ensina que o passado é lição de vida para trilhar o futuro de um povo.

Somos moradores da periferia de Açailândia, chegamos no Piquiá quando ainda tudo era um açaizal, rios e córregos cartão postal da cidade: trinta, quarenta anos atrás. Tempos depois, as empresas siderúrgicas implantaram-se ao lado de nossas casas.
Prometeram trabalho e desenvolvimento, mas com isso trouxeram também poluição e morte.
O povo mais humilde tinha um maravilhoso local de lazer, o Banho do Tito, que também foi fechado para a indústria, sem oferecer alternativas.

Somos sindicatos e movimentos defensores dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais na cidade e região; há muitos anos acompanhamos, entre outros, o conflito no Piquiá em busca de dignidade de vida e moradia.

Somos uma Paróquia, comunidade de comunidades, há vinte anos comprometida com a justiça, a paz e a integridade da criação na região de Açailândia. Celebrando e visitando o povo, tocamos com mão as consequências do desrespeito da legislação ambiental por parte dos empreendimentos industriais no Piquiá.

Nos perguntamos: até quando a sede de trabalho e a necessidade de sobrevivência manterão o povo refém desse modelo de desenvolvimento que destrói o meio ambiente?

Será que não é possível um modelo de produção industrial em que trabalho e respeito à vida caminhem juntos, mesmo se fosse necessário reduzir de um pouco os enormes patamares de lucro alcançados até agora pelos donos das empresas?
Para nós, progresso é quando todos e todas ganham, quando o direito a uma vida saudável e digna é respeitado, quando o ser humano é posto em primeiro lugar e, harmonizado com o meio ambiente, é capaz de repassar às gerações presentes e futuras valores éticos e morais.

Depois de vinte anos de difícil convivência com as siderúrgicas (ainda sem filtros de manga nem tratamento das águas de defluxo), chega agora a notícia da implantação em nossa região de uma aciaria (firma para a produção de aço).
Que bom! Verticalizar a produção, valorizar nosso trabalho e nossos recursos sempre foi um objetivo comum.

Estamos porém muito preocupados e inquietos, com as seguintes grandes duvidas, às quais ninguém até agora deu resposta:

- Por que antes de investir em novos empreendimentos que terão mais um impacto ambiental não se usou parte do investimento da aciaria para minimizar a poluição dos altofornos, instalar filtros anti-partículas, canalizar e reutilizar a água do resfriamento, reter a poeira da trituração do material, transferir o depósito do “pó de balão” em lugares protegidos e distantes das casas?

- Qual será o impacto da aciaria sobre nossas famílias e cidade? Não queremos ser vítimas, mais uma vez, de novos gigantes poluidores além dos catorze altofornos descontrolados das siderúrgicas!
Juntamente a essa carta aberta, nossas entidades entregaram ao Ministério Público o pedido para a convocação de uma audiência pública na qual possa ser detalhado para o povo o impacto ambiental da aciaria e as condicionantes assumidas no licenciamento ambiental para o funcionamento da mesma.

- O Poder Público tem um projeto político e urbanístico para a gestão desses novos implantes industriais? Qual será o impacto dessa e de outras indústrias sobre as casas e a rede viária de Piquiá e Açailândia? Que tipo de formação está sendo prevista para que nossos trabalhadores possam ter acesso às vagas de trabalho e os empreendimentos sejam genuinamente açailandenses, e não (mais uma vez) dependentes de pessoal especializado vindo de fora?


A história nos mostrou quanto é sofrida a convivência com as siderúrgicas. Não queremos esperar mais para exigir nossos direitos.

Seja bem-vinda a aciaria, mas com garantias seguras de respeito para o meio ambiente, com imediatas providências contra a poluição das siderúrgicas, com solicitude no processo de deslocamento do povoado de Piquiá de Baixo para uma nova terra e dignidade de moradia.


Paróquia São João Batista
Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos
Sindicato dos Metalúrgicos
Associação dos Moradores de Piquiá
Centro Comunitário Frei Tito
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
Sintrasema
Sindimotaa
Associação Rádio Comunitária Açailândia

lunedì 10 agosto 2009

Uma mulher assim não pode morrer!

Festa da Assunção de Maria

No Fórum Social Mundial recebi uma camisa com o rosto de ir. Dorothy; muitas vezes a visto com orgulho no dia-a-dia das relações com o povo. Percebi que também as pessoas mais anônimas, com comentários inesperados, reconhecem o rosto dessa mártir da Amazônia e quase a cumprimentam com palavras de respeito e dignidade.
Dorothy não morreu, é evidente. Como pode morrer um sinal de esperança, uma companheira de luta? O povo não deixa!

Maria é modelo de todas essas mulheres e testemunhas.
Em Maria, Deus nos garante que a vida faz sentido até através da morte... e que realmente quem vive por Deus nunca morrerá. A assunção é isso: garantia que a gente não morre!

Por que Maria, Dorothy, Margarida e muitas mártires e testemunhas não morreram? É a pergunta mais importante, pois cabe a nós também tentar imitá-las.
Não morreram porque foram pessoas grávidas. Essa é a mensagem do evangelho: quem for grávido de vida não vai morrer nunca.

As leituras desse domingo confirmam: “Apareceu uma mulher vestida como o sol, estava grávida e gritava entre as dores do parto” (Ap 11).
“Isabel exclamou com um grande grito: a criança saltou de alegria no meu ventre” (Lc 1)
Há perfume de gravidez nesses breves trechos, vibração de vida em contínua concepção.

Entre nós também podemos distinguir pessoas estéreis, que vivem somente por si, e pessoas grávidas, que procuram a cada dia conceber novas formas de vida na rede de suas relações.
Somos grávidos quando damos espaço à criatividade, à intuição, à busca de alternativas para que o povo possa crescer e viver dignamente.
Somos grávidos quando vivemos inquietos, preocupados para que vença a vida, fincados na opção fundamental da defesa dos pequenos. Os grávidos não vão morrer, Deus a cada dia os 'assume' na sua mesma opção pela vida.

E Maria, com seu canto, vai além: “Doravante todas as gerações”, entoa. Doravante ela sente de não poder viver mais sozinha: dentro dela vivem gerações de pessoas; Maria se sente mãe de todos os viventes, e o grito de seu parto é o canto dos humilhados, dos famintos, dos humildes.

Maria é mulher-povo que ensaia, em comunhão com todos os sonhadores de vida, o grito de muitas ressurreições cotidianas, feitas de resistência, de esperança, de pequenos nascimentos e de corações grávidos.

Assim nós desde já podemos fazer experiência de 'assunção': Deus que nos assume em si, nos confirma, garante que a vida vai bem além de nossa pequena existência.
Nós também podemos aprender, com Maria, a hospedar gerações dentro de nós. Há pessoas que vivem sozinhas consigo mesmas, e essas morrem logo. Há outras que acolhem dentro de si muita gente: sentem em todo momento a preocupação e o cuidado para com a vida de outros. Logo que conhecem um grupo ou uma situação, assumem seus anseios e lutas, convivem com a história dos demais, nelas existe um 'nós' rico e plural. Essas pessoas sobrevivem à sua própria morte. Desde já, com Maria, nos mostram que a vida é maior de nosso eu.

Romaria da Terra e da Água: mãos à obra!

Emprego ou saúde? Há vinte anos, os trabalhadores das siderúrgicas de Açailândia, extremamente poluidoras, encontram-se obrigados a decidirem entre o meio ambiente e o desenvolvimento.
Em Caixias o veneno despejado nos imensos canaviais acaba contaminando os rios da região. A polícia faz batidas nos povoados só para averiguar que o povo não coma os peixes mortos que boiam nas águas poluídas, nem que as crianças tomem banho. A segurança está garantida!
Balsas: grossas correntes puxadas por dois tratores arrasam com tudo o que estiver de pé; a soja domina o horizonte, mais uma cor verde para os desertos do Maranhão...

São somente alguns dos gritos da terra e do povo de Deus reunido no seminário de Codó (MA), preparando a décima Romaria da Terra e das Águas: “Um clamor de justiça”.
A Palavra de Deus orienta o debate: “A própria criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus. (...) Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora” (Rm 8).
Os seres vivos olham para a humanidade, irmã maior na criação de Deus, esperando que revele finalmente seu coração compassivo e reconheça que nunca foi filha única do Senhor da Vida.
A natureza está à nossa espera, mas não pode esperar muito mais. É preciso deixar nascer o novo, antes que as dores do parto sufoquem-se num aborto.
De todos os cantos do Maranhão, homens e mulheres convocados ao seminário sentem-se enviados de volta a suas comunidades, para engravidar o povo na conscientização, levantar forte o grito de dor e esperança e parir juntos a justiça socioambiental.

A análise de conjuntura é ampla e enfrenta temas urgentes nesse Maranhão machucado pelo desenvolvimento.
O agronegócio é chamado de 'agrobanditismo', pela violência da monocultura, a poluição e o saque das águas: 70% da água consumida pela humanidade é sugada por esse modelo extensivo de agricultura. Em 2009 o Governo destinou R$ 421 milhões do PAC somente para a irrigação, voltada aos grandes projetos. Em várias regiões do Maranhão, ao conjugar o verbo “sugar”, o povo responde brincando “Eu-calipto, Tu-caliptas...”
O Fórum Humanitário Global (presidido por Kofi Annan) declarou no mês de Junho que 300 mil pessoas morrem a cada ano por consequências diretas das mudanças climáticas, enquanto 325 milhões sofrem pelas suas consequências indiretas. Tudo isso nos custou, em 2005, 200 bilhões de dólares! A crise é sistêmica, estrutural: estamos prejudicando as próprias bases da sobrevivência!
Os poderes constituídos são funcionais a esse sistema, quando não são diretamente por ele controlados: por exemplo, somente a Companhia Vale do Rio Doce está lucrando nesses anos cerca de 3 vezes o dinheiro a disposição do Governo do Estado do Maranhão! A desproporção mostra quem, de fato, manda em nossas terras.
O próprio poder do judiciário é apelidado de “prejudiciário” pelo povo vítima das decisões injustas de juízes que apoiam os colegas fazendeiros ou confirmam a regra comum da impunidade.
Um poder podre, que protege os correligionários, como no caso recente do juiz Marcelo Baldochi acusado de trabalho escravo e grilagem, mas 'justificado' pelos colegas desembargadores.
O povo se pergunta: “O que é legalidade? A qual lei é justo obedecer?”
O Tribunal do judiciário é um movimento articulado nas quatro regiões do Maranhão para colocar os juizes do outro lado da mesa processual; um poder aparentemente intocável vai ser avaliado pelo povo ao longo dos próximos meses, até o julgamento definitivo em São Luís, em dezembro.

Na análise do seminário pela terra e pelas águas do Maranhão, a luta é impar: é verdade que todo gigante tem pés de barro, mas mesmo assim é extremamente difícil enfrentá-lo.
O primeiro passo, essencial, é identificar o conflito, esclarecer os nomes desses gigantes e assumir coletivamente o embate: não é suficiente refugiar-se em pequenas experiências alternativas e escondidos nichos, ecologicamente corretos. A ecologia está na moda e as grandes firmas são as primeiras a vestir a camisa de uma aparente preocupação 'verde'. Mas vem delas esse consumo violento de recursos, energia e pessoas: veja-se, por exemplo, até só o desmatamento para a produção de carvão vegetal, em função do ferro-gusa: em 2007 o Brasil derrubou para isso 400 milhões de árvores, metade das quais eram mata nativa.
Ou enfrentamos diretamente esses gigantes, ou continuaremos a silenciar nossas consciências com poucas miúdas práticas isoladas.
As duas próximas campanhas da fraternidade (Economia e Vida em 2010 e Mudanças Climáticas em 2011) serão a pauta de reflexão e reação das comunidades e dos movimentos, visando um enfrentamento consciente e corajoso.
Em 2010 haverá também outro instrumento importante para o enfrentamento do agro e hidronegócio: a campanha pelo limite da propriedade da terra, lançada por igrejas, sindicatos rurais e CUT. A reflexão e a agenda estão postas: mãos à obra!

mercoledì 15 luglio 2009

Amizade

Uma leitura de Mc 6, 30-34
Há uma chave que abre os textos da Palavra de Deus. Às vezes a gente lê e volta a ler, sem que o Evangelho nos diga muito... e de repente encontra-se uma chave que desvenda um sentido novo e rico.
O mais interessante é que essa mesma chave abre também nosso coração, revela necessidades, sentimentos, sonhos ou intuições talvez inconscientes e escondidos, que a Palavra de Deus 'cotucou' e despertou. É nesses casos que sentimos a Bíblia tão perto de nossas existências, fio de costura de nossas ações e escolhas.

Minha palavra chave, no texto do Evangelho desse domingo, é “Amizade”.
O trecho imediatamente antecedente narrava a perda de uma grande referência para Jesus: João Batista condenado e executado brutalmente. É o momento em que Jesus cai em si, entende que chegou a sua hora, endurece o coração e se decide a enfrentar até o fim a cumplicidade entre hipocrisia e violência no poder religioso/político.
Mas, dentro de si, Jesus deve ter sentido frio e uma grande necessidade de amigos, companheiros, apoio.

Bem nessa hora os discípulos voltam da missão, celebrando a beleza de um envio de dois em dois, o orgulho de uma missão cumprida, o desejo de partilhar as coisas boas com o amigo e mestre que os enviou. E Jesus os convida a ficar um pouco sozinhos, num lugar deserto, para fortalecer nos laços de amizade tudo o que a vida ensinou e renovar alianças para enfrentar a injustiça.

Quanto fazem falta, às vezes, momentos como esse, de verdade e profunda humanidade, em que a gente renova o compromisso, desce até as motivações mais íntimas e verdadeiras de nossas escolhas e descobre que são as mesmas que animam nossos amigos!
Esses elos são mais fortes de qualquer decepção, de toda violência que a realidade pode cuspir em nossa cara. Mais resistentes da distância que nos separa ou do tempo que tenta apagar os marcos de referência de nossa vida.
Se conseguimos manter viva essa ligação profunda com nossos amigos, criar e recriar ocasiões e espaços para que ela se cultive e desenvolva, iremos nos “salvar” (que é o contrário de se perder, desorientados na correria sem rumo das urgências da vida ou na rotina acinzentada do dia-a-dia).

Trata-se uma necessidade coletiva, pelo que segue no texto do evangelho: “muitos os viram partir e correram a pé em busca deles”. Nesse trecho Marcos não relata de doentes em busca de cura ou endemoninhados procurando libertação: só fala de gente procurando um rumo, ovelhas sem pastor sedentas de palavras de vida, ilhas em busca de relação e compaixão (que é a capacidade de “sentir juntos” o que é mais profundo).
Na grama verde daquele lugar, Jesus mandará todos sentar e formar grupos para a partilha; a tarde toda, ensinando, dirá que sua religião não é mais de servos, hierarquias, obediência e temor, mas de amizade, utopia, aliança de sangue e paixão.