Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

lunedì 24 agosto 2009

Trabalho sim, Poluição não!

Carta aberta à cidade de Açailândia e às autoridades
sobre a nova aciaria em construção no Piquiá

A sabedoria popular de nossa gente ensina que o passado é lição de vida para trilhar o futuro de um povo.

Somos moradores da periferia de Açailândia, chegamos no Piquiá quando ainda tudo era um açaizal, rios e córregos cartão postal da cidade: trinta, quarenta anos atrás. Tempos depois, as empresas siderúrgicas implantaram-se ao lado de nossas casas.
Prometeram trabalho e desenvolvimento, mas com isso trouxeram também poluição e morte.
O povo mais humilde tinha um maravilhoso local de lazer, o Banho do Tito, que também foi fechado para a indústria, sem oferecer alternativas.

Somos sindicatos e movimentos defensores dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais na cidade e região; há muitos anos acompanhamos, entre outros, o conflito no Piquiá em busca de dignidade de vida e moradia.

Somos uma Paróquia, comunidade de comunidades, há vinte anos comprometida com a justiça, a paz e a integridade da criação na região de Açailândia. Celebrando e visitando o povo, tocamos com mão as consequências do desrespeito da legislação ambiental por parte dos empreendimentos industriais no Piquiá.

Nos perguntamos: até quando a sede de trabalho e a necessidade de sobrevivência manterão o povo refém desse modelo de desenvolvimento que destrói o meio ambiente?

Será que não é possível um modelo de produção industrial em que trabalho e respeito à vida caminhem juntos, mesmo se fosse necessário reduzir de um pouco os enormes patamares de lucro alcançados até agora pelos donos das empresas?
Para nós, progresso é quando todos e todas ganham, quando o direito a uma vida saudável e digna é respeitado, quando o ser humano é posto em primeiro lugar e, harmonizado com o meio ambiente, é capaz de repassar às gerações presentes e futuras valores éticos e morais.

Depois de vinte anos de difícil convivência com as siderúrgicas (ainda sem filtros de manga nem tratamento das águas de defluxo), chega agora a notícia da implantação em nossa região de uma aciaria (firma para a produção de aço).
Que bom! Verticalizar a produção, valorizar nosso trabalho e nossos recursos sempre foi um objetivo comum.

Estamos porém muito preocupados e inquietos, com as seguintes grandes duvidas, às quais ninguém até agora deu resposta:

- Por que antes de investir em novos empreendimentos que terão mais um impacto ambiental não se usou parte do investimento da aciaria para minimizar a poluição dos altofornos, instalar filtros anti-partículas, canalizar e reutilizar a água do resfriamento, reter a poeira da trituração do material, transferir o depósito do “pó de balão” em lugares protegidos e distantes das casas?

- Qual será o impacto da aciaria sobre nossas famílias e cidade? Não queremos ser vítimas, mais uma vez, de novos gigantes poluidores além dos catorze altofornos descontrolados das siderúrgicas!
Juntamente a essa carta aberta, nossas entidades entregaram ao Ministério Público o pedido para a convocação de uma audiência pública na qual possa ser detalhado para o povo o impacto ambiental da aciaria e as condicionantes assumidas no licenciamento ambiental para o funcionamento da mesma.

- O Poder Público tem um projeto político e urbanístico para a gestão desses novos implantes industriais? Qual será o impacto dessa e de outras indústrias sobre as casas e a rede viária de Piquiá e Açailândia? Que tipo de formação está sendo prevista para que nossos trabalhadores possam ter acesso às vagas de trabalho e os empreendimentos sejam genuinamente açailandenses, e não (mais uma vez) dependentes de pessoal especializado vindo de fora?


A história nos mostrou quanto é sofrida a convivência com as siderúrgicas. Não queremos esperar mais para exigir nossos direitos.

Seja bem-vinda a aciaria, mas com garantias seguras de respeito para o meio ambiente, com imediatas providências contra a poluição das siderúrgicas, com solicitude no processo de deslocamento do povoado de Piquiá de Baixo para uma nova terra e dignidade de moradia.


Paróquia São João Batista
Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos
Sindicato dos Metalúrgicos
Associação dos Moradores de Piquiá
Centro Comunitário Frei Tito
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
Sintrasema
Sindimotaa
Associação Rádio Comunitária Açailândia

lunedì 10 agosto 2009

Uma mulher assim não pode morrer!

Festa da Assunção de Maria

No Fórum Social Mundial recebi uma camisa com o rosto de ir. Dorothy; muitas vezes a visto com orgulho no dia-a-dia das relações com o povo. Percebi que também as pessoas mais anônimas, com comentários inesperados, reconhecem o rosto dessa mártir da Amazônia e quase a cumprimentam com palavras de respeito e dignidade.
Dorothy não morreu, é evidente. Como pode morrer um sinal de esperança, uma companheira de luta? O povo não deixa!

Maria é modelo de todas essas mulheres e testemunhas.
Em Maria, Deus nos garante que a vida faz sentido até através da morte... e que realmente quem vive por Deus nunca morrerá. A assunção é isso: garantia que a gente não morre!

Por que Maria, Dorothy, Margarida e muitas mártires e testemunhas não morreram? É a pergunta mais importante, pois cabe a nós também tentar imitá-las.
Não morreram porque foram pessoas grávidas. Essa é a mensagem do evangelho: quem for grávido de vida não vai morrer nunca.

As leituras desse domingo confirmam: “Apareceu uma mulher vestida como o sol, estava grávida e gritava entre as dores do parto” (Ap 11).
“Isabel exclamou com um grande grito: a criança saltou de alegria no meu ventre” (Lc 1)
Há perfume de gravidez nesses breves trechos, vibração de vida em contínua concepção.

Entre nós também podemos distinguir pessoas estéreis, que vivem somente por si, e pessoas grávidas, que procuram a cada dia conceber novas formas de vida na rede de suas relações.
Somos grávidos quando damos espaço à criatividade, à intuição, à busca de alternativas para que o povo possa crescer e viver dignamente.
Somos grávidos quando vivemos inquietos, preocupados para que vença a vida, fincados na opção fundamental da defesa dos pequenos. Os grávidos não vão morrer, Deus a cada dia os 'assume' na sua mesma opção pela vida.

E Maria, com seu canto, vai além: “Doravante todas as gerações”, entoa. Doravante ela sente de não poder viver mais sozinha: dentro dela vivem gerações de pessoas; Maria se sente mãe de todos os viventes, e o grito de seu parto é o canto dos humilhados, dos famintos, dos humildes.

Maria é mulher-povo que ensaia, em comunhão com todos os sonhadores de vida, o grito de muitas ressurreições cotidianas, feitas de resistência, de esperança, de pequenos nascimentos e de corações grávidos.

Assim nós desde já podemos fazer experiência de 'assunção': Deus que nos assume em si, nos confirma, garante que a vida vai bem além de nossa pequena existência.
Nós também podemos aprender, com Maria, a hospedar gerações dentro de nós. Há pessoas que vivem sozinhas consigo mesmas, e essas morrem logo. Há outras que acolhem dentro de si muita gente: sentem em todo momento a preocupação e o cuidado para com a vida de outros. Logo que conhecem um grupo ou uma situação, assumem seus anseios e lutas, convivem com a história dos demais, nelas existe um 'nós' rico e plural. Essas pessoas sobrevivem à sua própria morte. Desde já, com Maria, nos mostram que a vida é maior de nosso eu.

Romaria da Terra e da Água: mãos à obra!

Emprego ou saúde? Há vinte anos, os trabalhadores das siderúrgicas de Açailândia, extremamente poluidoras, encontram-se obrigados a decidirem entre o meio ambiente e o desenvolvimento.
Em Caixias o veneno despejado nos imensos canaviais acaba contaminando os rios da região. A polícia faz batidas nos povoados só para averiguar que o povo não coma os peixes mortos que boiam nas águas poluídas, nem que as crianças tomem banho. A segurança está garantida!
Balsas: grossas correntes puxadas por dois tratores arrasam com tudo o que estiver de pé; a soja domina o horizonte, mais uma cor verde para os desertos do Maranhão...

São somente alguns dos gritos da terra e do povo de Deus reunido no seminário de Codó (MA), preparando a décima Romaria da Terra e das Águas: “Um clamor de justiça”.
A Palavra de Deus orienta o debate: “A própria criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus. (...) Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora” (Rm 8).
Os seres vivos olham para a humanidade, irmã maior na criação de Deus, esperando que revele finalmente seu coração compassivo e reconheça que nunca foi filha única do Senhor da Vida.
A natureza está à nossa espera, mas não pode esperar muito mais. É preciso deixar nascer o novo, antes que as dores do parto sufoquem-se num aborto.
De todos os cantos do Maranhão, homens e mulheres convocados ao seminário sentem-se enviados de volta a suas comunidades, para engravidar o povo na conscientização, levantar forte o grito de dor e esperança e parir juntos a justiça socioambiental.

A análise de conjuntura é ampla e enfrenta temas urgentes nesse Maranhão machucado pelo desenvolvimento.
O agronegócio é chamado de 'agrobanditismo', pela violência da monocultura, a poluição e o saque das águas: 70% da água consumida pela humanidade é sugada por esse modelo extensivo de agricultura. Em 2009 o Governo destinou R$ 421 milhões do PAC somente para a irrigação, voltada aos grandes projetos. Em várias regiões do Maranhão, ao conjugar o verbo “sugar”, o povo responde brincando “Eu-calipto, Tu-caliptas...”
O Fórum Humanitário Global (presidido por Kofi Annan) declarou no mês de Junho que 300 mil pessoas morrem a cada ano por consequências diretas das mudanças climáticas, enquanto 325 milhões sofrem pelas suas consequências indiretas. Tudo isso nos custou, em 2005, 200 bilhões de dólares! A crise é sistêmica, estrutural: estamos prejudicando as próprias bases da sobrevivência!
Os poderes constituídos são funcionais a esse sistema, quando não são diretamente por ele controlados: por exemplo, somente a Companhia Vale do Rio Doce está lucrando nesses anos cerca de 3 vezes o dinheiro a disposição do Governo do Estado do Maranhão! A desproporção mostra quem, de fato, manda em nossas terras.
O próprio poder do judiciário é apelidado de “prejudiciário” pelo povo vítima das decisões injustas de juízes que apoiam os colegas fazendeiros ou confirmam a regra comum da impunidade.
Um poder podre, que protege os correligionários, como no caso recente do juiz Marcelo Baldochi acusado de trabalho escravo e grilagem, mas 'justificado' pelos colegas desembargadores.
O povo se pergunta: “O que é legalidade? A qual lei é justo obedecer?”
O Tribunal do judiciário é um movimento articulado nas quatro regiões do Maranhão para colocar os juizes do outro lado da mesa processual; um poder aparentemente intocável vai ser avaliado pelo povo ao longo dos próximos meses, até o julgamento definitivo em São Luís, em dezembro.

Na análise do seminário pela terra e pelas águas do Maranhão, a luta é impar: é verdade que todo gigante tem pés de barro, mas mesmo assim é extremamente difícil enfrentá-lo.
O primeiro passo, essencial, é identificar o conflito, esclarecer os nomes desses gigantes e assumir coletivamente o embate: não é suficiente refugiar-se em pequenas experiências alternativas e escondidos nichos, ecologicamente corretos. A ecologia está na moda e as grandes firmas são as primeiras a vestir a camisa de uma aparente preocupação 'verde'. Mas vem delas esse consumo violento de recursos, energia e pessoas: veja-se, por exemplo, até só o desmatamento para a produção de carvão vegetal, em função do ferro-gusa: em 2007 o Brasil derrubou para isso 400 milhões de árvores, metade das quais eram mata nativa.
Ou enfrentamos diretamente esses gigantes, ou continuaremos a silenciar nossas consciências com poucas miúdas práticas isoladas.
As duas próximas campanhas da fraternidade (Economia e Vida em 2010 e Mudanças Climáticas em 2011) serão a pauta de reflexão e reação das comunidades e dos movimentos, visando um enfrentamento consciente e corajoso.
Em 2010 haverá também outro instrumento importante para o enfrentamento do agro e hidronegócio: a campanha pelo limite da propriedade da terra, lançada por igrejas, sindicatos rurais e CUT. A reflexão e a agenda estão postas: mãos à obra!

mercoledì 15 luglio 2009

Amizade

Uma leitura de Mc 6, 30-34
Há uma chave que abre os textos da Palavra de Deus. Às vezes a gente lê e volta a ler, sem que o Evangelho nos diga muito... e de repente encontra-se uma chave que desvenda um sentido novo e rico.
O mais interessante é que essa mesma chave abre também nosso coração, revela necessidades, sentimentos, sonhos ou intuições talvez inconscientes e escondidos, que a Palavra de Deus 'cotucou' e despertou. É nesses casos que sentimos a Bíblia tão perto de nossas existências, fio de costura de nossas ações e escolhas.

Minha palavra chave, no texto do Evangelho desse domingo, é “Amizade”.
O trecho imediatamente antecedente narrava a perda de uma grande referência para Jesus: João Batista condenado e executado brutalmente. É o momento em que Jesus cai em si, entende que chegou a sua hora, endurece o coração e se decide a enfrentar até o fim a cumplicidade entre hipocrisia e violência no poder religioso/político.
Mas, dentro de si, Jesus deve ter sentido frio e uma grande necessidade de amigos, companheiros, apoio.

Bem nessa hora os discípulos voltam da missão, celebrando a beleza de um envio de dois em dois, o orgulho de uma missão cumprida, o desejo de partilhar as coisas boas com o amigo e mestre que os enviou. E Jesus os convida a ficar um pouco sozinhos, num lugar deserto, para fortalecer nos laços de amizade tudo o que a vida ensinou e renovar alianças para enfrentar a injustiça.

Quanto fazem falta, às vezes, momentos como esse, de verdade e profunda humanidade, em que a gente renova o compromisso, desce até as motivações mais íntimas e verdadeiras de nossas escolhas e descobre que são as mesmas que animam nossos amigos!
Esses elos são mais fortes de qualquer decepção, de toda violência que a realidade pode cuspir em nossa cara. Mais resistentes da distância que nos separa ou do tempo que tenta apagar os marcos de referência de nossa vida.
Se conseguimos manter viva essa ligação profunda com nossos amigos, criar e recriar ocasiões e espaços para que ela se cultive e desenvolva, iremos nos “salvar” (que é o contrário de se perder, desorientados na correria sem rumo das urgências da vida ou na rotina acinzentada do dia-a-dia).

Trata-se uma necessidade coletiva, pelo que segue no texto do evangelho: “muitos os viram partir e correram a pé em busca deles”. Nesse trecho Marcos não relata de doentes em busca de cura ou endemoninhados procurando libertação: só fala de gente procurando um rumo, ovelhas sem pastor sedentas de palavras de vida, ilhas em busca de relação e compaixão (que é a capacidade de “sentir juntos” o que é mais profundo).
Na grama verde daquele lugar, Jesus mandará todos sentar e formar grupos para a partilha; a tarde toda, ensinando, dirá que sua religião não é mais de servos, hierarquias, obediência e temor, mas de amizade, utopia, aliança de sangue e paixão.

martedì 7 luglio 2009

Na casa do gigante dos pés de barro

A Vale em Parauapebas

Parauapebas, sudoeste do Pará, ponto de partida para os 892 Km da Estrada de Ferro Carajás.
Os moradores das redondezas apelidaram a cidade de 'Peba', mais familiar e simples. Estamos no coração dos investimentos da Vale: o ferro de Carajás, o níquel do Vermelho, o cobre do Projeto 118, as minas de Sossego (Canaã), Cristalino, Serra Pelada e Serra Leste (Ourionópolis), Salobo no município de Marabá e o projeto da Serra Sul.
Um radialista da região descreve assim essas terras: “Rios de leite e ribanceiras de cuscuz”, aparentemente o novo Eldorado para centenas de milhares de migrantes. Mediamente 300mil pessoas por ano desembargam pelo trem da Vale no município de 'Peba': são maranhenses, piauenses, goianos, em busca de trabalho e sorte.
“A cidade está imbuchando”, é a expressão na boca de muitos. Já existem em Parauapebas 40mil famílias sem casa, alojadas em ocupações, morros, áreas de preservação permanente...
Prevê-se que em cinco anos a cidade chegue a ter um milhão e meio de habitantes, mas desde já falta saneamento básico e abastecimento de água. Marabá apresenta os mesmos problemas, amplificados. E o minério, única fonte de renda da região, garante em Carajás os próximos 200 anos, mas nas outras minas um tempo bem menor (de 15 a 40 anos).
O povo comenta: “Estamos carregando um bomba a relógio debaixo de nossos pés”.

Também o trabalho não é propriamente o Eldorado, para quem o consegue: a Vale oferece 26mil vagas de trabalho, das quais somente 4mil são empregos diretos: terceirizar é a solução para evitar à Companhia o peso dos processos trabalhistas (hoje mais de 7000 só no Município de Parauapebas!).
As condições de trabalho são infra-humanas: as pessoas acordam antes das cinco de madrugada (o deslocamento é demorado e, sobretudo no inverno, muito difícil) e voltam aos alojamentos somente à noite; alguns trabalham em turnos, tendo que dormir durante a tarde em quartos de 3x4 metros, com outras três pessoas, debaixo de forro baixo e telhado de eternit. No mês de Junho um grupo de trabalhadores exasperados ateou fogo a um desses alojamentos, protestando contra condições insuportáveis.
Além disso, nesse tempo de crise a Vale demitiu na região 6mil pessoas e a Prefeitura outras 2mil. O gigante começa a mostrar seus pés de barro.

O encontro dos afetados por mineração no sudoeste do Pará (3-5 de julho) juntou vários grupos e movimentos desse extremo da Estrada de Ferro de Carajás; o sentimento comum era preocupação, medo, urgência da articulação e mobilização. Vários chegaram a definir as práticas da Vale como “terrorismo” em relação às populações locais: os novos projetos de mineração na região estão construindo estradas, desviando outras, isolando povoados e famílias, cobiçando a terra dos pequenos agricultores.
Em muitos casos as famílias são conquistadas com indenizações baratas, convencidas a vender suas terras e encontradas, meses depois, a varrer ruas no centro de Parauapebas. Há desproporção entre os meios da Companhia e a resistência do povo: em qualquer encontro público a Vale leva dois ou três advogados e manifesta explicita ou implicitamente seu controle geográfico, econômico, político, mediático e sua fortíssima influência sobre o próprio sistema jurídico.
Em Cristalino, por exemplo, o processo de desterritorialização mexe com famílias que moraram na região por mais de vinte anos: há raízes cortadas violentamente, sem falar da dificuldade de encontrar novas terras para reassentar coletivamente as famílias deslocadas.
Em Sossego, as explosões para abrir novas crateras no chão afetam os moradores da área: rachaduras nas casas, cheiro de química no ar, poluição da falda aquífera, estresse dos animais, sem falar das inundações devidas ao acúmulo dos materiais de sobra.
Em Salobo uma nova vila de trabalhadores acolherá mais de 3mil homens ao lado de um povoado pobre de assentados: já se prevê o crescimento imediato de prostituição infantil, violência, álcool e drogas. A Vale investiu qualidade e dinheiro na construção da vila para seus funcionários de alto escalão, mas nenhum centavo foi destinado à melhoria das condições do povoado próximo. Ao contrário: para a implementação do projeto Salobo foi necessário derrubar trezentos castanheiras na área do povo indígena Xikrin, que vive primariamente de extrativismo vegetal.
Em Ourionópolis a Vale mudou a posição de um marco geodético (marco SL1) para poder englobar em seus projetos de exploração minerária mais uma área (1.800 x 10.000 metros) de direito dos garimpeiros.
Muitos outros exemplos levam o povo à saudade do tempo em que ninguém cobiçava suas terras: até 50 anos atrás, na região só moravam indígenas, extrativistas e posseiros. Foi o golpe militar que proporcionou investimentos fortes nas terras do sudoeste paraense, abrindo o caminho aos madeireiros, latifundiário e ao monopólio da mineração.
A sucessiva recuperação das terras através parcelas de reforma agrária na região parece ser somente funcional ao sistema: os pequenos agricultores abrem caminho, desmatam e limpam as terras, logo o grande capital volta a recuperá-las juntando aos poucos os cacos de seu grande mosaico de conquista. Desde os anos '60 o mapeamento minerário da região evidenciou onde vale a pena investir: é só questão de tempo, e todas as terras mais preciosas voltarão nas mãos do sistema do saque.
É urgente, portanto, recuperar o controle sobre o território, reforçar as alianças entre movimentos, estudar estratégias de conjunto, levantar o nível do conflito e divulgá-lo para cima do silêncio da mídia convencional.
A campanha Justiça nos Trilhos junta-se à articulação local em função de um novo projeto de desenvolvimento na região, que garanta vida e respeito das pessoas, do meio-ambiente e do futuro de nossas terras.

mercoledì 17 giugno 2009

Vamos para outra margem!

Jesus convida os discípulos a desafiarem a cultura do tempo, mudarem a situação dada, atravessar as divisas e chegar ao outro lado do mar de Galileia, na Decápole, terra de estrangeiros. Para um hebreu misturar-se com os estrangeiros, pagãos da outra margem, significava contaminar-se e trair sua própria identidade.
Hoje também muitas divisas e barreiras limitam nossa visão e paralisam nossos gestos de amor: celebramos dia 20 de junho o Dia Mundial do Refugiado, mas ainda hoje muitos Países ditos 'desenvolvidos' levantam cercas para se protegerem dos estrangeiros, dizendo para eles “Voltem para sua margem!”.
Ao mesmo tempo, outras 'migrações' se fazem urgentes para nós e nossos estilos de vida: há anos gritamos que um outro mundo é possível, mas quantos de nós já entraram no barco para navegar efetivamente até a outra margem, outro modelo de vida e desenvolvimento, feito de economia solidária, pegadas leves no impacto ambiental, valorização da produção local, da cultura dos povos, da participação na gestão dos bens comuns?
Há uma outra margem econômica, cultural, política que nos espera, mas ainda a preguiça, o medo ou o interesse nos mantêm bem aquém daquilo que Deus aponta com paixão.
Muitas vezes a própria igreja parece mais um clube de amigos no solzinho da praia e deixa de enfrentar corajosamente a travessia e teimar na transformação...

É verdade que ir à outra margem custa, é perigoso e violento. Os discípulos sabem bem disso, seu medo é compreensível; hoje também o vento e a tempestade se lançam contra quem busca outras terras. Nessas últimas semanas, por exemplo, mais dois companheiros da luta pela terra no Pará tombaram, mortos pelos guardas do sistema, que não permite ultrapassar suas cercas. Honramos a fé de Raimundo Nonato, dirigente sindical, e de Luís, coordenador da Liga dos Camponeses Pobres: tentaram obedecer a Jesus e lutaram para o acesso à outra margem da história, onde todos tenham vida.

Muitas vezes nos sentimos impotentes frente às forças da morte, à máquina da propaganda oficial que esconde a verdade e celebra os injustos, a essa corrupção escancarada...
“Senhor, não te importa que morremos?!”
Em alguns momentos parece que até Deus fica distante e não abre caminho. Mas não temamos: quem tiver a coragem de subir nesse barco, vai fazer experiência de um Deus ao qual o vento e o mar obedecem, e mesmo no tormento da travessia, vai perceber na profundeza de sua existência uma grande calmaria, a paz de quem sabe de estar na caminhada certa.

Foto: http://www.flickr.com/photos/31598370@N08/2990595305/

martedì 16 giugno 2009

A beleza nos salvará












Ecos da tarde cultural na festa de São João Batista

Trabalho infantil, erosões, desemprego, filas nos postos de saúde, droga, assassinatos, batidas policiais e tiroteios cotidianos... no bairro do Jacu esses são alguns dos temas mais conversados pelo povo.
E a Paróquia, com o Centro de Defesa, resolve promover uma tarde cultural?! Mais um circo para distrair os sofredores das periferias? Não: dessa vez o espetáculo tem como protagonistas os próprios filhos e filhas dessa periferia!
Por mais de três horas crianças, adolescentes e jovens se alternam no palco e no pátio da igreja São João dançando a vida, mostrando que são capazes de beleza e arte, apesar do contexto em que vivem.
O padroeiro lá do alto abençoa e acompanha, as famílias numerosas permanecem até a noite nesse espaço de dignidade e esperança. Realmente a beleza nos salvará, quando ela vem dos pobres, quando é construída com suor e teimosia, quando é fruto de um trabalho de conjunto.
A Igreja de São João Batista compreende mais uma vez que as celebrações podem acontecer também na rua, nos ritmos da vida. O Centro de Defesa renova sua escolha: a cultura é um meio poderoso de conscientização e fortalecimento dos pequenos.
Mais um pedacinho de Reino de Deus está posto!