Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

lunedì 6 giugno 2016

Encontro Brasileiro dos Movimentos Sociais em Diálogo com o Papa



Kre-Nak significa “cabeça-terra”. Encostar a cabeça na terra, reverenciando-a como mãe, é a identidade do povo Krenak, que vive no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais.
Pouco acima desse mesmo vale, na cidade de Mariana, aconteceu o Encontro Brasileiro dos Movimentos Populares em diálogo com papa Francisco. 
Essa sequência de encontros começou em Roma em 2014, consolidou-se no encontro internacional de julho 2015 na Bolívia e agregou os movimentos brasileiros nesse mês de junho 2016, mesmo sem a presença física de Francisco.
Cerca de 300 pessoas, representando povos indígenas, quilombolas, pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade e agentes das pastorais sociais compartilharam seus anseios e experiências de luta.

“Vocês são poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global” – dizia Papa Francisco na Bolívia. O diálogo com ele é oportunidade também para que os movimentos sociais dialoguem intensamente entre si.
O encontro foi convocado em Mariana-MG, onde “a mãe terra foi estuprada pelos próprios filhos”, conforme a dura posição do deputado federal padre João, presidente da Comissão Direitos Humanos e Minorias da Câmara, que acompanhou a abertura do evento. Movimentos populares e Igreja, juntos, denunciaram assim o crime provocado pela empresa Samarco, propriedade das mineradoras Vale S.A. e BHP Billiton, com a conivência do Estado. As palavras de dom Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana, foram explícitas ao exigir que sejam reconhecidas e adequadamente reparadas as responsabilidades desse desastre.

À sombra dessa gravíssima injustiça socioambiental somou-se a noite escura do golpe, que o próprio Papa veio a evocar no final de maio, manifestando inquietação com a "complexa conjuntura política" dos países da América Latina, que estariam passando por "golpe de estado branco".
A crise é grave, profunda e longa, comentaram os movimentos populares. Requer uma resistência que extrapole o calendário eleitoral, pois está ocorrendo um esgotamento da própria democracia formal.
Essa resistência está crescendo de maneira inesperada, “ação pipoca”, como a define o Levante Popular das Juventudes. É forte, entre outros, o protagonismo dos povos indígenas e dos jovens secundaristas, que ocuparam as escolas em diversos estados do País oferecendo um verdadeiro “antivírus da política”, como foi definido por alguns professores.
Num tempo em que a confiança na política se rompeu, o espaço de manifestação popular que resta é a rua. A ocupação da rua põe em jogo os próprios corpos dos militantes, provocando as pessoas a se entregarem por inteiro à causa.

Os três ‘T’
O direito aos “3T” -terra, teto e trabalho- é algo elementar e inegavelmente necessário, recordava Papa Francisco na Bolívia. O encontro dos movimentos populares em Mariana avançou no aprofundamento e no debate estratégico sobre esses eixos no Brasil.
Comunidades tradicionais e agricultores familiares assentados clamaram junto à Mãe Terra denunciando o uso intensivo de agrotóxicos, a concentração da propriedade e o estímulo ao agronegócio, a criminalização e violência no campo e o saque dos bens comuns pela intensificação das atividades de mineração, com cada vez menor segurança para as comunidades e os trabalhadores.
O caminho para a defesa da Casa Comum passa pela autodeterminação das comunidades em seus territórios. O território, de fato, é compreendido como um espaço de relações entre si e com o meio ambiente, expressão da cultura e do vínculo com os antepassados e com as gerações que esperamos depois de nós. A reforma agrária e a diversificação da economia local, a partir da iniciativa das comunidades, se põem como meta urgente e intransponível.
Nas cidades, é assustador o aumento da violência, a falta de estruturas e serviços e de saneamento básico nas periferias, provocando exclusão e alimentando epidemias. Urge uma reforma urbana que lute pelo direito à moradia popular digna como política pública consistente e permanente e que combata a especulação imobiliária.
O mundo do trabalho sente-se particularmente ameaçado nessa nova conjuntura de possível virada neoliberal, onde o próprio fantasma do desemprego vem sendo aproveitado como elemento disciplinador da força trabalho. Surgem como ameaças a serem firmemente combatidas a redução dos direitos dos trabalhadores e do investimento em sua segurança e saúde, a precarização e a terceirização. Dos 13 trabalhadores que foram mortos pela irresponsabilidade da Samarco na gestão da barragem de rejeitos, 12 eram terceirizados.
As lutas do campo e da cidade estão interligadas e precisam, nesse momento histórico, enfrentar uma proposta de política econômica que visa garantir o interesse do grande capital e pesar com seus impactos e privatizações, mais uma vez, sobre os ombros dos mais pobres.
A gravidade desse contexto está estimulando a agregação de forças, cujo maior indicador é o diálogo crescente entre as duas grandes frentes “Brasil popular” e Povo sem medo”.


O rosto do pecado e os sinais de ressurreição
“Eu não sabia que tinha esse monstro acima de mim”. Maria do Carmo, moradora do distrito de Paracatu de Baixo atingida pelo crime das empresas Vale e BHP Billiton, mantém seu olhar perdido, acima das casas cobertas de lama. “A vontade que a gente tem é dormir, acordar e não encontrar mais isso. Mas, acordando, encontramos todo dia esse pesadelo”.
Foram avisados pelos próprios moradores dos povoados acima, no vale do Rio Doce, naquele final de tarde do 5 de novembro de 2015. A mineradora nem sequer se preocupou de espalhar o alarme. Subiram às pressas o morro e assistiram desesperados à destruição do povoado inteiro, por esse mar de lama, grossa e fedida, que ninguém entendia de onde estivesse vindo.

19 mortes; uma mulher grávida abortou a criança ao tentar fugir da lama; uma senhora teve dois AVCs seguidos, logo após o desastre, e hoje está em cadeira de rodas. Tendo seus povoados destruídos, muitas famílias acabaram se separando, uns querendo buscar outra alternativa de vida na roça, outros resignados mudando-se para a cidade. Aumentaram as tentativas de suicídio.
“A mãe terra começou a gemer, mas ela vai vomitar ainda muita coisa por aí”, comenta a jovem indígena Geovana Krenak, que na noite anterior nos deu uma lição de amor às raízes da terra e da cultura ancestral.

A pastora Romi Bencke complementa: “Se alguém quiser ver o rosto do pecado, é só olhar para cá”. Evoca o ícone evangélico das três mulheres que foram ao sepulcro e não encontraram o corpo de Jesus. Naquela manhã, ecoou no coração delas a angústia da morte, mas também uma primeira faísca da ressurreição.
E assim foi para nós. Naquele cenário desolador, ao pôr do sol, cantamos o Pai Nosso dos Mártires, grito de revolta pela violência que arrasa as vidas dos mais frágeis. Mas sentimos no sangue essa indignação transformar-se em rebeldia.
Na noite da democracia, na força cega e interesseira do capital, novas pessoas estão se juntando. Jovens inconformados, povos nativos e comunidades tradicionais em luta permanente, movimentos sociais com um novo vigor. 

“Vocês são semeadores de mudança. (...) Vocês, a partir dos movimentos populares, assumem as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. (...) O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos, que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança” (mensagem de Papa Francisco aos movimentos populares reunidos na Bolívia – julho de 2015).

Fotos: Lydiane Ponciano e Carol Garcia.

lunedì 18 aprile 2016

Peço perdão a Deus...



Estava em praça pública na noite em que os deputados federais se pronunciaram sobre o impeachment. Acreditava, e ainda acredito, que a rua é o único espaço que nos sobra para reafirmar a soberania popular e continuar acreditando na democracia.
Lado a lado, tantas pessoas que não se conheciam, mas sentiam a mesma vibração e atavam seus fios numa rede de participação que talvez venha a reanimar a militância da esquerda.
Não estava só, tinha o orgulho de acompanhar algumas pessoas de uma das muitas comunidades atingidas pelo modelo de desenvolvimento que, de FHC a Lula e até Dilma, sempre sugou a vida dos pobres para alimentar o lucro de poucos.
Juntos, queríamos defender pelo menos o respeito do voto popular, sabendo que o desmonte institucional só viria a piorar a situação dos pequenos.

Como padre e religioso, sinto que isso faz parte de minha missão. Mas durante aquela noite fiquei cada vez mais envergonhado por minha identidade.
Um número crescente de deputados defendia seu voto em favor do impeachment em nome de Deus. Um chegou a proclamar um trecho da Bíblia; outro a mantinha levantada como uma espada para matar o dragão do mal; outro proferiu um exorcismo e uma profecia, antes de assegurar mais uma vez que Deus estava do lado do ‘sim’.
Ao meu redor, na praça, cada vez mais pessoas se revoltavam contra esse Deus e esses arautos da verdade. 

Eu sinto Deus presente no caminho dos pobres e na força de suas reivindicações. Me reavivo quando, juntos, reconhecemos essa presença e nos fortalecemos nela. Mas com que coragem posso falar de Deus agora que o nome dele tem sido utilizado tantas vezes em vão por esses fanfarrões da moralidade, nesse teatro hipócrita da luta à corrupção?

É tempo de silenciar o nome de Deus. É tempo de escrever sua Palavra nas obras de misericórdia e justiça que libertam e humanizam os oprimidos. Deixemos de falar de Deus: que falem as pedras, as pedras de nosso compromisso, de nosso serviço escondido, de nossa paixão teimosa pela vida dos pequenos!
Não cabe a nós afirmar que estamos do lado de Deus. Serão os pobres a reconhecer sua presença, e nós o encontraremos se tivermos a coerência e a fidelidade de permanecer no meio deles.

Ontem à noite Deus chorava, impotente, porque ainda não compreendemos o que ele espera de nós e nos pede. Estamos fazendo dele uma caricatura, e nesse espelho também nossa identidade se desfigura e esvazia...

venerdì 25 marzo 2016

Nossa Páscoa nas ruas


O tempo de Páscoa leva o povo cristão às ruas, pelo menos três vezes: na Procissão de Ramos, na Via Sacra de sexta-feira santa e no fogo abençoado, na praça de nossas igrejas, antes de entrar na longa e bonita celebração do sábado de aleluia.

Celebrando junto a nossas comunidades, contemplo esse povo a caminho e não deixo de pensar às ruas tomadas pelos protestos, nos dias mais frágeis da história recente do Brasil.
Não podemos separar nosso ser religioso e nosso ser político. Papa Francisco afirma: “Ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interes­sam aos cidadãos” (EG 183).

Caminhando no domingo de Ramos sonhávamos uma cidade nova, uma Jerusalém sem guerras, armaduras e cavalos, uma cidade inclusiva e acessível para todas e todos, aberta aos pobres, que ainda andam de jumentinho, como Jesus...

Na Via Sacra, uma multidão seguindo Jesus condenado a morte. Em nossa procissão escolheram um Jesus jovem e negro. É instintivo, para nossas comunidades de periferia, identificar-se naquele homem machucado pelos militares romanos.
Fizemos questão de iniciar a caminhada saindo da comunidade de Piquiá de Baixo, conhecida no Brasil como a Cubatão da Amazônia, pela poluição siderúrgica e do escoamento do minério de ferro. Sangue e poeira, fumaça e barulho foram a moldura de nossa oração.

Na noite de sábado faremos um círculo ao redor do fogo. “Faz escuro, mas eu canto”, repetiremos juntos, cada um com sua vela na mão. É o jeito religioso de afirmar que a saída está na participação, na inclusão dos pequenos, nas comunidades organizadas a caminho.

A ressurreição é como uma semente, precisa de cuidado, teimosia e esperança para brotar. Não chega por atalhos, não se afirma por imposição de interesses, não se alimenta de manipulações midiáticas. É lenta e invisível, porque profunda.
Pouco se parece às tentativas de golpe em curso nesses dias. Mas muito pode avançar se as pedras da corrupção e os espinhos do poder não a sufocarem.
A ressurreição de um País só dará frutos se plantada na terra boa dos pobres.

Espero encontrar-me com muitos deles, outras e outras vezes, em nossas Páscoas nas ruas.