Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

domenica 20 novembre 2016

Defender a vida e os direitos humanos




Ontem à noite o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos 'Carmen Bascarán' ocupou a praça pública com uma de suas manifestações culturais mais lindas.
Celebrava 20 anos de história em Açailândia-MA, com o protagonismo de 150 crianças e adolescentes, todas as suas famílias e dezenas de trabalhadores e trabalhadoras resgatados do trabalho escravo contemporâneo. Nós Missionários Combonianos, cofundadores desse Centro, estávamos juntos.

Escolher uma praça para fazer memória, no cenário desses dias, tem um profundo significado político. Ainda mais ao falar de direitos humanos e ao defender a diversidade e o respeito de raças, religiões e gênero...
O cenário nacional e internacional está consolidando a privatização de interesses, o racismo, a arrogância violenta. Mais do que nunca é tempo de voltar às ruas e de retomar o trabalho de base.

O Centro de Defesa está na rua promovendo a arte e o encontro entre as pessoas. Isso toca cordas mais profundas, que são aquelas de nossa humanidade. Oferece uma palavra a mais, para além da banalidade do ódio que está se espalhando de novo.
O Patriarca ortodoxo Bartolomeu, ao encontrar milhares de prófugos na Grécia, afirmou: “Quem tem medo de vocês é porque não olhou em seus olhos. Não conhece seu rosto”.

Quem defende os Direitos Humanos experimenta quanto é difícil se fazer compreender e conquistar mais pessoas nessa caminhada! Daniel Comboni diria: é como enterrar pedras escondidas. Mas é sobre essas pedras que se fundamenta uma sociedade humana!

Quando você defende os DDHH, alguns lhe consideram um utopista que ainda não entendeu como funciona o mundo. Outros lhe atacam, porque está atrapalhando a ordem e o progresso, porque para o desenvolvimento é necessário algum sacrifício (humano?).
Cada vez mais os defensores dos DDHH, sobretudo em nossa América Latina, são criminalizados-as e perseguidos-as.

Mas alguém tem que ter a coragem de dizer uma palavra diferente do óbvio, uma palavra inédita. De não se adequar às regras impostas ou à lógica instintiva dos “direitos dos mais fortes”.

"Quando te elevas ao nível do amor, da sua grande beleza e poder, a única coisa que buscas derrotar são os sistemas malignos. Amas as pessoas que caíram na armadilha desse sistema, mas tentas derrotar esse sistema [...]
Ódio por ódio só intensifica a existência do ódio e do mal no universo. Se eu te golpeio e tu me golpeias, e eu te devolvo o golpe e tu também me devolves, e assim sucessivamente, é evidente que se continua até o infinito. Simplesmente nunca acaba.
Em algum lugar, alguém deve ter um pouco de bom senso, e esta é a pessoa forte. A pessoa forte é aquela que pode romper a corrente do ódio, a corrente do mal".
(Martin Luther King, Alabama, 1957)

A história do Centro de Defesa está marcada pela mística que também anima nós missionários combonianos. Destaco, nela, três dimensões chave.

1. Regenerar a África com a África
Era o lema de Daniel Comboni ao iniciar sua missão no Sudão, ainda no século XIX.
Não adiantam intervenções e soluções vindo de fora. Não fazem sentido e não se sustentam.
O caminho que realmente transforma a realidade e as vidas das pessoas com que estamos deve ser traçado dia após dia, quase tateando, por tentativas, mas juntos. Envolvendo essas próprias pessoas.
Investindo nas crianças, nos adolescentes, no trabalho de base, como está fazendo o Centro. Quem é que faz, hoje, trabalho de base?!
Comboni dizia “Regenerar”: significa reconhecer que no outro há um grande potencial silenciado, talvez aniquilado e consumido pelos modos de vida de hoje, mas que pode e deve ser despertado.

2. Com a África
A valorização das raízes afrodescendentes marcaram desde o começo a história do Centro de Defesa.
Um outro missionário comboniano, Heitor Frisotti, dizia que “Tem um cheiro de Evangelho nas coisas de negro”. Como padre, não pretendia converter as culturas afro ao catolicismo. Mas saboreava o gosto do Evangelho ao encontrá-las e entrevia a possibilidade de buscar juntos os sinais da presença de Deus na história de hoje.
Anacleta, quilombola de Santa Rosa (Itapecuru Mirim-MA), visitou com outras companheiras-os a Guiné Bissau, na África, de onde vieram seus antepassados. Comenta sempre a surpresa e a força do resgate de suas raízes. A riqueza de sua cultura, a resistência do povo negro que atravessou os tempos, a indignação e a revolta que o fizeram livre, a paixão e o orgulho de uma pertença...

A comunidade de Piquiá de Baixo, em luta teimosa por seu reassentamento coletivo em autogestão, em fuga da poluição minero-siderúrgica, tem que escolher seu novo nome, mas ninguém quer fazê-lo renegando suas raízes: “o nome de Piquiá tem que permanecer, é nossa raiz!”.
Da mesma forma, precisamos alimentar o orgulho de ser maranhense, de conhecer e promover nossa cultura local. Meu pertencer a Açailândia, o amor por essa cidade, a participação ativa à vida dela, para transformá-la, para que continue sendo Cidade dos Açaís e não se transforme numa cidade de aço...

3. Autosustentação
O Centro de Defesa tem uma forte capacidade de auto-regeneração. Admiro o esforço de toda a comunidade para manter as atividades do Centro.
Todos sabemos de suas dificuldades econômicas, mas quanto trabalho escondido para que isso não comprometa o dia a dia dos projetos! É feijoada, é rifa, é uma campanha de arrecadação... Isso tudo não serve só para coletar dinheiro: costura relações de pertença, teima em mostrar que esse Centro é de todos e todas, está nas mãos da cidade.
Da mesma forma, se garante acima continuidade entre lideranças, de uma geração para outra, porque esse sonho e compromisso é de muitos e não pode se interromper!
Por isso, o Centro de Defesa é muito maior daquilo que pode parecer.

“Vocês, os movimentos populares, são semeadores de mudança.
Promotores de um processo em que convergem milhões de pequenas e grandes ações, encadeadas de maneira criativa, como numa poesia: por isso quis chamar vocês de «poetas sociais»”
(Papa Francisco, discurso aos movimentos sociais no Vaticano, novembro 2016).

lunedì 7 novembre 2016

Após um ano, os povos do Rio Doce ainda clamam

Pai Nosso dos pobres, marginalizados, protege-nos da crueldade.
Teu Reino é santificado quando a justiça é nossa medida!
Com esse canto, cerca de mil pessoas -vindo de diversos Estados do Brasil e de 13 países do mundo- celebramos em Mariana-MG um ano desde o início do crime ambiental que está ainda destruindo a bacia do Rio Doce.

Celebrar é não esquecer, renovar a esperança, abraçar as vítimas e renovar a luta por justiça.

A igreja se fez presente com palavras fortes de denúncia e tomando uma posição clara. A rede Iglesias y Minería levou a solidariedade de várias outras comunidades atingidas por mineração no continente.

Em Bento Rodriguez o cenário continua de morte e devastação. Paira sobre essa cidade fantasma a derradeira ameaça: ser submergida por mais uma lagoa de rejeitos, solução barata que as empresas Vale e BHP querem impor construindo um quarto dique mais a jusante. 
Não sabem como controlar o perigo de novos desmoronamentos e propõem uma solução que apagaria definitivamente a memória desse povoado.


Enquanto isso, após um ano, não há ainda condenações dos responsáveis por esse crime, nem reparação digna por todas as vítimas. Quase três mil pessoas estão desempregadas, numa região que tinha construído sua economia exclusivamente em cima da mineração irresponsável.

Como missionários, acompanhamos o drama dessa gente e pedimos com eles justiça e dignidade!
Aprofundem aqui o ponto de vista da Articulação Internacional das Atingidas e Atingidos pela Vale, de que fazemos parte.

domenica 23 ottobre 2016

Da raiz comboniana, um novo broto



José é peruano, Tomasz polonês. Vivem em Roraima, dedicando sua vocação missionária aos povos indígenas Macuxi e Wapixana. Bernardino é um jovem do Togo, será ordenado diácono no final desse ano. Vive a Salvador, acompanhando os afrodescendentes na capital negra do Brasil.

Como missionários, sentimo-nos convocados pelas fronteiras. Geográficas, porque a igreja brasileira é chamada até a fronteira amazônica; culturais, em defesa dos valores e costumes das comunidades marginalizadas pelo modelo de desenvolvimento hegemônico; religiosas, sendo pontes de diálogo entre diversas tradições que buscam o Espírito divino; eclesiais, porque a vida religiosa deve sempre estimular a Igreja à renovação e à conversão aos mais pobres. 

Nós combonianos acabamos de definir o Plano de Evangelização para os próximos seis anos. Comprometemo-nos a “ser nas fronteiras testemunhas e profetas de relações fraternas, baseadas no perdão, na misericórdia e na alegria do Evangelho”.

Priorizamos quatro áreas de trabalho: evangelização e Amazônia, evangelização e direitos humanos nas periferias urbanas, evangelização e afrodescendentes, evangelização e promoção vocacional missionária. 
Assumimos o cuidado pastoral de comunidades cristãs populares, ou um serviço específico à igreja local, como a formação bíblica, a pastoral carcerária, a colaboração com movimentos de defesa dos direitos humanos, o acompanhamento de crianças e adolescentes em situações de risco, a Rede Eclesial Panamazônica, a promoção da saúde integral e a educação comunitária à reconciliação e ao perdão.

Somos conscientes de nossos limites: um grupo pequeno, frágil e com suas contradições. 
Para não trair nossa missão, acreditamos na importância dos lugares em que escolhemos estar: quanto mais mergulhados entre as pessoas simples, em seu sofrimento e sonhos, tanto mais seremos fieis à vida delas e testemunharemos que a vocação missionária faz sentido. 
Seremos uma presença simples em situações difíceis, muitas vezes sem grandes competências ou capacidades de transformação, mas sempre sinais de esperança e 'r-existência'.

sabato 20 agosto 2016

Como escolher um bispo?



Muitas vezes a presença de um padre numa paróquia ou de um bispo numa diocese faz a diferença. Mas não deveria ser radicalmente assim.
Acontece que a chegada de uma nova pessoa à frente dessas instituições acaba mudando repentinamente o estilo, as prioridades e a linha pastoral das mesmas. Passando por cima, às vezes, daquilo que o povo de Deus pensa e pratica há tempo e evitando dinâmicas respeitosas de diálogo, escuta e discernimento comunitário.
Por isso a profecia é sempre sofrida e demora tempo para ser reconhecida: não pode se impor por autoridade, precisa contagiar os outros pelo testemunho e a fidelidade persistente de uma proposta evangélica.

A escolha dos bispos indicados “desde fora” e “desde cima” pode alimentar essa dinâmica de descontinuidade, que de certa forma desvaloriza a maturidade das comunidades cristãs.
A primeira carta a Timóteo (4,14) testemunha que no começo da Igreja era a assembleia dos presbíteros que “fazia dom” aos bispos, pela imposição das mãos, de sua missão profética.
A Didaché (15,1), coletânea de instruções e costumes da Igreja do primeiro século, explica que bispos e diáconos eram eleitos e seu ministério era considerado ao mesmo nível de profetas e doutores.
Foi a partir do IV século que os imperadores de Constantinopla começaram a impor como bispos pessoas de sua preferência, na clara intenção de controlar o povo também através da aliança de poder com a Igreja. Nos séculos seguintes confirmou-se em diversas situações a indicação dos bispos por parte de soberanos e imperadores; em reação, os Pontífices centralizaram a nomeação desses pastores, defendendo e afirmando assim sua dependência direta de Roma.
A partir daí, a história parece ter-se congelado com respeito ao princípio que orienta o processo de escolha dos bispos, até os dias de hoje. Por isso, também o cardeal Martini afirmava que “a atual maneira de eleger os bispos deve ser melhorada”.

Enquanto escrevo, minha diocese está sem bispo, aguardando nomeação. É inegável um sentimento de preocupação: será que poderemos continuar na linha que assumimos nos últimos anos, em que nos reconhecemos? Afinal, quem chegar o que pensará, de onde virá e com que critérios será escolhido? 

Para quem acredita na ministerialidade, na participação de leigas e leigos e no protagonismo das mulheres na Igreja, faz sentido buscar outras maneiras de indicar o bispo de uma diocese.
Por exemplo, poderia se constituir um conselho diocesano eletivo, composto por uma proporção equilibrada de homens e mulheres, com representação de padres, ministros e ministras, coordenadores e coordenadoras de pastorais e comunidades, que possa sugerir à assembleia dos bispos três pessoas (dentro ou fora da diocese) que considere aptas para assumir a continuidade do serviço episcopal em nossa igreja local.
Esse processo deveria ser antecipado de uma consulta a todas as comunidades sobre quais foram as melhores qualidades e intuições da igreja diocesana no tempo do bispo anterior, quais os limites e falhas da caminhada e, portanto, qual o perfil da pessoa que poderia assumir a coordenação de uma nova etapa pastoral.

Nesse sentido, a escolha de um bispo seria muito mais vinculada às necessidades pastorais específicas de uma igreja local. Não teria um caráter ontológico, permanente. Uma pessoa se colocaria a serviço da coordenação de uma diocese com a possibilidade, depois de alguns anos e de uma avaliação pessoal e comunitária da experiência, de continuar ou deixar espaço a outra pessoa. Inclusive voltando, sem nenhum sentimento de “minoração”, a servir o povo de Deus numa paróquia ou numa pastoral específica.

Esse método reduz a organização centralizada das hierarquias da Igreja e talvez pode provocar conflitos em nível de cada diocese (ou melhor, evidenciar conflitos latentes e visões diferentes de Igreja e pastoral). Mas com certeza é mais transparente e aberto do atual sistema de escolha dos bispos e pode garantir um maior sentimento de participação e vínculo das comunidades junto às hierarquias da Igreja.
Como todas as propostas, poderia ser experimentada por um certo período de tempo em algumas dioceses e submetida à avaliação da Igreja.
É uma tentativa para permitir ao Espirito Santo circular de forma mais horizontal no meio do povo de Deus.