Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 4 agosto 2010

Perfume de ressurreição

Se você fosse visitar Açailândia (MA) algumas semanas atrás, iria lhe acompanhar até lá na Vila Maranhão, numa casa cheia de crianças, ao redor de um pequeno corpo sem vida.
Poucas semanas atrás, minha cidade chorava por mais um caso de negligência médica que levou a óbito a nenê Alice.

Mas se você viesse hoje, te levaria numa casa cheia de gente reivindicando seus direitos.
José e Aline, pais da pequena Alice, estavam lá, ainda muito emocionados, mas com vontade de falar, gritar sua raiva, exigir respeito e justiça para com todas as vítimas!

Casa de lei, a Câmara Municipal hospedou hoje a audiência de instalação da Defensoria Pública. E a palavra foi para quem há muito tempo ficou em silêncio.
Ivone falou de sua casa à beira do buraco e da família de amigos e vizinhos seus, que amanheceram um dia sem teto e tiveram que abandonar Açailândia.
Elisângela lamentou a humilhação que sofrem os doentes que precisam de exames médicos: noites inteiras de vigília, na rua em fila um atrás do outro esperando conseguir uma das quinze fichas mensais distribuídas na manhã seguinte.
Albino, no meio de tudo isso, fez questão de falar em nome do grupo “Rede de Cidadania”, cujo compromisso é exatamente a participação e o controle social.

Por uma vez, naquela Casa de Leis, a fala dessas pessoas pautou a agenda das autoridades.
Na total ausência de vereadores ou do poder executivo, a defensoria ficou escutando e assumiu um compromisso solene: servir ao povo a partir daquilo que ele pede e necessita.
As entidades e movimentos da sociedade civil estavam presentes, celebrando uma vitória e lamentando sua demora, depois de dez anos de luta batendo na tecla da garantia dos direitos dos pequenos. Com certeza irão acompanhar e monitorar a realização do que hoje ficou prometido.

Como igreja católica sentimos, nesses momentos, perfume de ressurreição.
A morte chega violenta e improvisa, faz barulho e ocupa as primeiras páginas dos jornais. Mas quando os pequenos se organizam, têm a coragem de se expor publicamente, solidarizam um com o outro e pautam a agenda política de uma cidade... isso, sim, é vida que ressuscita!

Deus dança no meio desse povo, de mãos dadas com a pequena Alice e com todas as vítimas: a negligência e a hipocrisia podem matar, mas a fé e a resistência da gente não morre não. Seguimos, portanto, espalhando sementes de ressurreição!

sabato 31 luglio 2010

Lucro de poucos e pesadelo de muitos

Carta aberta da Paróquia São João Batista sobre a crise siderúrgica em Açailândia

Mais uma vez o pesadelo das demissões em massa invade a cidade de Açailândia.
Em 2008, sob o pretexto da crise econômica global, as empresas siderúrgicas locais despediram centenas de trabalhadores.
Naquela época, o Sindicato dos Metalúrgicos denunciou que, apesar disso, os que detinham altos cargos de administração continuavam recebendo salários pelo menos dez vezes maiores que os dos poucos trabalhadores ainda em serviço.

A Paróquia São João criticava a forte dependência econômica açailandense dos interesses das siderúrgicas e da Vale:

«O crescimento econômico desordenado e sem planejamento de Açailândia deve-se a políticas irresponsáveis de financiamentos para grandes empreendimentos e proprietários, além da “economia do saque” que ao longo dos anos sugou os recursos locais gerando poucas oportunidades e favorecendo uma minoria que só tem acumulado (veja-se o ciclo das madeireiras, das serrarias, da pecuária, das mineradoras, das guseiras)».

De 2008 até hoje os empreendedores ficaram esperando o milagre da retomada do mercado.
Mas o mercado tem regras cruéis, que a mineradora Vale nunca deixará de aplicar.
A Vale não tem interesse em respeitar e promover os direitos do povo e do meio ambiente. Nos últimos seis meses, aumentou em 171% o preço do minério de ferro e já está lucrando muito dinheiro com as vendas para China.
Por isso as empresas siderúrgicas estão agora reduzindo cada vez mais as suas atividades.
Centenas de famílias estão sendo prejudicadas pela violência dessas demissões.

Frente a essa situação, a Paróquia São João Batista, em nome do Evangelho e do povo, denuncia:

- as siderúrgicas e a Vale sugam energias e recursos de trabalhadores e do meio ambiente enquanto tudo isso dê dinheiro. Quando, porém, os níveis do lucro começam a minguar, tudo é abandonado a seu próprio destino.

- a Vale controla e estrangula as economias de nossas regiões com um monopólio irresponsável

- as siderúrgicas eximem-se de suas responsabilidades, querendo aparecer como vítimas da Vale, quando por décadas lucraram às custas dos trabalhadores e do meio ambiente (em muitos casos sem investir em tecnologia, profissionalização e diminuição do impacto ambiental)

- os poderes executivo e legislativo locais nada fizeram para evitar esse jogo de demitir e recontratar trabalhadores conforme os interesses imediatos das empresas. A resposta da política não pode ser mais uma vez a concessão de verbas públicas (dinheiro nosso!) para “salvar” o funcionamento das empresas. O povo não deve pagar essa conta! Suas prioridades são outras: saúde, moradia, educação...

e propõe:

- uma negociação imediata entre a Vale, as guseiras, o poder público, o setor sindical e outros representantes da sociedade civil visando a garantia de emprego em nossa cidade

- a reconstituição do Fundo de Desenvolvimento regional, a partir de uma parcela fixa do lucro anual da Vale, que poderá ser usado para manter o equilíbrio em tempos de crise

- um plano de desenvolvimento participativo que preveja geração de renda diversificada e políticas de apoio à pequena empresa e à agricultura familiar, proteção e recuperação ambiental, respeito aos trabalhadores e às vítimas da poluição

- uma auditoria qualificada por parte do Ministério Público e do Trabalho nos balanços comerciais de todas aquelas siderúrgicas que estão fechando ou querendo fechar, para averiguar a veracidade de quanto vêm afirmando para embasar suas políticas de demissão sumária

Vamos transformar o pesadelo em sonho, para uma cidade mais justa, limpa e sustentável, cheia de oportunidades para todos!

venerdì 16 luglio 2010

Marta e Maria, para uma igreja mais mulher!

Temos na cabeça que os discípulos de Jesus eram todos homens. E eram doze.
Na verdade, muitos sabem que se trata de um número simbólico, representando as doze tribos de Israel. A mensagem nesse caso é: “Jesus veio para liderar o povo inteiro rumo a uma nova terra prometida, onde haja paz na justiça”. Daí a escolha de doze homens, porque na época a liderança e a autoridade sobre muitos era reconhecida somente aos homens.
Mas, ao ler com atenção, descobrimos que no Evangelho os encontros mais profundos e verdadeiros de Jesus são com mulheres. Admiramos a quantidade de mulheres com que Cristo dialoga, partilha, até aprende e fortalece sua fé!
A visita de Jesus na casa de Marta e Maria é um exemplo desses encontros: aquela casa, pequena igreja doméstica, é também profecia de uma “igreja mais mulher”, de uma sociedade do rosto feminino. De fato, mas ainda não de direito, a sociedade e a igreja são regidas por mulheres.
Quanto ainda podem crescer as instituições e pequenas comunidades se valorizarmos oficialmente a riqueza da contribuição da mulher! Ela carrega em si esse dúplice dom, bem simbolizado por Marta e Maria: de um lado, o cuidado, trabalho e esforço para acolher e promover a vida; do outro, a sensibilidade e a ternura da escuta e do diálogo.

Temos a tendência de ler esse evangelho em chave de competição: entre Marta e Maria, quem ganhou a atenção de Jesus? Quem fez mais certo, quem tem razão?
É incrível quanto a competição tomou conta de nossa vida... É comum encontrar no povo e dentro de nós pensamentos como esses: “Senhor, meu Deus, não está vendo quanto eu sou fiel e prestativo? Bem mais do que outros!”; “Como é que meu patrão não enxerga o destaque de meu trabalho sobre os outros?!”
Essa competição e conflito ressoam também no profundo do ânimo da gente: fazemos e corremos muito, mas uma parte de nós sente falta da escuta e de tempo para dedicar a uma longa conversa com os amigos. Em outros momentos paramos e permanecemos com os outros, mas logo sentimos urgência de agir, fazer acontecer as coisas, não deixar que a vida passe sem nossa contribuição...

Onde está o equilíbrio? O que vale mais de tudo na vida?
“Uma só coisa é necessária”, diz Jesus. É a relação, a atenção à pessoa.
Pode fazer o que quiser, pode ter uma tendência mais ao ativismo e à praticidade, ou à escuta paciente e amorosa. Mas nunca falte em tua vida o cuidado para com as relações.
Marta fez muito bem, saiu de casa em busca de Jesus, o convidou a entrar... mas depois esqueceu-se dele. Maria, ao contrário, não se preocupou em buscar o Senhor, mas uma vez entrado permaneceu ao lado dele. O protagonista desse trecho de evangelho, portanto, é a atenção à pessoa.
Esse é o “patrimônio da humanidade” que o nordeste do Brasil oferece também aos missionários estrangeiros: mais do que ensinar, temos muito a aprender desse tesouro de relações humanas e acolhida, Palavra de Deus encarnada no ser das mulheres!

lunedì 12 luglio 2010

Mártir pela terra, vivo entre nós

Pe. Ezequiel tinha 33 anos; estava no Brasil há pouco mais de um ano. Sua sede de justiça foi tão grande que o mataram logo.
Missionário Comboniano, Ezequiel Ramin foi morto em 1985, numa Rondônia em plena agitação pela febre colonizadora de fazendeiros e muitos pobres em busca de futuro.
Imensa fronteira em desenvolvimento, onde grupos poderosos disputavam cada palmo de chão. Fazendeiros contra posseiros, grileiros contra pequenos agricultores, fazendeiros e madeireiros contra índios. O missionário tomou o lado dos pobres e foi brutalmente executado. Hoje, a vinte cinco anos de seu martírio, seus companheiros combonianos escrevem uma carta aberta para ele.

Ezequiel, o que é ressurreição?
Diga-nos, mártir da luta: como acreditarmos na vida quando ainda continua tamanha violação dos direitos?

Lembramos de sua paixão pela causa dos povos indígenas. Pois é, ainda hoje mais de 50% das terras deles continuam sem identificação, demarcação ou homologação.
Você deu a vida pelo chão de seu povo, mas ainda hoje o Brasil é campeão mundial na concentração da terra. Imaginamos sua ansiedade a respeito do plebiscito de setembro 2010, para um limite à propriedade e o direito à partilha do bem mais essencial que temos.
Ainda ressoam suas palavras: “muitas vezes sinto uma grande vontade de chorar, ao ver os quilômetros de cerca...”

Ezequiel: como não chorar, hoje, enquanto está sendo aprovada a reforma ao Código Florestal, que, em vez de preservar a natureza fonte di vida, vai matar as florestas e reduzir as áreas de preservação permanente?
A vida é cada vez mais ameaçada pela ilusão do crescimento e do progresso! Mas que progresso é este que suga das veias abertas da America Latina a madeira do mato, o ferro da terra e a fertilidade do chão?

Na sua Rondônia, o ano passado, quatro mil pessoas durante o intereclesial das CEBs ajoelharam-se, pedindo perdão frente às enormes barragens para usinas hidroelétricas no rio Madeira. Esta devastação não terminou e pode continuar amanhã também em Belo Monte: ainda dá, Ezequiel, para acreditar que Davi vencerá Golias?

Até sua irmã no sangue, Dorothy Stang , ainda não conheceu justiça e os assassinos dela estão impunes ainda em liberdade... Cadê o estado, defensor de direitos?
Cadê a igreja da libertação pela qual você derramou seu sangue? Como e quando essa igreja honra, reconhece e imita seus mártires?
Sumiram os mártires; hoje a medida da fé não parece mais ser a cruz da perseguição, mas o ibope de quem manipula os sentimentos do povo concentrado em praças ou templo como num grande espetáculo...
Os próprios movimentos sociais, com que você tanto trabalhou, hoje, em vários casos, parecem presos a lógicas de controle e de repartição do poder.

No meio das contradições e falências, você costumava repetir que “trabalhar com os pobres é como criar primavera”. Acreditamos nessa primavera, padre!
Sentimos que a vida pulsa nas veias desse povo, apesar das ameaças que pairam em cima dele. Admiramos a cada dia a resistência e dedicação das mulheres líderes de comunidade: é delas que você deve ter aprendido!

Sua paixão não foi em vão: hoje os olhos do povo iluminam-se quando fazem memória de pe. Ezequiel e ir. Dorothy. Luzes distantes, mas permanentes, estrelas fixas no horizonte.
Sim, nossos povos ainda têm horizonte, apesar de tudo.
Alguns perderam o sonho, vêem-se obrigados a viver dia após dia. Mas outros, ao lado desses, ainda enxergam longe, lutam por reformas, acreditam na honestidade, doam-se até o fim. Você não imagina, Ezequiel, quanto é importante para eles seu exemplo e a vida de muitos outros batalhadores do dia de hoje!

Suas palavras fecundam a vida de muitos jovens: “Tenho a paixão de quem persegue um sonho. Essa palavra tem tamanha intensidade que, quando a acolho em meu ânimo, sinto que uma libertação sangra por dentro de mim”.
A igreja que você sonhava e pela qual trabalhou ainda está em construção: depende de nós dar-lhe um sabor de libertação.

Você comentava: “É um novo jeito de ser igreja. Avanço nessa lógica. As atividades são ligadas ao social, a uma transformação concreta. O papel principal é dos leigos. Eles são igreja. Interessam-se por tudo. O trabalho é de coesão: juntos buscamos saídas para os problemas interconectados da terra, dos índios, da saúde e do analfabetismo...”
“Meus olhos buscam com dificuldade a história de Deus aqui. A cruz é a solidariedade de Deus para com a caminhada e a dor humanas. O amor de Deus é mais forte do que a morte. A vida é bela e estou feliz em doá-la!”

Ressurreição é isso, Ezequiel: doar-se com alegria para que esse povo viva! Você ainda vive, mártir da terra e do sonho de Deus. Que essa vida se transmita, apaixonada, nas muitas e muitos seguidores de Cristo que ainda seguem criando primavera!

lunedì 5 luglio 2010

O País das maravilhas

Alice chegou dentro do bagageiro do carro.
Nem a funerária preocupou-se em trazer para casa seu corpinho de sete meses.

Quando abrimos o caixão, já as outras crianças estavam em volta, com a chupeta na boca. Olhavam para ela como se fosse uma boneca. Não consigo imaginar o que elas pensassem: os adultos chorando e elas tranqüilas, de pé, olhando com curiosidade.

Talvez para elas a morte seja novidade. Para nós é costume: mais uma criança que não agüentou esperar.
Açailândia é uma rica cidade do interior do Maranhão, terra de empresas e negócios, investimentos e desenvolvimento. Nesse país das maravilhas, Alice devia esperar um pouco mais.

Desde quando nasceu, o médico pediu cirurgia de urgência para seu coração enfraquecido. Durante sete meses seus pais bateram muitas vezes à porta da secretaria de saúde em busca de um tratamento. E Alice ficou esperando sete longos meses, no barraco lá no fundo da rua Juazeiro, à beira do barranco. Não agüentou; faleceu uma semana antes da consulta que tanto aguardava.

A vida e o progresso, nessa cidade, correm em trilhos diferentes. A velocidade do lucro aumenta a cada dia; nesse mês começa oficialmente até a duplicação dos trilhos da Estrada de Ferro Carajás.
Tudo é muito rápido... mas essa manhã eu também parei, ao lado da família, olhando a vida correr embora e a resignação estagnar nas ruas dessa cidade.

Quantas outras crianças morrerão assim? Qual será o futuro desses pequenos de chupeta que olhavam admirados para a morte?

A maravilha que Alice mais espera nesse país é a indignação, a organização popular e a vida para todos!

mercoledì 30 giugno 2010

Os invisíveis

Já tinha visitado o lixão de Açailândia, na esperança de não encontrar crianças e humilhação. Lembro que ficou marcante dentro de mim o cheiro e a fumaça densa, dentro da qual se escondiam catadores disputando o que os caminhões descarregavam a cada momento.

Voltei para casa com aquele sentimento de impotência que há muito tempo é companheiro fiel: mais uma causa que deveríamos assumir. Aqui estão realmente ‘os últimos’, anel mais fraco de uma cadeia degenerada de produção que descarta tudo em função de consumir mais.

Em Açailândia estamos trabalhando para o respeito ao meio ambiente e lutando para limitar o saque dos recursos naturais, como minérios e mata virgem. Esses nossos irmãos encontram-se ao outro lado do funil, amassados debaixo do descarte, derradeira etapa do consumo de coisas e vidas. A própria Cáritas está levando adiante iniciativas para a erradicação dos lixões, potenciando a organização dos catadores e promovendo a coleta seletiva como atuação de desenvolvimento socioambiental.

Mas nós não temos pernas para isso também, pensava. Até que nosso carro teve um acidente exatamente no lixão e minha bolsa desapareceu, com documentos e dinheiro.
Tive que voltar logo para lá, dessa vez com intenções mais egoístas, prometendo uma recompensa a quem me devolvesse a identidade.

De novo, os invisíveis fizeram irrupção dentro de mim. Encostei-me a um primeiro barraco, já dentro do lixão, para conversar com um senhor; ele me pediu se podia dar carona à sua mãe até o depósito de lixo principal, uns quilômetros mais à frente. Saiu do barraco uma mulher idosa e coxa, cheia de moscas. Eu não conseguia conversar: as moscas entravam nos olhos e na boca da gente. A mulher, acostumada e tranqüila, subiu no carro com sua carga ambulante de insetos e mandou-me seguir em frente.

Dona Maria das moscas trabalha há 19 anos no lixão. Mas as pernas não têm mais força suficiente para continuar, precisa da ajuda dos filhos e netinhos. Há vítimas escondidas nesse ritmo louco de consumo... é fácil para mim também esquecer disso. Esse tanto de moscas vêm me perturbar para nunca mais me esquecer de nenhuma dessas pessoas.
Pode ser que a gente trabalhe focando mais a fonte desse ciclo devastador: estamos no cheio da resistência contra o saque de recursos, para fechar a hemorragia das veias abertas da América Latina. Mas sabemos e sentimos que nossa luta é em nome de todas essas vítimas, e por isso nunca deve amolecer!

Deixei dona Maria e voltei matutando tudo isso. Mas ainda uma surpresa devia semear ternura e admiração em mim: um casal de catadores, subindo a estrada de chão com sua motinha, parou-me de repente. “Padre, é o dia todo que o estamos procurando!”
Encontraram minha bolsa, guardaram-na em casa e correram atrás de mim para devolver tudo, inclusive o dinheiro! Chamam-se Silma e Sérgio, têm quatro filhos vivos e um que tombou atropelado... provavelmente enquanto ia trabalhar na coleta com os pais.
No meio do lixo, dessa vez fui eu quem coletou algo precioso: pequenos gestos de honestidade como esse, brotando no meio da miséria, alimentam intensamente minha luta!

Assista ao curto "Ilha das Flores"

martedì 25 maggio 2010

Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale: uma avaliação

A campanha Justiça nos Trilhos está entre os formuladores e promotores do I Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale.
Desde o começo de 2009, durante e logo após o Fórum Social Mundial de Belém, sentiu-se a necessidade de um encontro internacional exclusivamente focado sobre a Vale e seus impactos socioambientais em várias regiões do mundo.
As injustiças evidentes narradas por muitas comunidades no Brasil e afora, o modelo de desenvolvimento agressivo e os enormes lucros da companhia mineradora tornavam urgente uma construção de estratégias coletivas de resistência e alternativas.

Como missionários combonianos, sentimo-nos interpelados diretamente: cabia a nós ajudar o povo que acompanhamos, em Açailândia, São Luís e vários povoados ao longo da Estrada de Ferro Carajás, a compreender a história e as causas das condições degradadas de suas vidas.
Ao anunciar e construir vida em abundância, é sempre necessário denunciar e destruir modelos que, ao contrário, trazem morte por causa de uma busca irresponsável e desmedida do lucro.
Abençoados e encorajados pela Campanha da Fraternidade de 2010, que nos estimula a estudar as injustiças econômicas mais evidentes e contrapor experiências de economia popular descentralizada, respeitosa da vida e do meio ambiente, assumimos com entusiasmo a organização dessa nova etapa de enfrentamento da Vale: sonhamos, com Deus, um novo jeito de relacionar-se com a terra, os recursos naturais e a criação inteira.
Justiça nos Trilhos desde o começo envolveu toda nossa província Brasil Nordeste, que a apóia e nela se identifica; mais uma vez, nesse caso, houve a participação de vários combonianos, em diferentes iniciativas preparatórias.

Foi redigida uma revista, com o título “Não Vale”, contendo vários artigos bem fundamentados a respeito das mazelas da companhia, especialmente no corredor de Carajás. A revista suporta e complementa o trabalho artístico de um conhecido diretor cinematográfico italiano, Silvestro Montanaro, que realizou durante os últimos meses um filme de 75 minutos sobre os maiores conflitos e resistências populares ao longo do mesmo corredor.
Filme e revista serão divulgados em breve nas comunidades atingidas, em ocasião de lançamentos e seminários de formação tanto no Pará como no Maranhão. Os membros da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e outros parceiros internacionais já receberam esse material, útil para a formação de suas comunidades e lideranças.
Tudo, enfim, estava pronto para a realização do encontro internacional dos atingidos; o evento foi precedido, de 5 a 11 de abril, pela Caravana dos Povos no sistema norte da Vale.

Em parceria com comunidades, movimentos e sindicatos de Pará e Maranhão, foram preparadas três etapas, prontas a acolher um público de vários países do mundo.
Trinta pessoas alcançaram, assim, Barcarena (PA), Marabá (PA) e Açailândia (MA) e realizaram um intercâmbio precioso entre comunidades atingidas de várias regiões do planeta. Era gente do Pará, Maranhão, Ceará, Rio de Janeiro, Brasília, Argentina, Chile, Peru, Canadá e Moçambique.
Puderam encontrar comunidades rurais e urbanas, associações de moradores, movimentos, comunidades cristãs, políticos, promotores de justiça, jornalistas, sindicatos, movimentos de defesa dos direitos humanos, atores, famílias, jovens, mulheres...

É impossível resumir em poucas linhas a riqueza desses encontros (encontra-se algo a mais nos blogs que acompanharam o evento). Podemos resgatar, simplesmente, a dinâmica de enriquecimento recíproco que permitiu aos membros locais e internacionais de ‘espelhar-se’ uns nos outros. Evidenciaram-se, em todo lugar, sempre as mesmas estratégias da empresa: a conquista do território, o marketing para defender uma imagem socialmente e ambientalmente responsável, a cooptação do poder político e judiciário; em relação às lideranças, a tendência a aliciar, negociar isoladamente para dividir as comunidades, ameaçar ou criminalizar, conforme o nível de organização e enfrentamento dos grupos locais.
Também apareceram interessantes respostas de resistência popular: o esforço de dar visibilidade ao conflito (publicações, relatórios, dossiês), as ações diretas de oposição à agressividade da empresa (ocupar terras, fechar estradas, manifestar), as ações judiciais pedindo indenização ou compensação ambiental, a produção de conhecimento juntando o saber local e a pesquisa universitária, a articulação em redes (internacionais, nacionais, regionais), o envolvimento de atores e parceiros chave, especialmente na área jurídica.

Nos dias seguintes, de 12 a 15 de abril, a caravana norte encontrou-se com outra caravana, vindo do sistema sul da Vale (Minas Gerais e Espírito Santo), além de várias outras pessoas todas convergindo no Rio de Janeiro, onde existe a sede da Vale e onde, todo mês de abril, a Vale convoca seus acionistas para a assembléia anual.
Reuniram-se 160 pessoas, de 80 associações e entidades diferentes, representando 12 países. Ocasião única: pela primeira vez os povos atingidos e as lideranças que os acompanham fizeram o esforço de sistematizar suas lutas e aprender uns com os outros.

Foram quatro dias intensos, principalmente de estudo e aprimoramento das estratégias coletivas. Destacaram-se várias áreas de conflito: modelo de desenvolvimento e saque dos recursos, conflitos ambientais e poluição, conflitos trabalhistas e resistências sindicais, conflitos com as comunidades e pela terra, conflitos econômicos e desequilíbrios por lucros desmedidos (a Vale é a maior empresa da América Latina e a mais rentável do mundo!)

Os encaminhamentos maiores tiveram a ver com a crítica à imagem socialmente solidária e ambientalmente responsável da Vale: os atingidos assumiram o compromisso de desmontar sistematicamente esse quadro, mostrando e divulgando os impactos de que são vítimas. Um dossiê detalhado, com 120 páginas e 21 casos específicos foi lançado na assembléia legislativa do Rio de Janeiro, entregue à imprensa e à assembléia dos acionistas.
Um movimento internacional assumiu o compromisso de produzir constantemente um relatório alternativo, apontando as omissões do Relatório Anual de Sustentabilidade da própria empresa. A partir disso, deslancham-se novas dinâmicas de denúncia, conscientização das comunidades, reivindicações dos próprios direitos e construção de formas mais sustentáveis de economia e desenvolvimento local.
Intuímos, também, novas potencialidades e alianças entre comunidades e províncias missionárias onde se encontram os mesmos conflitos por mineração e saque dos recursos naturais: Moçambique, Chile, Peru, Equador...

Será que os sinais dos tempos estejam provocando nossa sensibilidade para com o cuidado ambiental e o respeito dos mais pobres a avançar até águas mais profundas?