Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

domenica 23 ottobre 2016

Da raiz comboniana, um novo broto



José é peruano, Tomasz polonês. Vivem em Roraima, dedicando sua vocação missionária aos povos indígenas Macuxi e Wapixana. Bernardino é um jovem do Togo, será ordenado diácono no final desse ano. Vive a Salvador, acompanhando os afrodescendentes na capital negra do Brasil.

Como missionários, sentimo-nos convocados pelas fronteiras. Geográficas, porque a igreja brasileira é chamada até a fronteira amazônica; culturais, em defesa dos valores e costumes das comunidades marginalizadas pelo modelo de desenvolvimento hegemônico; religiosas, sendo pontes de diálogo entre diversas tradições que buscam o Espírito divino; eclesiais, porque a vida religiosa deve sempre estimular a Igreja à renovação e à conversão aos mais pobres. 

Nós combonianos acabamos de definir o Plano de Evangelização para os próximos seis anos. Comprometemo-nos a “ser nas fronteiras testemunhas e profetas de relações fraternas, baseadas no perdão, na misericórdia e na alegria do Evangelho”.

Priorizamos quatro áreas de trabalho: evangelização e Amazônia, evangelização e direitos humanos nas periferias urbanas, evangelização e afrodescendentes, evangelização e promoção vocacional missionária. 
Assumimos o cuidado pastoral de comunidades cristãs populares, ou um serviço específico à igreja local, como a formação bíblica, a pastoral carcerária, a colaboração com movimentos de defesa dos direitos humanos, o acompanhamento de crianças e adolescentes em situações de risco, a Rede Eclesial Panamazônica, a promoção da saúde integral e a educação comunitária à reconciliação e ao perdão.

Somos conscientes de nossos limites: um grupo pequeno, frágil e com suas contradições. 
Para não trair nossa missão, acreditamos na importância dos lugares em que escolhemos estar: quanto mais mergulhados entre as pessoas simples, em seu sofrimento e sonhos, tanto mais seremos fieis à vida delas e testemunharemos que a vocação missionária faz sentido. 
Seremos uma presença simples em situações difíceis, muitas vezes sem grandes competências ou capacidades de transformação, mas sempre sinais de esperança e 'r-existência'.

sabato 20 agosto 2016

Como escolher um bispo?



Muitas vezes a presença de um padre numa paróquia ou de um bispo numa diocese faz a diferença. Mas não deveria ser radicalmente assim.
Acontece que a chegada de uma nova pessoa à frente dessas instituições acaba mudando repentinamente o estilo, as prioridades e a linha pastoral das mesmas. Passando por cima, às vezes, daquilo que o povo de Deus pensa e pratica há tempo e evitando dinâmicas respeitosas de diálogo, escuta e discernimento comunitário.
Por isso a profecia é sempre sofrida e demora tempo para ser reconhecida: não pode se impor por autoridade, precisa contagiar os outros pelo testemunho e a fidelidade persistente de uma proposta evangélica.

A escolha dos bispos indicados “desde fora” e “desde cima” pode alimentar essa dinâmica de descontinuidade, que de certa forma desvaloriza a maturidade das comunidades cristãs.
A primeira carta a Timóteo (4,14) testemunha que no começo da Igreja era a assembleia dos presbíteros que “fazia dom” aos bispos, pela imposição das mãos, de sua missão profética.
A Didaché (15,1), coletânea de instruções e costumes da Igreja do primeiro século, explica que bispos e diáconos eram eleitos e seu ministério era considerado ao mesmo nível de profetas e doutores.
Foi a partir do IV século que os imperadores de Constantinopla começaram a impor como bispos pessoas de sua preferência, na clara intenção de controlar o povo também através da aliança de poder com a Igreja. Nos séculos seguintes confirmou-se em diversas situações a indicação dos bispos por parte de soberanos e imperadores; em reação, os Pontífices centralizaram a nomeação desses pastores, defendendo e afirmando assim sua dependência direta de Roma.
A partir daí, a história parece ter-se congelado com respeito ao princípio que orienta o processo de escolha dos bispos, até os dias de hoje. Por isso, também o cardeal Martini afirmava que “a atual maneira de eleger os bispos deve ser melhorada”.

Enquanto escrevo, minha diocese está sem bispo, aguardando nomeação. É inegável um sentimento de preocupação: será que poderemos continuar na linha que assumimos nos últimos anos, em que nos reconhecemos? Afinal, quem chegar o que pensará, de onde virá e com que critérios será escolhido? 

Para quem acredita na ministerialidade, na participação de leigas e leigos e no protagonismo das mulheres na Igreja, faz sentido buscar outras maneiras de indicar o bispo de uma diocese.
Por exemplo, poderia se constituir um conselho diocesano eletivo, composto por uma proporção equilibrada de homens e mulheres, com representação de padres, ministros e ministras, coordenadores e coordenadoras de pastorais e comunidades, que possa sugerir à assembleia dos bispos três pessoas (dentro ou fora da diocese) que considere aptas para assumir a continuidade do serviço episcopal em nossa igreja local.
Esse processo deveria ser antecipado de uma consulta a todas as comunidades sobre quais foram as melhores qualidades e intuições da igreja diocesana no tempo do bispo anterior, quais os limites e falhas da caminhada e, portanto, qual o perfil da pessoa que poderia assumir a coordenação de uma nova etapa pastoral.

Nesse sentido, a escolha de um bispo seria muito mais vinculada às necessidades pastorais específicas de uma igreja local. Não teria um caráter ontológico, permanente. Uma pessoa se colocaria a serviço da coordenação de uma diocese com a possibilidade, depois de alguns anos e de uma avaliação pessoal e comunitária da experiência, de continuar ou deixar espaço a outra pessoa. Inclusive voltando, sem nenhum sentimento de “minoração”, a servir o povo de Deus numa paróquia ou numa pastoral específica.

Esse método reduz a organização centralizada das hierarquias da Igreja e talvez pode provocar conflitos em nível de cada diocese (ou melhor, evidenciar conflitos latentes e visões diferentes de Igreja e pastoral). Mas com certeza é mais transparente e aberto do atual sistema de escolha dos bispos e pode garantir um maior sentimento de participação e vínculo das comunidades junto às hierarquias da Igreja.
Como todas as propostas, poderia ser experimentada por um certo período de tempo em algumas dioceses e submetida à avaliação da Igreja.
É uma tentativa para permitir ao Espirito Santo circular de forma mais horizontal no meio do povo de Deus.

martedì 5 luglio 2016

As letras minúsculas: ameaça à Igreja?



“Hoje em dia não se escreve mais nenhuma palavra com a letra maiúscula, nem Igreja, nem às vezes o próprio nome de Deus”.
Chamou-me a atenção essa expressão, que não representa somente uma crise de valores, mas um pensamento e uma das atitudes mais emblemáticas da sociedade pós-moderna, com que precisamos saber dialogar.
Todas e todos compreendemos o que significa estarmos num mundo líquido; pode nos assustar a indefinição, o relativismo, a falta de pontos referências firmes. Com certeza é uma fragilidade da vida de hoje. Mas escrever com a letra minúscula abre também espaços para a pluralidade, para a escuta de outras vozes, para o diálogo entre pares e, talvez, o crescimento comum.

No passado 15 de novembro, Papa Francisco visitou a igreja dos luteranos em Roma. Uma senhora de religião protestante lhe perguntou publicamente se podia aproximar-se da comunhão junto com o seu marido católico. 
Francisco deu uma resposta pastoral, humana, relançando o desafio também ao discernimento entre os dois. Não se atreveu a remarcar uma doutrina e admitiu não conseguir aplicar esquematicamente a lei para cada caso particular.

Usou letras minúsculas e entrou no diálogo com esse casal, buscando aprofundar a questão a partir do ponto de vista de três pessoas que se amam, amam as suas igrejas e procuram honestamente uma parte da verdade.
Ignorando as diferenças e as distâncias dogmáticas entre protestantes e católicos no que diz respeito ao sacramento da eucaristia, Francisco aponta ao que os une, o batismo, e desafia a buscar no interior da consciência o que mais garante fidelidade à fé e amor às pessoas com que se caminha.

Percebe-se o mesmo esforço na exortação apostólica Amoris Laetitia, por exemplo com respeito aos sacramentos para divorciados recasados, ou à integração na comunidade cristã dos casais homoafetivos.
Nada impede, nesse sentido, que uma comunidade reconheça e abençoe um casamento civil homoafetivo, sem celebrar bodas canônicas. O importante é que exista discernimento, conhecimento recíproco, sabedoria nesse “foro interno”, inclusão e participação na comunidade.

Papa Francisco nos oferece duas pistas para esse discernimento, que podem se transformar em estilo de vida para nós cristãos. Vejamos, brevemente...

À pergunta da senhora protestante sobre comunhão, Francisco comentou: “Compartilhar a Ceia do Senhor é o final de uma caminhada, ou é o viático para caminhar juntos?”
Faz-se referência implícita, nessa afirmação, a duas visões de fé e religião, que poderemos aprofundar em outros textos. A primeira considera a religião como um conjunto de verdades adquiridas, como uma meta alcançada e uma fortaleza que nos dá seguranças estáveis e indiscutíveis. Muitas pessoas precisam dessa garantia para não vacilar na vida. Mas a fé é também busca, caminhada incerta, escuta humilde de outros pontos de vista, porque Deus é sempre totalmente outro e nunca ninguém poderá possui-lo por inteiro. Talvez precisamos, em nossas igrejas, cultivar um pouco mais esse segundo aspecto, já que até agora o primeiro acabou se impondo com muita mais força.

À senhora que o interrogou em Roma, Francisco indicou que é necessário sentir-se pecadores. “Eu também me sinto muito pecador”.
Trata-se de uma atitude permanente de Papa Francisco, quase um estilo de vida e uma chave interpretativa de todas as relações. Muitos de nosso diálogos entre diferentes se travam exatamente pela falta dessa humildade, da capacidade de nos relativizar permitindo que a outra pessoa compartilhe também sua experiência e ponto de vista. Além de não possuir toda a verdade, precisamos reconhecer que nem sempre somos coerentes com o que dela já compreendemos. O outro, a outra é oportunidade para sermos um pouco mais... nós mesmos.

Recomeçar pelas letras minúsculas, portanto, não significa esquecer os valores transcendentes, mas procurá-los a partir de outras perspectivas. Que, afinal, instigavam também Jesus de Nazaré.