Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

venerdì 31 agosto 2012

Mais um pai que nos deixa

Me disse “Shalom” e me abraçou. Era logo depois do rito de ordenação sacerdotal, última vez para ele como bispo de Milano. O cardeal Martini abraçou cada um de nós e nos desejou paz, no idioma bíblico: estava prestes a sair para Jerusalém, onde poderia contemplar os últimos sopros da Palavra de Deus.

Mesmo coordenando a diocese mais populosa do mundo, se lembrava de cada um de seus padres e de muitos dos leigos e leigas, com os quais construiu um novo jeito de ser igreja. Ainda dez anos depois, tinha a delicadeza de ler minhas cartas e me responder, brevemente mas com atenção.

Aprendi muito com ele: ainda me lembro das noites passadas com outras centenas de jovens, sentados no chão da catedral de Milano, lotada de gente que celebrava com ele as vigílias de Lectio Divina “in traditione Symboli”. Falava devagar, com voz profunda, não queria conquistar a atenção com expressões chamativas, mas pela verdade que evocava em quem ia escutando.

Ainda hoje me pergunto como podia manter a serenidade e a lucidez, na administração de uma igreja inserida no mundo tão complexo e contraditório do norte da Itália. Sempre me surpreendia a capacidade que tinha de suspender os problemas e as correrias e tirar um dia inteiro para si e para Deus. Era toda quarta-feira, me parece; costumava sair da cidade e ir caminhar nas montanhas, sozinho, como Moisés em busca de Deus.

A última vez que o vi estava celebrando numa pequena igreja perto de minha cidadezinha. No final, entrou na sacristia e eu não tive coragem de ir cumprimentá-lo. Era já frágil e cansado. Queria lembrar-me dele com essa distância respeitosa, não era necessário para mim buscar uma intimidade maior. Prefiro ser íntimo daquilo que escreveu, que me ensinou, da firmeza e profunda serenidade que me transmitiu.

Mais um pai que nos deixa com o desafio de viver plenamente. Como toda cerimônia de passagem, acredito profundamente que, pela imposição das mãos, um pouco do espírito de nossos antepassados passa a viver dentro de nós. Não vou te deixar morrer, então...

lunedì 30 luglio 2012

Quando a gente levanta as mãos


Quando a gente vê alguém levantar as mãos, logo pensa que está se rendendo.
Não foi isso ontem, na porta das siderúrgicas de Piquiá de Baixo, profundo interior do Maranhão.
Cerca de cem pessoas estavam de mãos levantadas e sujas, parando os caminhões de carvão e minério de ferro que queriam entrar, para alimentar a fome incandescente dos fornos das guseiras.

Eram jovens de Parauapebas, Marabá, Canaã dos Carajás, Açailândia, Bom Jesus das Selvas, Buriticupu. Eram idosos e doentes do Piquiá, gritando de novo com voz humilde e cansada, mas firme, contra aquela poluição que respiram a cada dia.
Juventudes e comunidades atingidas pela mineração e sua cadeia produtiva estavam encerrando mais um encontro regional de estudo.
Os moradores levaram um saco do pó preto que cai dia e noite dentro de suas casas; os jovens sujaram as mãos e as levantaram, envergonhados e solidários, em denúncia. Tem gestos que falam mesmo com seu silencio: dezenas de jovens, idosos e crianças mostrando suas mãos e esbarrando o caminho.
Era um basta à violência ambiental, um bloqueio ao fluxo agressivo do lucro, que passa por cima de direitos e vidas.
Lembro de um gesto desse tipo mais de dez anos atrás, no grande encontro dos G8 em Genova, na Itália. Manifestantes levantavam suas mãos, pintadas de branco, para bloquear as incursões violentas da polícia e dos black-blocks terroristas. Hoje é outra violência, igualmente mortal, que nos obriga a sujar as mãos de pó preto.

Uma das estratégias da luta não-violenta é envergonhar publicamente o adversário. Eu senti vergonha, ontem, quando um morador do bairro poluído, em sua simplicidade, desabafava no microfone: “a gente pede justiça às siderúrgicas e elas dizem que precisa falar com a Vale; a gente denuncia a Vale e ela diz que a responsabilidade é das siderúrgicas... vai ver que agora os culpados de tudo isso somos nós!”

Com certeza, de hoje para frente, muito mais pessoas assumiram essa causa. Uma voz, cantando ao longo do ato, perguntava: “Quem é você?”. E dezenas de jovens, crianças e outros moradores gritavam em resposta: “Sou Piquiá!”.
Somos todos Piquiá, de mãos levantadas, não para nos render, mas em denúncia, pedindo respeito, exigindo que a corrida louca do progresso pare para nos escutar!
(foto Marcelo Cruz)

domenica 1 aprile 2012

A terceira margem do rio


O rio Pindaré desce devagar e amplo, nesse inverno, beirando os povoados do interior de Buriticupu, Maranhão profundo.
Grupos de famílias instalaram-se nas terras à sua beira, numa reforma agrária que interrompe , a manchas de leopardo, terras de fazendeiros.
À margem do rio corre outro fluxo de escoamento: a linha de ferro da Vale, que transporta a cada dia cerca de 300mil toneladas de mineiro de ferro fora do País. Esse trem do lucro não para, nem conhece obstáculos. Atropela, mata, acorda com o seu barulho e racha pelas vibrações as casas encostadas aos trilhos.
À outra margem, há pastos de uma fazenda, que aos poucos deve ter comprado e juntado os lotes dos assentados. Nova acumulação, reforma agrária ao contrário: ainda há condições de mudar essa história, inverter os fluxos, modificar o curso da correnteza, voltar a sentir o rio, a terra, os recursos como patrimônio de todos?

Há, se formos olhar bem, uma “terceira margem do rio”: atravessamos o Pindaré numa canoa de sapucaia, com a água beirando a borda pelo peso da gente. Subimos o morro com o facão na mão e o fôlego que vem faltando.
Finalmente um pedaço de chão livre, onde o povo está experimentando um outro tipo de cultivo.
É a primeira roça agro-ecológica dessa região, sem fogo, sem química, à medida das forças e do dinheiro das famílias rurais.
É uma pequena mancha de esperança, um fluxo frágil de alternativa; nem sabemos se os agricultores familiares irão se convencer dessa potencialidade.
Mas a terceira margem do rio está posta e queremos acreditar que tem chance de mudar um pouco o curso da história desses pequenos!

Obs: a imagem da terceira margem do rio é de Guimarães Rosa; há um livro bonito com o mesmo título, ensaios sobre o Maranhão no novo milênio.

domenica 11 marzo 2012

Mudança!


“Mais um que se vai embora...”
Os vizinhos comentam resignados, debaixo de um pé de caju, enquanto do outro lado da rua esburacada o caminhão da mudança acaba de ser carregado.
Um sofá, a cama, roupas amontoadas e esse vai-vem de dentro para fora da casa, para que nada fique esquecido. As crianças observam pensativas: será mesmo melhor o lugar para onde estamos indo?

Piquiá de Baixo luta há mais de cinco anos para um reassentamento coletivo, em fuga da poluição das siderúrgicas que se instalaram praticamente dentro do quintal de 350 famílias.
A resistência é coletiva, já houve levante que chegou a fechar a BR ou receber a Governadora do Maranhão com máscaras anti-fumaça no rosto. Mas cada vez que mais uma família tem que se afastar para preservar a saúde das crianças ou fugir do barulho ensurdecedor da termo-elétrica, o coletivo se enfraquece.
A mudança é precária. Uma casa a mais vai ficar trancada e vazia. Uma família a mais vai arriscar a vida com um novo aluguel nas costas. “Não estamos fugindo, padre. Pode crer, quando o povo chamar para a luta, estaremos aqui!” – me garante o pai de família.

Fora da igreja, um velho cruzeiro que a poluição acinzentou tem aos poucos se inclinado, como se estivesse cansado debaixo de tanta injustiça. Três homens, enquanto a mudança termina, estão tentando endireitá-lo, antes que comece a missa de toda semana.
Quando poderemos celebrar a dignidade desse povo, de cabeça erguida, sem mais medo nem obrigação de fugir? Quando é que, em lugar das cruzes e das cinzas dessa quaresma permanente, nós também experimentaremos a vertigem de quem pode sonhar e construir sua história?

giovedì 22 dicembre 2011

Esperar?

Carregando dentro de si o sabor da África e da América Latina, uma amiga minha fica cada vez admirando a ambiguidade de um verbo descoberto entre nós:  ‘esperar’ significa ao mesmo tempo aguardar e não perder a esperança.

Por falar a verdade, sempre tive uma certa raiva contra esse verbo: esperar o quê? Mergulhados numa realidade injusta e cinzenta, incomodam a passividade, o conformismo e a adaptação de muitos que pensam entre si “ta bom assim mesmo...”
Gosto muito mais do canto da resistência à ditadura: “Esperar não è saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Nada a esperar, se quisermos antecipar tempos novos!

Nesse advento/espera, porém... aconteceram muitas coisas. Perdemos um amigo comboniano querido, pe. Franz, por conta de um acidente na estrada. De repente, um acontecimento que desarma e quebra as pernas.
Poucos dias depois, Ilaria e Federico, leigos missionários combonianos de nossa família em Açailândia, revelaram para nós que finalmente, após tanta espera... estão ‘grávidos’! Uma boa notícia desejada há tempo e por muitos.

Há lições que acreditamos conhecer de cor, mas que cada vez precisamos reaprender na pele. A mais importante é que... a vida não nos pertence. E que precisa abrir espaços para deixá-la entrar.

Gosto quando celebramos nas pequenas comunidades do interior: a gente faz uma roda, abre espaço, deixa um vazio no meio de nós, para nos escutar, para permitir que algo novo aconteça em nosso encontro.
O importante está no meio... e no meio não estamos nós. Não está ninguém, só silêncio e espaço.
Ali a vida e Deus acontecem.

Dessa forma estamos vivendo o Natal hoje. Que pe. Franz nos acompanhe e o pequeno(a) de Ilária e Federico cresça com sabor e paixão de Brasil!
Três fotos resumem o que aconteceu nos espaços que soubemos abrir junto a nosso povo:

 
- a Romaria da Terra e das Águas foi o momento mais intenso, nesse ano, em que celebramos a vida dos pobres e a profecia da igreja ao seu lado
-   a ocupação da BR 222 mostrou que vale a pena defender os direitos do povo e com o povo, sem medo nem limites 
- uma criança levantada pelo esforço das pequenas e escondidas comunidades rurais alimenta nossa busca de sonhos que não estão fora de nosso alcance






Que Deus e todos nós tenhamos um bom nascimento!

martedì 15 novembre 2011

Como Zaqueu...

No Evangelho de Lucas narra-se a história de Zaqueu. Ele era “muito rico e muito baixo”.
Para o Evangelho, quem é muito rico é sempre muito baixo, pois está fechado e curvo em si mesmo, dobrado sobre seu dinheiro e suas posses. Não tem tamanho nem interesse para olhar olho no olho as outras pessoas.

Um rico se acha grande e importante, mas quando for ficar no meio da multidão, percebe que seu tamanho é reduzido. Deu mais valor ao dinheiro do que à vida, é um anão espiritual.

Considera os outros só um empecilho que impede chegar onde está desejando. Por isso Zaqueu quer subir numa árvore, para ficar, mais uma vez, acima dos outros. As palavras de Jesus são claras, porém: Zaqueu, desce! Desce de seu orgulho e arrogância, venha aqui no chão.
E Zaqueu, pela primeira vez, enxerga os pobres. Aqueles que eram obstáculo, agora são protagonistas de sua conversão.

Não é difícil ler hoje esse Evangelho na realidade de Açailândia e do corredor de Carajás.

A Vale, em sua operação de duplicação dos trilhos e do lucro, considera as comunidades ao longo da ferrovia como “interferências” para suas obras e projetos. Trata com ‘os pobres’ (se comparados com ela!) entregando umas esmolas aqui e acolá e acalmando a revolta deles.

Mas as comunidades não são obstáculo! E a elas, diz o Evangelho, é preciso devolver, não só derramar alguns pingos de esmola! Devolver suas terras, seu direito de viver, cultivar, respirar sem poluição, circular seguros em suas estradas...

Nesse mês de novembro chegou notícia da prisão de Ricardo Nascimento (grupo Ferroeste, presidente também da siderúrgica Gusa Nordeste de Açailândia). É acusado, no Espírito Santo, de participar da máfia da corrupção. Há documentos falsos de empresas que presumidamente vendiam carvão para suas siderúrgicas, enquanto elas sugam ainda carvão ilegal dos pequenos produtores, encobrindo com notas fiscais falsas.
Conforme noticiado, “é um esquema que no Espírito Santo dura há cerca de dez anos e trouxe lucros milionários para os donos de siderúrgicas”.

Ricardo Nascimento é presidente de uma das siderúrgicas que em Açailândia há mais de vinte anos oprimem e poluem os pobres do povoado de Piquiá de Baixo.
De onde vem a riqueza das siderúrgicas? Por que por vinte anos elas, a Vale, o Município e o Estado, como Zaqueu, nunca enxergaram os pobres de Piquiá?

Está na hora de abrir os olhos, de dizer que 350 famílias valem mais do que 50 vacas e de todos os lucros injustos das empresas.
Está na hora que esses Zaqueus, amigos dos poderosos e aliados a eles, desçam da árvore e comecem a devolver (essa é a palavra do Evangelho): devolver o que não é deles e que foi furtado à saúde e à vida dos pequenos!

domenica 30 ottobre 2011

Mergulhando na Justiça Ambiental

A Prainha do Canto Verde é uma comunidade pesqueira a cem quilômetros de Fortaleza.
Quem for visitá-la querendo escutar, logo vai cair na rede sedutora dos contos e das tradições de um povo hospitaleiro e simples. De geração em geração a arte da pesca , na linha ou na rede, é repassada religiosamente e em silêncio, dos mais velhos para filhos e netos, na prática dos gestos mais do que por palavras vazias.

Toda semana, pequenas jangadas saem e permanecem mar adentro por dias inteiros, lá onde “fica você sozinho, entre o céu e as águas”.
À noite, quatro pescadores em cada jangada retiram-se nos espaços estreitos debaixo das tábuas, reparando-se do frio, do vento e das ondas que molham o barco. Mas um quinto precisa ficar acordado, lá fora, a noite toda: há uma lâmpada a gás que precisa permanecer acesa, na escuridão total, para evitar que os grandes navios que transportam ferro para exportação, no mar alto, atropelem as minúsculas jangadas e seu precioso cargo de vidas.

Assim, esse cuidador da luz é também cuidador da vida.
Ensina-nos, mais uma vez no silêncio dos gestos, o que é Justiça Ambiental: defender a vida das pessoas e dos territórios que há tempos vivem no equilíbrio de seus ritmos e saberes, mas que estão sendo cada vez mais agredidos pelo atropelamento de um progresso que corre distante deles e pode passar por cima deles.