Vida e Missão neste chão
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço! E-mail: padredario@gmail.com; Twitter: @dariocombo; Foto: Marcelo Cruz
domenica 11 marzo 2012
Mudança!
“Mais um que se vai embora...”
Os vizinhos comentam resignados, debaixo de um pé de caju, enquanto do outro lado da rua esburacada o caminhão da mudança acaba de ser carregado.
Um sofá, a cama, roupas amontoadas e esse vai-vem de dentro para fora da casa, para que nada fique esquecido. As crianças observam pensativas: será mesmo melhor o lugar para onde estamos indo?
Piquiá de Baixo luta há mais de cinco anos para um reassentamento coletivo, em fuga da poluição das siderúrgicas que se instalaram praticamente dentro do quintal de 350 famílias.
A resistência é coletiva, já houve levante que chegou a fechar a BR ou receber a Governadora do Maranhão com máscaras anti-fumaça no rosto. Mas cada vez que mais uma família tem que se afastar para preservar a saúde das crianças ou fugir do barulho ensurdecedor da termo-elétrica, o coletivo se enfraquece.
A mudança é precária. Uma casa a mais vai ficar trancada e vazia. Uma família a mais vai arriscar a vida com um novo aluguel nas costas. “Não estamos fugindo, padre. Pode crer, quando o povo chamar para a luta, estaremos aqui!” – me garante o pai de família.
Fora da igreja, um velho cruzeiro que a poluição acinzentou tem aos poucos se inclinado, como se estivesse cansado debaixo de tanta injustiça. Três homens, enquanto a mudança termina, estão tentando endireitá-lo, antes que comece a missa de toda semana.
Quando poderemos celebrar a dignidade desse povo, de cabeça erguida, sem mais medo nem obrigação de fugir? Quando é que, em lugar das cruzes e das cinzas dessa quaresma permanente, nós também experimentaremos a vertigem de quem pode sonhar e construir sua história?
giovedì 22 dicembre 2011
Esperar?
Por falar a verdade, sempre tive uma certa raiva contra esse verbo: esperar o quê? Mergulhados numa realidade injusta e cinzenta, incomodam a passividade, o conformismo e a adaptação de muitos que pensam entre si “ta bom assim mesmo...”
Gosto muito mais do canto da resistência à ditadura: “Esperar não è saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Nada a esperar, se quisermos antecipar tempos novos!
Nesse advento/espera, porém... aconteceram muitas coisas. Perdemos um amigo comboniano querido, pe. Franz, por conta de um acidente na estrada. De repente, um acontecimento que desarma e quebra as pernas.
Poucos dias depois, Ilaria e Federico, leigos missionários combonianos de nossa família em Açailândia, revelaram para nós que finalmente, após tanta espera... estão ‘grávidos’! Uma boa notícia desejada há tempo e por muitos.
Há lições que acreditamos conhecer de cor, mas que cada vez precisamos reaprender na pele. A mais importante é que... a vida não nos pertence. E que precisa abrir espaços para deixá-la entrar.
Gosto quando celebramos nas pequenas comunidades do interior: a gente faz uma roda, abre espaço, deixa um vazio no meio de nós, para nos escutar, para permitir que algo novo aconteça em nosso encontro.
O importante está no meio... e no meio não estamos nós. Não está ninguém, só silêncio e espaço.
Ali a vida e Deus acontecem.
Dessa forma estamos vivendo o Natal hoje. Que pe. Franz nos acompanhe e o pequeno(a) de Ilária e Federico cresça com sabor e paixão de Brasil!
Três fotos resumem o que aconteceu nos espaços que soubemos abrir junto a nosso povo:
- a Romaria da Terra e das Águas foi o momento mais intenso, nesse ano, em que celebramos a vida dos pobres e a profecia da igreja ao seu lado
- a ocupação da BR 222 mostrou que vale a pena defender os direitos do povo e com o povo, sem medo nem limites
- uma criança levantada pelo esforço das pequenas e escondidas comunidades rurais alimenta nossa busca de sonhos que não estão fora de nosso alcance
Que Deus e todos nós tenhamos um bom nascimento!
martedì 15 novembre 2011
Como Zaqueu...

No Evangelho de Lucas narra-se a história de Zaqueu. Ele era “muito rico e muito baixo”.
Para o Evangelho, quem é muito rico é sempre muito baixo, pois está fechado e curvo em si mesmo, dobrado sobre seu dinheiro e suas posses. Não tem tamanho nem interesse para olhar olho no olho as outras pessoas.
Um rico se acha grande e importante, mas quando for ficar no meio da multidão, percebe que seu tamanho é reduzido. Deu mais valor ao dinheiro do que à vida, é um anão espiritual.
Considera os outros só um empecilho que impede chegar onde está desejando. Por isso Zaqueu quer subir numa árvore, para ficar, mais uma vez, acima dos outros. As palavras de Jesus são claras, porém: Zaqueu, desce! Desce de seu orgulho e arrogância, venha aqui no chão.
E Zaqueu, pela primeira vez, enxerga os pobres. Aqueles que eram obstáculo, agora são protagonistas de sua conversão.
Não é difícil ler hoje esse Evangelho na realidade de Açailândia e do corredor de Carajás.
A Vale, em sua operação de duplicação dos trilhos e do lucro, considera as comunidades ao longo da ferrovia como “interferências” para suas obras e projetos. Trata com ‘os pobres’ (se comparados com ela!) entregando umas esmolas aqui e acolá e acalmando a revolta deles.
Mas as comunidades não são obstáculo! E a elas, diz o Evangelho, é preciso devolver, não só derramar alguns pingos de esmola! Devolver suas terras, seu direito de viver, cultivar, respirar sem poluição, circular seguros em suas estradas...
Nesse mês de novembro chegou notícia da prisão de Ricardo Nascimento (grupo Ferroeste, presidente também da siderúrgica Gusa Nordeste de Açailândia). É acusado, no Espírito Santo, de participar da máfia da corrupção. Há documentos falsos de empresas que presumidamente vendiam carvão para suas siderúrgicas, enquanto elas sugam ainda carvão ilegal dos pequenos produtores, encobrindo com notas fiscais falsas.
Conforme noticiado, “é um esquema que no Espírito Santo dura há cerca de dez anos e trouxe lucros milionários para os donos de siderúrgicas”.
Ricardo Nascimento é presidente de uma das siderúrgicas que em Açailândia há mais de vinte anos oprimem e poluem os pobres do povoado de Piquiá de Baixo.
De onde vem a riqueza das siderúrgicas? Por que por vinte anos elas, a Vale, o Município e o Estado, como Zaqueu, nunca enxergaram os pobres de Piquiá?
Está na hora de abrir os olhos, de dizer que 350 famílias valem mais do que 50 vacas e de todos os lucros injustos das empresas.
Está na hora que esses Zaqueus, amigos dos poderosos e aliados a eles, desçam da árvore e comecem a devolver (essa é a palavra do Evangelho): devolver o que não é deles e que foi furtado à saúde e à vida dos pequenos!
domenica 30 ottobre 2011
Mergulhando na Justiça Ambiental

Ensina-nos, mais uma vez no silêncio dos gestos, o que é Justiça Ambiental: defender a vida das pessoas e dos territórios que há tempos vivem no equilíbrio de seus ritmos e saberes, mas que estão sendo cada vez mais agredidos pelo atropelamento de um progresso que corre distante deles e pode passar por cima deles.
lunedì 12 settembre 2011
Jesus caminha no meio de nós

Nos dias 10 e 11 de setembro, vivemos no Piquiá/Açailândia uma autêntica experiência de fé e encontro com Cristo ressuscitado.
“Eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo”, disse o Senhor que venceu a morte. Referia-se, acreditamos, ao fim desse mundo de injustiças e à nova criação de um Reino de partilha e harmonia entre todas as criaturas.
A Romaria da Terra e das Águas foi mais um pedacinho de construção desse novo mundo, em que a Igreja acredita e que nasce e cresce sempre a partir dos pequenos e excluídos.
Foi muito bonito escutar a voz deles, vindo de todos os cantos do Maranhão; dançar ao ritmo de festa do xote das quebradeiras de coco, das músicas indígenas e quilombolas, dos repentes criados pelas pequenas comunidades rurais. Gritos de denúncia e sonhos de vida foram celebrados com intensidade pelos dez mil romeiros presentes no Piquiá. A celebração eucarística foi profunda, participada, cheia de vida. A marcha até o Piquiá de Baixo entrelaçou a denúncia profética de um sistema que gera impactos e poluição e a esperança de um povo que apesar de tudo nunca deixa de caminhar, com a cabeça erguida: “Estou vendo tudo, não fico calado pois eu não estou mudo!” – cantavam os romeiros e romeiras.
A todos eles e elas vai nosso profundo agradecimento: juntos sentimos que Jesus de Nazaré caminha e vive também pelas estradas do Maranhão, ao lado de um povo que sabe o que quer e tem direito de ser escutado e respeitado.
Nossa fé fortaleceu-se e a união das comunidades e dioceses do Maranhão estreitou-se ainda mais. Essa Romaria, como sempre dissemos, não se limita a um evento, mas se insere num processo que vem de longe e nos convida, agora, a não trair os sonhos e as expectativas que acendemos no coração de tantas comunidades, povos, pessoas.
Regressemos, irmãos e irmãs, a nossas casas e comunidades. Essa chama que nos animou não se apague, ilumine nossas lutas e resistências do dia-a-dia e volte a brilhar mais e mais vezes em eventos bonitos e intensos como aquele que acabamos de celebrar.
Com muita gratidão nos despedimos de cada romeiro e romeira. Que a saudade de novos encontros nos mantenha vivos e amigos nessa caminhada com o Senhor ressuscitado!
Via Sacra em Êxodo

Cinco passos rumo à ressurreição de Piquiá de Baixo e dos atingidos pelos grandes projetos
A Romaria da Terra e das Águas do Maranhão impulsionará milhares de pessoas a caminho rumo ao Piquiá de Baixo. Lá encontraremos um povo que já caminha em Êxodo há mais de cinco anos.
O povo de Piquiá de Baixo pretende sair de uma terra de poluição e desemprego, para uma terra de moradia digna, saúde e dignidade.
Há cinco anos essa caminhada se fez pública e corajosa, envolvendo o Ministério Público, a Defensoria, a mídia nacional e internacional. Os poderosos foram desafiados por trezentos famílias de um pequeno povoado, e tiveram que se dobrar, pelo menos para escutar o grito desses sofredores.
A igreja de todos os cantos do Maranhão, também, quer ser romeira nesse Êxodo rumo a um novo Piquiá, um novo Maranhão, um outro jeito de viver bem, em equilíbrio e harmonia entre nós e com a criação toda!
Esse êxodo de libertação que a Romaria percorre é também uma Via Sacra: caminhamos, passo a passo, ao ritmo de todos os povos e comunidades atingidas pelos grandes projetos, por um desenvolvimento que não é para todos. Comunidades tradicionais ameaçadas e crucificadas, espoliadas de suas terras e frutos, que são suas vestes e sustento. Camponeses expulsados de suas terras, forçados a morrer fora das portas da cidade, não mais cidadãos de nosso País de ordem e progresso.
Vamos caminhando, irmãos e irmãs, nessa Via Sacra das vítimas sócio-ambientais, porque ainda há uma ressurreição, uma terra prometida, ainda tem como destruir os sistemas que destroem a terra!
- Primeira estação: a sedução
E fácil convencer o povo que não há alternativas!
Na época de Jesus, o império romano convenceu muitos poderosos e influentes em Israel que aquele era o melhor dos mundos possíveis. Claro, talvez era um pouco violento e injusto, mas tudo isso era necessário para manter a ordem e crescer e prosperar.
Não deve ter sido fácil para Jesus desmontar essa verdade sedutora do império.
Também Moisés sofreu em convencer o povo escravo no Egito que podia existir uma vida melhor, mais livre, mais gostosa do que as cebolas de Egito!
Hoje também nós queremos caminhar e acreditar que existe um mundo melhor do que esse. Que a poluição não é indispensável. Que é possível viver e produzir respeitando a natureza. Que não se pode lucrar à custa dos pulmões ou da fome do povo!
Pai Nosso, não nos deixei cair na tentação dos poderosos e de sua lógica. Hoje, amanhã e sempre deverá haver pão para cada dia!
Jesus caiu três vezes. Moisés quebrou as tábuas da lei pela raiva contra um povo teimoso e infiel. Israel quis voltar atrás e amaldiçoou a Deus.
Também as comunidades que buscam liberdade e lutam por um mundo mais justo e bonito muitas vezes desanimam. Algumas pessoas recuam e influenciam os outros para render-se à realidade invencível.
As próprias empresas aproveitam para dividir as comunidades, conquistar o favor de algumas lideranças e enfraquecer a luta coletiva.
Mas apesar das quedas Jesus levantou-se, o povo voltou a caminhar. Moisés viu a terra prometida de longe e seu povo entrou, livre, numa região onde corre leite com mel.
Não temos medo das quedas e do desânimo. Queremos voltar a caminhar, oferecer nosso braço a todos e todas que estiverem caídos ou à beira do caminho. Vamos, irmãos, vamos irmãs: ninguém pode nos parar!
- Terceira estação: a perseguição
Jesus foi condenado à morte de cruz, como um revolucionário, como um terrorista. O povo de Israel em fuga foi perseguido pelas milícias do Egito, com cavalos e cavaleiros até o Mar Vermelho. Quem busca a liberdade e critica a ordem constituída é considerado subversivo e condenado, sem chances de se defender.
Assim também hoje, no Maranhão, quem defende os povos quilombolas é ameaçado de morte. Quem critica empresas fortes como a Vale é caluniado e processado. Quem fala em favor das vítimas do progresso é chamado de primitivo. Quem denuncia o trabalho escravo deve fugir e esconder-se para não ser perseguido.
Mas nós caminhamos de cabeça erguida, somos igreja de Deus, que está do lado dos pobres e dos oprimidos. Não temos medo e não deixaremos nos calar!
- Quarta estação: a ressurreição na terra prometida
Quando a Romaria chegará ao Piquiá de Baixo, terra-símbolo de muitas outras lutas e reivindicações, será só o começo de uma caminhada bem mais longa, dura e desafiadora: a Romaria dos Pequenos que a cada dia dão um passo rumo à libertação.
O caminho no deserto foi árduo, cheio de contradições, erros, recuos e desvios. Mas o povo chegou à terra prometida.
O caminho da cruz foi duro, pontuado por traições, abandonos, solidão e dúvidas, desânimo e teimosia. Mas o Pai não deixou a história terminar com a morte de Jesus.
Uma cruz branca acompanhará o povo a caminho e será erguida no Piquiá de Baixo. É uma cruz vazia, sem o corpo de Cristo, pois ele vive no meio de nós. Ressuscitou no povo a caminho de libertação!
A igreja do Maranhão, mais uma vez, compromete-se a tirar todos os pobres de suas cruzes, a caminhar ao lado deles por um Estado mais justo.
Sem medo do deserto ou da perseguição da cruz, todos nós assumimos o compromisso de sermos, pela vida inteira, romeiros em busca dos direitos da terra, da água e da gente!
venerdì 15 luglio 2011
Quebradeiras de coco
Apocalipse chama isso de ‘desvendamento’: quebram-se as águas de um novo nascimento. Essa quebra não vem de grandes revoluções, mas, acredito, dos gestos simples, repetidos e teimosos dos pequenos, que nunca deixam de defender suas tradições, suas raízes fincadas no chão, sua confiança em memórias e práticas que receberam de seus pais e que querem ensinar a seus filhos.
Deus dança ao ritmo do martelo dos pobres, que quebra a casca da exclusão. Vamos sentar e dançar com eles, ou preferimos tocar a música de outras orquestras?
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