Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

venerdì 27 agosto 2010

Os saberes e sabores da Bíblia

Tenho amigos monges, na Itália, que levantam todo dia às quatro da madrugada para estudarem a Bíblia de forma partilhada.
Lêem o livro sagrado palavra por palavra, do princípio ao fim, ao longo de alguns anos de vida.
Depois começam de novo, garimpando cada vez mais fundo na arqueologia dos textos, na sinfonia das referências, na análise histórica e cultural das fontes.

Com eles aprendi a reverência à Palavra sagrada, descobri que nada sei e percebi um pouco apenas quanta humildade é preciso para se aproximar ao mistério de Deus.
Maravilharam-me pelo cuidado extremo em volta de um simples versículo ou de uma passagem que eu simplesmente descartaria por considerar ultrapassada.

Entrando em ponta de pés nas histórias do povo de Deus, encontram-se palhas de ouro escondidas, surpreendentes em sua singeleza. Uma após a outra se entrelaçam apontando todas para o coração da mensagem revelada: a gratuidade do dom da vida, que não podemos interromper.

Agora estou aqui no Brasil, no meio de correrias mil, na luta pela sobrevivência e dignidade do povo. Deito às altas horas e levanto no escuro: desse lado do mundo, as palhas de ouro que procuro com os irmãos de comunidade são caminhos de esperança contra a violência sócio-ambiental.
Abrindo a Bíblia, pergunto-me como ela pode tirar minha e nossa sede de sentido.
Parece-me que o caminho seja ao inverso: o garimpo dessa vez está nos fatos de cada dia, na escuta reverencial dos acontecimentos, das palavras das pessoas.
Nisso esconde-se uma “voz de fino silêncio” (1 Rs 19,11), voz de Deus que revela traços novos do seu rosto.

Se essa escuta da vida souber respeitar o sagrado cotidiano do povo, então a Palavra de Deus que logo depois me esforço de ler e entender de repente se ilumina, ressoa de referências e toca no coração de cada um de nós que luta.
A Palavra me fala de irmãos que há tempo sonharam o meu mesmo sonho, de um homem que ainda caminha no meio de nós, de um Pai que protege, enxerga mais longe, insere nossas labutas no tecido de uma história maior, ainda a descobrirmos e desenharmos com Ele.

Nesse mês de setembro, não importa qual seja seu ponto de vista: aceite o desafio de garimpar na busca de Deus, dos saberes da Bíblia e dos sabores da vida.

venerdì 13 agosto 2010

Maria e as mulheres à frente da igreja


“Se somos todos um em Cristo e não há diferença entre homem e mulher, por que o poder da Ordem só pode ser conferido aos homens?”
“A condução de comunidades por mulheres é um dado bíblico”
No dia da Assunção de Nossa Senhora, vale a pena fazer ressoar mais uma vez as palavras de sábios homens da igreja que sentem a necessidade de levantar perguntas: dom Clemente Isnard, dom Carlo M. Martini, card. Lorscheider.
Maria, mãe de Jesus e símbolo de todas as mulheres de fé, “por um privilégio inteiramente singular (...) não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro”.
Peçamos a ela que ajude nossa igreja a repensar o privilegio singular dos homens receberem o sacramento da ordem e representarem oficialmente a igreja (que até em seu nome é feminina!).

O evangelho que acompanha a festa da Assunção de Maria tem pouco a ver com o céu e nos mostra uma mulher com os pés bem fincados no chão da missão, da solidariedade aos idosos, do cuidado para com a maternidade e a vida dos pobres.

Quem quiser ser “do tamanho do céu” deve pisar firme no chão do povo!
Maria dirigiu-se apressadamente a visitar Isabel. dona Zuza, por amor a uma companheira doente moradora do barraco em frente à casa dela, foi doze vezes na Secretaria de Saúde reivindicando o direito à ambulância para hemodiálise!

As crianças pularam de alegria ao se encontrarem no ventre de Isabel e Maria. Dona Célia tem uma casa simples, de dois quartos e uma lojinha, com o marido, uma filha e um menino adotivo. Quando, por uma tragédia, a cunhada dela e o marido morreram juntos, não teve medo de receber também os quatro órfãos em casa e cuidar deles.

Maria, rainha das mulheres e mãe do Filho de Deus, foi e voltou escondida e sozinha a uma cidade da Judéia. Elisângela e Dirce, lideranças comunitárias, trabalham sem barulho em prol do povo, na catequese, na liturgia, na visita às mães da Pastoral da Criança, nas celebrações da Palavra.

Todas essas pegadas no chão dos pobres abrem o caminho para o céu, que simplesmente é a confirmação definitiva de Deus: amar vale a pena; quem quiser ficar próximo de Maria, mãe da fé, procure acompanhar essas outras mulheres nos passos do serviço aos pequenos e à comunidade.
E um dia, se os homens quiserem, elas também serão pastores do povo de Deus.

mercoledì 4 agosto 2010

Perfume de ressurreição

Se você fosse visitar Açailândia (MA) algumas semanas atrás, iria lhe acompanhar até lá na Vila Maranhão, numa casa cheia de crianças, ao redor de um pequeno corpo sem vida.
Poucas semanas atrás, minha cidade chorava por mais um caso de negligência médica que levou a óbito a nenê Alice.

Mas se você viesse hoje, te levaria numa casa cheia de gente reivindicando seus direitos.
José e Aline, pais da pequena Alice, estavam lá, ainda muito emocionados, mas com vontade de falar, gritar sua raiva, exigir respeito e justiça para com todas as vítimas!

Casa de lei, a Câmara Municipal hospedou hoje a audiência de instalação da Defensoria Pública. E a palavra foi para quem há muito tempo ficou em silêncio.
Ivone falou de sua casa à beira do buraco e da família de amigos e vizinhos seus, que amanheceram um dia sem teto e tiveram que abandonar Açailândia.
Elisângela lamentou a humilhação que sofrem os doentes que precisam de exames médicos: noites inteiras de vigília, na rua em fila um atrás do outro esperando conseguir uma das quinze fichas mensais distribuídas na manhã seguinte.
Albino, no meio de tudo isso, fez questão de falar em nome do grupo “Rede de Cidadania”, cujo compromisso é exatamente a participação e o controle social.

Por uma vez, naquela Casa de Leis, a fala dessas pessoas pautou a agenda das autoridades.
Na total ausência de vereadores ou do poder executivo, a defensoria ficou escutando e assumiu um compromisso solene: servir ao povo a partir daquilo que ele pede e necessita.
As entidades e movimentos da sociedade civil estavam presentes, celebrando uma vitória e lamentando sua demora, depois de dez anos de luta batendo na tecla da garantia dos direitos dos pequenos. Com certeza irão acompanhar e monitorar a realização do que hoje ficou prometido.

Como igreja católica sentimos, nesses momentos, perfume de ressurreição.
A morte chega violenta e improvisa, faz barulho e ocupa as primeiras páginas dos jornais. Mas quando os pequenos se organizam, têm a coragem de se expor publicamente, solidarizam um com o outro e pautam a agenda política de uma cidade... isso, sim, é vida que ressuscita!

Deus dança no meio desse povo, de mãos dadas com a pequena Alice e com todas as vítimas: a negligência e a hipocrisia podem matar, mas a fé e a resistência da gente não morre não. Seguimos, portanto, espalhando sementes de ressurreição!

sabato 31 luglio 2010

Lucro de poucos e pesadelo de muitos

Carta aberta da Paróquia São João Batista sobre a crise siderúrgica em Açailândia

Mais uma vez o pesadelo das demissões em massa invade a cidade de Açailândia.
Em 2008, sob o pretexto da crise econômica global, as empresas siderúrgicas locais despediram centenas de trabalhadores.
Naquela época, o Sindicato dos Metalúrgicos denunciou que, apesar disso, os que detinham altos cargos de administração continuavam recebendo salários pelo menos dez vezes maiores que os dos poucos trabalhadores ainda em serviço.

A Paróquia São João criticava a forte dependência econômica açailandense dos interesses das siderúrgicas e da Vale:

«O crescimento econômico desordenado e sem planejamento de Açailândia deve-se a políticas irresponsáveis de financiamentos para grandes empreendimentos e proprietários, além da “economia do saque” que ao longo dos anos sugou os recursos locais gerando poucas oportunidades e favorecendo uma minoria que só tem acumulado (veja-se o ciclo das madeireiras, das serrarias, da pecuária, das mineradoras, das guseiras)».

De 2008 até hoje os empreendedores ficaram esperando o milagre da retomada do mercado.
Mas o mercado tem regras cruéis, que a mineradora Vale nunca deixará de aplicar.
A Vale não tem interesse em respeitar e promover os direitos do povo e do meio ambiente. Nos últimos seis meses, aumentou em 171% o preço do minério de ferro e já está lucrando muito dinheiro com as vendas para China.
Por isso as empresas siderúrgicas estão agora reduzindo cada vez mais as suas atividades.
Centenas de famílias estão sendo prejudicadas pela violência dessas demissões.

Frente a essa situação, a Paróquia São João Batista, em nome do Evangelho e do povo, denuncia:

- as siderúrgicas e a Vale sugam energias e recursos de trabalhadores e do meio ambiente enquanto tudo isso dê dinheiro. Quando, porém, os níveis do lucro começam a minguar, tudo é abandonado a seu próprio destino.

- a Vale controla e estrangula as economias de nossas regiões com um monopólio irresponsável

- as siderúrgicas eximem-se de suas responsabilidades, querendo aparecer como vítimas da Vale, quando por décadas lucraram às custas dos trabalhadores e do meio ambiente (em muitos casos sem investir em tecnologia, profissionalização e diminuição do impacto ambiental)

- os poderes executivo e legislativo locais nada fizeram para evitar esse jogo de demitir e recontratar trabalhadores conforme os interesses imediatos das empresas. A resposta da política não pode ser mais uma vez a concessão de verbas públicas (dinheiro nosso!) para “salvar” o funcionamento das empresas. O povo não deve pagar essa conta! Suas prioridades são outras: saúde, moradia, educação...

e propõe:

- uma negociação imediata entre a Vale, as guseiras, o poder público, o setor sindical e outros representantes da sociedade civil visando a garantia de emprego em nossa cidade

- a reconstituição do Fundo de Desenvolvimento regional, a partir de uma parcela fixa do lucro anual da Vale, que poderá ser usado para manter o equilíbrio em tempos de crise

- um plano de desenvolvimento participativo que preveja geração de renda diversificada e políticas de apoio à pequena empresa e à agricultura familiar, proteção e recuperação ambiental, respeito aos trabalhadores e às vítimas da poluição

- uma auditoria qualificada por parte do Ministério Público e do Trabalho nos balanços comerciais de todas aquelas siderúrgicas que estão fechando ou querendo fechar, para averiguar a veracidade de quanto vêm afirmando para embasar suas políticas de demissão sumária

Vamos transformar o pesadelo em sonho, para uma cidade mais justa, limpa e sustentável, cheia de oportunidades para todos!

venerdì 16 luglio 2010

Marta e Maria, para uma igreja mais mulher!

Temos na cabeça que os discípulos de Jesus eram todos homens. E eram doze.
Na verdade, muitos sabem que se trata de um número simbólico, representando as doze tribos de Israel. A mensagem nesse caso é: “Jesus veio para liderar o povo inteiro rumo a uma nova terra prometida, onde haja paz na justiça”. Daí a escolha de doze homens, porque na época a liderança e a autoridade sobre muitos era reconhecida somente aos homens.
Mas, ao ler com atenção, descobrimos que no Evangelho os encontros mais profundos e verdadeiros de Jesus são com mulheres. Admiramos a quantidade de mulheres com que Cristo dialoga, partilha, até aprende e fortalece sua fé!
A visita de Jesus na casa de Marta e Maria é um exemplo desses encontros: aquela casa, pequena igreja doméstica, é também profecia de uma “igreja mais mulher”, de uma sociedade do rosto feminino. De fato, mas ainda não de direito, a sociedade e a igreja são regidas por mulheres.
Quanto ainda podem crescer as instituições e pequenas comunidades se valorizarmos oficialmente a riqueza da contribuição da mulher! Ela carrega em si esse dúplice dom, bem simbolizado por Marta e Maria: de um lado, o cuidado, trabalho e esforço para acolher e promover a vida; do outro, a sensibilidade e a ternura da escuta e do diálogo.

Temos a tendência de ler esse evangelho em chave de competição: entre Marta e Maria, quem ganhou a atenção de Jesus? Quem fez mais certo, quem tem razão?
É incrível quanto a competição tomou conta de nossa vida... É comum encontrar no povo e dentro de nós pensamentos como esses: “Senhor, meu Deus, não está vendo quanto eu sou fiel e prestativo? Bem mais do que outros!”; “Como é que meu patrão não enxerga o destaque de meu trabalho sobre os outros?!”
Essa competição e conflito ressoam também no profundo do ânimo da gente: fazemos e corremos muito, mas uma parte de nós sente falta da escuta e de tempo para dedicar a uma longa conversa com os amigos. Em outros momentos paramos e permanecemos com os outros, mas logo sentimos urgência de agir, fazer acontecer as coisas, não deixar que a vida passe sem nossa contribuição...

Onde está o equilíbrio? O que vale mais de tudo na vida?
“Uma só coisa é necessária”, diz Jesus. É a relação, a atenção à pessoa.
Pode fazer o que quiser, pode ter uma tendência mais ao ativismo e à praticidade, ou à escuta paciente e amorosa. Mas nunca falte em tua vida o cuidado para com as relações.
Marta fez muito bem, saiu de casa em busca de Jesus, o convidou a entrar... mas depois esqueceu-se dele. Maria, ao contrário, não se preocupou em buscar o Senhor, mas uma vez entrado permaneceu ao lado dele. O protagonista desse trecho de evangelho, portanto, é a atenção à pessoa.
Esse é o “patrimônio da humanidade” que o nordeste do Brasil oferece também aos missionários estrangeiros: mais do que ensinar, temos muito a aprender desse tesouro de relações humanas e acolhida, Palavra de Deus encarnada no ser das mulheres!

lunedì 12 luglio 2010

Mártir pela terra, vivo entre nós

Pe. Ezequiel tinha 33 anos; estava no Brasil há pouco mais de um ano. Sua sede de justiça foi tão grande que o mataram logo.
Missionário Comboniano, Ezequiel Ramin foi morto em 1985, numa Rondônia em plena agitação pela febre colonizadora de fazendeiros e muitos pobres em busca de futuro.
Imensa fronteira em desenvolvimento, onde grupos poderosos disputavam cada palmo de chão. Fazendeiros contra posseiros, grileiros contra pequenos agricultores, fazendeiros e madeireiros contra índios. O missionário tomou o lado dos pobres e foi brutalmente executado. Hoje, a vinte cinco anos de seu martírio, seus companheiros combonianos escrevem uma carta aberta para ele.

Ezequiel, o que é ressurreição?
Diga-nos, mártir da luta: como acreditarmos na vida quando ainda continua tamanha violação dos direitos?

Lembramos de sua paixão pela causa dos povos indígenas. Pois é, ainda hoje mais de 50% das terras deles continuam sem identificação, demarcação ou homologação.
Você deu a vida pelo chão de seu povo, mas ainda hoje o Brasil é campeão mundial na concentração da terra. Imaginamos sua ansiedade a respeito do plebiscito de setembro 2010, para um limite à propriedade e o direito à partilha do bem mais essencial que temos.
Ainda ressoam suas palavras: “muitas vezes sinto uma grande vontade de chorar, ao ver os quilômetros de cerca...”

Ezequiel: como não chorar, hoje, enquanto está sendo aprovada a reforma ao Código Florestal, que, em vez de preservar a natureza fonte di vida, vai matar as florestas e reduzir as áreas de preservação permanente?
A vida é cada vez mais ameaçada pela ilusão do crescimento e do progresso! Mas que progresso é este que suga das veias abertas da America Latina a madeira do mato, o ferro da terra e a fertilidade do chão?

Na sua Rondônia, o ano passado, quatro mil pessoas durante o intereclesial das CEBs ajoelharam-se, pedindo perdão frente às enormes barragens para usinas hidroelétricas no rio Madeira. Esta devastação não terminou e pode continuar amanhã também em Belo Monte: ainda dá, Ezequiel, para acreditar que Davi vencerá Golias?

Até sua irmã no sangue, Dorothy Stang , ainda não conheceu justiça e os assassinos dela estão impunes ainda em liberdade... Cadê o estado, defensor de direitos?
Cadê a igreja da libertação pela qual você derramou seu sangue? Como e quando essa igreja honra, reconhece e imita seus mártires?
Sumiram os mártires; hoje a medida da fé não parece mais ser a cruz da perseguição, mas o ibope de quem manipula os sentimentos do povo concentrado em praças ou templo como num grande espetáculo...
Os próprios movimentos sociais, com que você tanto trabalhou, hoje, em vários casos, parecem presos a lógicas de controle e de repartição do poder.

No meio das contradições e falências, você costumava repetir que “trabalhar com os pobres é como criar primavera”. Acreditamos nessa primavera, padre!
Sentimos que a vida pulsa nas veias desse povo, apesar das ameaças que pairam em cima dele. Admiramos a cada dia a resistência e dedicação das mulheres líderes de comunidade: é delas que você deve ter aprendido!

Sua paixão não foi em vão: hoje os olhos do povo iluminam-se quando fazem memória de pe. Ezequiel e ir. Dorothy. Luzes distantes, mas permanentes, estrelas fixas no horizonte.
Sim, nossos povos ainda têm horizonte, apesar de tudo.
Alguns perderam o sonho, vêem-se obrigados a viver dia após dia. Mas outros, ao lado desses, ainda enxergam longe, lutam por reformas, acreditam na honestidade, doam-se até o fim. Você não imagina, Ezequiel, quanto é importante para eles seu exemplo e a vida de muitos outros batalhadores do dia de hoje!

Suas palavras fecundam a vida de muitos jovens: “Tenho a paixão de quem persegue um sonho. Essa palavra tem tamanha intensidade que, quando a acolho em meu ânimo, sinto que uma libertação sangra por dentro de mim”.
A igreja que você sonhava e pela qual trabalhou ainda está em construção: depende de nós dar-lhe um sabor de libertação.

Você comentava: “É um novo jeito de ser igreja. Avanço nessa lógica. As atividades são ligadas ao social, a uma transformação concreta. O papel principal é dos leigos. Eles são igreja. Interessam-se por tudo. O trabalho é de coesão: juntos buscamos saídas para os problemas interconectados da terra, dos índios, da saúde e do analfabetismo...”
“Meus olhos buscam com dificuldade a história de Deus aqui. A cruz é a solidariedade de Deus para com a caminhada e a dor humanas. O amor de Deus é mais forte do que a morte. A vida é bela e estou feliz em doá-la!”

Ressurreição é isso, Ezequiel: doar-se com alegria para que esse povo viva! Você ainda vive, mártir da terra e do sonho de Deus. Que essa vida se transmita, apaixonada, nas muitas e muitos seguidores de Cristo que ainda seguem criando primavera!

lunedì 5 luglio 2010

O País das maravilhas

Alice chegou dentro do bagageiro do carro.
Nem a funerária preocupou-se em trazer para casa seu corpinho de sete meses.

Quando abrimos o caixão, já as outras crianças estavam em volta, com a chupeta na boca. Olhavam para ela como se fosse uma boneca. Não consigo imaginar o que elas pensassem: os adultos chorando e elas tranqüilas, de pé, olhando com curiosidade.

Talvez para elas a morte seja novidade. Para nós é costume: mais uma criança que não agüentou esperar.
Açailândia é uma rica cidade do interior do Maranhão, terra de empresas e negócios, investimentos e desenvolvimento. Nesse país das maravilhas, Alice devia esperar um pouco mais.

Desde quando nasceu, o médico pediu cirurgia de urgência para seu coração enfraquecido. Durante sete meses seus pais bateram muitas vezes à porta da secretaria de saúde em busca de um tratamento. E Alice ficou esperando sete longos meses, no barraco lá no fundo da rua Juazeiro, à beira do barranco. Não agüentou; faleceu uma semana antes da consulta que tanto aguardava.

A vida e o progresso, nessa cidade, correm em trilhos diferentes. A velocidade do lucro aumenta a cada dia; nesse mês começa oficialmente até a duplicação dos trilhos da Estrada de Ferro Carajás.
Tudo é muito rápido... mas essa manhã eu também parei, ao lado da família, olhando a vida correr embora e a resignação estagnar nas ruas dessa cidade.

Quantas outras crianças morrerão assim? Qual será o futuro desses pequenos de chupeta que olhavam admirados para a morte?

A maravilha que Alice mais espera nesse país é a indignação, a organização popular e a vida para todos!