Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 30 giugno 2010

Os invisíveis

Já tinha visitado o lixão de Açailândia, na esperança de não encontrar crianças e humilhação. Lembro que ficou marcante dentro de mim o cheiro e a fumaça densa, dentro da qual se escondiam catadores disputando o que os caminhões descarregavam a cada momento.

Voltei para casa com aquele sentimento de impotência que há muito tempo é companheiro fiel: mais uma causa que deveríamos assumir. Aqui estão realmente ‘os últimos’, anel mais fraco de uma cadeia degenerada de produção que descarta tudo em função de consumir mais.

Em Açailândia estamos trabalhando para o respeito ao meio ambiente e lutando para limitar o saque dos recursos naturais, como minérios e mata virgem. Esses nossos irmãos encontram-se ao outro lado do funil, amassados debaixo do descarte, derradeira etapa do consumo de coisas e vidas. A própria Cáritas está levando adiante iniciativas para a erradicação dos lixões, potenciando a organização dos catadores e promovendo a coleta seletiva como atuação de desenvolvimento socioambiental.

Mas nós não temos pernas para isso também, pensava. Até que nosso carro teve um acidente exatamente no lixão e minha bolsa desapareceu, com documentos e dinheiro.
Tive que voltar logo para lá, dessa vez com intenções mais egoístas, prometendo uma recompensa a quem me devolvesse a identidade.

De novo, os invisíveis fizeram irrupção dentro de mim. Encostei-me a um primeiro barraco, já dentro do lixão, para conversar com um senhor; ele me pediu se podia dar carona à sua mãe até o depósito de lixo principal, uns quilômetros mais à frente. Saiu do barraco uma mulher idosa e coxa, cheia de moscas. Eu não conseguia conversar: as moscas entravam nos olhos e na boca da gente. A mulher, acostumada e tranqüila, subiu no carro com sua carga ambulante de insetos e mandou-me seguir em frente.

Dona Maria das moscas trabalha há 19 anos no lixão. Mas as pernas não têm mais força suficiente para continuar, precisa da ajuda dos filhos e netinhos. Há vítimas escondidas nesse ritmo louco de consumo... é fácil para mim também esquecer disso. Esse tanto de moscas vêm me perturbar para nunca mais me esquecer de nenhuma dessas pessoas.
Pode ser que a gente trabalhe focando mais a fonte desse ciclo devastador: estamos no cheio da resistência contra o saque de recursos, para fechar a hemorragia das veias abertas da América Latina. Mas sabemos e sentimos que nossa luta é em nome de todas essas vítimas, e por isso nunca deve amolecer!

Deixei dona Maria e voltei matutando tudo isso. Mas ainda uma surpresa devia semear ternura e admiração em mim: um casal de catadores, subindo a estrada de chão com sua motinha, parou-me de repente. “Padre, é o dia todo que o estamos procurando!”
Encontraram minha bolsa, guardaram-na em casa e correram atrás de mim para devolver tudo, inclusive o dinheiro! Chamam-se Silma e Sérgio, têm quatro filhos vivos e um que tombou atropelado... provavelmente enquanto ia trabalhar na coleta com os pais.
No meio do lixo, dessa vez fui eu quem coletou algo precioso: pequenos gestos de honestidade como esse, brotando no meio da miséria, alimentam intensamente minha luta!

Assista ao curto "Ilha das Flores"

martedì 25 maggio 2010

Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale: uma avaliação

A campanha Justiça nos Trilhos está entre os formuladores e promotores do I Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale.
Desde o começo de 2009, durante e logo após o Fórum Social Mundial de Belém, sentiu-se a necessidade de um encontro internacional exclusivamente focado sobre a Vale e seus impactos socioambientais em várias regiões do mundo.
As injustiças evidentes narradas por muitas comunidades no Brasil e afora, o modelo de desenvolvimento agressivo e os enormes lucros da companhia mineradora tornavam urgente uma construção de estratégias coletivas de resistência e alternativas.

Como missionários combonianos, sentimo-nos interpelados diretamente: cabia a nós ajudar o povo que acompanhamos, em Açailândia, São Luís e vários povoados ao longo da Estrada de Ferro Carajás, a compreender a história e as causas das condições degradadas de suas vidas.
Ao anunciar e construir vida em abundância, é sempre necessário denunciar e destruir modelos que, ao contrário, trazem morte por causa de uma busca irresponsável e desmedida do lucro.
Abençoados e encorajados pela Campanha da Fraternidade de 2010, que nos estimula a estudar as injustiças econômicas mais evidentes e contrapor experiências de economia popular descentralizada, respeitosa da vida e do meio ambiente, assumimos com entusiasmo a organização dessa nova etapa de enfrentamento da Vale: sonhamos, com Deus, um novo jeito de relacionar-se com a terra, os recursos naturais e a criação inteira.
Justiça nos Trilhos desde o começo envolveu toda nossa província Brasil Nordeste, que a apóia e nela se identifica; mais uma vez, nesse caso, houve a participação de vários combonianos, em diferentes iniciativas preparatórias.

Foi redigida uma revista, com o título “Não Vale”, contendo vários artigos bem fundamentados a respeito das mazelas da companhia, especialmente no corredor de Carajás. A revista suporta e complementa o trabalho artístico de um conhecido diretor cinematográfico italiano, Silvestro Montanaro, que realizou durante os últimos meses um filme de 75 minutos sobre os maiores conflitos e resistências populares ao longo do mesmo corredor.
Filme e revista serão divulgados em breve nas comunidades atingidas, em ocasião de lançamentos e seminários de formação tanto no Pará como no Maranhão. Os membros da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e outros parceiros internacionais já receberam esse material, útil para a formação de suas comunidades e lideranças.
Tudo, enfim, estava pronto para a realização do encontro internacional dos atingidos; o evento foi precedido, de 5 a 11 de abril, pela Caravana dos Povos no sistema norte da Vale.

Em parceria com comunidades, movimentos e sindicatos de Pará e Maranhão, foram preparadas três etapas, prontas a acolher um público de vários países do mundo.
Trinta pessoas alcançaram, assim, Barcarena (PA), Marabá (PA) e Açailândia (MA) e realizaram um intercâmbio precioso entre comunidades atingidas de várias regiões do planeta. Era gente do Pará, Maranhão, Ceará, Rio de Janeiro, Brasília, Argentina, Chile, Peru, Canadá e Moçambique.
Puderam encontrar comunidades rurais e urbanas, associações de moradores, movimentos, comunidades cristãs, políticos, promotores de justiça, jornalistas, sindicatos, movimentos de defesa dos direitos humanos, atores, famílias, jovens, mulheres...

É impossível resumir em poucas linhas a riqueza desses encontros (encontra-se algo a mais nos blogs que acompanharam o evento). Podemos resgatar, simplesmente, a dinâmica de enriquecimento recíproco que permitiu aos membros locais e internacionais de ‘espelhar-se’ uns nos outros. Evidenciaram-se, em todo lugar, sempre as mesmas estratégias da empresa: a conquista do território, o marketing para defender uma imagem socialmente e ambientalmente responsável, a cooptação do poder político e judiciário; em relação às lideranças, a tendência a aliciar, negociar isoladamente para dividir as comunidades, ameaçar ou criminalizar, conforme o nível de organização e enfrentamento dos grupos locais.
Também apareceram interessantes respostas de resistência popular: o esforço de dar visibilidade ao conflito (publicações, relatórios, dossiês), as ações diretas de oposição à agressividade da empresa (ocupar terras, fechar estradas, manifestar), as ações judiciais pedindo indenização ou compensação ambiental, a produção de conhecimento juntando o saber local e a pesquisa universitária, a articulação em redes (internacionais, nacionais, regionais), o envolvimento de atores e parceiros chave, especialmente na área jurídica.

Nos dias seguintes, de 12 a 15 de abril, a caravana norte encontrou-se com outra caravana, vindo do sistema sul da Vale (Minas Gerais e Espírito Santo), além de várias outras pessoas todas convergindo no Rio de Janeiro, onde existe a sede da Vale e onde, todo mês de abril, a Vale convoca seus acionistas para a assembléia anual.
Reuniram-se 160 pessoas, de 80 associações e entidades diferentes, representando 12 países. Ocasião única: pela primeira vez os povos atingidos e as lideranças que os acompanham fizeram o esforço de sistematizar suas lutas e aprender uns com os outros.

Foram quatro dias intensos, principalmente de estudo e aprimoramento das estratégias coletivas. Destacaram-se várias áreas de conflito: modelo de desenvolvimento e saque dos recursos, conflitos ambientais e poluição, conflitos trabalhistas e resistências sindicais, conflitos com as comunidades e pela terra, conflitos econômicos e desequilíbrios por lucros desmedidos (a Vale é a maior empresa da América Latina e a mais rentável do mundo!)

Os encaminhamentos maiores tiveram a ver com a crítica à imagem socialmente solidária e ambientalmente responsável da Vale: os atingidos assumiram o compromisso de desmontar sistematicamente esse quadro, mostrando e divulgando os impactos de que são vítimas. Um dossiê detalhado, com 120 páginas e 21 casos específicos foi lançado na assembléia legislativa do Rio de Janeiro, entregue à imprensa e à assembléia dos acionistas.
Um movimento internacional assumiu o compromisso de produzir constantemente um relatório alternativo, apontando as omissões do Relatório Anual de Sustentabilidade da própria empresa. A partir disso, deslancham-se novas dinâmicas de denúncia, conscientização das comunidades, reivindicações dos próprios direitos e construção de formas mais sustentáveis de economia e desenvolvimento local.
Intuímos, também, novas potencialidades e alianças entre comunidades e províncias missionárias onde se encontram os mesmos conflitos por mineração e saque dos recursos naturais: Moçambique, Chile, Peru, Equador...

Será que os sinais dos tempos estejam provocando nossa sensibilidade para com o cuidado ambiental e o respeito dos mais pobres a avançar até águas mais profundas?

domenica 11 aprile 2010

Qual é o teu nome?

A Caravana Internacional dos Atingidos pela Vale continua sua caminhada através do Pará e Maranhão, chegando a Açailândia.

Em cada etapa centenas de pessoas encontradas, mas sempre a mesma atenção para as pessoas, suas historias e seus nomes. Os nomes concentram em si a identidade, o passado e os sonhos de pessoas e territórios.
É engraçada, nesse sentido, a decepção do membro canadense da caravana: esperou uma semana para chegar a Açailândia e tomar sorvete de açaí... mas descobriu que o assalto às terras da região pelas empresas e o latifúndio despejou há tempo os açaís centenas de quilômetros adentro!
Ou a surpresa dos moçambicanos ao saber que Pequiá não é mais o nome da árvore bonita que tinham encontrado no Pará: agora, aqui, é simplesmente o acrônimo de “PEtrol-QUímico Açailândia”!

Assim, as terras e as pessoas mudam seus nomes pela violenta influência desse modelo de desenvolvimento.
Aliás: precisaria esclarecer também o sentido de expressões como “desenvolvimento sustentável”, “progresso”, “crescimento”. Para alguns poucos essas palavras têm extremo valor, para muitos têm somente conseqüências e efeitos colaterais.

Em Açailândia o efeito colateral do progresso é poluição, exclusão de centenas de famílias cercadas pelas firmas e cobertas de poeira (“o negócio é pó, meu irmão!”), monocultura de eucalipto que expulsa as famílias do campo...

A Caravana encontra novos conflitos, ligados diretamente à linha de ferro que atravessa povoados e cidades no Maranhão todo: atropelamentos de pessoas (mediamente uma vítima por mês, sem alguma indenização), “meninos do trem” andarilhos nos vagões de minérios de uma ponta a outra dos 900 Km de ferrovia, enorme desproporção do lucro.
Por cima da ponte do progresso corre o combóio de ferro para exportação (um valor bruto, a cada dia, de cerca de 50 milhões de reais!). Debaixo, há mais de trinta anos, permanecem os barracos do povo que parece só atrapalhar os negócios dos ‘grandes’.

Mas é esse povo que mantém a cabeça erguida e agüenta na luta de resistência e busca de alternativas: a caravana encontra a mobilização popular de Piquiá de Baixo e assina um documento de solidariedade internacional que será entregue às autoridades dos três poderes, locais e estaduais.
Num ato simbólico, na praça pública, a caravana suja suas mãos e roupas com a mesma poeira que contamina a cada dia os pulmões do povo; há quem chora, ao deixar-se tocar pelas crianças nesse gesto de solidariedade, de joelho enquanto o trem passa numa corrida desinteressada.

Outro ato simbólico amarra dezenas de máscaras contra a fumaça na porta da carvoaria da Vale, após uma caminhada de denúncia e solidariedade ao povoado de Califórnia. Cada pessoa grita sem medo seu nome e país: quem se esconde e não assume suas responsabilidades, em Açailândia, é a empresa, não o povo.

Atrás da empresa, refém de seu poder econômico e sua influência mediática, esconde-se também o poder político. A caravana faz questão de encontrar a população num seminário na Câmara Municipal, mas ninguém dos vereadores ou da administração pública participa ativamente do evento.

A etapa de Açailândia fala uma linguagem desconhecida aos ritmos do progresso: o teatro, a mística, a arte são meios de expressão popular que talvez nos permitam evitar o seqüestro de outros nomes e significados.
A vida acima do lucro! Nossos nomes e histórias valem muito mais dos interesses exclusivos das empresas.
Aliás: alguém nos explique o que significa “Responsabilidade Social das Empresas”...

giovedì 8 aprile 2010

Atingidos pela Vale

A sapucaia é uma árvore cuja castanha, quando estiver madura, destampa e deixa cair no chão suas sementes, prontas para germinar.

Debaixo de um pé de sapucaia a caravana internacional dos atingidos pela Vale encontra o povo do ‘Bairro da Paz’, uma das muitas ocupações de Marabá-PA. Milhares de famílias instaladas numa desordem total: chegaram em busca de trabalho, na ‘cidade do desenvolvimento industrial’, mas encontraram poucas perspectivas. Como a sapucaia, ao longo da conversa tira-se a tampa do silêncio e da adaptação resignada: as pessoas narram suas histórias e assim jogam pequenas sementes para um futuro diferente.

Na sombra dessa árvore acompanhamos as pessoas que passam, a pé ou de bicicleta. Somos atravessados pelo povo que anda e percebemos a densidade de vida no bairro: 2.246 famílias, muitas delas vivendo ainda em barracos e caminhando por ruas cheias de barro.

O ciclo de mineração e siderurgia desestrutura a base produtiva do povo e expulsa as pessoas de seu chão. O mínimo, nesses casos, seria oferecer melhores condições de existência e moradia a quem de repente fica arrancado de sua terra. Ao contrário: desenraizadas e deslocadas, as pessoas encontram-se amassadas em áreas violentas, sem acesso à educação e com baixa qualidade de vida. Ao seu redor, cada vez mais gente chega em busca da sorte (dizem que nos próximos anos Marabá aumentará do 50%!).
Aumenta a prostituição, diminui o emprego conforme as etapas do projeto (muitos trabalhadores para construir o empreendimento, bem menos quando começa a produção... e os desempregados ficam na região).

Atingidos pela Vale: percebe-se que são bem mais daquilo que aparece!

Mais uma vez tecem-se laços de partilha entre a caravana e o povo: cada membro em visita tira da bagagem de sua experiência comparações, conselhos, propostas.
Fernando, do Moçambique, comenta que na sua terra as casas que a Vale construiu para os desalojados por mineração são ainda piores! Feitas em três dias (!) por pedreiros capacitados em 45 dias (!).
Luís, advogado da causa popular no Peru, incentiva o povo a não desanimar: nenhum despejo pode tirar quem ocupou a terra sem violência, em boa fé e por necessidade.

Logo antes, pela manhã, o seminário entre a caravana e as lideranças locais tinha sido extremamente rico. Os participantes tinham descrito vários tipos de conflitos: a luta pela terra e a expulsão das famílias camponesas, o impacto ambiental da mineração, o inchaço das cidades ‘em desenvolvimento’, a discriminação contra os trabalhadores lesionados e ‘inúteis’, as próprias artimanhas da Vale em cooptar lideranças e aliciar o povo.

Amadurecem estratégias e selam-se alianças: fruto de um cultivo de rede que vem de longe, o movimento parece cada vez mais integrado.
Há quem sente necessárias ações diretas de denúncia e tem quem já trabalha na formação popular e na conscientização a respeito do racismo ambiental, promovendo seminários e pesquisas nos povoados.
Há comunidades que já buscam a integração através de Fórum locais ou redes de articulação regional, primeiro e segundo passo rumo ao processo de consulta popular que os peruanos nos descreveram.
Sente-se o desafio de recolher as informações e colocá-las a disposição de todos/as em espaços de acesso comum (sites ou redes de comunicação).
Permanece, enfim, a relação importante mas às vezes inconsistente com o Ministério Público, interlocutor essencial para a fiscalização das empresas e, em casos desesperados, para as necessárias ações indenizatórias, individuais e coletivas.

A sapucaia ‘destampou’ e as sementinhas estão jogadas no chão. A caravana avança mais um passo, em busca de novas terras e cultivos.

Por que choras?

Há povos que se movem pela sobrevivência, empresas que se deslocam pelo lucro. Nós, caravana dos atingidos pela Vale, percorremos a região norte do País movidos pelo choro do povo e da natureza.

Em Barcarena-Vila do Conde, região industrial e grande porto de exportação do Pará, encontramos várias comunidades e pessoas chorando. A Vale tem vários empreendimentos lá: Alunorte, Alubrás, Pará Pigmentos e um projeto de nova termoelétrica.

As comunidades não tem vergonha de lamentar, na frente de amigos de outros países, sua precariedade em situações de despejo, extrema poluição, falta de perspectivas. Com um abraço manifesta-se a solidariedade dos companheiros do Chile, Peru, Canadá, Ceará, Rio, Pará e Maranhão. Os moçambicanos comentam: “Em nossa região, pelos despejos que a Vale está provocando, o povo está começando a odiar os brasileiros. Mas, vendo estas suas lágrimas, entendemos que é a empresa quem merece nosso repudio!”

Na terra dos cabanos, todos percebem que a luta dos antepassados não foi em vão, mas continua firme e precisa de muita articulação.

“Eu sou um matuto do campo”, diz Alexandre, representante da comunidade indígena Anacé-CE. “Eu choro quando escuto camponeses querendo deixar suas terras. Morre nossa alma e nossa história. Essas firmas estão arrancando nossas raízes. Estou com medo que isso aconteça comigo também, lá em Pecém: estão levantando de uma vez, ao nosso redor, uma siderúrgica, uma termelétrica e uma refinaria!”

Uma vereadora poucos dias antes tinha falado às claras: “Sentimos muito por esses pequenos grupos, mas o interesse da gente é maior, está com as empresas”.
E a caravana vai, em busca de uma política inclusiva. “Nós não somos contra as empresas -diz o povo- mas elas não podem acabar com a gente!”

Luís, advogado peruano, sonha a olhos abertos: em vários povoados, lá no Peru, tiveram processos de consulta popular. Assim como o povo escolhe seus representantes políticos, pôde escolher seu futuro. 90% defenderam, para suas regiões, a agricultura familiar.
Os governos deveriam garantir autoridade e poder a essas formas de autodeterminação popular. De que maneira os povos atingidos ou ameaçados pela cadeia minero-siderúrgica podem participar à construção do futuro em suas terras? Serão um dia protagonistas dos planos de investimentos em seus territórios?

A caravana deixa Barcarena com essas perguntas na cabeça e com o choro do povo nas entranhas. Nos olhos, porém, o brilho da esperança e da organização.
“Nossa luta para os próximos três anos é continuar animando a rede de 250 associações que se articulam no enfrentamento das empresas. Estamos construindo o Fórum de Políticas Públicas de Barcarena, onde sentem juntos representantes populares, da administração pública e das empresas. Agora que o dano está posto e não tem como voltar atrás, pelo menos precisamos reconhecer o povo como ator principal de seu futuro.
Buscamos gerenciar um Fundo Social para o desenvolvimento popular de Barcarena”.

A viagem continua rumo Marabá e o debate no ônibus se esquenta entre os 30 membros da caravana: dialogamos sobre Fundo de Desenvolvimento, Análise de Equidade Ambiental, luta paralelas no Moçambique e no Canadá, formação sindical... a caminhada é longa, mas o laboratório de alternativas está posto e a caravana vai fazendo fermentar modelos e perspectivas diferentes: um outro desenvolvimento é possível!

martedì 9 marzo 2010

Três círculos para a vida

(leitura do evangelho de Jo 8, 1ss)

Naquela manhã, no pátio do templo de Jerusalém, tinha três círculos.

O primeiro, bem cedinho, formou-se quando Jesus sentou-se no meio e começou a ensinar. O mestre tinha passado a noite no monte das oliveiras, pressentindo o que ia acontecer com ele, confirmando sua escolha de doar a vida até o fim.
Ao seu redor, juntou-se o povo no círculo de quem sabe de não saber, precisa atingir à água da sabedoria de Deus, à sua luz, dispondo-se à escuta permanente da Palavra e à aprendizagem constante da vida. Como é bonito, ao amanhecer de cada dia, voltar a formar esse círculo, humildemente, para depois sair e doar também a vida aos outros!

Logo, porém, forma-se o segundo círculo. Escribas e fariseus levam no meio do templo, numa gritaria violenta, uma mulher adúltera. A lei ordenava de conduzi-los ambos, homem e mulher, à porta da cidade para o julgamento. Cadê o homem? Cadê a lei?
Não é a justiça o que escribas e fariseus procuram. Querem provocar o mestre, desejam eliminá-lo e não fazem questão, se necessário, de eliminar também a mulher, pobre instrumento das acusações deles. É o círculo da lei violentada, nem mais fiel às prescrições de Moisés: homens influentes da época tinham convertido essa lei num sistema de garantias para seu poder machista e arrogante.
Como desfazer esse círculo sufocante e opressor? É a pergunta de muitos, hoje também: sentimo-nos cercados por uma injustiça institucionalizada, uma lei que já não defende mais o ser humano. Percebemo-nos até cúmplices, às vezes, desse sistema; perfeitamente integrados no círculo dos justos, que ainda acha de condenar com razão os que não se incluírem nele.
Jesus não utiliza muitas palavras, aliás, provoca com seu silêncio. Olhando para o chão, talvez desafie cada um a olhar dentro de si. Pela insistência deles, lança uma provocação pessoal: deixe falar sua consciência, esqueça do barulho e da coesão de quem se acha certo e interrogue sua vida. Desmonte a rigidez de suas convicções, deixe cair da mão as pedras que até agora o faziam sentir forte, desmanche as leis injustas sobre as quais se funda seu poder.
Talvez Jesus no chão desenhasse a derrota do machismo dentro das consciências e das relações sociais... talvez outras leis violentas também poderiam cair pelo mesmo profundo apelo à nossa consciência e humanidade (agora, mais do que nunca, a lei que garante a acumulação da propriedade privada)...

Os acusadores vão-se embora, silenciosamente, cada um olhando para o chão de suas vidas. E no pátio fica o terceiro círculo, pedras em volta de uma mulher sozinha e livre.
A acusação caiu, no meio do templo nasce uma nova vida para essa mulher que errou mas não encontra condenação. As pedras em círculo parecem proteger essa vida que brota; o próprio Jesus levanta-se para encontrá-la, confirmá-la e enviá-la.
Esse terceiro círculo, pedras de uma nova lei que tocou as consciências, é para lembrar-nos que a lei não é feita para os poderosos acusarem e condenarem os pobres; ao contrário, deve ser barreira e proteção, amparo ao redor da vida das vítimas.

mercoledì 17 febbraio 2010

Quaresma: o que NÃO fazer?

Assim chegou mais uma quaresma...
De certa forma, é até fácil prefixar e delimitar o tempo da quaresma, decidindo em que momento do ano vai chegar e quanto vai demorar.
Até conseguimos colocá-la na moldura do carnaval e das festas da Páscoa, adoçando assim o sabor amargo desse tempo ‘enxuto’.
A quaresma é caminho ritual de escuta interior, num clima austero de deserto.
Esse ritmo na vida da gente é importante, ajuda a afastar-se da correria e da folia das muitas coisas.

Mas a quaresma verdadeira, aquela mais concreta que pega na carne da gente, é bem outra coisa: tempo de fome, vazio interior, drama e escuridão da existência, quando não enxergamos saídas e desejamos ardentemente ressurreição e luz.
Por exemplo, esse domingo 21 de fevereiro, primeiro de quaresma, é também 25º aniversário da morte (por crucifixão!) dos camponeses de Xeatzan, vítimas da perseguição na Guatemala.
E nesse tempo do ano experimentamos com ainda mais rigor, nas periferias do Brasil, as conseqüências da crise: agora o auxílio desemprego terminou, por muitos ex-trabalhadores!
Até a própria natureza está atravessando um seu tempo de quaresma, condenada à penitência pela humanidade gananciosa, que já declarou sua condenação à morte.

Esses (e muitos outros) são os desertos reais da vida, que nos deixam sem respostas, apavorados, numa espera urgente e difícil por ressurreição.
È preciso acolher também essas etapas da vida, pois a Palavra nos garante que elas têm um término, um limite além do qual encontraremos de novo a luz e que alcançaremos de mãos dadas com Jesus, irmão e companheiro dos sofredores.
É possível, ainda hoje, passar da morte à vida, da violência a um equilíbrio renovado entre todas as criaturas.

O evangelho desse domingo nos diz como NÃO funciona. Caberá depois ao resto da quaresma indicar caminhos eficazes de restauração da esperança.
Como não devemos preparar a Páscoa? Com o estilo consagrado pelos poderosos (o próprio diabo é considerado pelo evangelho como o dono do poder).

Há alguns instrumentos que desde sempre iludiram as massas e que Jesus rejeita definitivamente:

- transformar as pedras em pão.
Dedicamos esse versículo a uma das operadoras mais famosas dessa façanha: a Vale do Rio Doce. A mineradora (segunda mais poderosa do mundo) proclama acima de todos os telhados sua missão milagrosa, que fará ressuscitar o povo amazônida e nordestino.
Pena que as pedras preciosas extraídas de nossa terra se tornam pão quase exclusivamente para os acionistas e administradores dos níveis mais altos. Há pão em abundância, mas para poucos: isso não é Páscoa.

- conseguir o poder no meio do bloco carnavalesco dos políticos atuais.
Nesse ano eleitoral, como fazer ressuscitar a política, enquanto muitos ‘diabos’ ainda aspiram aos lugares mais altos, se prostram e se vendem aceitando qualquer condição?
Mais do que dentro dos partidos, precisamos urgentemente preparar a Páscoa com um controle social bem organizado e a participação responsável: ressuscite a honestidade!

- fazer da religião um espaço de milagres.
Até a igreja pode ‘satanizar-se’, se cair na tentação de buscar os milagres e a visibilidade, que ilude as pessoas e conquista as massas com rituais exteriores e eventos chamativos.
Que bonito, ao contrário, preparar a Páscoa a cada ano através do itinerário exigente e comprometido da Campanha da Fraternidade! Não se trata somente de uma coleta: é diálogo corajoso com a sociedade, enfrentando juntos as contradições e compondo o mosaico do Reino de Deus na terra! Quantas comunidades fazem da CF seu itinerário de vida e compromisso ao longo do ano inteiro?

Nosso mundo atravessa uma quaresma difícil e globalizada: crise econômica, ecológica e ética. Os quarenta dias de oração, reflexão e compromisso que se abrem nos ajudem a buscar, com Deus e os irmãos/as de boa vontade, saídas rumo à ressurreição.