Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

martedì 7 aprile 2009

Pode um perfume remover as pedras?


Páscoa 2009 em Açailândia – Maranhão 

“Era uma pedra muito grande”. As mulheres queriam voltar a ver Jesus, pelo menos seu corpo, e relembrar dele, de tudo aquilo que tinha-se sonhado juntos.
Era uma pedra muito grande, e elas só tinham... um pouco de perfume. Perfume não remove pedras.
“Quem tirará para nós a pedra do túmulo?”: ficaram a noite inteira com essa pergunta na cabeça. Hoje também a mesma pergunta martela por dentro de nós e de nossas comunidades, durante muitas noites.

As pedras para remover são muitas, por aqui:
-    a corrupção de quem comprou o poder e agora vende seus favores;
-    a sensação de sermos o lixão industrial das grandes firmas com a cara limpa (no norte do mundo) e os pés sujos, pisando nos pobres;
-    o álcool e a violência sexual (até contra crianças e adolescentes), espelho de um vazio de valores e perspectivas: em lugar de esvaziar os túmulos, estão se esvaziando nossos sonhos.
Quem tirará para nós essas pedras? Graças a Deus, três mulheres não ficaram paradas à pergunta e aceitaram o desafio: ir até a pedra de todo jeito, 'armadas' somente com seus perfumes. 

Quais são nossos perfumes? 
Gostaria que percebessem o perfume dos 60 grupos de rua e oração nas casas, que por cinco semanas reuniram-se para ler e entender juntos a Bíblia e a realidade.
O perfume de celebrações em que nosso povo toca com mão a ressurreição, cantando a vida, contando suas histórias, apertando as mãos. É pouco, bem sei, mas o perfume é para se usar em pequenas doses. E ainda: o aroma de alguns jovens que estão se apaixonando pela mesma causa que nós missionários defendemos; são para nós filhos e irmãos mais novos. 

Pela sua fé e teimosia, as mulheres foram escutadas e a pedra removida, naquela manhã cedo, primeiro dia de uma história nova.
Precisava porém atravessar aquela porta: não é suficiente remover as pedras, se não temos nós também a coragem de entrar no túmulo, assumir o conflito, cara a cara com as forças de morte que ameaçam nosso povo... mesmo se, permanecendo nas contradições, a gente não enxergue ainda soluções ou mudanças imediatas.
Às vezes, enquanto uma pedra rola e vai embora, parece que outras dez se amontoem em nossa frente: sabemos porém que, com a coragem de entrar e permanecer no túmulo, poderemos enxergar a ressurreição. 

Assim vivemos hoje, na pré-Amazônia rica de violência e potencialidades: um pé no túmulo, enquanto o outro já corre para anunciar a todos que a vida não morre.

Boa Páscoa!

sabato 4 aprile 2009

Justiça Ambiental


“Cá entre nós, o Banco Mundial não deveria incentivar mais a migração de indústrias poluentes para os países menos desenvolvidos?”
Esse memorando de circulação restrita (relatório Summers, 1991) mostra com evidência a política ambiental do Banco Mundial, dos G8 e também dos grandes empreendimentos que deveriam promover “aceleração de crescimento” em nosso Brasil (os movimentos sociais definem o PAC como “Programa de Agressão às Comunidades”).

Em função de um progresso inevitável e cada vez mais acelerado, os países da periferia do mundo servem como reserva preciosa de recursos; de 1990 até hoje assistimos a um verdadeiro boom da mineração: a América Latina aumentou a cota de produção mundial de minério de 21% durante dez anos; na África houve um crescimento de 13% em 7 anos; alguns casos específicos como o Ghana são estarrecedores: +700% nos últimos vinte anos!

Do outro lado da cadeia produtiva, a produção de lixo e poluentes precisa também de canais de escoamento: novamente, os escolhidos são os países do sul do mundo (num artigo polêmico, em 1992, a revista inglesa The Economist titulava “Let them eat pollution”: “Deixem que comam poluição”).

O apoio das grandes instituições financeiras a esse modelo de progresso é cada vez mais objeto de críticas pelos movimentos ambientais. A Rede Brasileira de Justiça Ambiental escreveu uma carta aberta ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento, reunido em Medellin para sua 50ª sessão anual) criticando os financiamentos públicos a obras de grande impacto sócio-ambiental na América Latina e no Brasil.
É também muito grave a operação financeira do BNDES no mês de Março de 2009: aquisição com dinheiro público, a fim de investimento, de 12% da empresa particular LLX, de Eike Batista. Um Banco que deveria garantir os interesses públicos e financiar o desenvolvimento das camadas mais empobrecidas acaba, ao contrário, vinculando-se diretamente com empresas cujos conflitos ambientais são notórios em várias regiões do País.

O próprio Ministério de Meio Ambiente expediu em 2008 um número recorde de licenças ambientais (467, 100 a mais que em 2007, 70% das quais após a entrada do ministro Minc). O MMA está acelerando a liberação de licenças para o PAC, algumas das quais referidas a empreendimentos altamente impactantes e questionados pela justiça (as hidroelétricas de Santo Antônio e Jirau no rio Madeira (RO) e a Usina Nuclear de Angra 3 (BA).

A partir de tudo isso cresce a indignação e fortalece-se a organização dos movimentos ambientais, cuja maior articulação (a Rede Brasileira de Justiça Ambiental - RBJA) acabou de realizar seu encontro bienal de estudo e planejamento.
A Rede aprofunda e aplica no concreto da realidade brasileira os conceitos de Justiça Ambiental e Racismo Ambiental, categorias que mostram a assimetria da globalização, amplificando a Dívida Ecológica dos países 'desenvolvidos' com as periferias do mundo: “Nenhum grupo étnico, racial ou de classe deve suportar uma parcela desproporcional das consequências ambientais negativas resultantes da operação de empreendimentos industriais, comerciais ou municipais e da execução de políticas públicas”.

Uma das preocupações da RBJA nesse contexto de crise econômica é o perigo de flexibilização da legislação ambiental e trabalhista para 'correr em socorro' das empresas e do ciclo de produção e consumo, única solução que até hoje a cegueira neoliberal consegue enxergar.
Nesse sentido cresce o estudo e a aplicação de novos instrumentais, como a Análise de Equidade Ambiental: um mecanismo de avaliação do impacto ambiental que leve em conta não somente as consequências diretas sobre a natureza, mas também incorpore os efeitos sociais, culturais e econômicos de cada empreendimento sobre a população que reside na região atingida.

É sempre mais urgente um real envolvimento da população nos processos de licenciamento das obras, com audiências públicas prévias (ainda antes do Estudo de Impacto Ambiental) e uma constante mediação do Ministério Público para evitar ameaças e dinâmicas de corrupção das lideranças.

A sede de investimentos baratos e pouco vinculados está levando nesses últimos meses as grandes empresas a atitudes violentas e constrangedoras. Recentemente no RJ um líder das comunidades locais em conflito com a Thyssen Krupp e a Vale precisou ser inserido no programa de proteção a testemunhas, devido a ameaças documentadas numa audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio.

A Rede permite mecanismos de solidariedade e denúncia, alianças entre movimentos e a autoridade política suficiente para dar visibilidade às lutas e resistências do povo, que está se articulando e incentivando oposição organizada e alternativas viáveis ao atual modelo de desenvolvimento. A agricultura familiar, a agroecologia, a economia solidária, o turismo comunitário, o controle popular sobre as atividades de grandes empresas, a constituição de Fundos de Desenvolvimento gerenciados por conselhos participativos a partir de percentagens fixas do lucro das transnacionais da mineração, a assessoria jurídica popular das comunidades em conflito: estratégias e caminhos que já deslancharam-se e que não vai ser fácil bloquear!

lunedì 9 marzo 2009

Outra igreja é possível

Diante das polêmicas desses dias sobre o aborto realizado para a vida da criança estuprada de Recife, é importante que todos os cristãos expressem seu pensamento, contribuindo à construção de uma igreja plural em busca da verdade (que nunca ninguém possuirá por inteiro).

Como padre missionário dessa igreja, entendo e defendo sua preocupação na luta contra o aborto (sobretudo quando essa luta vai além da denúncia e se faz articulação concreta de uma rede de proteção às mães, de prevenção da violência sexual e de promoção da dignidade da mulher: graças a Deus hoje muitas pessoas na igreja trabalham silenciosamente para isso!)

Não entendo, ao contrário desaprovo a intervenção do bispo de Recife que excomungou os médicos autores do aborto em questão. A discussão seria demorada, limito-me a oferecer algumas provocações para a reflexão de todos.

  • nos deparamos com uma situação-limite, um caso extremo. Nunca se pode extrapolar de um caso limite uma lei geral e válida para todos. Nem considero legítimo fazer uso dessas situações extremas para divulgar a norma moral ordinária de uma instituição.
    Vou fazer um exemplo: é claro que de frente a um homicídio por legítima defesa ninguém pode clamar pelo desrespeito à vida e concluir que a sociedade está virando em favor do assassinato. Não pode um caso limite tornar-se referência da norma moral.
    Ao contrário, especialmente nesses casos limites cabe à Igreja a misericórdia, a compaixão, uma presença solidária e possivelmente silenciosa ao lado das vítimas e uma condenação dura das condições e pessoas que provocaram a violência.

  • a opinião de um bispo, mesmo se suportada por intervenções (menos polêmicas e violentas) do Vaticano e da CNBB, ainda não constitui doutrina moral oficial da Igreja. Quanto mais a igreja nas bases expressar sua visão complementar e não silenciar o dissenso, tanto mais contribuiremos à construção de uma comunidade de fé plural, em busca da verdade, capaz de diálogo e não necessariamente unida sobre todas as complexas questões de moral e ética. Hoje (mas já no Evangelho é assim) faz mais sentido uma pergunta humilde e sedenta de verdade do que uma resposta firme, mas arrogante e incapaz de diálogo.

  • É difícil estabelecer (cientifica e eticamente) quando começa a vida; não faz sentido colocar um ponto unívoco de referência, sendo a própria vida um processo. É complexo definir quem tem mais direito de viver, nos casos-limites como aquele ao qual nos referimos. A igreja e a ciência precisam de ajuda recíproca e de diálogo construtivo. Todas as vezes que o diálogo é interrompido pelo apelo a uma norma moral superior, o processo de respeito da vida e da humanidade regressa um pouco.

Outra igreja é possível e já deixou seu marco inapagável com dom Helder Câmara, na própria diocese de Recife, de onde o atual bispo soltou sua condenação inapelável à excomunhão.

Graças a Deus, há bispos e bispos. Nessa pluralidade, a igreja avança se tiver a coragem do diálogo e, sobretudo, se anunciar seus valores com a práxis humilde do serviço e do exemplo concreto.

Dom Helder, no centenário de seu nascimento, continua protegendo essa igreja-povo-de-Deus.

giovedì 19 febbraio 2009

Carregar a vida em nós (Mc 2)

Nesse tempo de crise e na lentidão de um ano que recomeça aos ritmos do Carnaval (mas porque será que tudo aqui só pode acontecer “depois do Carnaval”?)... em nossas cidades nordestinas e amazônidas estão aumentando as massas amontoadas às portas da saúde, da educação, das firmas em busca de emprego.

Reuniram-se fora de casa tantas pessoas que já não havia lugar nem mesmo diante da porta”, diz o evangelho desse domingo. Não há lugar para quem busca um tratamento, não há verbas para uma escola de qualidade no campo, não há emprego nas siderúrgicas de nossa cidade, que até ontem utilizaram três mil pessoas na mão de obra barata e agora -por uma suposta crise da qual não querem pagar o preço- descontam seu prejuízo sobre as famílias dos trabalhadores.

Esse povo paralítico precisa se levantar, mas às vezes parece que nem ele mesmo acredite que isso seja possível. Havia outro paralítico em Jerusalém (Jo 5, 2s) que por trinta e oito anos ficou parado à beira da piscina de Betesda. Quando Jesus lhe perguntou porque, ele respondeu que não tinha ninguém que o levasse até a cura.

Alguém que me carregue, alguém que abra espaços novos frente a essas portas fechadas e a todas as barreiras que impedem ao povo de encontrar dignidade e vida: quanta sede de justiça grita no peito também dos paralíticos de hoje!
Na Campanha da Fraternidade desse ano clamamos por segurança: o que é isso, se não abrir as portas dos serviços públicos para que todos/as tenham acesso a seus direitos, na saúde, na educação, no trabalho? Fora daquela casa não há segurança, e as pessoas amassadas só acabam cultivando a violência, a competição e o clientelismo.

Por isso, ainda mais do que Jesus ou do próprio paralítico, os protagonistas desse trecho de evangelho são os quatro homens que carregam o doente: eles conseguem enxergar uma 'entrada' e abrem o caminho para que a cura aconteça. Parece que Jesus intervém exatamente a partir da fé e teimosia daqueles homens: o milagre começa conosco!

Nosso povo simples precisa de exemplos bem concretos: dá para brincar com a imagem desses quatro homens. Quem são essas pessoas que carregam o doente e assumem o desafio da cura?

O primeiro é a pessoa solidária: ao ver um irmão paralítico carrega sobre si sua situação. Hoje a solidariedade é urgente, contra a cultura do individualismo que isola os problemas de cada um; a visita, o diálogo, a confiança recíproca são o primeiro estágio da cura, que cada um de nós pode assumir no dia-a-dia.

Mas isso não é suficiente: precisamos da comunidade, que assuma as situações dos mais fracos em mutirão. Foi desde sempre o destaque das comunidades cristãs, capazes de se organizar e articular o serviço para com os mais pobres, doentes, famintos. Nossas comunidades hoje também precisam organizar a caridade, para despertar a contribuição de todos e educar-nos à recuperação do bem comum, que é feito de direitos e deveres comuns. É o segundo homem que sustenta a maca.

Muitos param por aqui, mas o evangelho mostra que somente duas pessoas não conseguem levantar esse doente. Aqui entra o terceiro papel do cristão: solicitar e fiscalizar o sistema público. Não adianta tamparmos os buracos que outros deveríam fechar, somente em nome da caridade cristã: a paz é fruto da justiça, ainda antes que da caridade! Assim, a comunidade cristã exercita-se cada vez mais na prática do controle social, da presença ativa na arena política (longe dos partidos, mas muito próxima da sociedade civil organizada, nos conselhos de direito, na formulação de políticas públicas, etc). Paulo VI dizia que essa é a forma mais completa de amar.

Ainda falta o último homem: quem será? Esse último homem representa uma dimensão ainda maior do que nossas lutas políticas no Município ou no Estado: pela nossa experiência no corredor de Carajás (a região mais rica do mundo em ferro e outros minerais e o eixo mais explorado pela exportação dos recursos do povo), o último poder que manda é a força econômica das transnacionais. Poder oculto, bem disfarçado: muitas vezes o povo se pergunta de quem é a responsabilidade da carência de políticas públicas adequadas, mas raramente a resposta chega a envolver esses atores escondidos. Assim, o saque das nossas riquezas continua silencioso (mineração, monoculturas de eucalipto, soja, pecuaria extensiva) e ainda o paralítico não chega a ser curado.

Só se esses quatro homens trabalharem juntos dentro de nossas comunidades cristãs, o paralítico conseguirá levantar-se, carregar sua cama e sair diante de todos.


lunedì 9 febbraio 2009

Cinco presidentes ao FSM


Maria das Graças, mulher indígena do Ecuador, acolheu-os com palavras bem claras, mostrando todas as expectativas que os povos originários repõem sobre eles, após anos de sofrimento e exclusão: “Não nos persigam mais! Respeitem-nos, é só isso que eu peço, nada mais...”
Graça, uma das coordenadoras do FSM, continuou com a mesma força de caráter, denunciando o perigo de render-se definitivamente ao modelo de desenvolvimento que devora as pessoas e a natureza: “percebemos um forte descompromisso das Instituições em relação aos recursos naturais e ao futuro de nossos povos. A deflorestação está destruindo também nossa gente, especialmente os povos originários”.

Mas o espaço para as críticas não foi muito (entre as doze mil pessoas do público, parece que um certo grupo 'pelego' foi introduzido no evento com o simples objetivo de apoiar Lula e evitar as vaias de 2005 ao FSM de Porto Alegre).
Mesmo tendo um presidente brasileiro “sócio-liberal”, como diz Michel Levi, não podemos negar que nos encontramos num momento histórico novo para América Latina; o povo percebe uma nova esperança no ar e acorreu numeroso no (provavelmente) maior evento do FSM.

Um torneiro mecânico, um bispo da teologia da libertação, um índio (“com cara de índio” -específica Lula), um jovem economista e um soldado que já foi preso por tentativa de golpe e que o povo depois escolheu e apoia: Lula, Fernando Lugo, Evo Morales, Rafael Correa e Hugo Chavez reunidos à mesma mesa organizada pelas entidades do FSM.
A conjuntura é nova e todos os presidentes ressaltam que essa etapa da história latinoamericana vem de longe e construiu-se há tempo, baseada na luta popular por democracia. “Eu sou fruto de sua luta contra o neoliberismo” -afirma Morales; “Somos reflexo da luta do povo. Uma América indígena, mestiça, negra: após séculos de sofrimento, tornou-se realidade” -acrescenta Correa.

Os povos da Bolívia e do Ecuador celebram nessa passagem histórica suas novas constituições (a boliviana foi aprovada por 60% da população no domingo precedente o encontro): uma Carta dos Direitos dos povos indígenas, na perspectiva de reconstruir a Pachamama, grande Mãe latinoamericana.
Todos os presidentes recomendam a urgência e a possibilidade histórica de integrar os povos da América Latina. Correa define isso “uma necessidade de sobrevivência” e pede que seja acelerado o processo para a criação do Banco del Sur. Também critica a Organizaciòn dos Estados Americanos (OEA), ainda muito dependente de Washington, e relança a idéia de uma autogestão latinoamericana, incluindo finalmente “nuestra hermana Cuba”.

Não faltam as dificuldades e alguns conflitos 'diplomáticos', como é o caso da poderosa central hidroelétrica de Itaipu, cujos lucros atualmente estão sendo desviados do Paraguai para o Brasil: Lugo não deixa de acenar ao problema e se diz muito otimista rumo a uma solução consensual entre os dois Países, para garantir o desenvolvimento do povo paraguaio.
O ex-bispo católico fala dos riquíssimos recursos naturais e das potencialidades da América Latina: está faltando o orgulho e a capacidade técnica de administrá-lo em autonomia.

É forte a revolta contra o neoliberalismo e o imperialismo dos EUA; Lula repõe muitas esperanças sobre “o negro Obama, filho de uma terra que só 40 anos atrás assassinou Martin Luther King”.
Mais de um presidente acena ao “socialismo do século XXI”: Chavez específica que não faz mais sentido o cliché 'capitalismo=eficiência, socialismo=justiça'. “Somos capazes de construir um socialismo justo e eficiente, com um papel equilibrado do Estado, uma atenção específica ao meio ambiente e a escolha de um modelo de desenvolvimento responsável e sustentável” -reforça Correa, que faz referência à Doutrina Social da Igreja mas grita sua raiva considerando que bem mesmo o País mais católico do mundo é também o mais desigual do mundo: “O gesto mais comum de Jesus, em muitos momentos de sua vida, foi partir o pão. Será possível que nós aqui não conseguimos partir e partilhar nossos recursos?”. Alguém, no Ecuador, lembre a cada dia essas palavras proféticas para o presidente.

Morales oferece algumas perspectivas para o futuro: “Precisamos assumir uma nova etapa de integração para nossos Países, contra a intrusão e a conspiração dos EUA”. Propõe quatro campanhas, quatro dimensões de compromisso:

  • uma campanha mundial para a paz e a justiça (lembra especialmente Palestina, Afghanistan, Iraq, esquecendo também ele as guerras escondidas de muitos países africanos). Isso exige uma reforma radical da ONU.

  • uma campanha para uma nova ordem econômica internacional: exige uma reforma radical de instituições como BM e FMI; o indicador de desenvolvimento não deverá ser mais o PIB, mas sim o índice de redistribuição da riqueza!

  • uma campanha para salvar o Planeta, mudando os modelos e níveis de consumo

  • uma campanha pela dignidade humana, contra o consumismo: valorizar a humanidade, sepultar o capitalismo. Um símbolo para esse trabalho de resgate das culturas populares e contra o consumo das pessoas poderia ser -para Morales- a folha de coca: é alimento e fonte de vida para os povos indígenas; não podemos deixar que se torne, assim como em todo o mundo do consumo, substância estupefaciente e destruidora de gente.


mercoledì 7 gennaio 2009

Como os magos a caminho de Belém: o VIII Fórum Social Mundial



O FSM está batendo às portas da Amazônia.
A expectativa é de cerca de 100mil pessoas, vindo de muitos lugares do mundo e reunindo-se em Belém do Pará por 5 dias de troca de dons e experiências.
A narração dos santos reis magos volta a acontecer, atualizada numa nova Belém sedenta de vida e de justiça. Cada pessoa e povo vai trazer seu presente na partilha mais rica que a humanidade até agora conseguiu organizar. Estamos já na oitava edição desse encontro mundial em busca de um novo mundo possível, pacificado, sustentável e justo.

Ao todo, mais de 2.700 encontros contemporâneos irão pautar a grande assembléia dos povos: a maior parte dos eventos serão de matriz brasileira (quase 70%), a seguir destacam-se na ordem seminários e oficinas propostas por França, EUA, Espanha, Itália, Índia, Colômbia, ...

Os temas tratados serão os mais diversos, recolhidos em 10 eixos temáticos. O eixo mais rico de atividades propostas é aquele sobre politicas públicas (saúde, educação e trabalho), sinalizando quanto o modelo de desenvolvimento atual está esquecendo-se dos direitos básicos dos povos. Também destaca-se o eixo sobre a participação da sociedade civil organizada no controle social, alternativas de democracia e conselhos de direito: novas formas de protagonismo popular estão aos poucos afirmando-se nos quatro cantos do mundo, questionando os modelos ditos ‘democráticos’ e estabelecidos para a defesa dos interesses de poucos. Precisamos muito trocar experiências e capacitar lideranças nesse processo participativo de gestão dos bens públicos.

O primeiro dia do FSM será dedicado particularmente às dinâmicas, conflitos e alternativas panamazônicas. A esmagadora maioria dos eventos deve-se novamente à iniciativa brasileira (87%): o Brasil quer levantar sua voz e dar espaço à vida que pode brotar de suas entranhas, apesar das ameaças e violências externas e da cobiça dos próprios cidadãos e grandes empresas locais. Há um futuro para a Amazônia, e esse depende da aliança dos povos, mas ainda mais da atitude corajosa e decidida de nosso País verde e amarelo e dos parceiros da Pan-Amazônia!

Está afirmando-se cada vez mais, também através da rede articulada do FSM, o conceito de “Justiça Climática”, pelo qual “o peso dos ajustes à crise climática deve ser suportado por aqueles que historicamente foram responsáveis pela sua origem e não pelos que menos contribuíram e que, entretanto, na realidade atual, são as principais vítimas das mudanças climáticas. Uma solução justa à crise deve se confrontar ao problema do sobreconsumo no Norte e também entre as elites do Sul. O sobreconsumo está enraizado na dinâmica do capitalismo, que transforma continuamente a natureza viva em commodities sem vida, estabelecendo um enorme desperdício no processo. A desestabilização do clima é, portanto, intrínseca ao capitalismo”. 

Os povos indígenas serão os grandes protagonistas do primeiro dia de Fórum e de todo o evento de Belém. Uma Tenda Indígena e uma Tenda dos Povos da Floresta hospedarão dezenas de iniciativas propostas por eles.
Muitas oficinas tratarão da valorização da Amazônia, também em nível econômico, devido à necessidade de sobrevivência e inclusão dos povos que habitam essa macroregião. O desafio é desenvolver a agroecologia, o manejo florestal sustentável, o protagonismo das populações locais. Tudo isso constrasta abertamente com o impacto violento causado pelos grandes empreendementos, sobretudo da indústria da mineração e da energia. A campanha Justiça nos Trilhos, por exemplo, articula dentro do FSM uma reflexão e denúncia bem documentada sobre o impacto da Vale do Rio Doce no Brasil e em outras regiões do mundo: quais mudanças estruturais podem ser exigidas por essas grandes empresas a fim de garantir a sobrevivência dos povos dos biomas florestais?

Muitos outros temas atravessam o fórum mundial: alguns estão concentrados em grandes “tendas temáticas”: tenda da afro-negritude quilombola, tenda Cuba 50 anos da revolução, tenda Curumim-Erê para as crianças (cultura, ritmos, brinquedos), tenda dos direitos coletivos de povos e nações sem estado, tenda dos direitos humanos. Nessas últimas duas, poderão ser aprofundados temas urgentes e graves: não esqueçamos que o 27 de Janeiro, primeiro dia do FSM, é dia de memória da Shoá do povo hebraico; ocasião para os integrantes do Fórum denunciarem a violência atual contra o povo palestino, no meio da prudência diplomática e oportunista das principais potências mundiais.

Diga-se o mesmo em relação à atual criminalização dos movimentos brasileiros em defesa dos direitos humanos: a solidariedade do FSM possa reforçar a luta e a denuncia corajosa dessas testemunhas de paz.

Há também uma dimensão espiritual que perpassa todo tipo de luta: poderemos enriquecê-la no espaço inter-religioso e na tenda da coalizão ecumênica, bem como na tenda irmã Dorothy, onde fazer memória de todos os/as mártires que doaram a vida para que todos/as tenham vida.

Destacam-se, enfim, a tenda do trabalho (onde serão analisadas as causas e condições da atual crise econômica) e a tenda da reforma urbana, em busca de alternativas vivíveis para as enormes cidades do mundo, ainda em fase de crescimento.

Esse FSM chega num momento muito delicado da conjuntura mundial: abriu-se uma crise sistêmica que pode colocar em discussão o inteiro modelo de desenvolvimento. É o momento oportuno para forçar os grandes e pequenos da terra a buscarem juntos mudanças estruturais da economia, da política, da cooperação e das instituições internacionais. Não pode-se mais pensar em ‘socorrer os pobres’ tampando o sol com a peneira da ‘esmola humanitária’.

Talvez se abra uma brecha para uma profunda reforma do sistema neoliberal e da estrutura político-militar que o defende. Isso depende, em parte, da capacidade de articulação, intercâmbio e pressão institucional dos movimentos e grupos que voltarão do FSM.

Os próprios magos não ficaram em Belém: tiveram que voltar buscando um outro caminho, fora do alcance da violência de Herodes. Que os profetas de Belém do Pará, pequenos mas numerosos, possam enxergar e percorrer corajosamente esses caminhos!

mercoledì 10 dicembre 2008

"Ser voz": João Batista e nosso advento


Perguntas diretas para João Batista, quase uma audiência pública, um processo: no primeiro capítulo de João, de repente nos encontramos no meio de um conflito aberto. O julgamento para o profeta já começou e sabemos como irá acabar (talvez isso nos tire um pouco a poesia do Natal).

Sempre, na história da igreja, ficamos preocupados pelo juízo de Deus; o evangelho revela, ao contrário, que é o juízo dos homens que faz a diferença, desse nos devemos preocupar.

Viemos pra incomodar’, não há cristão fora do conflito: no final nossa vida fará sentido se terá provocado as pessoas a assumir uma posição, se teremos amigos e também inimigos, e se –apesar disso- teremos aprendido a amar uns e outros.

Nesse processo aparece evidente a identidade de João Batista, seu perfil; assim também hoje não adianta sermos cristãos anônimos, o conflito nos obriga a definir claramente nossa personalidade.

“Sou voz”, diz João Batista: que identidade essencial e radical!

Nessas terras amazônicas onde ainda vigora impunidade, corrupção e cumplicidade... ser voz é entrar desarmado no conflito. No Xingu, por exemplo, dom Erwin Krautler relata: “Os crimes acontecem à luz do dia, à vista de todos, mas ninguém pode, absolutamente, revelar o que viu e ouviu para não ser incluído na lista dos que serão executados. Para salvar a própria pele, passa a vigorar a lei do silêncio”.

Ser voz é ter a coragem de falar, de fazer acontecer a justiça: denunciar, testemunhar (4 vezes essa palavra aparece no texto do evangelho!), tomar posição.

“Nessa terra o Estado é ausente. A Justiça é ausente – continua dom Erwin- Alguém, então, tem que levantar a voz. Alguém tem de falar. Os únicos que fazem isso são as pastorais”.

‘Pastoral’ vem de ‘pastor’, que também é voz para suas ovelhas. Elas conhecem sua voz, precisam da voz corajosa do pastor que aplaine caminhos, endireite os trilhos que violentos e gananciosos entortaram.
Vamos fazer nossas pastorais falar mais alto do que as regras herdadas de uma sociedade injusta e passiva! Juntos, ovelhas e pastores, vamos ser voz corajosa nos conflitos do dia-a-dia!

Ser voz não é somente usar a voz: é sentirmo-nos totalmente identificados naquilo que estamos dizendo, entregar com paixão a palavra e nossa inteira identidade a quem está nos escutando.

Mais uma coisa: a voz de João Batista não é uma entre as muitas; assumiu uma posição clara, fez a escolha do contexto, que fala muito mais forte de que o próprio texto. O profeta escolheu o deserto, o “outro lado do Jordão”. Também cabe a nós escolher as periferias, o ponto de vista dos excluídos, o outro lado da história, lugar de onde levantar a voz e quebrar o silêncio e a submissão.

Uma voz corajosa pode abrir rachaduras, dúvidas, perguntas e despertar de consciências no sistema estabelecido e nas pessoas convencidas que esse é o melhor dos mundos possíveis.

Por essas fendas um brotinho nascerá e o homem novo fará ingresso, mais uma vez, na velha história de sempre.