Vida e Missão neste chão

Uma vida em Açailândia (MA), agora itinerante por todo o Brasil...
Tentando assumir os desafios e os sonhos das pessoas e da natureza que geme nas dores de um parto. Esse blog para partilhar a caminhada e levantar perguntas: o que significa missão hoje? Onde mora Deus?
Vamos dialogar sobre isso. Forte abraço!
E-mail: padredario@gmail.com; Twitter:
@dariocombo; Foto: Marcelo Cruz

mercoledì 10 dicembre 2008

"Ser voz": João Batista e nosso advento


Perguntas diretas para João Batista, quase uma audiência pública, um processo: no primeiro capítulo de João, de repente nos encontramos no meio de um conflito aberto. O julgamento para o profeta já começou e sabemos como irá acabar (talvez isso nos tire um pouco a poesia do Natal).

Sempre, na história da igreja, ficamos preocupados pelo juízo de Deus; o evangelho revela, ao contrário, que é o juízo dos homens que faz a diferença, desse nos devemos preocupar.

Viemos pra incomodar’, não há cristão fora do conflito: no final nossa vida fará sentido se terá provocado as pessoas a assumir uma posição, se teremos amigos e também inimigos, e se –apesar disso- teremos aprendido a amar uns e outros.

Nesse processo aparece evidente a identidade de João Batista, seu perfil; assim também hoje não adianta sermos cristãos anônimos, o conflito nos obriga a definir claramente nossa personalidade.

“Sou voz”, diz João Batista: que identidade essencial e radical!

Nessas terras amazônicas onde ainda vigora impunidade, corrupção e cumplicidade... ser voz é entrar desarmado no conflito. No Xingu, por exemplo, dom Erwin Krautler relata: “Os crimes acontecem à luz do dia, à vista de todos, mas ninguém pode, absolutamente, revelar o que viu e ouviu para não ser incluído na lista dos que serão executados. Para salvar a própria pele, passa a vigorar a lei do silêncio”.

Ser voz é ter a coragem de falar, de fazer acontecer a justiça: denunciar, testemunhar (4 vezes essa palavra aparece no texto do evangelho!), tomar posição.

“Nessa terra o Estado é ausente. A Justiça é ausente – continua dom Erwin- Alguém, então, tem que levantar a voz. Alguém tem de falar. Os únicos que fazem isso são as pastorais”.

‘Pastoral’ vem de ‘pastor’, que também é voz para suas ovelhas. Elas conhecem sua voz, precisam da voz corajosa do pastor que aplaine caminhos, endireite os trilhos que violentos e gananciosos entortaram.
Vamos fazer nossas pastorais falar mais alto do que as regras herdadas de uma sociedade injusta e passiva! Juntos, ovelhas e pastores, vamos ser voz corajosa nos conflitos do dia-a-dia!

Ser voz não é somente usar a voz: é sentirmo-nos totalmente identificados naquilo que estamos dizendo, entregar com paixão a palavra e nossa inteira identidade a quem está nos escutando.

Mais uma coisa: a voz de João Batista não é uma entre as muitas; assumiu uma posição clara, fez a escolha do contexto, que fala muito mais forte de que o próprio texto. O profeta escolheu o deserto, o “outro lado do Jordão”. Também cabe a nós escolher as periferias, o ponto de vista dos excluídos, o outro lado da história, lugar de onde levantar a voz e quebrar o silêncio e a submissão.

Uma voz corajosa pode abrir rachaduras, dúvidas, perguntas e despertar de consciências no sistema estabelecido e nas pessoas convencidas que esse é o melhor dos mundos possíveis.

Por essas fendas um brotinho nascerá e o homem novo fará ingresso, mais uma vez, na velha história de sempre.

 

giovedì 20 novembre 2008


Cortina de fumaça

O poder mediático da grande companhia Vale do Rio Doce
e o árduo trabalho e desvendamento da verdade

 

O Brasil, terra de gigantes adormecidos, entregou seus recursos à segunda maior companhia de mineração do mundo: a Vale do Rio Doce (Vale). Para muitos isto é um orgulho. A Vale, recentemente, ganhou, pela revista brasileira Carta Capital, o título de “Empresa mais admirada do País”.

Outros (uma minoria) refletem que não se pode medir a grandeza de uma empresa simplesmente pelo lucro que fatura, ou pela imagem que ela mesma consegue transmitir ao público.

Com certeza, a Vale sabe “vender bem o seu peixe”, como se diz em nossas terras amazônicas. Nos países ocidentais diriam “greenwashing”: lavar o rosto e as mãos da companhia através de uma persistente campanha publicitária.

 Mas quem é a Vale? 

É uma “empresa brasileira global”, como ela mesma gosta de se apresentar.  Atua nos cinco continentes: Américas, Europa, África, Ásia e Oceania. Possui atividades nos seguintes países: Estados Unidos, Peru, Chile, Argentina, Venezuela, Bélgica, França, Noruega, China, Japão, Barein, Gabão, Moçambique, Mongólia, Angola, África do Sul e Austrália.

Constitui-se de um complexo sistema formado por mais de 50 importantes empresas, algumas coligadas, outras simplesmente controladas, e outras que dão apoio estratégico e operativo.

Líder de minério no mercado de ferro, a Vale é a segunda maior produtora de manganês e ferroligas. Comercializa seus produtos para indústrias siderúrgicas do mundo inteiro

No ano passado extraiu 100 milhões de toneladas da melhor mina de minério de ferro do planeta (Carajás). Ao todo, produziu 300 milhões de toneladas de minério. Somando ao preço do minério o enorme lucro dos fretes, a Vale ganhou só em 2007 e só na região de Carajás US$ 5 bilhões brutos (sua receita global deve ter superado US$ 32 bilhões).

No Brasil, a Vale atua em 14 estados da federação e é a maior consumidora de energia elétrica do país. Possui 9 mil quilômetros de estrada de ferro e é proprietária de 10 portos

Os seus empregados são 147mil, mas somente 56mil são empregos diretos da Vale. A estratégia da terceirização permite de livrar-se das responsabilidades diretas com os próprios funcionários; só na região de Carajás (sede das minas de ferro) há mais de 8.000 causas trabalhistas contra ela.

Afinal, o modelo que a Vale promove é uma ‘economia de enclave’, que não dinamiza a economia local, mas apenas extrai a riqueza natural: pouco mais do que um saque de recursos, cujo eixo principal atualmente é a Estrada de Ferro Carajás (nos estados de Maranhão e Pará). O lucro vai embora e o que fica é a poluição e o desmatamento, fruto perverso da cadeia de produção siderúrgica.

Além disso, a ferrovia é incômoda e perigosa: atropela e mata uma pessoa a cada mês. As despesas da Companhia Vale do Rio Doce, nesses casos, limitam-se, até agora, à simples compra do caixão.
Em maio de 2008 o Tribunal Permanente dos Povos condenou a Vale por crimes ambientais e violações aos direitos trabalhistas e humanos na Baía de Sepetiba (Rio de Janeiro).
A máquina de propaganda da multinacional, porém, é poderosa e sua estratégia sutil. No recente “círio”, a festa religiosa mais popular em Belém, os outdoors rezavam: “A Vale valoriza a cultura e a fé da nossa gente” ... até ajuda a sepultá-la!
Em 2007 uma grande iniciativa popular em todo o território brasileiro apresentou um plebiscito contra a privatização da companhia. Muitos segmentos da sociedade civil organizada estavam envolvidos, esforçando-se para promover conscientização e comunicação ‘horizontal’, através de encontros, assembléias, seminários que demonstrassem a injustiça e o conflito provocados pela multinacional.

Foi suficiente essa mobilização para motivar a empresa a multiplicar a propaganda televisiva, apresentando alguns projetos sociais ‘promovidos’ aqui e acolá por ela e repetindo, com um jogo de palavras, que há um “Brasil que Vale”. Quase a significar que “vale só quem acreditar na Vale”.
Repare-se o poder de persuasão da propaganda: foi um dos elementos decisivos que enfraqueceram o plebiscito. Coincidentemente ou não, foi no mesmo período que a Vale mudou o seu logo, como se isto significasse mudança de atitudes! 

O jornalista Rogério Almeida relata mais um dos muitos exemplos: “No município de Barcarena, Pará, a Vale mantém duas fábricas da cadeia produtiva do alumínio (Alunorte e ALBRAS). Uma associação em defesa dos operários e ex-operários das fábricas tenta a todo custo encaminhar passivos na área da saúde laboral. Há registros de problemas neurológicos e cardíacos entre outros. Ao se constatar os problemas de saúde, a demissão tem sido o atalho mais comum. Nos estados onde a empresa atua não se noticia nada contra ela que, graças a uma eficiente política de marketing, neutraliza a imprensa”.

Um bom exemplo disso foi no ano passado, quando a Vale patrocinou em Belém o lançamento do Fórum Amazônia Sustentável com a participação de algumas entre as maiores ONGs do setor. Poucos tiveram a autoridade moral ou a força de gritar “o rei está nu!”, desmascarando assim o poder de cooptação da Vale.

Assim, o poder de distorção da realidade continua crescendo e influenciando a opinião pública. Não se trata de um caso ou concomitância de eventos: há uma estratégia sutil e bem estudada atrás das decisões públicas da empresa. E há um grande poder de persuasão e até cooptação da população... 

Em final de 2007 várias associações e entidades da sociedade civil organizada estruturaram-se em rede para medir o nível de conflito entre a Vale e as pessoas, a Vale e o meio-ambiente. O objetivo foi organizar esse mal-estar, direcioná-lo e conscientizá-lo, para depois estruturar uma forma de denúncia e luta não-violenta, rumo a mais “Justiça nos Trilhos”. O pagamento das indenizações, das compensações ambientais e a reconstituição do Fundo de Desenvolvimento da região de Carajás por parte da Vale tornaram-se objetivos inadiáveis. A campanha já possui um site próprio (www.justicanostrilhos.org) e vem desenvolvendo um trabalho intenso de articulação com outros grupos no Brasil e no mundo impactados pela Vale. No próximo FSM, ‘Justiça nos Trilhos’ organiza um seminário internacional e três oficinas (sócio-jurídico-ambiental). No entanto, visita os povoados e municípios ao longo dos trilhos da ferrovia de Carajás (de São Luís do Maranhão até o Pará: 892 Km) e organiza seminários de formação e debate.

Um desses seminários aconteceu em Belém, capital do Pará, e deve ter apavorado um pouco mais a Vale. Tratava-se de um seminário como os outros, na sede da Conferência dos Bispos do Brasil: apresentação da realidade ao longo dos trilhos, da situação do povo, experiência das lideranças que acompanham esse povo e organização da campanha Justiça nos Trilhos até o FSM e vislumbrar ações para a sua continuidade. Tudo à luz do sol, com distribuição de folders sobre a campanha e divulgação do site e dos artigos sobre a pesquisa realizada até agora. Nunca se acenou a algum tipo de ação violenta, nem se cogitou alguma interdição dos trilhos. Mas a máquina poderosa da difamação, reforçada pela aliança entre a Vale e o maior jornal cotidiano da capital do Pará (“O Liberal”), deu o melhor de si:“Há evidências - fortes e várias - de que está em andamento uma nova interdição da Estrada de Ferro de Carajás, que liga o Estado do Pará ao Maranhão e é operada pela mineradora Vale. Até aí, nenhuma novidade. Patrimônios privados, inclusive e sobretudo os da Vale, sempre estiveram na mira de bandidos travestidos de atores sociais, a expressão que a intelectualidade - ou parte dela - cunhou para se referir a criminosos.
A novidade, desta feita, são três: a primeira é de que o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) não agirá sozinho, mas auxiliado por outras entidades e movimentos sociais; a segunda é que se pretende interditar a ferrovia em duas frentes, uma no Pará, outra no Maranhão; e a terceira é que os preparativos para a mobilização que precede a interdição aconteceram, segundo informou O LIBERAL em sua edição de ontem, dentro de instalações onde funciona a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)”.
Graças à ‘fantástica criatividade’ do jornalista, a campanha está organizando contra ele uma denúncia por calúnia. Por outro lado, não adianta correr muito atrás dos peixes pequenos: o que interessa é entender os jogos de poder que estão atrás de mais esse foguete barulhento dos meios de comunicação de massa.

O jornalista Lúcio Flávio Pinto, há vinte anos impiedoso observador das contradições da Vale, conclui: “O Liberal mais uma vez desserviu a opinião pública com seu procedimento leviano no trato com as informações. Uma coisa é bloquear a ferrovia de Carajás, uma concessão pública outorgada à Companhia Vale do Rio Doce por 50 anos, como ocorreu seis vezes nos últimos meses, e outra é tentar avaliar o impacto que o grande empreendimento representa para a população, e tirar mais benefícios do que os disponíveis, notoriamente insuficientes e injustos (daí o título da campanha: “justiça nos trilhos”).
Nenhum dado concreto sequer insinuou essa intenção durante o encontro realizado na sede da CNBB. Ao anunciá-lo de forma estrepitosa e superficial, sem uma fonte de crédito, O Liberal mostra que seu propósito não é manter os paraenses bem informados, mas valer-se da informação para objetivos não declarados. Propósito semelhante ao daqueles que sonegam as informações do público ou as manipulam para tirar proveito do poder que têm. No caso do jornal dos Maiorana, essa já é uma prática rotineira e, por isso mesmo, lesiva aos interesses superiores da sociedade”.
Mais uma vez, a Vale demonstra a força de quem pode se aliar aos maiores meios de comunicação.

Mas o movimento “Justiça nos Trilhos” não se rende a esses desequilíbrios de poder e ainda acredita na eficácia da formação popular, com meios alternativos. É recente o projeto da campanha de estruturar um centro de comunicação popular na região de Açailândia (ao longo da Estrada de Ferro Carajás). Trata-se de uma rádio comunitária, criada por uma equipe de jovens e lideranças dos movimentos e comunidades de base. O grupo está se capacitando e exercitando numa leitura crítica da realidade, exatamente a partir dos conflitos, censuras e distorções da comunicação de massa. Em seguida, o centro de comunicação popular poderá expressar seu pensamento e multiplicar informações e análises da realidade não somente pela rádio, mas também através de um jornal popular (“Nossa Voz”) e da produção de pequenos documentários filmados (alguns dos quais já estão a disposição no site da campanha).

A distribuição de DVD nas escolas, comunidades, entidades e movimentos da região, associada à circulação de testemunhas e capacitadores locais, é ainda um instrumento eficaz para uma cultura alternativa e a formação de novos militantes sociais. Uma utilização experiente da web, enfim, pode divulgar a campanha e os objetivos da luta do povo, conectando em rede muitas outras pessoas e grupos interessados.

Dizia Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha nazista: “Repitam cem, mil, um milhão de vezes uma mentira... e ela tornar-se-á uma verdade”. Cabe a nós desconstruir essas ‘verdades’, envolvendo pessoalmente nesse processo de desvendamento cem, mil, um milhão de pessoas vítimas do poder mediático das multinacionais. Precisamos de ajuda!

martedì 14 ottobre 2008

Economia a imagem de Deus



Queda das bolsas, insegurança financeira global, instabilidade e recessão...
Bem no meio desse clima de medo e da crise do sistema econômico, Jesus no Evangelho fala do dinheiro.
Fariseus e herodianos perguntam a ele se é permitido pagar o imposto a César. A própria pergunta expressa um conflito grande da época: o povo, especialmente os mais pobres, pagava 4 tributos diferentes ao opressor romano e ao sistema do Templo; assim, a cada ano vinha sendo privado de 75% de seus bens. Quem faz essa pergunta a Jesus sabe que ele já se expressou muitas vezes em defesa dos mais pobres, mas quer colocar o mestre em direto conflito com a autoridade.
Mais para frente, a carta aos Romanos dirá “Dêem a cada um o que lhe é devido: o imposto e a taxa, a quem vocês devem imposto e taxa (...)” (Rm 13,7).
Também para a igreja hoje é muito importante a responsabilidade e honestidade na hora de pagar as taxas (a sonegação é uma das maiores ameaças à distribuição igualitária dos bens e dos lucros!).
Ao mesmo tempo, há vários cristãos no mundo que já foram presos por ter aplicado a “objeção fiscal”: se o Estado usa dinheiro público para fabricar armas ou promover guerras, eles boicotam o governo e não pagam aquela parcela de taxas.
A relação com o dinheiro, como bem se vê, é a melhor forma de verificar a honestidade de consciência de uma pessoa e os valores profundos em que acredita.

Na moeda romana da época de Jesus estava escrito “Divus Augustus” (“o imperador é deus”). Isso soava como uma blasfêmia ao judeu piedoso, que nem ousava tocar no dinheiro. Era um escândalo usar a imagem do imperador em substituição àquela de Deus (esse deveria ser nossa real indignação, hoje, quando falamos do repúdio das imagens para a fé cristã autêntica!).
Mas também em todas as notas brasileiras, hoje, está escrito “Deus seja louvado”... Deus, que nem queria um templo para morar, encontra-se estampado e preso, hoje, em nosso dinheiro! Refém do uso iníquo e da acumulação que o dinheiro representa: a doutrina social da igreja reconhece que hoje “o fim do dinheiro é ele mesmo”.
Jesus nos lembra que cada pessoa é imagem de Deus e vive para Ele. Ao contrário, o dinheiro traz em si uma imagem deturpada de Deus e molda uma sociedade a imagem e semelhança do capital, voltada só a multiplicar o proveito e abandonar os mais pobres.
Por isso Jesus diz com veemência: “Ou Deus ou o dinheiro!”. Na logica do dinheiro tudo é pago (“é permitido pagar os impostos?”); na logica de Deus, tudo é devolvido (“devolvam a Deus o que é de Deus”): não somos donos das coisas e da vida, existimos para restituir a Deus o que ele nos dá a cada dia.

Aqui no Maranhão (bem como em vários outros estados do País) há organizações que acataram a provocação de Jesus e criaram... uma nova moeda e uma nova economia, a imagem de Deus! É o caso das comunidades quilombolas de Alcântara, filiadas à Rede brasileira de bancos comunitários. Objetivo dessa “moeda social”, exclusivamente de uso local, é fazer com que o dinheiro circule dentro da própria comunidade, estimular créditos e investimentos internos e o utilizo do dinheiro a serviço da população regional.
Os grandes investimentos financeiros de hoje tornaram flutuante não somente a moeda, mas também as famílias que precisam investir em seu futuro. É urgente devolver confiança e estabilidade às pessoas através de uma economia a imagem de Deus, onde a distribuição das oportunidades seja a chave de desenvolvimento para todos e todas!

mercoledì 1 ottobre 2008

Desespero ou oportunidade?




A violência contra a natureza: desespero ou oportunidade?


Reflexão livremente inspirada ao texto “Toda a criação geme...”, RIBLA 21



O gemido de Jó e o gemido da criação

Na Bíblia há esses dois gemidos fortes, que até Deus custa a consolar.
O gemido de Jó é o grito de uma pessoa que se queixa por sua situação (sofrimento, miséria, doença, exclusão...) e busca com avidez condições melhores.
A criação, no entanto, geme lamentando sua vocação à vida cerceada pela violência e ameaçada de morte definitiva.
O sistema econômico atual põe em conflito esses dois gritos, cria competição entre os interesses da pessoa e aqueles da natureza. O acesso ao trabalho é posto em conflito com a preservação do meio-ambiente (por cada novo empreendimento planejado, a palavra mágica que libera todos os licenciamentos ambientais é a promessa de centenas de novos empregos... mesmo se quase sempre se trata de exageros promocionais). Da mesma forma, a defesa da natureza é considerada inimiga do progresso e do desenvolvimento.
Jó busca uma vida plena e abundante; seus interesses são satisfeitos nos países desenvolvidos, enquanto a natureza continua gritando de longe, nos países-depósitos mais pobres do mundo.
Jó, por sua conta, se sente completamente inocente e até em direito de gritar contra Deus, clamando por vida e satisfação pessoal. O Senhor lhe dá razão: “se o seu horizonte for somente a esfera pessoal, você teria plenamente direito de gritar e se queixar. Mas deixe sua voz acalmar-se e comece a escutar também outros gritos: o clamor da natureza, das massas de pobres, do sistema desequilibrado que está desmoronando... Comece a integrar suas necessidades com aquelas da criação toda inteira!”
É esse o sentido da linda poesia de resposta com que Deus consegue amansar a Jó e incluir sua vida numa esfera de existência maior (Jó 38-42).
Quem é o pai da chuva e do orvalho?
Quem é a mãe do gelo e da geada?
Quem transforma a água em pedra
e torna compacta a superfície do oceano?...
Podes dar ordens às nuvens
Para que se desprendam sobre ti os aguaceiros?
Manda chamar os raios,
E eles vêm e te dizem “Aqui estamos”?...
Jó, que inicialmente sentia-se vítima inocente e único merecedor da compaixão de Deus, abre os olhos e declara humildemente: “Eu falei, sem entender, de maravilhas que superam a minha compreensão” (Jó 42, 3). O nosso pequeno homem está começando a pensar com o coração grande de Deus; incluiu em seus sentimentos, sofrimentos e desejos também àqueles da vida maior que está ao seu redor. Está em sintonia com a criação, superou o conflito entre os interesse do indivíduo e o bem maior de tudo o que existe.

A quem cabe uma teologia da terra?

Quem nos ajudará a viver, individualmente e como sociedade, essa conversão de Jó?
Com certeza não serão as grandes multinacionais, poderosas divulgadoras de sua pessoal teologia. Elas estão querendo definir –de cima para baixo- o que é sustentável, ‘verde’, puro.
Mas “as vítimas são sempre locais” (Vandana Shiva). É lá em baixo que se tem a verdadeira noção do impacto de cada projeto.
Há tempo, Deus mudou de lugar! Não precisamos mais de alguém lá em cima que nos diga o que é bem ou mal; não acreditamos que a verdade esteja simplesmente na versão mais divulgada dos fatos; não confiamos nos meios poderosos de comunicação que conquistam as consciências.
“A verdade está nas vítimas” (Jon Sobrino) e Deus escolheu esse único lugar de interpretação da realidade!
Portanto, uma nova teologia da terra só pode nascer nas feridas das vítimas, deixando falar os corpos machucados e escutando o gemido da criação, desde baixo. O Evangelho revela que o Cristo ressuscitado traz em si as feridas da cruz... e é exatamente a partir delas que Tomás reconhece seu Senhor. As feridas da terra e do povo são o Corpo de Cristo violado, ponto de partida para uma reflexão permanente sobre a Vida e a Ressurreição possível.

Alguns pilares dessa teologia da terra

Assumindo o ponto de vista ‘dos de baixo’, podemos ressaltar três atitudes interessantes:

1. A raiva:
“Não agüentamos mais!” é o grito cada vez mais freqüente que escutamos, permanecendo ao lado das vítimas. E esse lamento se faz reação, chega a falar mais alto da violência impregnada na realidade pelas grandes empresas, que atuam silenciosas e impunes pisando sobre os pobres. No começo essa raiva pode espantar e parecer violenta; aos poucos acabamos comparando-a ao desejo instintivo de fazer-se escutar: quando o barulho de fundo da violência é constante e opressivo, precisa levantar a voz.Há pessoas e grupos que há tempo abaixaram a cabeça, frente à pressão violenta imposta sobre eles: acostumaram-se; há outros (estão crescendo) que não agüentam mais e têm a coragem de se posicionar. Às vezes esperamos que essa raiva possa contagiar mais gente, pois o desejo de consumo e acumulação apaga o espírito.Atualmente no Brasil um movimento paralelo está tentando em vários Estados e contextos de ‘legalizar a violência histórica’: os estragos, as chacinas, o desmatamento, a poluição são considerados um mal inevitável, que aconteceu e não tem mais como ser consertado. Esse grupo de poder visa negar a história, anular a ligação estreita dos povos indígenas com suas terras agora cobiçadas, diminuir o tamanho da Amazônia Legal assim que ninguém mais tente recuperar as condições originárias. Frente a esse pensamento clandestino que tenta mascarar a violência subida por essas regiões, é necessária uma reação vigorosa, orgulhosa: a raiva deve despertar-nos!

2. A mística e o cuidado com a vida:
Desde o começo da humanidade, percebe-se uma ligação indissolúvel entre Deus, o povo e a terra. A vida não existe ao faltar de um desses três elementos. Assim acontece também na cultura de nossos povos da terra: profundamente religiosos, não têm preocupação de doutrina ou medo de sincretismo: “Tudo o que é fonte de vida para o pobre cansado e desanimado faz parte do rosto desse Deus que é único, mas que para cada um dos pobres assume uma face diferente, capaz de gerar vida” (S. Gallazzi).
Dentro de nossos povos esconde-se um potencial inexpresso de vida e cuidado: é só ver com que solidariedade e prontidão uma família pobre ajuda a outra em criar os filhos, adotar ou receber uma criança, partilhar o pão. Essas mesmas famílias podem amadurecer um sentimento análogo de cuidado para a vida como um todo, a partir de novas pequenas práticas como: disciplina e autocontrole na hora de jogar o lixo (diminuindo-o ou diferenciando-o); amor para as árvores e respeito para com elas; maior cuidado para a beleza de nossos bairros, casas, ambientes...

3. A criatividade:
As vítimas são sempre locais, portanto as respostas devem nascer delas. Trata-se dessas pequenas práticas alternativas que já acenamos: os pobres têm muita criatividade para ganhar seu sustento, podem aplicar a mesma criatividade para tornar a existência de todos realmente sustentável. Nisso a educação de base tem um potencial enorme e já demonstrou que pode transformar a sociedade.Essa criatividade pessoal, depois, deve transformar-se em criatividade política: hoje pode-se investir em microcrédito, projetos de geração de renda, agroecologia e agricultura familiar, projetos de troca de bens entre campo e cidade...


Estamos no princípio de uma nova criação, se quisermos. Depende de nós, como bem salienta Ivone Gebara:
A terra está sem forma e a escuridão a encobre... Estamos no princípio. A desordem e a violência imperam e não se conhece mais os caminhos da terra fértil, das águas limpas, do cantar dos pássaros coloridos, das estrelas brilhando no firmamento, da luz envolvente do sol, do ameno e prateado luar, do sorriso satisfeito dos humanos. Estamos no princípio, no princípio caótico de tudo, no princípio/fim do ‘eterno hoje’ de toda a criação. Estamos no princípio hoje, estamos hoje no princípio!”

giovedì 18 settembre 2008

Todos têm direito a trabalhar e viver


(uma reflexão a partir do Evangelho de Matheus 20)

“Sexta-feira um trabalhador chegou no Centro de Defesa. Tinha um corte largo que atravessava seu rosto. Disse que foi pedir seu salário ao fazendeiro, mas recebeu só ameaças e uma facada”

“O meu amigo finalmente ‘fichou’ na siderúrgica. Mas todo dia que passa é um alívio por não ter acidentes: trabalhando por cima das grades, naquele calor, é muito fácil cair e quebrar um braço ou uma perna. Lá dentro a gente é como peças de uma engrenagem, como muitos pedacinhos de gusa descartáveis...”

“Lá no interior o povo está arrendando terra demais. É para os grandes produtores. Mas os pequenos depois ficam com nada, só a pinga na vila... Alguns já dizem que moramos nas ‘favelas rurais’...”

O evangelho desse domingo é atualíssimo!
Por que estais aí desocupados?” É uma frase só, mas inspirou toda uma Campanha da Fraternidade, com o título “Sem trabalho porquê?”. Nesse mês que vai fechar a propaganda política, são essas as perguntas para se fazer aos candidatos, e não uma esmola para sobreviver um dia a mais!
Eu vos pagarei o que é justo”. Mas o que é justiça? É somente dar a cada um a justa compensação pelo que fez? Não: a justiça de Deus reza que todos têm o direito a trabalhar e viver.
Portanto justiça é proporcionar a cada um as condições e os meios (o trabalho) para viver dignamente. É dever do Estado garantir o trabalho.
E a propriedade de cada um vale só se tiver uma sua “função social”: é permitida a propriedade privada somente se usada para o proveito da comunidade! Isso está na Doutrina Social da Igreja, mas também na Constituição Federal (cap. 5, inciso XXIII). A propriedade privada não é um direito incondicional e absoluto.
Tu os igualastes a nós”. Justiça é feita: finalmente o trabalhador é igualado em dignidade ao dono da terra. Os últimos são os primeiros a poder falar o que pensam e esperam. Com Jesus, hoje podemos denunciar: o trabalho escravo é pecado social! A indústria de mineração no corredor de Carajás e nas outras regiões do País é um estupro de nossa terra-mãe!

A parábola diz que o patrão sai continuamente de casa. Preocupa-se para com os trabalhadores, pára na praça, dialoga com eles.
Recentemente, os patrões da terra da área tocantina ‘saíram de casa’ também. Dessa vez, porém, foi para levantar a voz e voltar a defender seus direitos: numa “Carta Aberta” fizeram requerimento oficial à União para que nossa região saia da Amazônia Legal, o teto máximo para desmatamento e produção agrícula passe de 20% a 65% e, enfim, seja permitido reflorestar com... eucaliptos (tipicamente brasileiros!).
Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence?”. Na parábola essas palavras estão na boca de Deus; hoje parece que os grandes donos da terra queiram tomar o lugar de Deus.
Mas Ele vai pedir conta disso...



giovedì 21 agosto 2008

Dois cachorros de caça...


Toda manhã, quando levanto e rezo, é como se soltasse dois cachorros para a caça: “Já!”
Um deverá correr atrás das pessoas, perseguir os sonhos e a luta do povo, acompanhar seus passos, percorrer quilómetros de caminhada e histórias.
O outro deverá correr dentro de mim, abrir espaços de acolhida, fazer-me crescer na paciência, no respeito, no amor. Buscar tudo o que sou e ainda não consegui viver, mostrar-me quanto longe posso avançar no caminho interior.
A Palavra de Deus é o rasto a seguir, abre caminho em ambas essas direções.

À noite, cansados, esses dois cachorros voltam para casa. Muitas vezes perdidos, com a impressão de ter avançado pouco.
Quase sempre, confesso, o que corria por fora volta com muitas histórias para contar, dezenas de encontros para partilhar. E o outro percebe que correu pouco, pois tinha asperidades bem maiores a enfrentar: muitas vezes fica parado, bloqueado sempre pelos mesmos obstáculos
Mas chamár os dois cachorrinhos de volta em casa, toda noite a descansar, me ajuda, me unifica, me provoca a treiná-los cada vez melhor.

Hoje celebramos o Corpo de Cristo. Meus dois cachorros devem conhecê-lo bem: um procura todas as pegadas que Jesus deixou no meio do povo. O outro busca encontrá-lo escondido até em meu pobre corpo, que pouco se parece com o corpo de Cristo, mas talvez mantenha algumas gotas de perfume dele.

Busco a profecia e a sabedoria


O tempo passa, nessas terras brasileiras carregadas de desafios. Alternam-se muitas perguntas, mas uma fica na base de tudo: onde está Deus?
O sentido da vida é estar onde Deus está e viver conforme sua paixão.
Dou-me conta que há duas maneiras de fazer isso, ambas muito importantes. Para nos entender, vamos chamá-las 'sabedoria' e 'profecia', pois também na Bíblia nossos grandes mestres de vida assumiram essas duas dimensões.

A profecia, hoje aqui, nos obriga a cada dia a lutar contra grandes injustiças, desproporcionais às nossas forças. Nos encontramos no coração de um sistema que suga recursos das entranhas da terra e do povo.
Todo dia passa em nossa frente, 12 vezes, dia e noite, o trem da segunda maior mineradora do mundo. Carregado de ferro e outros minérios, é um saque cotidiano e silencioso que o povo já se acostumou a agüentar. Ao seu redor, cresceu um ciclo produtivo extremamente perigoso para as pessoas e o meio-ambiente: siderúrgicas, carvoarias, poluição, monoculturas de eucalipto, pessoas sem-terra e terra sem-vida...
O latifundio aqui também é o primeiro responsável pela morte da floresta e pela falência da pequena agricultura familiar.
A profecia pede para assumir uma posição firme, com competência e seriedade. Por isso nasceu em final de 2007 uma grande campanha, “Justiça nos Trilhos”, para exigir uma repartição mais justa dos enormes lucros da companhia minerária Vale e um retorno efetivo para nosso território e nosso povo.
Essa campanha participará ao Fórum Social Mundial, onde encontrará muitos parceiros. Até lá, estamos construindo várias alianças com entidades e pessoas, ao longo do País inteiro e com interessantes contatos internacionais.
Esse tipo de atividade nos obriga a agir muitas vezes em níveis distantes do nosso povo, viajar, encontrar outros grupos e municípios, escrever, documentar e estudar, buscar contatos longe daqui, para fazer conhecer essa realidade até agora escondida e silenciosa.

Mas cresce a saudade das pequenas relações cotidianas, da visita às pessoas: tomar um cafezinho juntos, em suas casas simples, saber do que está acontecendo às nossas famílias no bairro, celebrar a vida todas as vezes que nos reunimos em nome de Deus...
É a sabedoria popular, que precisamos beber em pequenos goles para entrar de mansinho no coração desse povo, crescer como parte deles, entendê-los e entendermo-nos. Esse é um povo resistente, que não perde a esperança apesar de todas as dificuldades que atravessa. São artistas da vida, capazes de celebrar e festejar com uma criatividade que se renova no profundo de cada um.
Ficar no meio deles nos ensina a falar a mesma língua, entender que tipo de igreja pode realmente libertá-los e fazê-los crescer, contemplar Deu escondido nos pequenos gestos da comunidade.E tudo o que realizaremos não será simplesmente uma iniciativa nossa, mas sim uma escolha contruida juntos, comendo arroz e feijão da mesma panela!

Não é fácil manter esse equilíbrio entre a profecia e a sabedoria; olhando para Jesus de Nazaré, admiro quanto conseguiu fazer disso uma síntese de vida. Decidido, líder, corajoso para denunciar, tinha clareza quanto ao objetivo de sua missão: libertar os oprimidos, devolver a visão a quem não consegue mais interpretar a vida, quebrar as correntes de todo tipo de escravidão.

Mas ao mesmo tempo era um homem que sabia parar para ficar com as pessoas. Conhecia os ditados, as expressões e os costumes populares, festejava junto com eles, dialogava e fazia muitas perguntas para entender, sintonizar-se com o pensamento e a esperança do povo.
E ainda admirava e silêncio a elegância de um lírio do campo ou a pequenez de uma semente de mostarda...

Esse equilíbrio é síntese amadurecida da vida, é um desafio para cada um de nós, nossas famílias, nosso ritmo de vida: decididos e convencidos, precisamos saber bem qual a direção para seguir. Os que nos seguem (filhos, amigos, companheiros de caminhada) devem perceber nossa convicção, a clareza e obstinação de quem busca o sonho de Deus!
Ao mesmo tempo, porém, quanto é importante dedicar tempo à escuta de cada um, saber parar, impregnar-se da vida dos outros, diminuir o ritmo para caminhar todos juntos...

O Espírito que animou o Nazareno nos ajudará também para viver assim, com profecia e sabedoria!